quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

A BOA MORTE - nossas mulheres e suas bundas maravilhosas


Deveria ser proibido mulher gostosa usar shortinho branco sem dar pros olhos tarados que as secam
Isso é um absurdo
Nossas mulheres e suas bundas maravilhosas têm de ser socialistas
Dar carne pra quem tem fome
De que adianta malhar duas horas por dia e não liberar a carninha rosada temperada no salgadinho suor
Capitalismo sexual só é bom nos puteiros
Na praia e nos bares queremos bundas comunistas
Sou bundocetólogo e sei o que estou falando
Pergunte ao pau
Ele vai bater continência
De pé e olhando pro céu
Positivo e operante
Esperando a hora de entrar rachando
Mas não
Bundas rebolando são dedos indicadores sinalizando negação
Na Ataulfo de Paiva, rabos abanam negação.
Na praia, bundas sorriem negação.
Gostosas desfilam rabetas insanas no ensaio metido do não
Por essas e outras me formei em pegação compulsória
Sou estuprador com mestrado e doutorado em coito anal
Exerço minha profissão
Também chambro na punheta
Masturbação é fazer amor com quem você gosta e sem autorização
Antes de me formar, a bronha era minha única opção.
Agora não!
Voltando as musas
Melhor que mulher de shortinho
Só mulher de shortinho branco jogando futevôlei
A cada recebida na coxa o biquíni vai enterrando no short
Esse é o objetivo das tesudas nas redes da orla
Deixar todos os homens na mão
Comigo não!
Mulher sem querer não deve evidenciar e sim esconder
Mulher que esconde não precisa sair de casa
Mulheres gostosas abusando dos shortinhos brancos merecem
O shortinho branco é um combo
Vem com calcinha marcando
Barangas têm de saber este item ser do vestuário feminino das graduadas
Mocréias não podem usar
Não trabalho com mulher feia
Fica determinado
Gostosa vestiu branco tem que dar
O punheteirólogo Woody Allen disse:

- Sexo bom é sexo imundo!

Concordo
O Sexo sujo é o mais elevado
Quase espiritual
Quando estou exercendo minha profissão
Cuspo
Xingo
Esporro na cara
Meto dedos
Dou tapas
Tapas são minha especialidade
Tapa na bunda revestida de branco estala alto
Deixá-las roxa é ter atitude
Não quer tomar porrada?
Não use branco!
Bundas gostosas de shortinhos são alvos gritando:

- Eu tô de shortinho branco, não tá vendo? Bate que eu gosto!

É uma voz sussurrando:

- Me come! Me fode! Estraga-me!

Putas vestem branco
Não é preto
Nem vermelho
O branco é o senhor do puteiro
Realça as coxas morenas de meninas marotas
Reluz o neon estroboscópico
O branco é a cor das putas
E das filhas das putas
Fodam-se os santos
O shortinho branco fala pela usuária
É uma promessa de sexo
Uma declaração de intenção
A maior ameaça aos sem tesão
Nenhuma mulher coloca um short branco impunemente
O branco refrigerador cromático das bucetas quentes e meladas clama por mim
Mulheres de branco são hordas suicidas sem direção
Mulheres de shortinhos são ruas sem saídas
Becos escuros
Um convite à penetração
Por mais que elas chorem e gritem dizendo que não
Com meu revólver eu não fico na mão

Pablo Treuffar / Leandro Gama
Licença Creative Commons
Based on a work at www.pablotreuffar.com
A VERDADE É QUE EU MINTO

A VERDADE É QUE EU MINTO

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Desacordo




— Eu disse que precisávamos resolver isso.

Sorria ao repetir a frase, quando ela desligou o chuveiro e passou a enxugar os cabelos. Sabia que ficar ali parado encarando-a daquele jeito a incomodava, eram amigos há muito tempo. Tinha certeza que ela também não daria o braço a torcer. Divertia-se com sua teimosia silenciosa, andando nua pelo quarto, não se deixando vencer pela estranheza da situação. Gostava disso nela. Ainda enxugando os cabelos ela respondeu suavemente.

— Eu sei o que disse, mas agora o que eu preciso é ir embora.

A pressa, o rubor e os olhos tristes o irritavam mais do que gostaria de admitir. Era como se fosse agora outra mulher que tinha na sua frente.

— A pressa é sua não minha.

Passou a recolher as roupas espalhadas pelo quarto, os lábios dele se estreitaram numa linha fina.

— É eu sei que a pressa é minha.

Sabia que estava sendo sensata e até gostava disso, mas por alguma razão a sensatez dela naquele momento o irritava, sentia uma raiva crescente daquele ritual de despedida e fuga. Pegou sua saia sobre a cadeira num gesto rápido, ela sorriu e foi pegar alguma outra peça esquecida perto da cama, depois estendeu a mão pra que ele lhe desse a saia. Estava bonita assim semi-vestida, apressada e descalça. Ele sorriu e agarrou-a para um beijo rápido.

— Tudo bem. Vou ficar mais um pouco. Importa-se em sair sozinha?

Disse num tom neutro enquanto permitia que ela pegasse a saia.

— Fica tranqüilo. Prefiro assim.

Ajudou-a com o zíper, ela sorriu quando ele a beijou na curva do pescoço. Gostava do sorriso, era uma das coisas de que gostava nela, pois fazia um contraste interessante com os olhos tristes. Deitou na cama, braços sob a cabeça e ficou assistindo sua amiga se arrumar.

— Quando te vejo de novo?

— Não vê. Acho que resolvemos tudo que tínhamos pra resolver.

Prendeu os cabelos num coque, passou batom e passava os olhos pelo quarto em busca da bolsa, sapatos e da chave da porta.

— Não sei, acho que preciso resolver isso mais algumas vezes.

Ela sorriu. Estava quase pronta.

— Sei.

Procurava as sandálias.

— Sabe? Convencida.

Achou-as em algum lugar entre a cama e a porta.

— Não. Não sei. Te vejo quando quisermos, quando der ou não nos vemos. Não importa muito, não foi o que você disse? Queria apenas foder-me por horas.

— Foi o que eu disse ? Só não disse quantas horas.

Ela viu a chave na mão dele, olhou o relógio, ele sorriu.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Poesia para fundo de gaveta




Este poema é para ir para o fundo da gaveta
É para nunca ser lido e se lido esquecido
É para nada significar ao leitor mais atento
É para não valer um centavo e não pagar as contas do poeta
                                                                                   em questão
Este poema é como qualquer outro, para ser incômodo,
                                                    ser reflexo, ser espelho
                                                       
                                                                          e sumir 

                               ploc!

                                     como bolha de sabão ...

Este poema não diz respeito a nada, a não ser a ele mesmo
como vê, não há belas palavras, imagens ou aliterações

Este poema, como qualquer outro
é para ser esquecido
como moedinha de centavos,
como tampa de caneta bic
na gaveta da cômoda
sob a televisão ligada
nos programas de auditório nas casas das famílias do século XXI

Afinal
para que poesia ?

_ Amor, venha ver aquele cantor que você gosta na TV ...

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

polícia para quem não precisa de polícia




a função precípua da polícia civil, ou polícia judiciária, é apurar as infrações penais, aqueles fatos - por 'fatos' entenda-se algo que já aconteceu - definidos por lei como crimes ou contravenções penais. logo, tal atribuição NÃO inclui:


01) apurar crimes que ainda não aconteceram. o crime ou contravenção tem quatro fases sequenciais: cogitação, preparação, execução e consumação. o candidato a meliante tem a ideia do crime, decide pô-la em prática, traça seu plano diabólico, inicia os preparos e parte para executá-lo. se bem-sucedido, o crime se consuma. caso contrário, responde pela tentativa. a lei brasileira pune o criminoso somente a partir dos atos de execução. portanto, não, a polícia não é obrigada a agir porque você acha que seu vizinho pode lhe ferir ou matar ou fazer qualquer mal a você porque ele, cujas feições lembram muito as do monstro do doutor frankenstein, olha para você de cara feia.



02) apurar crimes impossíveis. embora muitos - dentre os quais habitués da Serra da Beleza, Chapada dos Veadeiros e Chapada dos Guimarães, bem como assinantes da revista UFO e leitores de erich von daniken - possam discordar, não, a polícia não tem o dever de lhe proteger porque os alienígenas espalharam câmeras invisíveis por toda a sua casa e podem a qualquer momento lhe abduzir e fazer altos e excitantes experimentos sexuais com você enquanto deslizam pela via láctea.



03) dar susto. uma das não-atribuições mais requisitadas pela clientela, especialmente por vítimas de violência doméstica: "sabe, doutor, meu marido não é uma pessoa ruim. ele só fica violento quando bebe. e ele bebe todo dia. daí ele me bate. mas eu não quero prejudicar ele não. eu amo ele. só queria que a polícia desse um susto nele pra ver se ele para de me bater." não, minha senhora, lamentamos informar que a polícia não dá susto. embora seja certo que eles seriam de enorme valia à instituição, não, o conde drácula, o lobisomem, a múmia, darth vader, satan goss, gasparzinho e o fantasminha pluft não integram nossas fileiras. é até verdade que temos alguns colegas na casa que antes de descerem à terra entraram na fila da feiúra várias vezes, contudo, malgrado involuntariamente sirvam para provocar choro em bebês de colo e dispensem dedetização nos locais onde trabalham, assustar maridos agressores não faz parte do seu rol de atribuições.



04) apurar crime ou contravenção penal que não é crime nem contravenção penal. se a lei define isso ou aquilo ou aquiloutro como crime ou contravenção, então, sem a menor sombra de dúvida, isso, aquilo ou aquiloutro É crime ou contravenção. se não, não. a polícia judiciária não tem que intervir:
a) se você acreditou no garoto-propaganda da casas bahia quando ele, com aquele sorriso idiota, afirmou que você poderia pagar quanto quisesse naquela linda cozinha bartira;
b) se o farmacêutico estava caindo de bêbado mas ainda assim lhe vendeu o medicamento correto;
c) se a professora disse que seu filho - cuja maior nota foi um 2 em educação artística - tinha déficit de aprendizagem mas (embora até pudesse estar pensando) em nenhum momento o chamou de jumento;
d) se seu marido comeu aquela secretária loira que tem um litro de silicone em cada peito, usa sumários tubinhos, tem piercing do tipo penduricalho no umbigo e uma tatoo tribal logo acima do cofre;
e) se você contratou o canal sex gay mas a sky só disponibilizou o canal de putaria hétero;
f) se sua filha de 16 anos topou alegremente um gangbang com todo o time de futebol do colégio no vestiário do clube;
g) se você chegou em casa e flagrou sua mulher e três afrodescendentes que poderiam facilmente ser confundidos com seu guarda-roupas e cujas envergaduras somadas ultrapassavam fácil 70 centímetros, praticando sexo animal no seu leito de amor conjugal;
h) se sua vaidade masculina foi massageada pela possibilidade de aumentar seu bilau com a super-ultra-mega-sensacional bombinha big pênis, expectativa frustrada pela constatação de que aquela coisinha minúscula e ridícula, por mais que sua mão esteja dormente de tanto bombear, continua e continuará ridícula e minúscula;
i) se o morador do 701 soltou uma bufa fétida no elevador que quase levou você à lona quando houve aquele blecaute de 20 minutos;
j) se você ficou atônito e amedrontado quando soube na curimba que frequenta às sextas, por meio do relato fidedigno da dona maria padilha das sete encruzilhadas do rodoanel, que uma das amantes do seu marido fez um trabalho 'indesfazível' para costurar espiritualmente e para todo o sempre a sua linda e rechonchuda vulva;
k) se você, ao chegar da vernissagem ou do shopping, deparou-se, horrorizada, com o vira-latas pulguento do vizinho engatado e babando em cima de adriane, sua cadelinha poodle que para você é muito mais que uma simples cachorrinha, é sua filhinha querida super bem-tratada à base de ração inglesa e shampoo francês;
l) se o ogro sujo, cabeludo e tatuado que mora perto da sua casa não separa as latas vazias de cerveja das garrafas de pinga das guimbas de cigarro dos restos de comida quando joga fora o lixo;
m) se você todos os dias se vê forçado a escalar o morro mais alto de sua cidade para falar ao celular com sua mãe que mora em santo antão do horizonte infinito;
n) se você, bêbado como um gambá, foi implacavelmente sodomizado naquela bacanal em que topou participar;



não. definitivamente não. seu problema é enorme, gigantesco, um problemão, mas não é previsto nem definido como crime ou contravenção na lei penal brasileira, logo, não é caso para a polícia. o policial pode se compadecer e até mesmo sentir ganas de fazer algo para tentar resolver sua questão, mas ele sabe que não pode fazer isso. tomar para si o encargo de outro funcionário público é usurpação de função pública e isso é crime. mas não fique aí parado, reclamando que ninguém faz nada para ajudá-lo. o chapolim colorado não vai aparecer e chamar os bons para seguí-lo. informe-se e procure o órgão nas esferas administrativa, civil, órgãos de classe, o judiciário, o batman, o justiceiro, etc., busque quem tem a atribuição, o dever de ouvir sua reclamação e tomar providências no afã de reparar a tremenda injustiça que você sofreu. pense também sobre a possibilidade de aceitar jesus, apagar a luz, usar brinco de cruz ou comer cuscuz, senhor(a) avestruz.



Carlos Cruz - 29/08/2013

domingo, 5 de janeiro de 2014

"faz de mim teu mimo mulher"


faz de mim teu mimo mulher,
despeja teu amor e não se arrependa.
                                        crie caso,
                                        me morda,
faz cara de amor partido,
mas faz de mim teu mimo mulher.

exceda. faz de mim teu
                  exercício...
                         vício.
me tome para teu gozo
com tamanha leveza
e não ligue para o sacrifício
da carne machucada.

faz de mim teu detalhe mais
                            discreto,
                          teu afeto,
tua total falta de medidas
e não pense...
seja uma tarde blues.

ah mulher! faz de mim teu ciúme
disfarçado.
ronda meu desamparo
com essa tua finesse de pessoa
e, numa boa,
faz de mim teu mimo?

eu já desaprendi a caminhar com
as próprias pernas,
hiberna em mim, em qualquer estação,
a sutileza com que reverencias
                           o meio dia,
                      a tarde toda...
as horas de tua ilusão.

faz de mim teu mimo mulher,
teu brinquedo único
teu lugar de meiguice...

[daufen bach.]

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

O HOMEM QUE DESVIAVA


Alexandre era um cara responsável. Pai de Rafael, marido de Julia, filho único de dona Selma. Estava sempre disposto a ajudar. Tinha habilidade em consertar carros, luminárias e amizades. Era ele quem acalmava os nervos da galera quando a discussão esquentava. Ele que trocava as lâmpadas queimadas da casa da mãe viúva. Ele que levava o sogro ao médico. Ele que nas horas vagas distribuía ração para cães abandonados.
Alex, apelido obrigatório, não tinha muitas reclamações sobre a vida. Se dedicava de corpo e alma a fazer o bem. Mais corpo que alma. Alex estava bem acima do peso, mas nem isso tirava seu sono. Bonachão e boa praça. Sabe o tipo? Então, assim era.
Trabalhava em uma imobiliária no centro da cidade. Cidade quente, sem chuva, sem sombras, tomada pelo asfalto. Ia cedo para o serviço. Perdia mais tempo caçando vaga para deixar o carro que rodando pelo caminho. Ele morava pouquíssimos quilômetros da firma, mas a gordura de seu corpo era desculpa para não encarar uma caminhada.
Chegava ao escritório arfando. Dia sim, e no outro também, o elevador estragava e Alex encarava três andares como quem vê os portais do inferno. Vermelho, suando e sem dignidade alguma, entrava na sala, se jogava em sua cadeira e dava início ao dia de multitarefas.
Funcionário exemplar, além de ser responsável por várias contas de aluguel e cobrança de condomínios, tomou para si a obrigação de descer até a lanchonete da esquina para comprar diariamente as guloseimas do escritório. Valia tudo na hora do lanche. De pastel a picolé. E Alex era criativo, nunca repetia o petisco.
Em sua simplicidade, se dizia um homem completo.
– Pra que eu quero mais? Tenho uma mulher linda, um filho cheio de saúde e inteligência, uma casa com piscina e uma sogra que já já bate as botas, ria Alex até engasgar durante o discurso no cafezinho, quando os colegas agradeciam as gentilezas do gordo simpático.
Apesar de todas as alegrias que a vida pode proporcionar a um bom pai e cidadão exemplar, Alex se incomodava com uma coisa: ele era um cara que desviava.
É exatamente isso. Mesmo com todo aquele tamanho, Alex precisava andar sempre, ou quase sempre, em zigue-zague. As pessoas simplesmente não desviavam dele . Se estava subindo a escada escorado no corrimão para se equilibrar e manter o fôlego, lá vinha uma horda descendo os degraus que simplesmente não saia da frente e o obrigava a soltar o corrimão e deixar todo mundo passar. 
Se andava pela rua, quem quer que viesse em sua direção, ia reto, não desviava. Alex se obrigava a dar um passo para o lado.
Era um problema. Pra muita gente, uma bobagem, para Alex, um problemão.
Qualquer duzentos metros de caminhada se transformavam automaticamente em dois quilômetros de tanto que ele desviava das pessoas.
Quando tentava não desviar era de praxe levar esbarrão. E com ele sempre um puxão de orelha:
– Ei, olha por onde anda...
Isso sem contar as diversas vezes que iam lanche, sucos, cafés e respeito para o chão. Tudo porque ele não desviou.
Outro dia, andando apressado pela calçada, não desviou de uma senhora distraída e a mulher bateu com toda força em seu peito. E ainda xingou muito Alex. O homem ficou sem palavras. Não pediu desculpas porque afinal não era culpa dele. Ficou parado olhando a mulher indo embora e para sua surpresa, a tal senhora seguiu caminho desviando de tudo e todos. Naquele momento Alex se perguntou quase em voz alta: por que sempre eu que tenho que sair da frente?
Aproveitou o intervalo do almoço para observar o trânsito, os pedestres, o movimento das ruas. Dividiu a humanidade em dois tipos: os que desviam e os que não desviam. Passou a admirar os que não desviam. Mostravam mais confiança, elegância, força e determinação. Enquanto os outros que saiam da frente geralmente andavam de cabeça baixa, quase cansados. Disposto a fazer parte do mundo dos fortes, bradou a si mesmo:
– A partir de hoje não vou desviar. Venha o que vier, seja quem for, eu não desvio.
Fez o sinal da cruz para garantir a seriedade do juramento.
Manteve a rotina de ir de carro ao trabalho, achou vaga perto da entrada. Ninguém passou por ele. Surpreendentemente o elevador estava funcionando. Desceu no andar do escritório, foi até sua mesa, e nada de precisar desviar.  O dia começava bem.
Hora do lanche, Alex se preparou para ir até a esquina pegar as coxinhas de galinha tradicionais da quinta-feira. Confiante, desceu pelo elevador, atravessou a porta grande do prédio e nem viu que a rua estava praticamente vazia.
Feliz em não precisar desviar de ninguém, Alex caminhou tranquilamente. Nem percebeu que o local estava cercado pela polícia. Naquele momento, bandidos estavam fugindo de um assalto a um banco ali próximo. O centro da cidade estava nervoso. Policiais do esquadrão antibomba gritavam para todos se afastarem, a rua fora interditada, polícia de um lado, ladrões de outro. Sirenes, confusão.
Quando se deu conta do que acontecia Alex saiu correndo, nessa hora começou o tiroteio.
Alex dobrou a esquina para o lado errado e acabou de cara com os bandidos. Ficou paralisado. Sem mexer um músculo, apenas ouvia os gritos dos assaltantes encurralados.  
A primeira reação foi pedir “peloamordedeus” que o deixassem ir, mas Alex lembrou que agora ele era forte, destemido, um homem que não desviava de nada. Não cederia um passo, um centímetro para o lado.
Não teve medo. Manteve o juramento: morreu com uma bala na cabeça porque não saiu da frente.

FIM 

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

convidados em 2014


Os convidados do Blog Bar do Escritor em 2014 até março são

Emyli Sousa - dia 10/01;
Isabel Demétrio - dia 20/01;
Cacau Oliveira - dia 30/01;
Cristhina Rangel - dia 10/02;
Belén Greece - dia 20/02;
Walter Bezerra - dia 10/03;
Ivo Costa - dia 20/03;
Rinaldo Leite - 30/03;

Conheça, participe, leia e divulgue o Blog Bar do Escritor.


segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Convidado Marcos Vinícius de Araújo

Quando Deus bate em sua porta, você o convida a entrar?
 
 
        Deus, onipresente nas suas manifestações, faz coisas durante toda a nossa vida, nos dando oportunidades que muitas vezes jogamos fora pela ausência de fé. São oportunidades perdidas, chances de crescer na vida, evoluir espiritualmente e até mesmo melhorar a vida financeira com o suor do nosso trabalho. Trabalho esse adquirido com a nossa força de vontade.
        Quando criança, fazia coisas comuns da idade, ia pra escola, brincava na rua com os amigos, jogava vídeo game, assistia TV até tarde e as vezes até assistia programas impróprios pra minha idade. Nunca tive restrições desde pequeno, e quando a adolescência chegou ai mesmo que aproveitei, como meus pais nunca pegavam no meu pé fazia tudo que queria, a hora que queria, do meu jeito. Nunca liguei pra estudar, pensar em que curso faria na faculdade era coisa rara, coisa de nerd. Nunca dediquei meu tempo pra fazer coisas proveitosas e sim pra coisas supérfluas que não iam me fazer chegar a lugar nenhum.
        Sempre tive uma boa relação com Deus, apesar de tudo sempre tive fé em Deus e como estava numa fase de conhecimentos, que é a adolescência nunca tive uma religião, freqüentava o centro espírita de umbanda da minha avó quando criança mas não era um lugar que me enchia os olhos, sentia afinidade mas de alguma forma não me via ligado aquela energia que ali existia e não concordava com certas coisas que acontecia, por isso nunca cheguei ao ponto de fazer parte do trabalho da casa. Tive época que freqüentei a igreja evangélica por incentivo de um amigo mas fiquei um ou dois meses, foi natural a saída. Nunca me encontrei, e minha relação com Deus sempre foi assim, sempre tive muita fé e respeito por Deus e por todas as religiões, estava numa fase de experiências e sabia que um dia iria me achar.
        O tempo passou rápido pra mim, completei 18 anos e logo comecei a trabalhar, desde então nunca fiquei parado, uma hora aqui outra ali e eu ainda não tinha feito nada da vida. Dois anos depois engravidei minha namorada da época, o relacionamento se foi naturalmente, mas meu filho não, Pedro nasceu com muitos problemas de saúde e deu trabalho. Ensino Médio incompleto, pensão alimentícia pra pagar, filho doente,  pulava eu de galho em galho feito um macaco cego, não sabia onde pisava e pra que lado seguia, e nessa de pular acabei caindo do galho, foram 5 meses desempregado dando jeitinhos pra pagar a pensão do meu filho, pedindo ajuda há alguns familiares que só sabiam cobrar, gente equivocada que só sabiam falar o tempo todo mas nunca tinha algo a dizer. Foi a pior fase da minha vida, sofri calado e sozinho sem amparo de ninguém, amigos que tinha era só pra sacanagem. Um filme passou pela minha cabeça e alucidei-me: - O que eu fiz da minha vida? - Estava eu no sofá de casa as 4h da manhã chorando baixinho pra não incomodar ninguém. Eu como de costume pedi a Deus mais uma vez e me arrependi por coisas que eu fiz de ruim a mim mesmo, tive uma resposta imediata de Deus: Comecei a trabalhar uma semana depois, fui colocando minha vida no eixo aos poucos e tudo foi dando certo. E como Deus é perfeito, ele me conhece e sabia que eu precisava de alguém do meu lado, alguém que me ajudasse, que me incentivasse, que me fizesse crescer ainda mais e a fazer tudo que eu não fiz. Conheci Júlia numa noite qualquer na internet, site de relacionamento. Residia no mesmo local em que eu começara a trabalhar. Jacarepaguá, só conhecia de nome, lugar bacana, gente bonita, gente diferente.
        Júlia tinha 20 anos e cursava Biomedicina. Bonita e muito inteligente, me chamou atenção pelo seu jeito meigo e carinhoso de ser. Foram necessários apenas alguns minutos de conversa pra saber que era a mulher da minha vida, ali mesmo do outro lado da tela do computador. Como eu nunca havia sentido antes, ela me fez apaixonado em apenas algumas horas, sentimento esse com toda reciprocidade. Deus sabia que ela era a mulher certa.
        Passaram-se alguns meses e comecei a perceber ainda mais o que Júlia tinha de novo pra mim, entre um simples lanche do Burguer King á um simples livro espírita, conheci o espiritismo e um lado diferente de Deus que nunca tinha visto antes. Ganhei meu primeiro livro, “Violetas na janela”, um livro muito conhecido entre os espíritas com mais de 1.800.000 exemplares vendidos, esse Best seller me trousse alguns dos principais conceitos do espiritismo: doutrinação, conhecimento do mundo astral, reencarnação, etc.
        Entre um livro e outro, fui aprendendo e sentindo cada vez mais a espiritualidade presente em minha vida, entendo a existência de tudo que existe na terra e no mundo, tudo obra do nosso grande Deus. Com a ajuda de pessoas maravilhosas do mundo astral, fui aprendendo, evoluindo, recordando de vidas anteriores e com isso descobrimos que fomos casados em outra vida, tivemos uma história, interrompida por um acidente. Mas essa história logo estará a disposição de curiosos afins, Júlia esta psicografando um livro que conta a nossa história em outra vida, ditado por um espírito que ainda não se identificou. Juntamente de Júlia, objeto direto de comunicação com amigos do astral, somos privilegiados de termos contato direto com a espiritualidade, recebendo bons conselhos e boas energias de nossos guias espirituais.
        Hoje sou outro homem, responsabilidades adquiridas na religião, na relação, na família e na vida. Terminei o Ensino Médio e quero trabalhar na área da saúde, mas especificamente na área da radiologia e com especializações na área. Tenho o hábito de ler, escrever e aqui estou, mostrando um pouquinho de mim e fazer com que vocês que estão lendo enxergarem a importância de Deus em nossas vidas, e que devemos prestar atenção nas oportunidades que nos são concedidas, agarrá-las com unhas e dentes e principalmente, seja de qualquer forma, em qualquer religião, reconhecer o que Deus fez, o que esta fazendo e o que fará por nós, porquê Deus é a base de tudo.


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Marcos Vinícius de Araújo
www.marcosviiny.blogspot.com.br/


domingo, 29 de dezembro de 2013

Cadela de Raça

http://memortedovaledassombras.blogspot.com.br/


Sou fogo
Dou jogo
Cadela de raça!

Me quer

Teu gozo
Cheiro de cachaça!

Decida

Me quer lânguida
Ou lambida?

Devassa

Ou de virgem
Andar e graça?
http://memortedovaledassombras.blogspot.com.br/

sábado, 28 de dezembro de 2013

A " Carta " Capitulo XI - outono

 
Entro devagarinho num trilho que me levará à ponte da fertilidade, o tempo está agreste mas luminoso, e preparo a minha máquina fotográfica para registar a bela paisagem que envolve esta ponte romana, pequena, mas com um sentido lendário elevado. Tudo em redor está dourado, o feno não retirado, os vidoeiros com as suas folhas matizadas de cor de ouro, e em frente vejo a ponte, que um riacho por baixo dela passa, tranquilo, com poucos obstáculos. Como pano de fundo, ficam as montanhas escarpadas com a sua vegetação verde eterna. Faço um disparo com a máquina, mais um e mais outro. E fico com a garantia que consegui eternizar o momento, de uma beleza sem fim. Na minha memória também ficou gravado, todo o cansaço belo da natureza em transformação. Ali, advinha-se que o inverno estará próximo nesta serra paradisíaca, que me vai envolvendo, cada vez mais, com o decorrer dos anos…
 
A editar brevemente / Quito Arantes - Portugal
 


ESTRELA DE BELÉM

Brilha estrela de Belém
Para o menino Jesus...
Que nasceu só para o bem
Daqueles que buscam a luz;

Brilha para o salvador
Que a todos nós vai salvar...
Nos livrando da real dor
Que sentimos ao pecar;

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Conto de Natal

Será que somente eu estava sentindo aquilo? Não era possível, olhar em volta, olhar pro mundo e somente eu sentir aquilo. O aperto que sentia no peito, o choro travado na garganta que dificilmente explodiria, não era possível que ninguém mais compartilhava de tal sentimento perante a tudo que estava em nossa volta.
Mas no meio do caminho, bastou ouvir o arfar do peito do meu pai soltando um profundo suspiro, a engasgada na direção do carro e depois a acelerada forte pra entender que de alguma maneira o velho compartilhava sentimentos comigo. E que homem incrível era aquele, ao mesmo tempo era um dos motivadores de tudo isso que eu estava sentindo, mas ele era uma pequena peça.
A lembrança que tenho de acordar nesse dia era justamente ele entrando no quarto.
- Quer que eu feche a janela? Tá muito claro aqui.
- Não, não precisa, logo eu vou levantar.
- Mas por quê? Perguntou meu pai, em um tom sugerindo que eu deveria continuar descansando.
- Vou levantar pra estudar.
Simplesmente saiu do quarto. Pouco tempo depois meu despertador tocou, mas não levantei de cara. Estava num pequeno recesso do meu trabalho e resolvi vir visitar meus pais. Apesar de querer manter uma disciplina nos estudos e na escrita, resolvi ficar um pouco mais na cama, acho que acabei levantando só uma hora mais tarde.
Quando abri os olhos definitivamente, me deparei com a visão do meu antigo quarto em proporções muito menores, na verdade era eu que havia crescido, fisicamente é claro. As paredes de um branco escuro, tudo muito limpo, fruto do trabalho da minha mãe. Os móveis eram até novos, principalmente um guarda-roupas de grandes portas de correr, havia também uma bicicleta eletrônica e um ar condicionado portátil. Para completar o cenário, na parede figuram dois quadros: uma pintura de flores dentro de uma forte moldura e uma foto dos super-heróis da Marvel. Ao olhar tudo isso, fiquei triste pelas flores, tanto pela moldura que as sufocavam quanto pelos heróis que não estavam dando a mínima para elas, simplesmente pensando em salvar o universo para inflar ainda mais os seus egos.
Esse padrão de cenário do quarto, com móveis novos contrastando com uma aparência antiga do cômodo, valia para o resto da casa. Quando cheguei na sala dei direto com o meu sobrinho Hugo.
- Bom dia Hugo.
- Bom dia – Falou isso duma maneira um tanto mecânica sem tirar os olhos da televisão.
Tomei o café da manhã sozinho e voltei para o quarto para pegar meu violão e continuar tentando tirar uma música que comecei no dia anterior. Nisso lembrei-me de como foi a experiência com meu irmão e meu pai em relação à questão da música. Baixei umas cifras da internet e estava na tentativa de tirar algumas músicas que eu gosto quando percebi que meu pai estava escutando e então me cortou:
- Que isso hein. To achando que nesse trabalho seu deve ter sempre um violão a disposição porque você melhorou.
- É, no tempo que sobra eu tenho treinado.
- Se você continuar assim, daqui um ou dois, três anos você já vai estar fera – Ele sempre falava essa frase desde que eu era criança. Hoje em dia eu já não me importava mais, mas durante muito tempo eu pensava que o prazo tinha vencido e eu ainda não estava bom.
- É, o negócio é continuar treinando – respondi.
Nisso chegou meu irmão e percebendo logo do que se tratava mandou uma frase clássica:
- Cara, meu sonho é ouvir você tocando uma música completa.
- Não dá, não consigo.
- Todos eles são assim, isso me mata de raiva – comentou meu pai.
- Pois é, me mata também – concordou meu irmão.
Resolvi então tocar Knockin on Heaven’s Door do Bob Dylan, era muito fácil e talvez fosse agradar eles. Quando terminei, meu irmão bateu palmas.
- As primeira palmas que você mereceu.
Respondi com um sorriso seco. Meu pai então pediu para que tocasse uma música do Geraldo Azevedo, especificamente Dia Branco, baixei a cifra e comecei a tirar a música, mas logo no início fui cortado mais uma vez:
- Não, a outra você estava tirando no tom certinho, essa você não tá não.
- Calma, eu ainda to tirando a música.
Nisso, meu irmão colocou um vídeo na internet de um cara que fazia cover de Bruno & Marrone, meu pai observou um tempo e logo começou a pedir para que ele colocasse outras músicas. Continuei na minha durante um tempo, ainda tentando tirar minhas músicas e nesse momento percebi algo que sempre colocou empecilhos na minha vida em relação à música: é que na verdade o problema não era bem comigo, mas no fundo, por mais que dissessem que gostavam de música, principalmente meu pai, eles não tinham o mínimo respeito e incentivo com a mesma. Logo fui pro quarto e guardei meu violão.
Passado essa memória, continuei trabalhando mais um pouco em tentar tirar a música e depois apanhei um livro do Dostoiévski, no caso, Crime e Castigo. Filho da puta aquele russo, estava ainda nas primeiras páginas mas já dava pra notar a obra prima que era aquele livro. Um autêntico romance, pra mim ele e Balzac eram os maiores gênios da literatura. Conseguiam compor realmente criações esplêndidas, peças que se criavam entorno de uma tema central, mas que no decorrer desse tema várias outras questões eram inseridas, vários outros debates, debates filosóficos sobre a essência humana que transcendem até os dias de hoje, carregados de metáforas extremamente precisas. Será que um dia meus escritos seriam assim? Eu sabia que não, mas era possível ver na obra deles um caminho claro para se compor um grande trabalho, ao menos isso me dava um norte.
Mas as conclusões cruas sobre a vida que eles apresentavam me faziam pensar bastante sobre a realidade em que estava inserido e sobre meus objetivos de vida, eram conclusões na maioria das vezes tristes sobre o caráter da humanidade, não só sobre o caráter, mas sobre a própria condição miserável da humanidade e quando eu olhava em volta nesses dias de natal, tudo parecia confirmar tais conclusões.
Primeiro pensei no meu sobrinho Hugo, não só pensei como fui até ele.
- Você não quer ler um livro e sair um pouquinho da frente da TV. – Sabia que essa sugestão indutiva era ridícula e não concordava muito com aquilo, mas já estava ficando desesperado com o moleque grudado ali por várias horas.
- Não, não quero.
- Não precisava ser tão mal educado com o tio assim – Pior ainda essa frase minha.
Minha mãe ouviu isso e veio:
- Então agora, você também deu pra ser mal criado?
Ele simplesmente respondeu tudo isso só com uma risadinha maliciosa. Quando o danado do moleque pegou num livro, leu já esperando a hora que aquilo fosse acabar, sempre reclamando que era muito grande. Quando terminou e perguntei o que tinha entendido, me disse:
- Eu entendi, toda a história.
- Tá, tudo bem. Mas me diz o que tem na história?
- Se você continuar me perguntando assim, eu fico com vergonha.
- Tá bom, foi mal. Mas você não quer me contar nada da história?
Mais uma vez uma risadinha maliciosa.
- Você não entendeu nada da história, né?
- Não, eu não entendi nada – E caiu em gargalhadas.
Minha mãe pediu que lesse a história mais uma vez e ele fingiu estar dormindo e o caso se encerrou por aí. Nesse momento comecei a olhar mais atentamente para meu sobrinho e minha tristeza interior começou a se expandir ainda mais. O menino estava muito gordo, não que fosse necessário seguir as regras malucas impostas pelos atuais padrões de beleza, mas com certeza com todo aquele peso a saúde dele não ia lá muito bem. Passava horas e horas em frente à TV, assistindo uns desenhos que eram até legais, na verdade bem malucos, penso que deveriam ser bons pra imaginação. Mas afinal, qual era a concretude que ele dava para toda aquela imaginação? Gostava de desenhar, eu já havia insistido com minha mãe mais de uma vez para que colocasse o menino num curso de pintura, mas ela sempre negligenciava isso, preferia pagar as aulas de natação. Se nadava tanto, porque continuava gordo daquele jeito? Ele parecia ser um garoto de poucos amigos, na verdade, suas amizades pareciam se construir muito mais no mundo digital.
De onde veio tudo isso? Foi uma escolha dele? Foi influência dos próprios hábitos da minha família? Uma mescla das duas coisas? O mais provável é que realmente fosse essa mescla, mas será que a condição do garoto era parecida com das demais crianças? É claro que o recorte financeiro devia fazer diferença, mas quando eu refletia parecia que todas as crianças do mundo estavam cada vez mais fadadas à merda. Esse menino tinha salvação? Salvação do que? Salvação para que?
- O que você tá me olhando? – Perguntou ele.
Nem respondi, mergulhava tão profundo nos meus pensamentos que automaticamente meu corpo se levantou e se recolheu para seu casulo no quarto. Lá abracei mais uma vez Dostoiévski. A personagem principal era extremamente contraditória entre supostamente se suas ações eram certas ou não, ou se ela estava até mesmo acima de tudo aquilo. Que fazer o errado se justificava pelo certo que viria depois. Nada dos dilemas daquela personagem estavam ajudando a me livrar daquela tristeza expansiva, mas faziam com que mergulhasse ainda mais fundo nos meus pensamentos, chegou uma hora que simplesmente me perdi do livro.
- Preciso visitar alguns parentes. Sim preciso visitar eles, estão todos morrendo, estão todos moribundos, mas preciso encarar tudo isso de frente. Preciso visitar minhas duas tias, elas são as principais, uma já está bem velha, a outra teve um derrame. Preciso vê-las. Tem minha vó, mas ela veio me visitar ontem, como havia esquecido isso?
No dia anterior estava parado na porta da cozinha, em pé, sem camisa, só de bermuda, segurando uma grande caneca com água dentro. Provavelmente aquele era um dos momentos em que estava perdido também nos meus pensamentos, mas ainda não acometido pela mesma tristeza.
- Nossa eu vi um menino aí na porta e pensei: ué, quem pode ser?
- Pois é, sou eu vó. Como a senhora está?
- Eu to bem e você Miguelin? – Era o apelido que ela me chamava.
Minha avó estava com câncer desde o início do ano e era um dos graves. Já fazia uns quatros meses que estava fazendo tratamento em Barretos. Ao que tudo indica o tratamento estava progredindo bem e a velhinha estava aguentando fortemente, mas mesmo assim que ridícula minha pergunta: “como a senhora está?”. A gente sempre sabe que as pessoas vão continuar respondendo que estão bem, se fosse o contrário, se dissessem realmente como estavam, tenho certeza que a freqüência das perguntas diminuiria.
- Também to bem vó, só na correria mesmo – Que correria era essa? A dos corpos em movimento? Todos indo na mesma direção, ou seja, a cova? Tanto eu como ela estávamos nessa mesma corrida, a única diferença é que ela estava na frente do páreo.
- É, todos estamos meu filho – Respondeu-me ela.
- Cadê o resto do povo?
- Então. Meu pai e meu irmão estão ali desmaiados no sofá, já minha mãe ta tomando banho. Vou lá chamar ela.
- Não precisa não meu filho.
- Não tem nada não vó – Nisso fui até o banheiro, bati algumas vezes na porta e avisei minha mãe que minha avó estava ali. Quando voltei, ela estava sentada em uma das cadeiras que ficava em volta da mesa da cozinha, passando o olho pelo cômodo. Reparei então que estava usando peruca. Meus Deus! O que era aquilo? Ela ficava bem melhor careca, eu já a tinha visto uma vez assim ou também ficava melhor com seu lenço na cabeça. Mas aquela peruca veio como uma punhalada no meu peito. Talvez tenha sido ali todo o princípio da minha tragédia no Natal. O princípio da minha tristeza. Eu não conseguia tirar os olhos da peruca, minha avó conversava comigo, mas era como se estivesse falando em uma freqüência que meus ouvidos não compreendiam, só conseguia olhar para maldita da peruca. Aos meus olhos ela funcionava como uma terrível pincelada, na verdade várias pinceladas, uma verdadeira composição a parte da realidade que estava ali para me demonstrar concretamente todo o horror da condição humana que Balzac e Dostoiévski falavam sobre. Maldita peruca!
Pelo que eu me lembro, toda a conversa foi sobre uma tentativa de roubo a um carro forte na volta dela de Barretos. É, acho que realmente não passou disso. Mas e minhas tias? Eu precisava visitar elas de qualquer maneira. A visita de minha avó foi apenas o princípio, eu necessitava mais do que tudo ficar diante das duas, diante daquela condição. Precisava olhar para o cru da humanidade.
- Mãe, quando der, vamos visitar minha tia Soraia e minha tia Holga?
- Tá bom, assim que a gente almoçar a gente vai.
O almoço só foi sair no meio da tarde, mas como minha mãe disse, aconteceu. Pegamos o carro, meu pai foi dirigindo, eu ao seu lado sentando no banco da frente e minha mãe foi junto com meu sobrinho Hugo sentados nos bancos atrás. Minha tia Soraia foi a primeira a visitarmos. Ela não estava na casa dela, estava na casa de outra tia minha, ambas eram irmãs do meu pai. A distância era um pouco longa, acho que gastamos uns vinte minutos até lá.
Quando chegamos, minha tia Soraia estava na porta, sentada numa daquelas cadeiras de fio de nylon, fazia muito calor naquela hora e a maioria das pessoas tinha o costume de ficarem sentadas na beira da rua.
- Oi tia, como a senhora ta? Disse eu a ela.
Nisso ela abriu a boca e começou a chorar. Deu pra ver todos os dentes dela, eram bem curtos e tortos, não sei se estavam quebrados ou se simplesmente eram daquele jeito mesmo.
- Para de chorar so! – Minha mãe deu uma bronca nela.
Talvez pela bronca, talvez porque o choro já estava lhe cansando, talvez porque esqueceu o motivo de estar chorando, poucos minutos depois já parecia estar bem sossegada em sua cadeira. Minha outra tia estava no fundo da casa, vendo que chegamos veio ao nosso encontro nos receber.
- Oi tia, como você tá?
- To bem meu filho, e você? Parece que você ta cada vez maior ou é a gente que só ta encolhendo mesmo? – Essa piada era clássica na família, mas de certo modo acho que fazia sentido. Na medida em que os anos iam passando, realmente parecia que os mais velhos só iam encolhendo. Será que, quando velhinho eu também me transformaria em um hobbit?
- Vamos entrar pra dentro gente, vamos sentar aqui na cozinha.
- Não, vamos ficar lá fora mesmo – disse minha mãe.
- É, ta muito calor hoje, lá fora ta mais fresquinho. – Comentei também.
Então todos sentaram na porta da casa. Meu sobrinho seguindo os seus instintos mais primitivos começou a repetir várias vezes a mesma frase?
- Tia, me dá chocolate. Tia, me dá chocolate. Tia, me dá chocolate. Tia, me dá chocolate. Tia, me dá chocolate.
- O Huguinho não tem chocolate, mas tem aquela bolachinha de morango que você gosta, você quer?
- Não, eu quero chocolate.
- Hugo! Para com isso! Daqui a pouco a gente compra um chocolate pra você – Disse minha mãe para ele.
- Você quer ir no supermercado então? Haha eu já to oferecendo pra ela, pra gente ir no mercado tem mais de semana e ela não quer, agora de repente ela resolve ir. – Disse tudo isso em um tom brincalhão, meu pai, porque minha tia Soraia pediu pra ele que a levasse no supermercado.
- É que eu quero comprar umas coisas pra casa sabe? Um papel higiênico, um sabão pra lavar roupa, tem uma marca que deixa as roupas muito cheirosas, você só põe um pouquinho e rende até. Acaba que compensa.
- Então vamos lá – Nisso meu pai e tia Soraia entraram no carro e saíram, deixando eu, minha mãe, minha outra tia e o pequeno Hugo conversando a beira da rua.
- Tia, me dá bolacha – Pediu meu sobrinho.
- Vou lá pegar pra você fi.
- Não, vai lá e pega Hugo, você dá conta – Retrucou minha mãe.
Meu sobrinho levantou e foi buscar suas bolachas na cozinha.
- Hoje eu fui fazer uma omelete né, dae a Soraia não deixou eu fazer, falou que ela que ia fazer, que eu não sabia mexer com isso. Ou, mas ela colocou tanto ovo na omelete, um tanto de sal também, que acabou virando um ovo mexido.
- Ela perdeu a mão pra cozinhar né, depois do derrame? – Perguntou minha mãe.
- Perdeu, ela não tá muito boa pra cozinhar mesmo não, a omelete, aliás, o ovo mexido né, ficou super salgado.
- Nossa que estranho, minha tia Soraia era tão boa pra cozinhar.
- Ixi, depois que ela teve o derrame, até pra fazer crochê, ela não tá dando conta. Antes ela fazia um tapete enorme, num instantin. Hoje em dia, ela começa, vê que não tá dando conta, enfeza, desmancha tudo e joga pra lá. – Comentou minha mãe.
- Caramba! – Foi a única coisa que eu consegui dizer.
- E o Marcelo seu filho, ele ta namorando? – Perguntou minha mãe pra minha outra tia.
- Tá nada. A namorada dele deu um pé na bunda dele. Agora ele fica aí, quase todo dia enchendo o cú de cachaça. Mas se ele ta pensando que eu vou ficar sozinha, rumn, ele tá muito enganado. Eu vou só dar uma repaginada em mim, porque eu to meio caída e vou à luta minha filha.Você não gosta de ficar sozinho não, né Miguel?
- Quase ninguém nesse mundo gosta tia, são poucos que tem esse dom.
- Nossa, ficar sozinha é muito ruim. Você adoece, não tem ninguém pra cuidar de você, pra te dar um remédio, pra dormir junto, é muito ruim. – Respondeu minha tia.
- Não deveria ser assim né. Precisar casar, pra não ficar sozinho. Todo mundo poderia ajudar todo mundo, até mesmo aqueles que a gente não conhece. – Disse eu à ela.
- Pois é, que nem uma tribo né. Os índios que são assim. Às vezes, eu acho que eles é que são espertos viu. – Colocou sabiamente minha tia.
- Pois é, também acho tia.
Logo em seguida meu pai e minha tia Soraia retornaram trazendo as compras. Uma das compras inclusive, era um saco de bombons. Imaginem vocês, que mais uma vez movido por seu instinto primitivo, os olhos do meu sobrinho brilharam ao ver esse saco de bombons.
- Vovó me dá chocolate.
- Tá bom, vai lá e pega meu filho.
Ele já saiu correndo pra buscar os chocolates.
- Você já vai encher o menino de doces – Comentou meu pai.
- Ai, ele nem come o dia inteiro como você ta dizendo, come? – Minha mãe perguntou isso olhando pra mim, na esperança que eu fosse concordar com ela.
- Na verdade, come sim mãe. Ele come o dia inteiro assistindo televisão.
Então, Hugo voltou com as mãos cheias de bombons. Arrependida minha mãe ordenou que ele pegasse só um bombom pra ele e que desse os outros pros demais que estavam ali. Com os olhos cheios de água o menino começou a oferecer os bombons para as pessoas, numa tristeza que quase dava dó. No fundo era um bom menino, só estava sendo uma marionete do próprio estômago.
Passado esse episódio e por insistência do próprio Hugo, decidimos ir embora. Quando despedi da minha tia Soraia, abriu a boca pra chorar mais uma vez, mais uma vez foi repreendida pela minha mãe, a única novidade foi que meu sobrinho disparou a dar risada. Qual era a graça que via naquilo? Talvez a miséria e o cômico sejam muito parecidos e nem sempre as crianças saibam fazer a distinção entre eles.
Na volta pra casa, foi justamente o momento em que meu peito estava apertado, foi o momento que percebi que de algum modo meu pai compartilhava dos meus sentimentos, provavelmente por ter visto a situação em que se encontrava a sua irmã. Passei a viagem toda num absoluto silêncio. Quando chegamos em casa, assim que descemos do carro, avistei minha tia Holga fechando o portão da casa dela. Era vizinha nossa. Saí do carro e fui diretamente em sua direção.
- Tia Holga?
- Ô Miguelzin, nem vi que você tava aí. Faz muitos dias que você chegou?
- Faz não tia, eu cheguei ontem à tarde.
- Vamo entrar meu filho.
- Vamos sim tia.
- Então vamo ué.
Não sei se minha mãe estava esperando por isso, mas a maneira como eu aceitei o convite tão rapidamente, não restou outra alternativa a ela que não fosse entrar também. Descemos então a rampa para carros que dava acesso a garagem da casa e logo depois visualizava-se a porta da sala. Do lado esquerdo da rampa ficava o jardim dos meus tios, ainda era um jardim com muitas plantas, porém já não estava tão bem cuidado como na época em que eu era criança. Meu tio era muito zeloso com as plantinhas, na minha cabeça era o jardim mais bonito do mundo, não podia ser, mas pelo menos da rua era, todos ficavam admirados com as flores que meu tio cultivava. Mas ultimamente ele estava muito doente e já não conseguia levantar-se da cama e a saúde da minha tia já não estava das melhores também, sendo assim, eles não conseguiam cuidar do jardim com o mesmo zelo de antes.
Quando entramos na sala dei uma observada em toda ela. Que diferença! As paredes estavam com a pintura desbotada e em muitos lugares estavam cheias de reboco feito com barro. Na minha infância e quando meus tios eram mais novos, aquela sala era magnífica, tudo sempre muito limpo, os móveis brilhando e distribuídos de uma maneira que sempre se tinha aquela sensação de que ali naquela casa até o chuveiro era sério e respeitoso. Mas para além das paredes, havia poucos móveis na sala, somente um sofá encostado num canto, uma cadeira perto da entrada que dava acesso à sala de jantar e alguns colchões e estrados de cama encostados em outra parede. Lembro que ela começou a dizer sobre o seu neto, que havia dado um dinheiro para ele, mas a mãe acabou gastando e o menino ficou muito bravo. Mas de repente algo na conversa me chamou a atenção: ela disse que seu netinho não gostava de gente preta e de uma maneira muito natural. Como assim? O menino já tinha nascido com um dom pra nazista? Não, minha tia dizia tudo aquilo com um certo orgulho possível de ser lido nos seus olhos.
- Vamos embora então – Minha mãe já ia se levantando quando eu a interrompi.
- Meu tio tá dormindo tia?
- Vamo lá ver ele, vamo lá.
Acho que até levantei do sofá em que estava primeiro do que ela levantou-se de sua cadeira, depois nos dirigimos pro quarto. Meu tio estava deitado no centro de uma cama de casal encoberto por um lençol branco. Os móveis do quarto ainda eram os mesmos da época da minha infância, todos de madeira maciça e bem ornamentados: uma cama, um grande guarda roupas fixo na parede e de frente pra cama uma cômoda com um grande espelho oval ligado a ela logo acima. Minha cabeça girava por causa das perguntas que não paravam de surgir nela. Se meu velho tio conseguisse erguer um pouco a cabeça e olhasse naquele espelho, qual seria a visão dele? O que ele pensaria sobre?
Assim que entramos no quarto minha tia puxou o lençol que o cobria revelando que ele estava usando um fraldão.
- Bem, o Miguelzin tá aqui.
- Ahn? Ah sim, é, ele foi lá ontem... disse que tava lá. – Meu tio disse essas palavras duma maneira muito desconexa.
Minha tia estava sentada na beira da cama, enquanto eu e minha mãe estávamos sentados em duas cadeiras que davam de frente pra cama. Meu tio olhava fixamente para o teto e enquanto as duas falavam sobre as plantas do jardim, ele tecia comentários que não faziam nenhum sentido. Será? O que se passava na cabeça daquele velho homem? Pensar que um dia ele já foi tão forte. Conseguia derrubar um boi somente torcendo o nariz do bicho. Um dos meus antigos heróis naquela situação, a pele extremamente enrugada, parecia ser chupada pelos ossos, a carne já era muito escassa nele.
Tudo aquilo deixava-me cada vez pior. Por que eu tinha resolvido visitar eles? Quando as duas comentaram sobre as orquídeas que ficavam no quintal do fundo, era o pretexto que precisava pra sair daquele quarto e me levantei para ir ver as plantinhas. Assim que saí do quarto dei de cara com o velho banheiro mágico. Ele era todo azulejado com azulejos na cor de um verde água bem forte, lembro que quando tomava banho naquele banheiro parecia que me encontrava em outro universo. Agora figurava ali a cadeira de rodas do meu tio.
No quintal do fundo, seguia nas paredes e muros, grandes rebocos de barro fazendo assim um plano de fundo tenebroso para as pobres orquídeas. Conversamos ali mais um pouco sobre as flores que elas davam e quando minha mãe chamou para ir embora dessa vez não recusei, na verdade aceitei de cara.
- Não gente, fica mais.
- Não tia, a gente precisa ir embora, ainda to meio cansado da viagem. Preciso descansar.
- Tá bom meu filho, depois eu vou lá te ver então.
- Vai mesmo tia, to te esperando então.
Chegando em casa eu simplesmente desabei em um dos sofás, meu pai mais uma vez se encontrava desmaiado em outro. A sala estava escura, o sol já tinha se posto, liguei a TV e coloquei num canal de jazz clássico, essa era uma das poucas serventias que a TV a cabo dos meus pais tinha. Os solos de sax e trompete fizeram-me esquecer um pouco dos meus tormentos, acho que até cochilei um pouco.
Quando acordamos já estava quase na hora de irmos para a festa de Natal que ia ser na casa de uma prima distante da minha mãe. Lembro também que um pouco antes de começarmos a arrumar para a festa eu e meu pai tivemos uma discussão sobre os rumos que minha vida tinha que seguir.
- Eu ainda não conformo de você ter largado sua carreira acadêmica.
- Por que pai? Eu já te disse mais de uma vez que a faculdade abriu muito meus horizontes, mas hoje em dia se eu continuasse lá eu só me limitaria. Não quero mais ter que ficar cumprindo prazos e escrevendo coisas que ninguém lê pai, aquilo lá é uma grande bolha.
- Mas meu filho, se você realmente quer mudar o mundo, você precisa ter uma estrutura, você precisa ser alguém. Ser um doutor, um juiz, pra poder dizer como as coisas vão ser.
- Hahaha – não consegui conter o riso – Pai, você realmente acha que ocupar uma posição de poder dessas, vai adiantar? Você acha que eu não seria assassinado ou deposto?
- Ué meu filho, mas o lá da Amazônia também foi morto... o... o... o Chico Mendes.
- Pois é pai, pra mim tem que mudar tudo, não dá pra querer ficar subindo e depois mudar as coisas. Ma sei lá viu, eu ando bem descrente, eu tenho a plena ciência que as coisas só vão mudar quando as pessoas quiserem que mude, quando a maioria das pessoas fizer pra que mude.
Nisso o velho parou, mirou ao longe e disse:
- É, é tanta hipocrisia, tanta podridão, isso inclusive a minha volta, na minha própria família, eu não dou conta de fazer nada.
- Mas é porque a maioria das pessoas pensa assim, que não pode fazer nada, que as coisas não mudam.
- Fazer o que meu filho? O que é que eu posso fazer? Eu não to dando conta de ajudar os meus próprios irmãos.
Agora foi a minha vez de mirar ao longe. O velho também estava certo. Tanto eu como ele, sabíamos que o buraco era muito mais em baixo, na verdade, acho que a maioria das pessoas sabia disso, mas afinal, todo mundo tinha que sobreviver.
Na festa de Natal, tudo normal. Era notável que não haveria barracos como no ano passado, a família da minha mãe era muito mais contida e havia ali poucas pessoas. Quanto menos gente houver, menor o risco de barracos. Minhas primas estavam parecendo duas modelos, dois mulherões e uma delas tinha apenas quinze anos.
- Meus Deus! Você ta cada vez maior! – Falei pra ela quando a cumprimentei. Que frase de velho essa minha, ela nem se deu ao trabalho de responder-me.
E realmente o resto da noite foi bem tranquila, comemos muito, bebemos um pouco, contamos algumas piadas, fizemos a reza na hora da virada. Só teve uma tia minha reclamando sobre as músicas, de que não gostava de Pink Floyd e que preferia Gustavo Lima, vai entender né. E ela não estava já velhinha pra isso não? Enfim, acabamos voltando pra casa até um pouco cedo.
No dia seguinte, madruguei. Fiz minha mala, decidi colocar o pé na estrada. Escrevi um bilhete de despedida pros meus pais e deixei em cima da mesa da cozinha. Nele desejava feliz Natal pros dois e um feliz ano novo também, agradecia por toda hospitalidade e também dizia como os amava. Mas como assim? Vocês devem estar pensando. E toda aquela tristeza crescente, pra onde foi? Realmente é só um babaca amargurado, criticando tudo que vê.
A parte do babaca deve ser a maior verdade de tudo isso. Mas querem saber o real motivo da minha tristeza? O que me deixa mais triste não são as pessoas, mas sim a condição em que estamos inseridos. Ver as pessoas que amo nessa condição. Condição criada pela própria humanidade, me entristece saber que somos responsáveis por isso, por nossa própria cova e cada dia que passa estamos nos encaminhando pra ela. Todos nós, no meio disso cada uma faz suas acrobacias, mas não adianta, cedo ou tarde vamos estar como meu tio, olhando para o teto branco e caso consigamos erguer um pouco a cabeça vamos nos deparar com o nosso próprio reflexo, o reflexo de toda uma vida e que agora está moribunda e no fundo do espelho a morte nos olha e ainda dá uma piscadinha.
Abri a porta da cozinha, saí e antes de ir pra rua acendi um cigarro. Não costumava fumar, mas nessa ocasião que se foda, era a minha piscadinha pra morte também. Nisso meu tio Arnaldo chegou.
- Cara, você não tem um Legião Urbana aí, pra eu escutar?
Eu não era muito chegado na banda, mas fucei no meu celular, que não era dos mais modernos mas tocava música, e por incrível que pareça acabei achando algumas músicas do acústico deles.
- Tem essa aqui oh. – E coloquei a música pra tocar. Era Teatro dos Vampiros.
- Noh Renato Russo hein cara.
- Pois é – dei mais uma tragada no cigarro.
- Me arruma um cigarro?
- Arrumo sim. – Tirei um do maço e joguei pra ele, quando colocou na boca já acendi.
- Você ta aonde?
- To em Campinas tio.
- Campinas. O Mário Augusto fez medicina em Viçosa, ele até tentou passar em Campinas, mas não deu conta.
- É mesmo? Medicina lá deve ser muito concorrido né.
- Medicina cara, você tem que ser o... Ele morava com uns japoneses. Eu conhecia muitas pessoas, de todos os lugares. Conhecia os japoneses, os alemães, os europeus. PAIS E MÃES PASSEANDO COM OS SEUS FILHOS PRA CIMA E PRA BAIXO.
Nessa hora apaguei meu cigarro e senti um arrepio que começou no inicio da minha espinha e foi até o final. “Pais e mães passeando com os seus filhos pra cima e pra baixo”. Mario Augusto nunca existiu, o meu tio era esquizofrênico, mas nesse exato momento, com aquela frase entendi que diferentemente de nós ele estava livre de tudo isso. Será? Nunca iríamos saber, só isso já o colocava em outro patamar.
- Tchau tio. – Com os olhos cheios d’água abracei-o fortemente, acho que eu nunca havia feito isso antes. Virei-me e saí.

- Tchau Miguel – Meu tio nunca acertava o meu nome, aquela fora a primeira vez.