sábado, 24 de setembro de 2016
quinta-feira, 22 de setembro de 2016
quarta-feira, 21 de setembro de 2016
Nau Lua
Escrito por
Angela Gomes
Ensina-me
uma canção
Para
despertar a lua
Desencantá-la
do seu sono
Imerso na densidade das esferas
Componha
uma canção
Isenta
de pecados
Dissolva-os
com a saliva
Do
nosso amor trocado
Componha
uma canção
Com
notas soltas
E
acordes de jasmim
Que
seja doce e,
Dissolva
na boca
Das
noites lilases
Na
transparência do negro azul mar
fim
Afete
O
amor
O
amargo
O denso
O fraco
Clareie a lua
A
sua canção
O
afeto
O
gosto
O
som
De cifra
Astro irradiado
segunda-feira, 19 de setembro de 2016
Svalbard, I Love You
Escrito por
André Bortolon
Durante seis meses, tive a oportunidade única de morar na cidade mais ao norte do mundo: Longyearbyen, no arquipélago de Svalbard. Graças a um convite muito especial do explorador do ártico Chicco Mattos, consegui passar esse tempo de minha vida em um lugar ímpar.
Dona de uma natureza exuberante, com um clima subpolar, Svalbard possibilita aos seus visitantes e moradores a chance de testemunhar o sol da meia-noite em seu verão, e a noite polar em seu inverno. Durante a fase escura, vi um dos maiores espetáculos da natureza: a Aurora Boreal, e suas luzes verdes a dançar no céu estrelado do Ártico.
Dona de uma natureza exuberante, com um clima subpolar, Svalbard possibilita aos seus visitantes e moradores a chance de testemunhar o sol da meia-noite em seu verão, e a noite polar em seu inverno. Durante a fase escura, vi um dos maiores espetáculos da natureza: a Aurora Boreal, e suas luzes verdes a dançar no céu estrelado do Ártico.
Além do frio que senti, – com direito a um início de frostbite em meu rosto - vi uma natureza única de animais que sobrevivem ao frio intenso, e a beleza de aves que migram todo o ano para Longyearbyen. Vi a vida, através das pequenas pétalas das flores, que se multiplicam para tentar sobreviver ao verão a embelezam ainda mais este lugar, que agora faz parte de minha história, e que ficará para sempre no meu coração.
Longyearbyen, cidade mais ao norte do mundo
Rena típica de Svalbard no inverno
Eskerfossen, cachoeira congelada
O transporte mais comum de Svalbard no inverno: o snowmobile
Aurora Boreal em Adventdalen, início de março
Tempelfjorden
Uma barraca estilo indígena, clareando o branco da paisagem.
Aves migratórias - o fim do inverno chegando
Navio Nordstjernen, final de agosto
Natureza viva sobre o gelo
Eu em Magdalenefjorden
Uma foca solitária, repousando sobre uma pedra
A estátua de Roald Amundsen, o maior explorador norueguês, na localidade de Ny-ålesund
domingo, 18 de setembro de 2016
a recíproca é verdadeira
Escrito por
ofilhodoblues
eu sinto o blues o tempo inteiro,
todo dia.[1]
é minha sina, nasci com má sorte[2],
dizem,
ao menos foi o que uma cigana disse a minha mãe[3];
nasci com o blues e pronto[4],
minhas 24 horas do dia cantam os blues
incansavelmente,
e eu canto junto.
afinal, se os problemas fossem dinheiro,
eu juro que seria um milionários[5];
como não posso perder o que nunca tive[6],
eu continuo bebendo[7]
e esperando o sol bater na minha porta
algum dia[8],
pois os tempos são difíceis onde quer que você vá[9];
porque, sabe, é tão difícil amar alguém
que não ama você[10],
até porque ninguém me ama, a não ser minha mãe,
e olhe que ela pode estar bincando também[11],
mas logo eu estarei morto e dormindo a sete palmos do chão[12];
pois bem, é tanto blues na cabeça que
não sei se sou eu que sugo o blues,
ou se é ele quem me suga;
se eu o respiro ou se é o blues
que me re(in)spira.
André Espínola
[1] B. B. King – Everyday I Have The
Blues
[2] Albert King – Born Under a Bad Sign
[3]
Muddy Waters – Gypsy Woman
[4] Memphis Slim – Born With The Blues
[5] Albert Collins – If Trouble Was
Money
[6] Muddy Waters – You Can’t Lose What
You Never Had
[7] Pinetop Perkins – I Keep On
Drinking
[8] Big Bill Broonzy – Trouble In Mind
[9] Skip James – Hard Times Killin’
Floor
[10]
Son House – Death Letter
[11] B. B. King – Nobody Loves Me But My
Mother
[12] Howlin’ Wolf – How Many More Years
sábado, 17 de setembro de 2016
Vida'mor
Escrito por
Unknown
Quero a poesia madura
fruto recém colhido do pé
sabe-se lá o que é
não quero rascunho, esboço, nem tristeza
quero a palavra suculenta
antes que o fruto apodreça
quero as estrelinhas do teu corpo
afago de brisa
e sopro
quero a loucura escaldante
comer a polpa, a carnadura
a infinita tessitura do instante
quero a saliva
o sabor-a-ti, o orgasmo revigorador
antes de mais nada
quero a vida e o amor
fruto recém colhido do pé
sabe-se lá o que é
não quero rascunho, esboço, nem tristeza
quero a palavra suculenta
antes que o fruto apodreça
quero as estrelinhas do teu corpo
afago de brisa
e sopro
quero a loucura escaldante
comer a polpa, a carnadura
a infinita tessitura do instante
quero a saliva
o sabor-a-ti, o orgasmo revigorador
antes de mais nada
quero a vida e o amor
sexta-feira, 16 de setembro de 2016
Chuva de canivetes
Escrito por
Júlio Freitas
Pensava em um rumo
todos ali esperavam
todas as gotas
todos os minutos
todos ansiosos
aos poucos
eles iam embora
sozinhos
casais
ou grupos
tão escuro
tão frio
tão nervoso
estava na parada
seu ônibus
nunca veio.
todos ali esperavam
todas as gotas
todos os minutos
todos ansiosos
aos poucos
eles iam embora
sozinhos
casais
ou grupos
tão escuro
tão frio
tão nervoso
estava na parada
seu ônibus
nunca veio.
quarta-feira, 14 de setembro de 2016
terça-feira, 6 de setembro de 2016
sábado, 27 de agosto de 2016
São Thomé das Letras (MG)
Escrito por
Glauber Vieira
A cidade de São Tomé das Letras é um dos meus lugares preferidos, e sempre dou um jeito de passar por lá quando vou a minha Varginha, a uns 40 km de distância. A cidade é famosa pelo misticismo, bons restaurantes de comida típica e cachoeiras.
Não por acaso, mereceu uma poesia bem humorada, que estará no meu próximo livro, Poesia Estradeira:
São Thomé das
Letras
A nave
do ET de Varginha estava com o GPS quebrado
O que
queriam mesmo
era
flanar por São Thomé
pousar
perto da Pirâmide, de madrugadinha, sem ninguém por perto
sentar
no telhado, a 1400 metros de altitude
discar o
DDI, Discagem Direta Intergaláctica
e falar
com a patroa:
“Meu
bem, aqui é lindo! Daqui vejo nossa estrela:
tô pertim de casa!”
Do alto da gruta onde começou São Thomé, se vê a igreja matriz na praça
Igreja do Rosário
Pracinha com a estátua de Chico Taquara, morador já falecido, tido por alguns como um representante de outros mundos...
Uma lojinha de artesanato local, na entrada da cidade
quarta-feira, 24 de agosto de 2016
segunda-feira, 22 de agosto de 2016
Cinzas
Escrito por
Rodrigo Domit
Em uma metrópole qualquer. Debaixo de uma chuva fina, mas tão fina que se tornava quase invisível, caminhavam lado a lado, de mãos dadas, o garotinho e a mãe. A mãe ia andando com pressa, sem dar atenção ao filho, arrastando-o pela mão.
Quando eles pararam em um cruza-mento, esperando o sinal abrir, o garotinho girou o pescoço e reparou no mundo à sua volta: nas centenas de pessoas apressadas, nas plantas, pássaros, prédios e tudo o mais. Após uma breve análise, por sinal muito precisa, ele virou-se para a mãe e perguntou:
– Mamãe, se os passarinhos são coloridos, as plantas são coloridas, os prédios são coloridos e até mesmo a comida é colorida... Por que é que as pessoas são assim, cinza?
E ele ficou olhando, esperando por uma resposta. Enquanto o rosto da mãe, por vergonha, passou de cinza para rosa.
domingo, 21 de agosto de 2016
Contraste
Escrito por
Angela Gomes
Como
pode haver poesia
Se
existem barrigas vazias
Se
há crianças em perigo
Refugiados
sem abrigo
Se
o medo é companheiro
A
liberdade usurpada
A
convivência insana?
Mas,
poesia é tão intensa que,
Crava n’ alma as dores e,
Faz
ouvir os gritos de pavores
Perceber
o amargo do sangue
As
cores que o corte derrama
A
lucidez que a tez exclama!
Rogo
em prece às Musas
Para
que o bom senso que jaz reviva
Como
brotos depois da chuva
Como
a paz que trazem as flores
Para
que viver e a Primavera
Continuem
a fazer sentido
(Angela
Gomes, 23/09/2015)
quarta-feira, 17 de agosto de 2016
Poetizo-me
Escrito por
Unknown
Faço de mim carne
Corpo para Deus manifestar-se
Faço de mim mente
Para Deus meus pensamentos povoar
Faço de mim espirito
Alma para Deus abençoar-me
E enfim faço de mim pássaro
Para com a liberdade poder voar.
Corpo para Deus manifestar-se
Faço de mim mente
Para Deus meus pensamentos povoar
Faço de mim espirito
Alma para Deus abençoar-me
E enfim faço de mim pássaro
Para com a liberdade poder voar.
terça-feira, 16 de agosto de 2016
Feito o diabo fugindo da cruz
Escrito por
Júlio Freitas
Ela saiu correndo
e o derrubou
e atordoado,
custou a perceber
o que havia acontecido
forçou as vistas
procurando
e foi atrás dela
Dobrou a esquina
e pôde vê-la
estava longe
nada mais a fazer
Lá se ia a sua boa sorte,
tropeçando num gato
e se esparramando numa roseira.
e o derrubou
e atordoado,
custou a perceber
o que havia acontecido
forçou as vistas
procurando
e foi atrás dela
Dobrou a esquina
e pôde vê-la
estava longe
nada mais a fazer
Lá se ia a sua boa sorte,
tropeçando num gato
e se esparramando numa roseira.
domingo, 14 de agosto de 2016
domingo, 24 de julho de 2016
sexta-feira, 22 de julho de 2016
Sutil
Escrito por
Rodrigo Domit
Cantarolando, colheu do chão uma flor cheia de pétalas. Delicadamente, retirando pétala por pétala, começou a falar, entre sorrisos e suspiros:
– Bem me quer... Bem me quer! Bem me quer... Bem me quer!
Um amigo um tanto sem sal, e totalmente sem açúcar, interrompeu:
– Não! Não é assim!
Ao que ele respondeu:
– Você só diz isso porque você não conhece ela!
E continuou sorrindo.
quinta-feira, 21 de julho de 2016
Conversas a sós
Escrito por
Angela Gomes
Conversas a sós,
Entre mim e,
Sombras que me habitam.
Entre as que me agradam
E, as que me irritam.
Na solidão de uma cela
Cheia da minha companhia.
No aconchego do descanso
E, terror da luz que as clareia.
Entre, quem ama e se odeia.
Entre o que se conhece
E o que não se imagina.
Ante a contemplação
Do que nunca termina...
Cosmos em átomos...,
Moléculas em desenhos abstratos.
Meu amor em um porta-retrato
Desbotado pelo tempo
Perdido.
(08/09/2013)
quarta-feira, 20 de julho de 2016
terça-feira, 19 de julho de 2016
Bush Doctor
Escrito por
André Bortolon
Arnaldo saiu de casa no horário de sempre. Banho tomado, cabelo penteado e baseado enrolado. Entrou no carro, selecionou no seu pen drive a sua coletânea preferida do Bob Marley, ligou o ar condicionado no talo e seguiu o seu tradicional trajeto da semana, por entre as ruas da cidade.
Arnaldo já sabia o tempo de percurso, tanto que sabiamente fechava o seu baseado tamanho extra large para, metricamente, fumar metade no caminho de ida, e a outra metade na volta. Sempre atento aos policiais ou guardas de trânsito, Arnaldo já tinha tanto a manha da coisa que escondia por entre seus dedos o cigarro de maconha de uma forma que poucos, ou ninguém, conseguiria perceber de fora o que era. Além de quê, seu carro tinha película e, devido ao calor tropical de sua cidade, Arnaldo sempre dirigia com os vidros fechados.
Na batida do reggae, Arnaldo prensava sua cannabis e viajava ao som do rei. Nada tirava-o do sério durante o seu ritual matinal. O trânsito, o stress, as discussões, tudo ficava de lado nessa hora. Absolutamente nada fazia Arnaldo perder sua calma. Apenas ele e seus dois Bobs, um no som do carro, o outro indo direto para a sua mente. Simples assim.
Quando o seu cigarro chegava à metade, Arnaldo já se punha a apaga-lo, geralmente entre as avenidas 07 de Setembro e Pedro II. A partir dali, se nada de anormal acontecesse, eram menos de quinze minutos até o seu destino final. Tempo para mascar um chiclete, e olhar no retrovisor a vermelhidão dos olhos. Mesmo tendo mais horas de fumo do que urubu tem de voo, Arnaldo ainda achava graça em olhar a si mesmo com as pupilas dilatadas – assim como quando era adolescente, antes ainda de entrar para a faculdade, quando Arnaldo fumara seus primeiros beques. Sim, Arnaldo parecia não perder aquele seu lado infantil, mesmo já estando perto dos quarenta – afinal, para ele, aquilo sim era a mais pura alegria.
Ao estacionar seu carro na vaga de sempre, Arnaldo pegou o colírio e pingou em seus olhos. Borrifou um pouco de perfume por entre os dedos e pelo pescoço e entrou no prédio comercial. Ao chegar no consultório, foi já de cara avisado pela secretária:
- Bom dia Doutor Arnaldo! Bem, são cinco pacientes agendados para a manhã, e quatro para a tarde de hoje. Isso se o seu Azevedo não aparecer aqui lá pelas duas horas. Aí já viu né... o que digo pra ele?
- Diga que espere. Se ele quiser uma reconsulta, vai ter de pagar. Não adianta querer fazer pelo plano, viu?
- Ah, vou dizer pra ele. Nossa, já estou até vendo a cara dele... Bem, já deixei seu chá gelado no frigobar e o café expresso na sua mesa, doutor Arnaldo. A primeira paciente já deve estar chegando...
- Obrigado, Marialva. Até mais!
Arnaldo entrou em seu consultório e ficou cantarolando a última música que escutara no carro. Bebericou o café e viajou o que pôde, até que sua primeira paciente chegasse e acabasse com sua festinha particular.
Arnaldo já sabia o tempo de percurso, tanto que sabiamente fechava o seu baseado tamanho extra large para, metricamente, fumar metade no caminho de ida, e a outra metade na volta. Sempre atento aos policiais ou guardas de trânsito, Arnaldo já tinha tanto a manha da coisa que escondia por entre seus dedos o cigarro de maconha de uma forma que poucos, ou ninguém, conseguiria perceber de fora o que era. Além de quê, seu carro tinha película e, devido ao calor tropical de sua cidade, Arnaldo sempre dirigia com os vidros fechados.
Na batida do reggae, Arnaldo prensava sua cannabis e viajava ao som do rei. Nada tirava-o do sério durante o seu ritual matinal. O trânsito, o stress, as discussões, tudo ficava de lado nessa hora. Absolutamente nada fazia Arnaldo perder sua calma. Apenas ele e seus dois Bobs, um no som do carro, o outro indo direto para a sua mente. Simples assim.
Quando o seu cigarro chegava à metade, Arnaldo já se punha a apaga-lo, geralmente entre as avenidas 07 de Setembro e Pedro II. A partir dali, se nada de anormal acontecesse, eram menos de quinze minutos até o seu destino final. Tempo para mascar um chiclete, e olhar no retrovisor a vermelhidão dos olhos. Mesmo tendo mais horas de fumo do que urubu tem de voo, Arnaldo ainda achava graça em olhar a si mesmo com as pupilas dilatadas – assim como quando era adolescente, antes ainda de entrar para a faculdade, quando Arnaldo fumara seus primeiros beques. Sim, Arnaldo parecia não perder aquele seu lado infantil, mesmo já estando perto dos quarenta – afinal, para ele, aquilo sim era a mais pura alegria.
Ao estacionar seu carro na vaga de sempre, Arnaldo pegou o colírio e pingou em seus olhos. Borrifou um pouco de perfume por entre os dedos e pelo pescoço e entrou no prédio comercial. Ao chegar no consultório, foi já de cara avisado pela secretária:
- Bom dia Doutor Arnaldo! Bem, são cinco pacientes agendados para a manhã, e quatro para a tarde de hoje. Isso se o seu Azevedo não aparecer aqui lá pelas duas horas. Aí já viu né... o que digo pra ele?
- Diga que espere. Se ele quiser uma reconsulta, vai ter de pagar. Não adianta querer fazer pelo plano, viu?
- Ah, vou dizer pra ele. Nossa, já estou até vendo a cara dele... Bem, já deixei seu chá gelado no frigobar e o café expresso na sua mesa, doutor Arnaldo. A primeira paciente já deve estar chegando...
- Obrigado, Marialva. Até mais!
Arnaldo entrou em seu consultório e ficou cantarolando a última música que escutara no carro. Bebericou o café e viajou o que pôde, até que sua primeira paciente chegasse e acabasse com sua festinha particular.
segunda-feira, 18 de julho de 2016
México 70 - A Copa que eu não vi
Escrito por
Zulmar Lopes
Será possível alguém sentir saudades daquilo que não vivenciou? Por mais estranho que pareça, eu sinto, pois sempre me lembro com nostalgia da Copa do Mundo que, com meros quatro anos de idade, eu não vi. Ele foi disputada no México, 1970, quando onze homens vestiram a camisa amarela da seleção brasileira e juntos elevaram o futebol à categoria de obra de arte.
Esqueçam tudo o que ouviram falar do governo Médici, seus porões sangrentos e a utilização do futebol como massa de manobra para manter o povo alienado e em seu lugar. Ignorem milagres econômicos, Guerra do Vietnã ou o movimento hippie. Procure no Youtube a Copa de 70 e foque-se apenas nas quatro linhas que demarcaram o campo de batalha do Estádio Jalisco, na cidade de Guadalajara. Naquele longínquo mês de junho, o “scratch canarinho” como era carinhosamente chamada a seleção, apresentou um espetáculo futebolístico nunca visto antes e quiçá impossível de ser reapresentado pois, a despeito do futebol haver mudando tanto em disciplina tática quanto nos aprimoramentos físico e técnico, as peças do xadrez eram outras, e de qualidade infinitamente superior ao que vemos hoje.
Para começar, havia um deus de ébano no esplendor de sua forma física, tecnicamente perfeito e amadurecido nos seus trinta anos de idade. Pelé, simplesmente o Rei, que conseguiu a façanha de ficar eternizado na Copa em que foi magistral não pelos gols assinalados, mas pelos perdidos. Veja, reveja e deslumbre-se com o seu chute do próprio campo contra a meta adversária e o desespero do goleiro theco, ou a clássica cabeçada defendia pelo inglês Gordon Banks, jogada responsável pela fama do arqueiro da seleção inglesa por muitos anos, ou ainda a incrível, fantástica, esteticamente maravilhosa meia-lua sem tocar na bola contra um goleiro uruguaio de prosaico nome polonês. No México Pelé foi perfeito, um maestro acompanhado pelo spalla Tostão, talentoso meia do Cruzeiro que meses antes sofrera um grave descolamento de retina e, do inferno a redenção, brilhou em terras aztecas. Justamente no confronto mais difícil, contra o “English Team”, consagrado campeão do mundo quatro anos antes, Tostão deixou sua marca em uma jogada individual pelo lado esquerdo onde, após provocar um salseiro, passou a bola para Pelé que, com um simples toque para lado, deixou Jairzinho livre para decretar a magra, contudo heroica vitória por um a zero.
Como esquecer de Jairzinho, o Furação da Copa? Seis jogos, seis gols, façanha nunca antes alcançada, nosso camisa sete levou pânico as defesas adversárias com suas arrancadas mortíferas. Tivemos ainda Rivelino e sua patada atômica; Brito zagueiro raçudo, considerado o pulmão da copa; Carlos Alberto, nosso eterno capitão que perpetuou o gesto de beijar a taça Jules Rimet (que como dizia o samba-enredo “derreteram na maior cara-de-pau”); a juventude veterana de Clodoaldo, a organização tática e os lançamentos milimétricos de Gerson, o canhotinha de ouro; a classe de Piazza, a discrição de Félix e Everaldo.
Campanha sem igual, coroada com a brilhante exibição na final disputada na Cidade do México. Um 4 x 1 convincente contra a seleção italiana, tão diferente destas finais insossas que nos acostumamos a presenciar nas últimas Copas.
Parafraseio Pablo Neruda e confesso que não vivi o momento, não vi a maior seleção de futebol de todos os tempos mas, graças ao milagre tecnológico, este espetáculo está ao alcance de qualquer mortal . Aprecie sem moderação.
domingo, 17 de julho de 2016
Flor dos meus pensamentos
Escrito por
Unknown
Meus pensamentos
são como uma flor
que desabrocha com o tempo
chamuscada pelo sol
despetalada pelo vento
são como uma flor
que desabrocha com o tempo
chamuscada pelo sol
despetalada pelo vento
sábado, 16 de julho de 2016
Onda
Escrito por
Júlio Freitas
aquele ali é hippie e está na moda
aquele outro é vegano porque é moda
fulano envenena o próprio corpo
e se diz preocupado
com a natureza
ciclanos e beltranos
estão dizendo que não vai ter copa
e tantos tantos outros
batem panelas contra o governo
poucos sabem
o que realmente estão fazendo
vejo uma onda levando todo o resto
e acabando num redemoinho
alguns se salvam
ficam boiando
como merda após a descarga.
aquele outro é vegano porque é moda
fulano envenena o próprio corpo
e se diz preocupado
com a natureza
ciclanos e beltranos
estão dizendo que não vai ter copa
e tantos tantos outros
batem panelas contra o governo
poucos sabem
o que realmente estão fazendo
vejo uma onda levando todo o resto
e acabando num redemoinho
alguns se salvam
ficam boiando
como merda após a descarga.
quinta-feira, 14 de julho de 2016
sexta-feira, 24 de junho de 2016
quarta-feira, 22 de junho de 2016
Visionários
Escrito por
Rodrigo Domit
Os donos do mundo sabem que o petróleo derivou-se de animais e vegetação soterrados
Pensando no futuro, matam, desmatam e encobrem
domingo, 19 de junho de 2016
No Bar
Escrito por
André Bortolon
Seu Reginaldo estava naquela fase em que qualquer barman já pensa duas vezes se é hora de pular do balcão e tentar remover o cidadão dali. O homem não só enrolava a língua, como também cuspia de quando em quando, ao falar. Seu terno abarrotado e a gravata com nó afrouxado faziam o seu semblante lembrar o do personagem Tavares, do falecido Chico Anysio. Mas, naquela noite de terça, o barman em questão – Aníbal - não queria confusão com ninguém. Era terça, poxa. Ninguém mais entraria no bar àquela hora. Em trinta minutos, ele fecharia o bar e educadamente conduziria Tavares, ou melhor, o seu Reginaldo, para a porta do recinto. Simples assim. Além disso, Aníbal estava lendo um livro intitulado: “Quero Vencer, Não Sei o Que Fazer”, o que o fazia ponderar suas atitudes em horas como aquela. Nada como uma boa autoajuda para se manter calmo...
- Mais uma, meu filho! – ordenou em voz alta seu Reginaldo, interrompendo a pré-contagem do caixa que Aníbal fazia.
- É pra já, chefe. – Aníbal pegou a garrafa e preparou mais uma dose do uísque mais barato para o seu Reginaldo.
- Sabe que você é um bom rapaz, meu filho... Sempre fui com a sua cara!
Aníbal tentou desviar, mas algumas gotículas de saliva acertaram sua bochecha. Ele discretamente puxou um lenço do bolso e passou no rosto.
- Também acho que o senhor é boa pessoa, seu Reginaldo. Se fosse outro, eu já tinha posto a correr do bar.
- Puxa, obrigado. Um brinde a nós! Salut!
Aníbal só pegou um copo vazio e imitou o gesto do freguês, em respeito.
- Eu faço questão que você tome uma, e por minha conta, Arlindo! Você merece!
- Aníbal, seu Reginaldo. Tá aqui no meu crachá, ó. E obrigado mas, nunca bebo em serviço; vou passar essa.
- Não, não... Esse cabra é dos bons. Eu contrataria ele para trabalhar na minha empresa, com certeza! – seu Reginaldo falava para o lado, como se uma plateia de bebuns o escutasse naquele momento. Mas só havia os dois no bar.
- Se ao menos eu fosse mais novo... – continuou seu Reginaldo - ... um cara forte como você, assim, eu não casaria de novo. Ah, nunca. Isso é uma prisão, garoto. Um inferno. Já te disse outras vezes para não cometer o mesmo erro que eu, não disse?
- Sim, seu Reginaldo... E o senhor não lembra que eu já lhe contei, talvez umas três vezes, que sou casado, tenho uma filhinha de 6 anos... Por enquanto, estou feliz em meu casamento. Mas entendo que o senhor está há muito tempo casado, nem tudo dura pra sempre, a gente sabe como é...
- Sabe como é?? – seu Reginaldo se indignou que o cuspe saiu repartido em três direções desta vez. Aníbal sentiu na testa o molhado. – ...porque você não se casou com a dona Gorete. Ah, não. Essa você não ia aguentar nem um ano na sua cola. E eu que estou há mais de trinta com esse traste na minha vida. Eita cruz!!! – virando a dose, rapidamente Reginaldo esticou a mão com o copo vazio no balcão.
- A saideira, Anésio. Por favor, aí vamos tomar o rumo, o rumo da... do meretrício!
Além de trocar o nome de Aníbal o tempo todo, seu Reginaldo vinha com “expressões velhas”. Quem falava meretrício nos dias de hoje? No relógio da parede, intermináveis vinte minutos para o fechamento das portas. Aníbal segurou a onda, e serviu uma dose dupla para seu Reginaldo. Ainda disse:
- Por conta da casa. Para o senhor ir mais embalado para a sua casa, ou para a zona, seu Reginaldo.
- Uau!! Nossa, não se fazem mais barmans como você, Adílio. Infelizmente, não mais. Um brinde a nós, dois homens justos, que pensam o mesmo! Salut!
- É Aníbal, seu Reginaldo. Meu nome é Aníbal. Capisci?
- Hum? Pois foi o que eu disse, meu filho.
“Meu filho” de novo. Aníbal não sabia mais o que era pior: ter seu nome trocado ou ser chamado o tempo todo por aquele bêbado babão de “meu filho”; seu pai, se ouvisse aquilo, estaria se revirando no túmulo agora.
- Mas como eu ia dizendo, casamento é pior do que cadeia. Ou pelo menos, que cadeia de primeiro mundo. Aqui no Brasil já não sei... Tu já esteve dentro duma prisão, Adílson? Ver o que é que esses caras passam lá dentro? Sem contar que tu pode ser enrabado a qualquer hora. A prom... – essa hora Aníbal viu o cuspe caindo no próprio balcão, bem ao lado do copo do seu Reginaldo. - ...a promiscuidade, eita palavra difícil hein, a prom... a putaria nessa prisões é algo que não dá pra imaginar. Pensando bem, aí nesse caso até a Gorete é melhor do que prisão no Brasil...
Essa hora Aníbal saiu de trás do balcão e chegou ao lado de seu Reginaldo. Falou:
- Game over, seu Reginaldo. Vamos até a porta comigo...
- Mas, faltam quinze minutos meu filho... eu nem acabei de te contar ainda o que minha mulher me aprontou outro dia... – Aníbal já não ouvia mais nada. Não queria mais ouvir, e trocou o copo de vidro por um de plástico, dando-o na mão de seu Reginaldo. Agarrou-o firmemente pelo braço e foi arrastando o bebum até a porta.
- Isso é uma falta de respeito, meu filho! Se eu fosse mais novo, isso não ia ficar assim, hein? – Aníbal sentiu o cuspe de Reginaldo entrar dentro de seu ouvido. – ... olha que já fui pugilista nos anos 70, e dos bons viu garoto, eu...
Aníbal soltou o velho Reginaldo cambaleante pela rua, e apressou-se em trancar a porta. Não queria mais ouvir as lamúrias de um velho bêbado, nem ter seu nome trocado, muito menos ser chamado de filho. Sem falar nos cuspes, o que era aquilo?? Aníbal não conhecia a tal Gorete, mas já imaginava que a coitada da história era ela, e não ele. Finalmente contou o caixa do bar tranquilamente, enquanto lembrava do livro de cabeceira. Chegou à conclusão que, de fato, uma autoajuda não fazia mal a ninguém. Talvez ele precisasse de mais um livro para ler, pro caso de um dia lotado, com uma meia dúzia de Reginaldos à sua frente.
- Mais uma, meu filho! – ordenou em voz alta seu Reginaldo, interrompendo a pré-contagem do caixa que Aníbal fazia.
- É pra já, chefe. – Aníbal pegou a garrafa e preparou mais uma dose do uísque mais barato para o seu Reginaldo.
- Sabe que você é um bom rapaz, meu filho... Sempre fui com a sua cara!
Aníbal tentou desviar, mas algumas gotículas de saliva acertaram sua bochecha. Ele discretamente puxou um lenço do bolso e passou no rosto.
- Também acho que o senhor é boa pessoa, seu Reginaldo. Se fosse outro, eu já tinha posto a correr do bar.
- Puxa, obrigado. Um brinde a nós! Salut!
Aníbal só pegou um copo vazio e imitou o gesto do freguês, em respeito.
- Eu faço questão que você tome uma, e por minha conta, Arlindo! Você merece!
- Aníbal, seu Reginaldo. Tá aqui no meu crachá, ó. E obrigado mas, nunca bebo em serviço; vou passar essa.
- Não, não... Esse cabra é dos bons. Eu contrataria ele para trabalhar na minha empresa, com certeza! – seu Reginaldo falava para o lado, como se uma plateia de bebuns o escutasse naquele momento. Mas só havia os dois no bar.
- Se ao menos eu fosse mais novo... – continuou seu Reginaldo - ... um cara forte como você, assim, eu não casaria de novo. Ah, nunca. Isso é uma prisão, garoto. Um inferno. Já te disse outras vezes para não cometer o mesmo erro que eu, não disse?
- Sim, seu Reginaldo... E o senhor não lembra que eu já lhe contei, talvez umas três vezes, que sou casado, tenho uma filhinha de 6 anos... Por enquanto, estou feliz em meu casamento. Mas entendo que o senhor está há muito tempo casado, nem tudo dura pra sempre, a gente sabe como é...
- Sabe como é?? – seu Reginaldo se indignou que o cuspe saiu repartido em três direções desta vez. Aníbal sentiu na testa o molhado. – ...porque você não se casou com a dona Gorete. Ah, não. Essa você não ia aguentar nem um ano na sua cola. E eu que estou há mais de trinta com esse traste na minha vida. Eita cruz!!! – virando a dose, rapidamente Reginaldo esticou a mão com o copo vazio no balcão.
- A saideira, Anésio. Por favor, aí vamos tomar o rumo, o rumo da... do meretrício!
Além de trocar o nome de Aníbal o tempo todo, seu Reginaldo vinha com “expressões velhas”. Quem falava meretrício nos dias de hoje? No relógio da parede, intermináveis vinte minutos para o fechamento das portas. Aníbal segurou a onda, e serviu uma dose dupla para seu Reginaldo. Ainda disse:
- Por conta da casa. Para o senhor ir mais embalado para a sua casa, ou para a zona, seu Reginaldo.
- Uau!! Nossa, não se fazem mais barmans como você, Adílio. Infelizmente, não mais. Um brinde a nós, dois homens justos, que pensam o mesmo! Salut!
- É Aníbal, seu Reginaldo. Meu nome é Aníbal. Capisci?
- Hum? Pois foi o que eu disse, meu filho.
“Meu filho” de novo. Aníbal não sabia mais o que era pior: ter seu nome trocado ou ser chamado o tempo todo por aquele bêbado babão de “meu filho”; seu pai, se ouvisse aquilo, estaria se revirando no túmulo agora.
- Mas como eu ia dizendo, casamento é pior do que cadeia. Ou pelo menos, que cadeia de primeiro mundo. Aqui no Brasil já não sei... Tu já esteve dentro duma prisão, Adílson? Ver o que é que esses caras passam lá dentro? Sem contar que tu pode ser enrabado a qualquer hora. A prom... – essa hora Aníbal viu o cuspe caindo no próprio balcão, bem ao lado do copo do seu Reginaldo. - ...a promiscuidade, eita palavra difícil hein, a prom... a putaria nessa prisões é algo que não dá pra imaginar. Pensando bem, aí nesse caso até a Gorete é melhor do que prisão no Brasil...
Essa hora Aníbal saiu de trás do balcão e chegou ao lado de seu Reginaldo. Falou:
- Game over, seu Reginaldo. Vamos até a porta comigo...
- Mas, faltam quinze minutos meu filho... eu nem acabei de te contar ainda o que minha mulher me aprontou outro dia... – Aníbal já não ouvia mais nada. Não queria mais ouvir, e trocou o copo de vidro por um de plástico, dando-o na mão de seu Reginaldo. Agarrou-o firmemente pelo braço e foi arrastando o bebum até a porta.
- Isso é uma falta de respeito, meu filho! Se eu fosse mais novo, isso não ia ficar assim, hein? – Aníbal sentiu o cuspe de Reginaldo entrar dentro de seu ouvido. – ... olha que já fui pugilista nos anos 70, e dos bons viu garoto, eu...
Aníbal soltou o velho Reginaldo cambaleante pela rua, e apressou-se em trancar a porta. Não queria mais ouvir as lamúrias de um velho bêbado, nem ter seu nome trocado, muito menos ser chamado de filho. Sem falar nos cuspes, o que era aquilo?? Aníbal não conhecia a tal Gorete, mas já imaginava que a coitada da história era ela, e não ele. Finalmente contou o caixa do bar tranquilamente, enquanto lembrava do livro de cabeceira. Chegou à conclusão que, de fato, uma autoajuda não fazia mal a ninguém. Talvez ele precisasse de mais um livro para ler, pro caso de um dia lotado, com uma meia dúzia de Reginaldos à sua frente.
sábado, 18 de junho de 2016
O Centauro de Saramago
Escrito por
Zulmar Lopes
Conheceu a Nélida no salão de cabeleireiro. Fora fazer um
corte a máquina e a gerente, uma felliniana de quase 100 quilos, a convocou
para executar o serviço. Sentado na cadeira, observando-a através do espelho,
Ignácio sentiu o célebre desconforto machista em ser atendido por um travesti.
Suas mãos eram pesadas, mãos de homem, a despeito da tentativa de figura feminina que Nélida se
esforçava em representar. Não fosse o leve azular da barba e a voz artificialmente colocada, por mulher
passaria. Ele voltou para casa incomodado, mas reconhecendo que Nélida havia
caprichado no corte.
Na segunda vez, já estavam um
pouco mais íntimos e o desconforto diluíra. “Trabalha em quê?”, perguntou
Nélida enquanto manejava com maestria a máquina. “Professor de matemática”, foi
a lacônica resposta. Como estávamos na Quarta-feira de Cinzas, Ignácio ouviu,
atento e assombrado, o relato de Nélida para as outras cabeleireiras sobre suas
aventuras no Baile Gay fantasiada de Coelhinha da Playboy. Voltou para casa
curioso, imaginando Nélida dentro dos seus trajes carnavalescos.
Na terceira ida ao salão,
encontrou um negro forte sentado onde já considerava o seu lugar. A felliniana
chamou outra cabeleireira para dar um trato em sua cabeça semi- raspada e
Ignácio, disfarçando a contrariedade, ficou bisbilhotando os movimentos de
Nélida que, num frenesi entusiástico, esculpia na nuca do Apolo de Ébano a
palavra “Mengo”. Voltou para casa platonicamente enciumado.
Em sua quarta visita ao salão,
durante ritual do corte, Ignácio pediu Nélida em namoro. Foram juntos para a
casa do professor terem sua primeira noite de amor.
Passaram a dividir um quitinete
em Botafogo em companhia de um gato angorá chamado Oscar que interpretava o
papel de filho que nunca teriam. Viviam como marido e mulher, pois Ignácio não
a desejava como homem e tão pouco Nélida prestava-se ao papel ativo. Só um
detalhe atrapalhava a paz conjugal: os flácidos 13 centímetros de Nélida.
Ignácio tinha verdadeira ojeriza ao falo da amada, mal conseguia encará-lo.
Passaram muitas madrugadas de carinhos no escuro, com o membro de Nélida
ocultado pelo negrume do quarto enquanto o travesti recebia Ignácio de bruços,
escondendo a parte de sua anatomia embaraçosa ao seu amor.
Um dia, pousou nas mãos de Nélida
um livro de contos de José Saramago (1). Não era dada a leituras, mas
interessou-se pela história de um centauro caçado impiedosamente por um grupo
de humanos. Narrava Saramago que a criatura mitológica sempre tivera o desejo
de dormir deitado de costas, o que sua constituição, meio homem, meio equino, o
impedia de realizar. Encurralado, o centauro queda-se por um desfiladeiro e tem
seu corpo violentamente cortado ao meio por efeito de uma pedra pontiaguda. Em
seus últimos momentos de vida, a porção humana do centauro caído de costas experimenta
o prazer de sentir solo acariciando seus omoplatas. Emocionada, Nélida cerrou o
livro e tomou uma decisão.
Foram quase dois anos de espera,
mais seis meses de recuperação após a cirurgia. Dr. Euclides Pessoa, conhecido
nos meios cirúrgico-científicos como “O Pitanguy das Xoxotas”, fizera um
trabalho digno de figurar em qualquer galeria de arte, dada a perfeição em que
construíra a vagina de Nélida. Então, tal qual o Centauro de Saramago, o agora
ex-travesti provou da emoção única de, omoplatas roçando os lençóis, receber um
homem, seu homem, de frente pela primeira vez na vida e ambos, unidos e
extasiados, gozarem os prazeres que um prosaico papai-e-mamãe só àquele casal
poderia proporcionar.
(1) Objecto
Quase, de José Saramago. Editora Companhia das Letras, Ano: 1994.
sexta-feira, 17 de junho de 2016
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