quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

De longe

Quem olhasse de longe não entenderia.
Ela estava agachada sobre a mesa do restaurante. Segurava uma faca com a mão esquerda e encostava na ponta o nariz. Na direita estava um garfo com as pontas tocando seu queixo.
Definitivamente, quem olhasse de longe não entenderia.
No entanto, cinco minutos antes, o ambiente era de paz e tranquilidade. Havia um casal sentado na mesa ao centro. Conversavam. Tudo aparentemente normal.
Estava ali havia meia hora. Sentado. Esperando. Movia lentamente a faca na mesa. Vez em quando, passava pela borda do prato. Mas isso não significava absolutamente nada. Ou não deveria.
Quando ela chegou.
Atrasada, ele disse.
Ela não respondeu. Beijou e começou a falar. Perguntou sobre o restaurante. Ele respondeu. Mas ela não prestou atenção. Tinha outras coisas pra falar. Mais importantes, ele imaginou.
Desistiu de ouvir. Pensou no quanto aquele atraso era sintomático. Pensou na vida. Pensou que pensar na vida era vago, coisa pra dizer quando não se está pensando em nada ou não tem nada a dizer ou pra evitar outras perguntas a respeito do que se está pensando. Pensou se era possível a vida se atrasar.
Quando se deu conta, ela ainda falava.
Geleia de damasco o que acha?, perguntou.
Não sabia o que responder. Se aquilo fazia de algum assunto ou se tinha a ver com o pedido. Sem saída, fez o que qualquer um faria: concordou com a cabeça. Ela sorriu. E continuou falando.
Ele segurou a faca. Não, não ia matar ninguém. Ainda que a ideia pudesse ser reaproveitada no momento oportuno. Riu consigo, rosto sem expressão. Com ela, desenhava nuvens imaginárias na toalha. A faca, não a ideia. Vez em quando, tocava com ela na borda do prato. Foi quando começou a olhar com atenção para o casal.
Pra isso, é fundamental usar aqueles cristais, ela disse.
Cristais? Copos ou hippies?, ele se perguntou. Não sabia o que, mas precisava responder. Responder rápido. Vacilava.
Ela sorriu.
Me acha boba né?
Não, que isso.
Achava. Claro que achava. Que papo era aquele de cristais? E geleia? Pensou num filme da adolescência. E riu de novo. Pra dentro. De novo. Ou consigo, como acharia bonito. Achava bonito falar consigo. E nunca tinha a oportunidade. Estava, afinal, rindo consigo.
Ela riu. Não dele. Ou com ele. Era um riso débil. Meio frouxo. Ele nem percebeu.
Ela continuou a falar.
Mas ele não ouviu. Estava olhando pro casal. Eles estavam numa mesa ao centro. A luz incidia sobre eles de uma maneira curiosa. Não sabia explicar. O casal se tocava carinhosamente. Eram jovens. Pareciam estar juntos há pouco. Ele imaginou, sem nenhum fundamento real. Só especulação. Pensou que tinham cara de estudantes. De humanas, provavelmente.
E ela falava.
Quem olhasse de longe, não entenderia, pensou. Tantas pessoas ali. Tão parecidas. E tão diferentes.
Ele não ouvia.
Mais nada.
Olhava pro casal. Tentava ouvir o que eles falavam. Mas não falavam. Nada. Não, não deviam ser de humanas. Talvez por isso se entendessem.
O telefone dela tocou. Era tosco. O toque.
Ela atendeu.
Ele continuou no casal. Agradeceu silenciosamente pela ligação. Ela encontrara outra pessoa pra conversar. Ou pra falar. E falava.
Tentava entender o casal. E fazia anotações invisíveis na toalha com a ponta da faca. Quando o telefone do rapaz na outra mesa tocou. O rosto da menina se fechou.
Instantaneamente.
A menina se levantou, subiu na mesa e agachou-se sobre ela. Com a mão esquerda, segurou a faca e tocou a ponta do nariz. Com a direita, encostou o garfo no queixo.
O menino não conseguiu atender. Ficou olhando. Estático.
Abandonou o casal e desviou o olhar de volta pra sua mesa.
Ela falava ao telefone. Ainda. Sobre geleias e cristais. Ele sentiu vontade de subir na mesa. Quem sabe se agachar e, garfo e faca a mão, compor alguma cena surreal.

Quem olhasse de longe não entenderia. Nem de perto.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Rede Social do BdE e Convidados

O Bar do Escritor agora tem sua própria Rede Social:
www.bardoescritor.com.br/site/
Remodelando sua origem no extinto Orkut, o novo FÓRUM do BdE segue a intenção precípua de ser um espaço plural e sem censura para o diálogo entre escritores, sempre aberto às críticas, em que se busca a maestria na arte das letras com foco na autenticidade e liberdade de pensamento.


SOBRE OS CONVIDADOS DE 2015
 

O Blog do BAR DO ESCRITOR recepciona autores nos dias 10, 20 e 30 de cada mês - além dos 32 escritores residentes. Em 2015 os convidados serão os 3 escritores da Rede Social do BdE que, no mês anterior, forem os MAIS LIDOS, os MAIS GOSTADOS e os MENOS GOSTADOS. Sim, divulgaremos os menos gostados do mês, exatamente para exaltar a característica principal do BdE - a crítica sincera - e também para incentivar a compreensão dos motivos que fazem um texto ser admirado... ou não.
Acesse. Participe. Seja um "barnasiano".

 www.bardoescritor.com.br/site/

O baú


Ela foi até o quartinho dos fundos; Em um canto escuro e empoeirado, encontrou o velho baú. Levou-o até a sala e começou a redescobrir tudo que estava guardado há anos.

Tinha ali um sorriso sincero, que já estava um pouco amarelado pela falta de uso. Havia também uma porção de otimismos infantis, que - apesar de serem infantis - eram pelo menos dez vezes maiores do que os adultos. Também brincou um pouco com os sonhos, fantasias e ilusões. Encontrou até alguns medos, mas algumas peças tinham sumido com o tempo.

O velho baú rendeu bons momentos, mas, ao final da tarde, ela recolheu tudo do chão, fechou o baú e colocou-o de volta naquele canto escuro. O sorriso, amarelado, acabou esquecido - debaixo do tapete.



domingo, 21 de dezembro de 2014

Mariposas


 

De asas transparentes

Se espalham luzes em prata...

Refração lunar

 
 
Imagem: http://planetatierra.loquenosabias.com/la-sorprendente-mariposa-transparente

sábado, 20 de dezembro de 2014

Convidado Vinicius Bandeira



honra, e ele?





Fazer sexo com um estranho para se vingar do marido que a estava traindo com uma mulher mais nova e mais bonita. As dores foram-se somando evolutivamente. Primeiro, a dor da desconfiança, que não demorou a trazer a dor da descoberta, que se transformaria em uma dor do cotidiano. Ir para cama com um estranho seria o remédio? O marido não se importaria: passava dias na casa da amante. Levou-a para trabalhar com ele. Quando a mulher telefonava para choramingar suas dores, era a amante quem atendia. Pela linha telefônica, os xingamentos se digladiavam. A pressão da mulher subia. Um forte calor a tomava. Seria o calor da menopausa? A amante se divertia. Ria, provocava... Quanto tudo acabava, a mulher deitava-se no sofá, acometida de taquicardia, uma terrível dor no peito, que descia para as pernas. As mãos formigavam. A respiração vacilante. Mamãe, você está bem? Estou filhinha, a mamãe está ótima. Vá brincar com o seu irmão. Vá! Tá bem, mamãe! O que fazer com essa vagabunda? Tenho que matá-la. Quem sabe ele não se sentisse culpado e até me arranjasse um álibi? Ledo engano. E se eu me suicidar? Teria, enfim, o caminho totalmente livre. Traria a moça para dentro de casa, casaria com ela e até faria as crianças a chamarem de mãe. Meus filhos chamando aquele ser diabólico de mãe. Desistiu de matar e de morrer. Minha inimiga viverá para me assistir vencer. Tomou um banho. Colocou aquele vestido que um dia comprara para seduzi-lo, mas acabou desistindo de usá-lo após descobrir a identidade da amante. Mamãe, você vai sair? Vou filhinha, mamãe vai fazer umas compras. Posso ir com você? Hoje, não, amanhã eu te levo pra passear. Ah, mãe, eu não posso sair com você e o meu pai que nunca aparece! Vá brincar com seu irmão, quando eu voltar a gente conversa. Na rua, caçar. Sentar à mesa de um bar é um recurso que parece ser proveitoso. Daí é só olhar e se deixar ser olhada. No fim do expediente, os bares costumam ser mais frequentados. A primeira vez dá uma angústia, um frio na barriga. Medo, esta é a palavra mais certa. Voltar para os filhos, é o que há de mais sensato e honrado. Honra, e ele? Àquela hora, certamente estaria com ela. Eu também tenho o direito. Quero um mais novo. É só consegui-lo e irei desfilar com ele na frente dos dois. Passou a sair todas as tardes. Mudava de bar. Entrava nas lojas. Sempre alerta. A caça podia aparecer a qualquer momento. Arranjou uma moça para cuidar dos filhos. Um dia o namorado foi buscá-la. Ela o viu no portão. Entre, não fique aí fora. Espere aqui dentro. Começou a preparar o rapaz para um concurso de soldado da Polícia Militar. Mandava a moça levar as crianças para passear. O rapaz não resistiu aos encantos da cinquentona, que tinha mais tempo de cama do que ele de vida.



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Vinicius Bandeira


sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Aos mentirosos, com carinho

Essa é em homenagem a todos os mentirosos e contadores de histórias mundo afora... Afinal, o que seria de nós sem eles?
Quando adolescente, em todos os verões eu encontrava este amigo, o Fabiano. Ele vinha do Paraná passar as férias em Santa Catarina. Gente boa esse Fabiano. Mas tinha uma fama de ser mentiroso... Pois, certa noite ocorreu uma queda de energia no condomínio onde passávamos as férias; exatamente nesta noite, apresentei o Fabiano para o Paulinho, outro amigo meu. Sem luz, o negócio foi ficar conversando mesmo, assim, entre amigos. Quando o Fabiano começou a falar em armas, o Paulinho já ficou todo interessado na história. Logo em seguida, o Fabiano disse que numa ‘das fazendas’ de seu pai alguns posseiros haviam tentado invadir a propriedade deles e que seu velho precisou ir com munição pesada, junto de alguns capatazes, só para dar um pequeno susto nos invasores. Mal o Fabiano havia acabado de falar a última palavra de sua estória, o Paulinho já sentenciou logo em seguida:

- Meu pai tá respondendo processo criminal.
- Por quê? – perguntou de imediato o Fabiano.
- Há uns meses atrás, um ladrão tentou entrar em nossa casa. Meu pai acordou com o barulho, pegou a calibre doze que ele guarda no quarto dele e deu dois tiros no ladrão.
- Nossa! – os olhos do Fabiano brilharam com a dramaticidade que Paulinho dava à história, para minha surpresa também, que até então não sabia de nada.

No fim da noite, com a luz já reestabelecida, estávamos somente eu e o Paulinho, conversando. Aí falei:

- Cara, como você não me contou esta história do teu velho antes?
Nessa hora, Paulinho me olhou com uma cara de sem-vergonha deslavado e disse:
- Eu não podia perder na mentira. A minha tinha que ser maior que a dele, pô!


Essa outra aconteceu alguns anos depois. Havia outro Paulinho, também meu amigo. Pois a característica maior dele era, exatamente, inventar histórias. Para as meninas que ele costumava conquistar em festas, Paulinho inventava coisas das mais absurdas. Eu, ao lado dele, não sabia onde enfiar a cara quando ele começava a mentir. Até sotaque de carioca ele imitava, só para dizer que era do Rio.
Pois naquele dezembro aconteceu a formatura do meu irmão e, além do Paulinho, também estaria na festa o Pedrinho, um primo nosso famoso na família por suas mentiras. Mas o lance do Pedrinho era diferente: ele não inventava histórias, e sim aumentava tudo uma barbaridade. Se ele tinha vinte amigos, eram duzentos. Se sua casa tinha oito peças, rapidinho eram oitenta. E assim por diante...
Acontece que naquela noite de formatura, entre tantos amigos e familiares reunidos, não tive muito tempo de ficar ao lado nem de um, nem de outro. Mas percebi que ambos passaram conversando um bom tempo juntos. Ao final do festerê, já de manhã cedo, voltei para o meu apartamento ao lado do meu primo, Pedrinho, que estava se hospedando lá em casa devido à formatura. Aí não resisti e perguntei:

- E aí Pedrinho, vi você conversando com o Paulinho um tempão na festa. Me parece que vocês se entrosaram muito bem. O que você achou dele?
- Nossa... – Pedrinho fez uma cara de nojo, para a minha surpresa.
- O quê foi?
- Nossa, detestei esse cara, nada a ver ele.
- Como assim? Vocês estavam conversando numa boa...
- Não, não dava para aguentar aquele cara. Não gostei dele. De jeito nenhum.
- Mas por que, Pedrinho?

Enquanto Pedrinho não conseguia se justificar direito, pensei cá com meus botões: a mentira do Paulinho deve ter sido maior que a do Pedrinho. Só podia ser. E isso, caros amigos, é um verdadeiro ultraje para qualquer mentiroso que se preze...

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Pequeno Conto Nada Natalino

Foi contratado para ser o Papai Noel de uma família classe média. Animaria a criançada surgindo da chaminé, gritando “ho ho ho” e distribuindo os presentes, em geral lembrancinhas, bem ao espírito mesquinho dos natais de hoje em dia. Como estava na de pior, aceitou.

Na véspera de natal, roupa vermelha, barba postiça e saco nas costas, lá se foi ele em direção a casa combinada. Mas anotou o endereço errado e desceu pela chaminé da casa ao lado. Estava  vazia. Papai Noel foi seduzido pelos eletrodomésticos que decoravam a casa. Dariam uns bons tostões na mão de um receptador que ele conhecia. Esvaziou o saco de presentes, encheu-os com o que pode carregar. Teria um natal muito mais sortido do que o último. Não esqueceu de levar um ursinho de pelúcia para a filha e um carro de controle remoto para o moleque, seu xodó. Corroído pelo remorso, mas vencido pela tentação que o consumismo da data impunha, deixou os presentes para os que estavam ausentes, acompanhados por um bilhete. “Papai Noel esteve aqui. Feliz Natal!”


As crianças da casa ao lado deixaram de acreditar em Papai Noel,  que os decepcionou, esquecendo-se deles que foram bonzinhos durante todo o ano. A menorzinha jurou que tinha visto o Bom Velhinho no telhado dos vizinhos. Papai Noel recebeu nota zero em comportamento naquele natal.

Aparecimento

hoje eu te apareço
como um sol que foge
das horas
e aparece de surpresa
no meio da noite.

como gotas de chuva
que caem de um céu azul
isento de nuvens
cinzentas ou brancas,
como neblina estranha
que invade o Recife
e engole os seus
arranha-céus.

e enfim te apareço
como assaltante
ao assaltado,
ou o semblante
surpreso
ao ver o amante
não anunciado.

André Espínola

Poesia presente no Ebook "Apenas Cinco Minutos")

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Quero ter o antidoto, um lenitivo pra toda essa dor
que o abandono proporciona

Mas não tenho escapatória você inebriou eternamente
meu coração

Quero que você esteja aqui
pra mim satisfazer os meus desejos mais voláteis
e poder contar os meus segredos, os meus viveres e anseios

Quero clorar toda sua estupidez
em falta de clemencia e compreensão
obliterar e interditar toda sua ininteligência e inconsciência

Afinal de contas, eu te perdoo e tenho compaixão e procuro compreender a ti
sendo franco coisas que você não fez quando foi a minha vez numa pior ou parecida... é passado!





A
Mais
Outra
Remessa
-
Eu sei do céu que
Ultrapassa
-
Tamanhos
Existentes
-
Além do que o
Mundo
Ostenta




Eu quero um mundo diferente
em que toda gente
seja felizmente
pacificamente cooperativa
sensível e consciente
e que junto vivam em um mundo inefável

Incomparável eu faço todo possível
quero te salvar, ser conseguente
em um mergulho nas profundezas
da imensidão do'mar bonançoso
te tirar desse mundo revolto, vazio e indiferente
virado em conflito em sua mente pensante


Até lá, enquanto isso agora aqui
só me resta a esperança em demasia
a espera calma e inquietante espera
da estupidez da tua mente fenecer
deiscente e florescer na redenção
perdão, paz, jubilo, compaixão a si mesma
sem desdém a outrem

Eu, em minha loucura estou bem
loucura consciente, vivaz, leal e remediável
até certo ponto,quando o alvorecer
de um novo estado tomar forma

naquele instante tal tão esperado
voar pra fora do mar feito peixe voador
com o mar nas garras dos céus
voar ao léu, bastar.



terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Síncope

e no começo acabou
havia sangue
de abate e corte
de guerra e mênstruo
de parto e morte.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

A BRECHA


Tanto tempo sem escrever
Tudo por fazer
Me preocupa a falta criativa
Ou seria a sobra com falta de tentativa

Tanto trabalho à prescrever
Me subestima sua tentativa
Ou seria a falta do que fazer
Para fazer faltar minha sobra criativa

Soberba militância a sua
Só não arquitetava o que acontecia
Enquanto pairava no ar a falta criativa
A cabeça cheia de sobras esperava a tentativa

Finalmente me deu a brecha
Agora pairam no papel as sobras criativas
Falhou sua tentativa
Findou, por não arquitetar o que acontecia

Não volto plenamente, pois há trabalho à prescrever
Quase tudo por fazer
Porém, já não me preocupa a falta criativa
Sei que são sobras esperando a tentativa
Dê brecha para você vê

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Convidado Victor Canti



Boemia


A noite é de nostalgia e glória
As cinzas caem
E os copos (corpos) se esgotam
Ainda precisamos do desconhecido...


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terça-feira, 9 de dezembro de 2014

ANDO POR AÍ


Tudo na merda
Pensamentos negativos
Nada de bom
Desagradável
Perspectivas erradas
Delírios efusivos
Desarmonia
Tudo que eu não quero eu tenho
Tudo que eu não gosto pinta
E vai piorando
Depois da erva do diabo, fode!
Sou uma minhoca trabalhando no subsolo de uma delegacia
A vida não sorri aqui
Sem janelas
Sem sol
Dias passam sem paisagem
Vou carregando o peso dos outros
A prisão do trabalhador é ganhar
Expectativas alheias às necessidades humanas
A obra da existência é o desconhecimento
Somos cadáveres insepultos de olhos fechados
Bebidas, cigarros e calmantes são os subterfúgios aceitos.
Ando por aí


Pablo Treuffar
Licença Creative Commons
Based on a work at www.pablotreuffar.com
A VERDADE É QUE EU MINTO

A VERDADE É QUE EU MINTO

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

21 gramas



"Há momentos, e você chega a esses momentos, em que de repente o tempo pára e acontece a eternidade."
Fiódor Dostoiévski


21 gramas

ando enfastiada de eternidades
rosas fenecem
numas tardes escuras

morri
desabei
 sumi

mas a gente continua!

 mandalas
cânticos
velas

pronto!

 renasce
ressuscita
sem peso
e cem dramas
 minha alma é magra,

 pesa 21 gramas!

um médium extra orbital
contou que flutua
viaja pra outras órbitas
vagando num azul abissal

dane-se o médium!

se nada disso for verdade
se meus 21 gramas nunca saírem do chão
 que fique registrado: foram  muito bem usados

 poesia, amore!

 21 gramas de amor apreendido
e outros pesos pesados
ela  me salva
louca e sã
resgatada e perdida
traduzida e confusa
deusa e demônio

 ela, a poesia, é o traço!

com ele é que faço as marcas
 perfume perene de pele inexistente
beijo invisível, murmurado em versos toscos

ele trança essa teia
que me pensa e me pesa
ele entende e conversa com essas almas

distraídas
destruídas
destronadas

ele é bênção maldição e prece!