domingo, 22 de dezembro de 2013

Insatisfeita


– Você é a melhor coisa que já aconteceu na minha vida!

– Está me chamando de coisa?

sábado, 21 de dezembro de 2013


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Quanto de mim são lágrimas?

Quanto de mim sorria?

Quanto de tudo de mim

Jogado pelos cantos

Qualquer sorte bastaria?

(ou moderno aspirador hidráulico modelo luxo XW 6,02 x 10²³ se encheria?)

 
Frações..., inteiras porções

Em potes de fracassos.

Uma poção diluída

E, da prateleira me fitam

Dois olhos extremamente cansados.


O que restará ao fim,

Se algo ainda vibra?

Rarefeita sombra,

Reflexo da luz

Que insiste em dizer vida.
 
 
 
Foto de Angela Gomes (Espetáculo de Natal na Praça Santos Andrade, Curitiba, Dez 2013) 

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Convidado Cirineu Pereira



Ben


"...tudo aquilo que você esconde, se for errado, continuará crescendo. Aquilo que você expõe, se for errado, desaparece, evapora ao sol, e se for correto será nutrido." (Osho)


Meu nome de batismo é Benedito, mas soará melhor para todos, inclusive para mim, se você me chamar de Ben. Lembro-me com pesar os primeiros anos escolares, quando os professores insistiam em me chamar de Benedito, as outras crianças riam e faziam chacota com o meu nome. Eu era um garoto sem amigos, introvertido e triste.
Um dia isso tudo mudou, um dia eu mudei a coisa toda. Quando findei os estudos primários, minha mãe me matriculou em outro colégio, um colégio grande e privado. Então resolvi sepultar o Benedito e dar à luz ao Ben, a mim. Foi logo no início do ano letivo, por ocasião do primeiro dia de aula, a professora pediu aos alunos todos para que, um a um, se apresentassem aos demais. Eu já havia planejado o discurso e, quando chegou a minha vez, não titubeei:
- Caros colegas, cara professora, sou Ben, tenho dez anos e moro no Leblon. Por bem da verdade, meu nome de batismo é Benedito Munhoz Neto em homenagem evidente ao meu avô paterno, porém agradeceria se os colegas e a senhora professora me chamassem simplesmente de Ben.
As outras crianças ficaram impressionadas com a minha desenvoltura ao pronunciar o discurso que Lucinha, minha confidente e amada irmã mais velha escrevera para mim, mas não ficaram mais aturdidos do que a professora de língua portuguesa:
- Muito bem, digo, muito bom, Ben. Vejo que você se expressa com facilidade, adivinho um excelente aluno da minha disciplina, tenho certeza que a razão disso é a leitura. Você provavelmente lê bastante e certamente escreverá excelentes redações. Estou muito satisfeita com a forma como você se apresentou e lhe adianto que todos acataremos o seu pedido.
Agradeci e sentei-me orgulhoso, mas de imediato um pensamento me aterrorizou, a minha máscara de orador, até então bela, tornara-se subitamente pesada e de difícil sustentação; eu não tinha o hábito da leitura e nem sabia escrever as tais excelentes redações. Outra vez invoquei a ajuda de Lucinha, a qual me apresentou ao fantástico mundo dos livros e se prestou a revisar com antecedência as minhas redações e a me dar reforços de gramática. Lucinha ensinou-me até a escrever poemas inocentes e românticos, despidos de qualquer valor literário, mas que tiveram grande préstimo por ocasião das minhas primeiras investidas amorosas.
Por anos Lucinha deu suporte às minhas máscaras, às minhas mentiras e eu a idolatrei por isso, porém mais de vinte anos depois a coisa toda se tornou insustentável; máscara de marido fiel, máscara de pai dedicado, máscara de profissional ético e politicamente correto, máscara de amigo leal, máscara de filho bem sucedido, máscara disso, máscara daquilo e a insuportável tensão gerada pela alternância dessas máscaras todas. A necessidade constante de saber quando despir uma, quando vestir a outra, sem descanso, sem direito à equívocos.
Eu queria mesmo era despir-me de todas as máscaras, mas mesmo quando estou nu sobre você, Maria Helena, e encenamos esse ato falho que chamamos de amor, visto uma máscara e represento um papel, pior, sei que você também usa uma máscara e encarna um personagem. Não lembro mais do seu rosto sem elas e acho que nunca vi o meu. Por isso essa carta, por isso estou indo embora, deixando vocês para trás, vocês e todas as minhas máscaras. Vou para um lugar qualquer, onde ninguém me conheça e me apresentarei com um discurso diferente, mais simples, mais honesto e sucinto: "Olá, meu nome é Benedito e ainda estou descobrindo quem sou."



---



Cirineu Pereira
http://www.recantodasletras.com.br/autor_textos.php?id=129687

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Papo Cabeça

Fim-de-ano se aproximando, o recesso nas aulas começa, alunos entram em férias... e os professores continuam mais uns dias em seus trabalhos, fazendo conselhos de classe, reuniões, preparando-se para o novo ano que se anuncia...
Esta história, por exemplo, aconteceu num momento em que nenhum professor estava fazendo absolutamente nada, mas apenas aguardando o início oficial das férias.
Estavam numa sala de aula vazia Carla, Mirela e Josué. Três professores que se davam muito bem no ambiente escolar, que tinham uma bela e recíproca afinidade. Josué queria muito que suas colegas lessem as histórias que ele vinha publicando em um blog nacional, para saber da opinião das colegas. Foi mais ou menos assim que o papo se iniciou:
JOSUÉ: Meninas, vocês lembram do blog que eu disse que comecei a escrever, no início do semestre?
CARLA: Ahãm... acho que lembro! (Carla responde enquanto mexe em seu smartphone)
MIRELA: Ah sim, você comentou alguma coisa...
JOSUÉ: Pois então minhas histórias estão começando a bombar, uma galera já leu...
MIRELA: Ah, aproveitando para perguntar, tem histórias infantis no blog?
JOSUÉ: Não, é só para adultos...
MIRELA: Ai, que pena. A Lívia, minha filhinha, está querendo começar a ler, vocês acreditam?
CARLA: O quê? (Sem desviar o olhar do smartphone)
MIRELA: A Lívia, já está começando a ler! Com três aninhos... Quer dizer, ela meio que adivinha as coisas, mais por intuição... mas como ela é inteligente, não?
JOSUÉ: Legal Mirela. Mas como eu ia dizendo...
CARLA: Nossa, amiga, que legal! (neste momento, Carla desvia por cerca de 5 segundos o seu olhar do smartphone)... ah, olha aqui no meu celular o que eu achei para ela, um vídeo bem bacana no Youtube com criancinhas usando fantasias de bichinhos (o olhar atento de Carla mira o smartphone novamente, Mirela vai ao seu lado e começa a olhar também).
JOSUÉ: Vocês já leram o blog alguma vez, meninas?
MIRELA: Ai, que máximo! Esse mesmo vídeo foi passado no encerramento da escolinha da Lívia! Como eu faço para baixar, Carla?
CARLA: Eu te mando o link por e-mail, amiga. Não se preocupa, não.
MIRELA: A propósito, tem uma loja aqui no centro especializada em fantasias infantis, vocês já viram?
JOSUÉ: Ainda não.
CARLA: O quê? (olhando para a tela do smartphone)
MIRELA: Uma loja de fantasias infantis. Quero ver se acho estas mesmas fantasias deste vídeo, a Lívia ia ficar uma graça vestida de tartaruguinha... e a de ursinho, não é uma graça?
CARLA: Uiiii... que nojo!
MIRELA: O quê? As fantasias?
CARLA: Ãh? Ah, não, não. Olha este vídeo que eu recebi no What’s App, que nojo... o cara tá... não acredito... não pode ser verdade!
MIRELA: Deixa eu ver, deixa eu ver (Mirela pega seus óculos na bolsa para ver melhor)
CARLA: Acho que não é fake. Parece real, né?
MIRELA: Puxa vida... será? Isso é um... é o que estou pensando?
CARLA: Vem ver Josué, vem cá!
JOSUÉ: Olhem vocês aí, depois eu assisto. Tá acabando?
MIRELA & CARLA: (ambas concentradas assistem o vídeo por mais 30 segundos, sem dar nenhuma resposta)
CARLA: (ao término do vídeo) O que você falou, Josué?
JOSUÉ: Me manda depois que eu assisto.
MIRELA: Olha agora, Josué! Só pra gente poder ter assunto pra conversar! É muito louco este vídeo! Ai gente, eu espero que a Lívia não assista estas coisas... tão cedo.
JOSUÉ: Todo dia 19 eu publico no...
CARLA: Olha quem tá online!
MIRELA: Quem?
CARLA: O Glodi. Da academia. Me mandou um “curtiu”! (olhar ávido para o smartphone, quase voraz)
MIRELA: Glodi, Glodi.. não tô lembrada dele...
CARLA: O Glodi, instrutor da academia. O troglodita, menina!
MIRELA: Ah não me conta que aquele gostoso é teu contato, não brinca! Qual o apelido dele mesmo?
JOSUÉ: Apelido do apelido.
CARLA: É Glodi. É que apesar de ele ser chamado de troglodita há muito tempo, os mais chegados chamam ele só de Glodi. Ele não curte muito troglodita, na real... Olha as fotos do perfil dele, Mirela, olha isso...
MIRELA: Hum hum... bem interessante... quem me dera o pai da Lívia fosse gostoso assim...
JOSUÉ: Bem meninas, o papo tá bom, mas tenho que ir até a minha sala. Só para reforçar, quando puderem visitem o blog para dar uma lidinha lá. Acho que vocês vão gostar, de verdade.
MIRELA: Ah sim, claro. Se a Lívia deixar, porque ela quer atenção total para ela quando estou em casa, sabe como é...
CARLA: (um rápido olhar para Josué) Hum, sabe que eu quero ler, né... mas é complicado, eu ando tão sem tempo ultimamente. Eu até queria...
MIRELA: Ele tá online! (olhar de empolgação para o smartphone de Carla)
CARLA: Jura? Quero ver! (olhar brilhando para a tela do smartphone)
Josué deixa a sala sem ser notado. Andando pelos corredores da escola, segue pensando em seu blog, mas também no seu livro a ser publicado, e nas leituras interessantíssimas que tem feito ultimamente. Algumas delas, descobertas ao acaso na Internet. Da mesma forma que muitas pessoas leem o que ele, Josué, publica na internet. Assim, ao léu.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Dois Natais

Mais um natal se avizinhando em nossas vidas. Alguns foram ótimos, outros nem tanto, todos, entretanto deixando uma pequenina marca em nossas existências. Época de comprar presentes e, sobretudo de ganhar, ganhar, ganhar! Tá certo, o natal se transformou numa data consumista, onde uma reflexão sobre quem é e quais foram os propósitos do aniversariante enquanto esteve entre nós ficam para segundo plano, contudo, curto o natal e sua atmosfera de solidariedade envolvendo boa parte da raça humana neste dias que antecedem a data. Sociologismos à parte, dois natais marcaram especialmente minhas lembranças do tempo de criança.
O primeiro natal do qual minha já quarentona memória consegue buscar foi também a primeira noite em que eu me lembro de ter passado acordado, coisa audaciosa para quem contava apenas seis ou sete anos de idade. Nesta noite, ganhei de presente um fusca de corrida movido à corda e uma ambulância cujo controle remoto funcionava ligado ao veículo através de um fio. Brinquedos paleozóicos em comparação ao que encontramos atualmente nas lojas e sites especializados. Todavia, o que mais me encantou naquela data, sendo o responsável direto pela minha insônia natalina, foi um livro de capa dura, com dimensões de um volume de enciclopédia, onde passeavam impressas as primeiras histórias em quadrinhos de alguns dos mais famosos personagens de Walt Disney. Varei a madrugada no meu quarto, sem que Morfeu me sequestrasse, sendo cúmplice das aventuras inaugurais do Mickey, Pateta, Tio Patinhas, Peninha, Pato Donald, Gastão, Huginho, Zezinho e Luizinho. Quando a fome me assaltava, ia à ponta dos pés até a sala e servia-me de castanhas, avelãs e frutas sobreviventes da ceia.
Outro natal inesquecível ocorreu por volta dos meus dez anos de idade. Eu queira por demais ganhar uma mesa de futebol de botões. Minha mãe comprou a tal mesa e a escondeu atrás do armário do seu quarto. Desconfiado, passei dias indo sorrateiramente ao esconderijo e, sem que ninguém percebesse, com a ponta dos dedos furava o papel pardo que a embrulhava aquele retângulo ocultado pelo móvel, procurando indícios de que ali houvesse uma mesa. Para o meu desespero, a mesa que minha mãe comprara não era verde e sim na cor marrom do compensado. Picotei o embrulho por dias a fio, como uma cerimônia, uma novena, só obtendo a certeza de que eu ganharia a minha mesa de botões quando avistei o quarto de circulo que demarca a área de escanteio do campo de futebol através de um dos furinhos no papel de minha autoria. Na noite de Véspera do Natal eu fingia nada saber e, próximo à meia-noite, mamãe insistiu para que eu fosse desejar um Feliz Natal a um coleguinha do conjunto residencial onde eu morava. Claro que pelo adiantado da hora não havia amiguinho algum na área do prédio. Quando retornei, estavam todos com cara de que nada sabiam e encostada na parede minha mesa de futebol, com dois times de botões completos. Papai Noel havia passado e deixado um presente para mim, afirmavam os adultos. Não me lembro de haver um dia acreditado no bom velhinho e só m muito tempo depois contei a minha mãe sobre as minhas excursões pré-natalinas atrás do seu armário.

Natais felizes, de uma época mais romântica, que temo estar se perdendo.

Do livro "Pastel de Vento", à venda a AGbooks

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Eu sou assim

Eu sou como qualquer um;
e como qualquer um,
eu só sou mais um.

Eu sou um louco;
louco de tudo,
louco do mundo,
louco de mim.

Enfim, eu sou assim.


~ poema publicado no blog do autor

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Master latin lover Mastroianni level 9999

- Dê-me um motivo pra te amar, pra ser uma mulher - ela me disse.

 As pessoas precisam constantemente de provas, como na história daquele casal que vivia pelado no mato, fumado e consumindo tudo quanto era planta, numa eterna, eterna trip. Aí, a  mulher, curtindo um barato dos mais violentos, começa a conversar com uma cobra, que disse à ela que as maçãs de um tal pomar abriam as portas da percepção. Então ela come a maçã (que só era maçã na cabeça dela, na verdade eram botões de peiote) e oferece pro cara. Ele nega, entretanto ela diz:
 - Pô, bicho, se tu tens realmente amor por mim nesse astral-sideral-lumilumiscente-fluxicodeiforme, tu deves provar.
 Ele dá uma mordida e eles ficam numa eterna bad, bad trip.
 De repente, um carro cantando pneu ao dobrar a esquina me tira do devaneio. Todo mundo levanta a cabeça, talvez estivessem também lá com seus devaneios.

 - E então, não vai me dizer nada?
 Olhei pra ela, fiz uma cara de Marcello Mastroianni, e lhe disse:

  - Escuta, boneca, estou muito acima deste tipo de preocupação.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Funeral

O reverendo vestiu-se com sua melhor batina e repassou o discurso que iria proferir em mais um funeral. Diferente da monotonia dos sermões de tantas décadas como pastor, esse tinha conteúdo e entusiasmo, vida verdadeira. Fizera uma profunda pesquisa nas Escrituras, escrevera calmamente o texto e o decorara, ensaiando em voz alta suas entonações e pausas. Seria um marco em sua carreira religiosa. Sua esposa realmente merecia tanto empenho. Deixara a vida pondo um ponto final em quarenta anos de casamento em que o dominara totalmente, legando-lhe um papel apenas secundário e apagado. Era o primeiro dia de um novo ciclo e o sol e o céu azul lhe sorriam lá fora. Saiu para cantar alegremente sua melhor elegia de todos os tempos.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Coliseu

Palco da História
e de inúmeros dramas,
foi lá que, um dia,
furtaram-me a câmera.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Sem vocês.... (DBS)

Mais uma vez vem a noite...
Vem o silêncio...
Agita o coração
Saudade que rasga
É preciso suportar mais...
O sono apaga a dor mais uma vez...
E começa tudo de novo
Voltem!!!!

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

O blues que anoitece os homens


Mas você vem

sorrateira
pela porta...

          Você sempre vem...

          revirar a mesa, espalhar
          os discos, tocar fogo
          nos tediosos dias

— aqueles mesmos dias

a que nós loucos chamávamos
                                         úteis...

***

~ poema publicado no blog do autor

Migalhas do Bolo

Acordei na calçada, após uma noite de muita bebida. Nunca me aconteceu de chegar a tal estágio, mas desta vez não houve jeito.
Quando despertei, com uma dor de cabeça monumental, olhei para o lado e percebi que um homem estava me espreitando. Pelos trajes mal-acabados, parecia ser um mendigo. Fitava-me de um jeito desconfiado, acho que percebera que eu não pertencia aquele nicho.
Nunca soube o nome dele. Por isso, vou chamá-lo de Zé.
Depois de alguns minutos me apreciando de maneira detalhada, Zé iniciou uma conversa que tive que escutar, já que não tinha condições de me levantar tão prontamente. Uma conversa que nunca mais esqueci. Uma lição que, após um tempo, passei a ouvir atentamente, assim como o aluno ao professor. E desta maneira, descobri a importância das migalhas do bolo.
Zé:
- Por que você está aqui? Você não parece ser um necessitado.
Eu:
- Acho que bebi demais ontem, não me lembro como vim parar aqui no chão.
Zé:
- Você acha? Eu tenho certeza. E por que bebeu tanto?
Eu:
- Não tava legal, um pouco triste e resolvi sair pra beber alguma coisa. Sabe, aquele dia em que te dá uma tristeza não sei de onde e nada te deixa feliz. Quando você não sabe mais onde colocar tantos problemas. Foi um dia desses, que a gente se pergunta o que é a felicidade? Onde ela está? Como conseguimos alcançá-la?
Zé:
- Nossa, são muitas perguntas, mas entendi o que você quer. Pelo que sei, é o que todos querem.
Eu:
- Pois é, o que é ser feliz? Ter um bom emprego? Dinheiro? Família? Saúde? Já ouvi casos de pessoas que tinham tudo isso e, ainda sim, acabaram infelizes. Às vezes, acho que esse negócio de buscar a felicidade é besteira, não existe.
Zé:
- Pode ser que seja mesmo. Mas, e se a felicidade não for algo único que devemos buscar? Simplesmente, por ela não estar parada em algum lugar nos esperando no tempo e no espaço.
- E se a felicidade for algo que está espalhada em nosso universo, como vários pontos na linha do nosso tempo, do tempo da nossa vida?
- E se a felicidade ao invés de ser um bolo no fim da jornada forem migalhas espalhadas ao longo do caminho?
- O problema disso é que, se as migalhas forem pequenas demais, podemos não notá-las. Na maioria das vezes, só percebemos os pedaços maiores, porque a nossa vontade sempre é encontrar o bolo inteiro, de uma só vez.
- Assim, esquecemos que se juntarmos todas as migalhas do caminho, no fim da estrada teremos nosso bolo.
- Não busque a felicidade, somente aproveite todos os momentos que te deixam feliz, mesmo os mais irrelevantes. Aproveite todos.
- Um telefonema dos pais, um sorriso dos sobrinhos, uma gargalhada do filho, um abraço do irmão, o canto de um pássaro, um beijo da avó ou um simples “oi” da pessoa amada. Uma vitória do seu time, um passeio com amigos, uma paquera correspondida, uma moeda achada, a chuva no calor e o sol em pleno inverno. Uma barra de chocolate, um café bem quente de manhã, um cinema de mãos dadas, acordar ao lado de quem você sempre quis ou dormir “espalhado”, só você e feliz.
- Nunca esqueça, aproveite cada migalha e no final terá aproveitado o bolo todo.
            Quando terminou, Zé se ergueu e foi embora. Andou até dobrar a esquina, sem olhar para trás.
Eu, depois de tudo que ouvi, simplesmente não consegui falar mais nada. Fiquei ali sentado, durante vários minutos, até me levantar como de estalo.
Até hoje, não sei se estava acordado ou sonhando naquela calçada. Duvido muito que aquela pessoa, se existiu mesmo, soubesse de tudo aquilo. Um mendigo culto daquele jeito. Mas, como cultura não tem nada haver com sabedoria, quem sabe.
Bem, sendo sonho ou realidade, mendigo ou não, uma lição aprendi naquela manhã: “Aproveite cada migalha do caminho, assim terá aproveitado o bolo todo no fim da jornada”. 

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

A Saga de José

José, os cara!! corre, José, corre!!
.
guenta mais um tempo aí, mana. entrei numa furada com o candango. um traíra filho da puta. culpa tua. leve, mas tua. ninguém me faz de otário nesse esquema, não. o'marabá' me deve uns favores aqui. então ele vai desovar o corpo lá na vala do Treze, antes que comece a feder e levante suspeitas sobre o meu pessoal. mas a mercadoria tá intacta, ainda. graças a deus!
.
o cerco tá fechando, porra. os cara tão na cola por causa do prejuízo! querem as AK-47 vietnamitas. se fodam. mandei vir do chile. é mais difícil de rastrear. devo chegar aí depois de amanhã por volta das onze da noite. avisa o Alfonsin que fique de olho no voo vindo da venezuela. deixa a van no jeito. chegando aí, partiremo pra punta del este.
.
você não pode beber, José! você é crente, José!
.
o Stojan tá chegando aí! o do dinheiro. então, arruma essa bagunça toda e manda essas putinhas se escafederem-se. e quando ele chegar tu esconde o pacote e faz as cortesias de praxe. o importante é que ele saia convencido de que tu tá limpo e é digno de confiança. não dá mole! negócios são negócios! na dúvida, conta a história do holandês. depois que ele se for, tu me encontra lá no antigo ArmaZen Cultural.
.
porra, velho! que cagada tu fizeste? tu num abriu o bico sobre a remessa pro méxico não né!!?? essa rodada ele não pode saber! se tu entrou no ramo, é pra se foder mesmo. isso aí é só carne rasgada, pô. logo cicatriza. desinfecta isso antes que te dê tétano. tu merecia era um nos miolos, sua bicha fodida! agora levanta daí, o Murilo vai te levar pra tomar um ar fresco.
.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Convidado Gabriel Machado

Mercado



Fofocas pra fazer revistas

Criancinhas pra alimentar comunistas

Um monumento: engenho e esmero

Pra fazer aço: carvão e minério de ferro.



Para música, um sonho

Ócio pra poesia

Mas as fábricas trabalham noite e dia

Produzindo ópio, e me envergonho.

---

Gabriel Machado
gadu.machado@gmail.com



segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

EPÍTETOS - Rosas Exalam Almas Roubadas


Na porta do meu consultório a placa dava as boas vindas
Dr. Gustini Victor Strasser - Psicólogo
Em 1997 eu lecionava psicologia na PUC
De lá pra cá as coisas mudaram
Saí do mundo acadêmico
O destino sentenciou-me
Resolvi prestar serviço pro Centro de Estudos da Procuradoria Geral do Estado
Tratar pacientes condenados
Pesquisar aspectos da execução penal na psicologia do sentenciado
A importância dos exames
A forma como são feitos
A repercussão dos laudos criminais
A possibilidade de reinserção ou não do condenado na sociedade
Eu dava o diagnóstico de comportamento dos pacientes
Se a pessoa voltava a reincidir ou não, a decisão era do juiz.
A execução penal
Nesse contexto social construí minha carreira
Enxergava o Direito e a Psicologia de maneira complementar
Adalgamir Silvério Silva, um travesti, foi meu primeiro paciente do Centro de Estudos da PGE.
A transação penal: um ano de acompanhamento psiquiátrico, duas vezes por semana.
Motivo: uma briga num bar do Leblon.
Apresentou-se
Cytherea Horse
Disse ser chamado assim por causa do seu membro cavalar
Visualmente era uma mulher lindíssima
Na primeira sessão contou ser do GDEDDC
Entre outras barbaridades
Não foi isso que me consagrou
Eu atendia consultas particulares
Cobrava entre quinhentos e dois mil reais
Por sessão
Fred Arranho, o ator, foi meu paciente.
O típico garoto que deu certo
O Namoradinho do Brasil
Esse cara mudou minha vida
Deu-me repercussão
Por causa dele ganhei mídia
Outros pacientes ilustres vieram
Patrícia Paula Searom
Filha do célebre Rycalo Searom
O bilionário da soja
Uma patricinha com QI acima da média
Prostiputa ninfocacional
A Psicoputa
Uma deusa
Minha Belle de Jour
Perdi a cabeça por ela
Por pouco não caçaram meu registro
Conhecimento é tudo
Sabe o Alexandre Deusthruid, detentor do oligopólio das redes de comunicação?
Sim
O maior pastor do Brasil
Foi meu paciente
Na nossa primeira consulta entrou rindo
Proferiu-se o puto traficante da palavra de Deus
O Putrafica
Adorava contar estórias do seu mentor
Seu ídolo mor
O mercador de influências da década de 80
O dono de Ipanema
O homem de putas e pó
O Rei da Noite
Eu vendia caro meu tempo
Os ponteiros não paravam de rodar
Depois veio Fernando Geraldini
Gostava de festa
Mulheres
Drogas
Viagens
Era recorrente contar-me sobre o seu apelido
O Estressadinho do Puteiro
Seu discurso era a exposição do eu
Uma palestra em forma de tese
O uso da linearidade no fluxo inconsciente
Patologia extraordinária
A exposição libertária
Não obstante é o instante que estabelece
Outro bambambã nas minhas sessões foi Javier Bornovo Calie
Um diplomata de El Salvador
Discorria sobre embaixadores e violações constituídas
Merecia respeito por sua competência reflexiva
Seu idealismo e inteireza ao defender o não belo eram fascinantes
Justificava dizendo ser o escolhido
O Baranguerreiro Ideológico
Adorava falar das suas imunidades e seus privilégios
A inter-relação da civilização
A roda do infortúnio não cessava de girar
Não posso me esquecer da Jéssica Silva
Artesã no disfarce dos predicados de personalidade
Estuprada por três homens
Filha de pais evangélicos
Ponderava pouco nas sessões de terapia
Tinha fascinação por fogo
A Incineradora
Chamada assim por trabalhar cremando corpos
Traços típicos de uma personalidade sediciosa
Sem constrangimento ou vergonha eu tinha um projeto
Estava enumerando pacientes com patologias análogas
Pretendia juntá-los numa sessão grupal
Frente a frente discorrendo sobre morte, sexo e medo.
As ideias iriam aparecer sem conexões evidentes
Investigariam as sinuosidades das possibilidades não esgotadas
Familiarizando-se com os processos dos seus crimes
Suas emoções mais negativas
Uma mesa redonda debatendo fragmentos
Opiniões diversas sobre a consciência moral
Talvez eles pudessem iluminar-se
Transgressões antissociais vistas no outro tendem a ser claras
Pensei nisso como um filme de Ingmar Bergman
Um prato cheio para minhas análises
Minha dúvida era botar ou não como mediadora a gostosa e psicóloga Vera Lucia Atner
Sorte não a encontrar
À época ela estava na Europa
A Tesudinha do Toriba
Epíteto inesquecível e justificado
Mas como eu disse no inicio
O destino sentenciou-me
Fred Arranho cortou-me a garganta durante sua sessão de terapia
Ironias da vida
Nesse caso, da morte.
Estou no purgatório esperando minha sentença
Céu ou inferno?
Deus e o Diabo fizeram uma aposta
Quem vencer escolhe onde vou passar o infinito do nada
A decisão será baseada nos acontecimentos da terapia coletiva dos meus sete pacientes
Como eu havia dito
Sempre soube tudo sobre as minhas cobaias
A falta de consideração com os sentimentos dos outros
O desprezo pelas obrigações sociais
Gostava disso
Não via neles o ensaio Freudiano sobre o superego
Com certeza eles não cometiam crimes para serem punidos
Nenhum castigo mudaria a falta de empatia deles
Egocentristas exageradamente patológicos
Ausentes de sentimentos de remorso e dolo
Um universo rico de baixezas humanas
Conceitos legitimados pelos meus sociopatas de laboratório
Desculpem meus devaneios
Sei onde terminam
Vou contar sobre a aposta
Deus jogou suas fichas no arrependimento
O Diabo apostou no vermelho
Arrependimento versus Sangue
Dentes por dentes
O encontro patológico dos superegos
Na frente de cada um, duas opções:
Rosa ou pistola
Se a orgia psicótica acabar com pelo menos um arrependido oferecendo sua rosa para outro, Deus vence.
Se ninguém se arrepender, o Diabo vence.
Vai começar a festa
A relação espaço-tempo não é cronológica na sala de espera das almas
O futuro na Terra é o eterno espectro dos mortos em recuperação
Diferentes tempos
O profano divino
Já é
A terapia grupal está acontecendo
Sentados à mesa
Sem sair de suas cadeiras
Sete patologias diretas optam por pistolas e flertes
Não titubeiam
Simultaneamente pegam as pistolas, não todos.
O Namoradinho coloca a pistola na testa da Cytherea
A Cytherea enfia a pistola na orelha do Baranguerreiro
O Baranguerreiro bota a pistola na cara da Incineradora
A Incineradora encosta a pistola no pescoço do Estressadinho
O Estressadinho tara as tetas da Psicoputa
A Psicoputa passa a mão na perna do Putrafica
O Putrafica aponta a pistola pro Namoradinho
Meus hamsters não conversam
Cinco tiros certeiros disparados
Cinco corpos escorrendo vermelhos pelo chão
Restam dois
Ficam de pé
Olhos nos olhos
O Putrafica mete a pistola na boca da Psicoputa
Ela se submete
Chupa o cano da pistola do seu possível executor
Alisa o carrasco cacete ajoelhada sobre sangue
Em subservientes segundos libera-o pelo zíper
O Putrafica de pau duro gira a pistola nos lábios da Psicoputa punheteira
Lascivamente ela masturba o membro num misto de sangria e porra
O sêmen da vida voa liberto
A Psicoputa e o Putrafica sobreviveram
Não trocam uma palavra e vão embora
Agora é com Lúcifer
Sorte a minha
Eu sou ateu
Não ficaria bem ao lado de Deus
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam as almas que roubam pra si

Pablo Treuffar
Licença Creative Commons
Based on a work at www.pablotreuffar.com
A VERDADE É QUE EU MINTO

A VERDADE É QUE EU MINTO

domingo, 8 de dezembro de 2013

lilith, marias e evas



Ao sul do equador,            
 Minha querida
 Fica o pecado

Aquele que oferto

 Espera-te resiliente e quieto
Numa caixa perolada
                                                                   
Prometo um vício repaginado
Originalmente inexistente
Falado numa língua diferente

Na tua

Naquela que desliza
Tudo que falo

 Doer
Latejar
Piscar
  Devorar-te                
 Ao sul do equador.

Dizem

Há cinquenta tons de cinza

Eu vejo claramente
Penugem escura
                                           
Dormente

Tuas lambidas distantes
Distraídas e inconsistentes

Ao sul do equador
Tudo gira
                         
Sem as dores
Sérias de Eva

Sem os amores de Maria

Resta-me
Afundar no umbigo de Lilith
Alimentar fogo com fogo
Antropofagia!

* Imagem de Glenn Arthur'

sábado, 7 de dezembro de 2013

Ode aos Açougueiros


 

escrevi um poema sanguinário 
chamei-o de “ode aos açougueiros

já de cara, sem dó nem piedade fui lá e 
cortei do poema a perna do p

mandei num envelope pardo a orelha do livro
pedi resgate

não lido, enfiei fundo a faca no coração do til
e vi a cedilha sangrando escorrendo na página

sobrou à minha frente na mesa de aço
um poema manco

[com o corac    
a  
o


mutilado