sábado, 19 de julho de 2008
Caminho único.
meus joelhos
pensamentos úmidos e soltos.
Soletraria o sol - raios gemidos -
fosse possível
mesclá-lo meus prazeres.
O que ardo não sabem
os tolos (!?).
Abra-se ao meu segredo:
AMOR!
Eliane Alcântara.
sexta-feira, 18 de julho de 2008
EXPIRAÇÃO
Onde andará minha inspiração?
parece estar tão apagada
quanto esta caneta
que expõem meu penar
De tão vadia que é
deve estar
em um beco qualquer
(ela diria que está em um beco sem saída)
De tão livre que é
deve estar num vasto campo
coberto de flores
(para ela, um campo de concentração)
De tão louca que é
pensaria estar me inspirando
entretanto, ela não percebe
que sequer estou respirando
(ela pensa que estou dormindo)
quinta-feira, 17 de julho de 2008
Serrarias

Dia e noite, a serra se encontra lá, paralisada como a corcunda de um Quasímodo, gigante e adormecido, ou como um arranha-céu misto de verdes claros e escuros, construído através de milênios. Do outro lado, outra serra irmã gêmea, diferente apenas pelo nome ou pelas posições de algumas plantações e pedras. Entre as serras, com exceção de um tentáculo de pequenas casas subindo a serra com uma ladeira de paralelepípedos, a cidade deita em praças, árvores, igrejas, padarias e mercadinhos e outras casas.
Nela, durante o dia, pessoas acordam, beijam-se e dão o primeiro eu te amo do dia. Então saem de suas moradas pra comprar pão, alguma coisa que falta pro almoço, a sobremesa de um pote de chocolate e doce de leite, ou coisa do tipo. Depois, quem tiver de férias, dorme; quem tiver trabalho, trabalha. Então voltam pra casa, assistem televisão, comem, rezam, fodem e vão dormir.
Nela, ainda, os pardais também lutam pela sobrevivência e disputam o resto da espiga de milho abandonada na rua, bicando cada grão que já perde sua cor amarelada. Assim que saciados estiverem, ou assim que algum mototaxi os assustar, voarão de volta para alguma árvore, assistirão os movimentos da cidade, para, logo entediados, comerem, foderem e dormirem.
E as serras continuam lá paralisadas como corcundas gigantes de Quasímodo e seu irmão gêmeo de nome desconhecido ou como arranha-céus mistos de verdes claros e escuros construídos através de milênios.
Não bastasse a inércia da natureza, por vezes o inverno e o céu as adormecem ainda mais, soprando lentamente um lençol de neblina que vem por trás das serras e vai encobrindo-as aos poucos. Em alguns minutos, eucaliptos e palmeiras imperiais desaparecem num cinza friorento e úmido. Mais um suspiro do vento e a neblina continua a cair vagarosamente. Logo após, são as pedras milenares que tem seu cinza mesclado com o da neblina. .
Finalmente, quando o grande lençol encobre as serras e avança para a cidade, a chuva desaba e tudo fica submerso num mar cinzento flutuante. Da serra, as pedras não vêem nada; das árvores, os pardais ou seja lá quais forem os pássaros; da janela, nós mesmos não vemos nada. É como se desaparecessem de vez do mapa, da estrada que corta a Paraíba, do Brasil, do mundo e, até mesmo, pasmem, dos olhos satélicos do Google Earth.
Mas, ainda assim, tudo está lá, intacto e adormecido.
Inclusive nós.
quarta-feira, 16 de julho de 2008
Até que a nova morte nos separe

Hoje,
um dia de chuva, um domingo
realizei o grande sonho feminino
E foi do jeito que sempre imaginei
sem padre, sem igreja, sem salão
sem véu, sem grinalda, sem anunciação
Eu, a paixão e ele.
E meu homem é encantador
vejo seu coração pulsar em palavras
nem precisa me dizer que é sedutor
não sou mulher que casa enganada
Não me importa ser só, desde agora
tampouco,inexistir tempo pra nós dois
quem sabe nem disso se precise
e se precisar, deixo isso pra depois
Hoje não penso nisso.
Eu, Barbara Leite
a décima esposa de Vinicius
terça-feira, 15 de julho de 2008
O ÚLTIMO ATO DE UM SACI.
Muito sagaz, fitou com seus olhos de brasa o prego caído no relvado.
O moirão era testemunha da azáfama naqueles dias ventosos de fim de agosto. E o elemental então acocorou-se, apontando o prego para cima.
E saiu então, sorridente, entre seus redemoinhos e seus acutíssimos silvos, muito lépido pela travessura que acabava de praticar.
Os tempos inócuos dos dedais sumidos das fiandeiras loucas havia já passado. Nem mais também importava o estrume das reses no caldo em braseiros, as pipocas frustrando o espoucar no azeite, ou o fazer tramas justíssimas nas crinas dos cavalos.
Que tomassem esse mister os hematófagos, os fungos ou o azinhavre, ou a esclerose na intensa atividade nas dobadouras.
O duende entrara intrépido na freqüência nefasta dos mortais, com suas maquinações malignas, seu livre-arbítrio infeliz e nocivo.
E o prego não espetou o pé dos empinadores de papagaios de papel, mas de um garoto que, ao cair do crepúsculo, corria estouvadamente à captura de uma ave pernalta, bodoque em punho, bornal a tiracolo, pouco atento ao carreiro e aos seus perigos.
A ponta oxidada do metal trespassou-lhe a planta do pé. Ele berrou, transido de dor. Um fluxo rubro escorreu medonho pelos interstícios dos dedos, fazendo um rastro de sangue na disparada do menino até à choça paterna.
Não obstante o desvelo dos pais, os parcos recursos do sítio prenunciaram o pior: o menino expirou, no auge da convulsão tetânica.
E o sagaz perneta, filho legítimo dos miasmas mentais afro em solo americano, abandonara de vez os gomos dos espessos bambuzais. Livrava-se do ciclo medíocre de encarnações jungido às forças eólicas. Ganharia perna, ganharia mãos não mais perfuradas, abandonaria o pito e o barrete imundo.
O corpo astral traria agora o lastro das sandices humanas, na justa lei de causa e efeito, sob o império obscuro das primeiras incursões humanas no globo.
sábado, 12 de julho de 2008
Fragmentos VI a X
São Paulo tem mania de cativar forasteiros. a prata corrente parece tecer certa atração magnética nos olhos deles. nada comparado ao cheiro de bosta de vaca grudado na sola da bota. Maria tinha certeza de que os bichos eram escassos. no circo só haviam palhaços e rouxinóis. um espetáculo.
O Encontro com Velho Chico
velho Chico disse que raízes fortes crescem longe da terra em que é semeada. Maria profanou o dito por ter crescido numa só vila. tive certeza daquilo quando pousei no lugar de onde parti. dividido entre a serra e o mar, entre o sertão e a cidade, a voz soa contra a própria língua. fechei a porta do alpendre. era hora do adeus. outra vez.
Vandré
nem Chile, nem Uruguai, nem Europa. o único lugar que Vandré se exilou foi nas estrelas. nunca me senti tão só nessas andanças. parei de fumar e de perguntar. entrei numa cabine telefônica e liguei pra Maria. a velha viola desafinou. vai se difícil esquecer o gosto amargo do chimarrão falsificado. disse eu a ela. ela não respondeu. o patrulheiro estrangeiro me esperava lá fora.
Mulher de Bandido
a pior coisa do mundo é o abandono. feito crias de mulheres de bandidos abatidos, criam a própria lei. conversei rapidamente com Josué, um traficante de 14 anos. nunca mais veria aquela arara. depois vim saber, por um major do exército que uma taturana pesa mais que um jabuti. na hora não entendi. ele riu da rede que armava. o candeeiro apagou.
Na Selva
a selva é o último refúgio de um guerrilheiro. perseguido pela indústria parlamentar, o pequeno espécime sobrevivia às custas do próprio Estado. o atoleiro não segurava o jipe. tive surto de malária e febres regionais. achava que o Brasil seria um país melhor por me sacrificar. Maria ria das piadas que contava. mesmo que não entendesse. lembrei de Diana, uma cadela vira-latas, e dormi.
sexta-feira, 11 de julho de 2008
Kubrick, bosta e vomito
Sentamos em um sofá de espuma também melecado de bosta e vomito, tudo naquela maldita festa parecia melecado de bosta e vomito. Por um momento tive a impressão que Alice também fedia à bosta e vomito. Não entranhei, a maioria das garotas que conheço também fedem a bosta e vomito.
Duas horas depois do segundo baseado, Alice põe suas mãos aveludadas sobre minhas pernas magras e diz, Olha, andré, isso tava escrito, Não, Alice, não tava, Tava, andrézinho, posso te chamar de andrézinho, É claro, todo mundo pergunta se pode me chamar de andrézinho, E você, deixa que te chamem assim, Nem sempre, uma vez um viado perguntou se podia me chamar de andrézinho... você sabe, né? viado é viado, tudo safado, Eu sei, andrézinho.
Alice é vidrada em tarô, carteado, reencarnação, pomba gira e batizado. Alice tem dezenas de sonhos. Sabe, andré, tenho dezenas de sonho, foi a terceira frase que Alice me disse. A primeira e a segunda eu não lembro. Nunca se leva uma mulher suficientemente a sério para considerar suas duas primeiras frases.
Alice não toma Álcool. É uma pena. Fuma maconha, já experimentou êxtase, mas, cachaça, nana-nina-não. Titio morreu de cirrose e eu procuro evitar, sabe como é, né, andrezinho, Meu avô morreu em um cabaré e nem por isso eu deixo de freqüentá-los, Você não entende, não tem coração, seu coração está nos bagos.
Alice não sabe nada sobre mim, nunca soube. Mas é bem possível que eu queira uma mulher assim, como Alice. Alice é meu tormento e meu principal tema. Noventa e nove % dessa bobalhada que escrevo têm origem em Alice e em seus olhos de ameixas murchas dentro de uma lata de conserva. Mesmo quando escrevo sobre Panquecas ou sobre Uísque dezoito anos, é em Alice que estou pensando. Tudo me remete a Alice. Qualquer gozo meu é dentro do buraco estreito de Alice, não importa qual buraco seja. Toda ofensa que disparo é contra Alice, não importa contra quem. Preciso urgentemente de Alice. Preciso surrá-la. Preciso mantê-la em cativeiro, pão, água, duas punhetas diárias e três beijos molhados, Antes, Durante e Depois do pôr-do-sol. O ápice do amor dá-se durante o espancamento. Nunca surrei Alice. Talvez seja isso o que falta em nossa santa-sagrada-ecumênica-afinidade entre dois putos apaixonados. Alice é o bueiro onde sempre sonhei malocar meu rato peludo e malcheiroso. Tragam-me Alice, viva ou morta, não interessa, tenho um freezer enorme nos fundos de casa. Alice é o tipo de mulher que empina mais o nariz do que a bunda, o tipo de puta que suporta mais que três semanas sem duas trepas distintas.
Certa vez ela me convidou para assistir laranja mecânica em sua casa. Papai e mamãe tinham ido fazer comprinhas e Alice tava afim de kubrick e uma bronha.
- esses caras dão pro gasto.
- é verdade, são uns putos de uns filhos da puta!
- não, não é. glauber rocha, gordard? tem coisa melhor.
- ah! larga de bancar o intelectual, andrezinho. glauber ou gordard seriam incapazes de produzir um tapão na cara... imagina essa zorra toda.
- deixa de titití, doidinha. antes antonio das mortes a esses retardados de uma ova.
- preciso de maconha em pílulas. meus pulmões estão cheios de catarro.
- quem mandou levar chuva às duas e meia da madruga?
- levei chuva porque você é um fudido e não têm carro.
- cala essa boca. se eu tivesse carro eu pegava coisa melhor que você.
terça-feira, 8 de julho de 2008
Prelúdio de Uma Saudade
É claro que retirei a queixa na polícia, fruto da garrafada certeira do meu futuro sogro, quando dei de cara com aquela formosura de pequena, redondos olhos negros, cabelos de mel e pele tostada pelo sol de Copacabana.
Meu sogro de princípio deu do contra: “Onde já se viu? Namorar um boêmio?”. Tranqüilizou-se um pouco quando descobriu meu status de colunista famoso da “Última Hora”. Mesmo tendo certa ojeriza pelos membros da imprensa, seu Peçanha viu que por Eulália eu havia posto de lado as noitadas e os excessos. Acabou por aceitar o nosso namoro.
Namoro de moça de família, de pegar na mão como maior ousadia. O pessoal do jornal até estranhou e os camaradas do Beco das Garrafas deram por minha falta mas, meu sentimento por Eulália era paixão, das boas.
Casamos na Igreja de Nossa Senhora de Copacabana. Ela de véu, grinalda e flor de laranjeira, como rezava a tradicional família carioca. Fomos morar nesse apartamento na rua Rainha Elizabeth, até hoje nosso lar, e onde no momento ouço o violão de João Gilberto sair do aparelho de Cd, invadindo os cômodos, dedilhando “Chega de Saudade”. Nosso casamento tinha tudo para ser tranqüilo mas a droga da boemia falou mais alto. Em pouco tempo lá estava eu de volta às noitadas, às boates, às mulheres soltas por esta Copacabana que eu tanto amo.
Eulália agüentou tudo espartanamente. Criou nossos filhos, suportou meus porres, a falta de dinheiro, os sumiços no carnaval. Mulher de verdade.Porém, tudo deve mesmo ter um limite pois Eulália estrilou em ódio quando descobriu o meu moleque, já com cinco anos, resultado do o meu rabicho com uma guria lá dos pampas, trinta anos mais jovem, largada em Copa e que fazia ponto num inferninho chinfrim na Avenida Princesa Isabel. Não agüentei a barra pesada da situação e meu coração apitou, avisando do infarto.Uns dias no CTI e agora me recupero aqui em casa. Minha esposa decretou como forma de punir-me pelas minhas travessuras de homem na terceira idade o ultimato mais dolorido que a dor dos enfartados. “Vou cuidar de você até o doutor lhe dar alta. Depois, o divórcio”, diz ela todo dia, mal despertamos. Assim, deitado nessa cama, vivo um dilema: permaneço doente ou morro de uma vez. Sem Eulália não posso viver. A cura significa o abandono. Mal penso no restabelecimento das minhas forças e já vem um prelúdio de saudade, um sofrimento de véspera. Lá na sala, João Gilberto castiga meus ouvidos com os versos: “Não quero mais esse negócio de você longe de mim”, acirrando a angústia. Não, Eulália! Não te quero longe de mim! A doença ou a morte!
domingo, 6 de julho de 2008
Penosa Paixão

Mas o que poucos sabiam é que Ferrão, lá no fundo, nos recônditos penumbrosos e secretíssimos de sua alma-espírito, escondia algo que poria todo seu auto-cultivado, auto-cultuado e auto-estimado prestígio a perder: apreciava Bossa Nova. É isso aí: Jorge, o Ferrabrás, era fã de Vinícius, Jobim, João Gilberto e Cia. Mandara forrar as paredes de seu quarto com uma grossa camada de cortiça para não correr o risco de ser flagrado por algum vizinho mexeriqueiro enquanto imerso estivesse em seu musical e muito particular êxtase. Jorge era um paradoxo ambulante. Jorge, indubitavelmente, e a despeito das opiniões contrárias, era humano, bastante humano.
Certo dia, Jorge caminhava a passos largos com destino ao retromalfalado botequim, quando deparou-se, numa curva da estrada, com aquela que seria a razão de sua perdição: a galinha. Sua visão turvou-se, sua face enrubesceu-se, seu corpo acalorou-se, seu coração palpitou-se: o que fora não mais era, era a mais nova vítima da frechada do Cupido. Lá estava ela, linda, deslumbrante, com seu ar altivo, sua crista carnuda encarnada, suas belas penas negras-brilhantes, seu pequeno bico amarelo. Jorge estava apaixonado. Apressuradamente, tratou de arrebatar e levar para sua casa a nova e penosa dona de seu coração. Deu-lhe o milho mais caro que achou no mercado, a melhor água mineral, trocou os travesseiros de penas por outros, sintéticos. Chamou-a Efigênia – gostava desse nome e, ao que parece, ela também gostou pois cacarejou e olhou para Jorge. Tratou-a como uma deusa, uma rainha, mas não fizeram sexo. Tinha receio de estuporá-la considerando as desiguais dimensões de seus órgãos genitais. Jorge, enfim, era um homem plenamente feliz, feliz e transformado: não mais coçava o saco, não mais cantava as mulheres na rua, não mais freqüentava o Bar do Tião. Vivia para Efigênia, para agradar Efigênia, para amar Efigênia.
Entretanto (sempre tem que ter um entretanto, contudo, mas, todavia ou porém), alheia a todos os mimos e agrados do (pensava ele) amado, certo dia anuvioso-chuviscoso, Efigênia bateu asas e voou não se sabe para onde nem por quê. Perplexo, Ferrão a procurou em todos os cômodos, em todos os cantos e recantos internos e externos da casa. Nada de Efigênia. Ela partira, fugira, escafedera-se. “Aquela ingrata. Depois de tudo que fiz por ela, depois de tudo que vivemos juntos...” Ferrabrás pensou em traição, seqüestro, estupro, assassinato, abdução, migração e, por fim, conformou-se com a hipótese do nada simples, nada puro e todo doloroso abandono. Já a refletir viagens de vira-e-revira-mundo e idéias suicidas, eis que ouve um ruflar de asas advindo da janela da sala. Volveu os olhos na direção do ruído e foi tomado novamente pelo êxtase, desta feita, mais intenso: lá estava sua amada, adorada e idolatrada Efigênia, em carne, ossos, bico e penas. Correu a abraça-la, quase esquecendo-se da fragilidade do corpo da galinácea. “Meu amor, você voltou! Onde você estava, por onde andou, digo, voou?” – dava beijos e mais beijos. A galinha retrucou com regulares e breves cacarejares. Jorge não pensou, agiu: trancou todas as janelas e portas, depositou suavemente Efigênia na cama, acendeu o fogão e colocou o caldeirão com água para ferver. Quando a água borbulhou e começou a evaporar, com lágrimas nos olhos, pegou delicadamente Efigênia, olhou fixamente para seus olhos ariscos e disse: “Não quero mais esse negócio de você longe de mim.” Afundou-a no caldeirão e tampou, segurando com toda a força, as lágrimas a gotejar e vaporizar tamborilando sobre a tampa. A agitação no interior da grande panela foi breve. Foi o melhor jantar da vida de Jorge Ferrão, jantar à luz de velas. Doravante, ele e sua amada Efigênia jamais se separariam novamente, estavam juntos, fundidos, seriam um só, eternamente.
Carlos Cruz - 23/05/2008
sexta-feira, 4 de julho de 2008
Perpétuo Mobili
empenhamos sonhos
irrealizáveis,
doamos almas
que nem são nossas;
corpos que dispomos
Quem nós somos?
Seres formados de nada
que nunca compreendemos
mesmo insistindo
em tentar saber
De onde viemos?
Somos a eterna pergunta
a questão sem resposta
que move esse mundo
sem saber
Para onde vamos...
quinta-feira, 3 de julho de 2008
Carta ao Dr. Antônio, Psiquiatra - Juliano Guerra
Meus amigos são santos espalhados pelo mundo. Temos São Denser de Pernambuco, padroeiro dos clubes de incesto e gordas que invadem pesadelos. São Rodegheiro Poeta, santo mais requisitado nas rodas de sexo sem proteção em Pelotas. Esses meus santos estão tomando muita porrada. “E na gente deu o hábito de caminhar pelas trevas”. O melodrama é embutido e ninguém cobra a mais pela entrada. Em São Paulo temos São
Anderson Henrique, protetor dos que tomam LSD com a mãe sentada na sala. Nós – aqui já me incluo entre eles, antes do que esperava – somos santos úteis. Quase tão bons quanto São Sebastião, que agora é santo gay.
Dostoiévski foi melhor do que Jesus Cristo. Em primeiro lugar porque não escolheu a saída mais fácil e foi se fuder na Sibéria ao invés de virar mártir. Depois porque escreveu seus próprios evangelhos, o que por si só demonstra alguma competência e boa fé. O problema – e onde ele me tange, principalmente – é que é muito mais fácil plagiar o Henry Miller. Insira aqui um solo de saxofone a sua escolha.
São Luiz Corinthiano de Natal: que tal ser multimídia? Adaptar-se aos novos tempos, malandragem. Que nada. O espelho veio de brick e já foi de Rimbaud. Põe-se meia dúzia de citações no lugar da alma e toca-se a diante. Até quando? São Zoppa das Gerais certamente que não vai me responder. São Denser pára de conceder milagres até que seja solucionado o problema da finitude. “Até quando?”, os santos resmungam.
Quando, depois do terrível acidente que nos concedeu a canonização, eu e São Anderson Henrique estivemos na tenda de Jimi Hendrix – o São Pedro dos que buscam santidade –, ele nos falou dessas mazelas. Estamos de alerta. “Há de ser pura com o riso mais profano”, eis aí a literatura como deveria ser. E a vida, subsequentemente. Posto que a vida deriva da literatura, estou convicto. Uma prosa cristalizada no “não”, a mais evidente negação do próprio ato de contar histórias. Ainda há histórias a serem contadas? Até quando? Por que e para quem?
Bobagem. Escritor não deve jamais fazer essas perguntas. Estou generalizando, claro, mas torcendo por sua simpatia. A santidade consiste... em quê? Creio que um bom jeito de descrever seria “se desnudar as navalhadas”. Céline fez isso e se fudeu. Miller dizia que era o homem mais feliz do mundo e não tinha sequer o que comer. Não há um destino comum, portanto. Essa porra tem plano de carreira? Plano de saúde? Então qual é a vantagem de entrar?
Medusa já é mitológica e portanto não pode ser santa. Mas dá na mesma. Ela é a gárgula de um cemitério e protetora dos que nunca uivaram pra lua cheia por achar que é cafonice. Eu creio que o ingresso foi pago de antemão. Daí que a gente diz algo feito “iluminação” ou “arrebentação putrefata” e faz o que pode. O trem descarrilou, mas a diversão está na iminência da colisão. Uma ontologia que morde o próprio rabo.
O que eu queria mesmo dizer é: o que nos canoniza é exatamente nossa pequenez. E, claro, uma aquiescência fora de lugar. Daqui pra lá, mais duas ou três multas. A gente cresce e pára de receber notas vermelhas no boletim. O boletim vira a vida? Pode ser... Andei levando notas vermelhas, nesse caso. O nome dessa coisa toda é “chororô”. Santa Flávia é madrinha dos decadentes e tomadores de vinho em copo de extrato de tomate. Disse que preenche “sem ocupação” nos formulários kardecistas de reencarnação, tudo em 24x com um livro do Chico Xavier de brinde. Kardec my ass.
Legal mesmo é sentir “repúdio”... chego a crer que é o único sentimento realmente honesto. O resto é balão de gás hélio levando padre pro inferno.
– O amor?
– Balão de gás hélio e lá vai o padre.
Mas o repúdio é confiável. Companheiro inseparável das filas de banco e camionetes 4x4. Minha última namorada se vestia de She-Ra, mas eu é que não ia me vestir de He-Man. Também não vou parar de comer carne, vão se fuder.E muito cuidado com São Perrone.
Enfim, qual é a vantagem de se ser um lugar-comum pouco comum? Não sei. Mas o Habibs disse que tá fazendo promoção pra aniversário, sua netinha não está fazendo anos mês que vem? Meu Amplictil está acabando. É cult ter que se drogar pra dormir.
Beijos,
Juliano Guerra
quarta-feira, 2 de julho de 2008
[SONETO AO MEMBRO MARAVILHOSO]
Esse enorme e rígido monumento
Faz-me nua e arfante em seu ardor
E maravilhada d'encanto, de fervor
Desejo-o em gozo e movimento.
O cavalgue do agressor erguido
Por dentro não parece assustador.
Altivo membro, digno de andor
Nas eras do ego, do sexo ungido.
Pela bestialidade viril de ereções
Trazendo a força e fúria de me ter
Em gulas e esganadas ejaculações.
Então erga-se e murche, com prazer,
Em louvor às idolatrias, taras e fixações,
É falo para orar, lamber, cuspir, foder.
terça-feira, 1 de julho de 2008
O conto do ‘quem sou eu”!
- No 5o , ... senhora. – Quase chamei a tia de tia.
O elevador passou do 3o andar e ela não desceu. Continuou me olhando sem saber que eu a estava espionando. Pesquisou a memória e falou:
- Ah, mas você é o marido da Renata! – Exultante.
Pronto. Havia perdido de vez a identidade. Eu era o reles marido. Isso tinha começado no segundo grau, quando deixei de ser eu mesmo para ser o número 38. Putz, ao menos eu podia tirar onda dizendo que eu era o “três-oitão”. Depois virei o 92/554233, minha matrícula da Unb: - Seu número, cabeludo?
Lá na frente, depois de formado, eu era o professor de História.
- Qual meu nome?
- Ué? Seu nome? Ué? Seu nome? É... é... professor de História, ué!
Dai em diante virei um tanto de matrículas, códigos, números, até ramais já me tornei. - Aqui é o 102.
Entrando em casa pus-me a pensar, junto a cerveja antes do jantar: afinal, quem sou eu? Antes de me perguntar “o que faço aqui?” e “para onde vou”, tentei responder a primeira pergunta, que por si só já é difícil pacas. Quem sou eu? Sou quem eu penso que sou ou sou aquilo o que os outros me vêem? Ou, pior ainda, sou um misto daquilo que acho que sou e o que os outros acham que sou?
Pane cerebral! Conclui pela conciliação. Sou o misto do que acho que sou e o que os outros acham de mim. Enfim, ninguém me conhece ao todo. Nem mesmo eu, que sou quem passa mais tempo comigo.
Triste e desiludido por jamais poder estar plenamente comigo, pensei no que fazer para o jantar. Achei que uma salada com carne assada iria bem.
- Mas vai dar muito trabalho! Faça só sanduíche.
Quem falou isso? Olhei para os lados e não vi ninguém.
- E faça logo o sanduba porque eu tô com fome!
Assustado olhei para o lado novamente. De soslaio, notei que era minha boca que falava aquilo. Então... um outro eu estava se manifestando. Queria ter vida própria.
Bem, com outro eu posso lidar. Mas e se outros aparecerem?
sexta-feira, 27 de junho de 2008
Branca de Neve, os seis anões e os 11 pernas de pau
terça-feira, 24 de junho de 2008
ASAS

Quem me dera ter asas para voar
Que me levassem a um lugar distante
Plano e singelo onde pudesse pousar
Para que meu trabalho fluísse bastante
É
Assim
Assim
Lena Casas Novas
Publicada originalmente no Envio net
segunda-feira, 23 de junho de 2008
O MACHADO DO INVESTIDOR
Durante os últimos 39 anos, em Viena:
“Meu filho, o lucro é o pagamento justo aos que ousam investir; os únicos culpados pela pobreza são os próprios pobres, que não estudam, têm muitos filhos, não poupam, não sabem investir o que possuem e nem agregam valores à sociedade; os empresários são os verdadeiros bem-feitores de nossos tempos; já fez sua doação àquela ong que cuida do meio ambiente?; vamos àquele maravilhosos jantar, onde servem aquelas soberbas sobremesas, no qual arrecadamos fundos para os famintos; aliás, viu como esses índios atrapalham o progresso e a indústria de celulose na América Latina?; e os malditos imigrantes que roubam nossos empregos e trazem violência para nossa terra!; isso é carro digno de uma pessoa de nossa família? Vá estacioná-lo depois da esquina, imagine o que os meus convidados irão pensar; sua mãe morreria de vergonha se os vizinhos descobrissem que nossa netinha é filha de um desajustado que mal consegue administrar seu próprio negócio...”
14 de maio de 2008, em algum outro continente:
- Hei, Ana, dá uma olhada nessa notícia:
“Austríaco mata cinco familiares com machado” - “Um homem de Viena matou cinco membros da sua família, incluindo a filha de 7 anos, e depois se entregou, dizendo ter problemas financeiros, informou a polícia austríaca na quarta-feira.”
- Nossa, que loucura! O que mais diz aí no jornal?
“Os mortos são a esposa, a filha, os pais e o sogro dele.”
“O homem, de 39 anos, confessou à polícia no início da quarta-feira. Ele pediu dinheiro emprestado aos parentes, perdeu em negócios especulativos que deram errado e afirmou que quis poupar os familiares do escândalo.”
“Policiais foram ao apartamento dele em Viena e descobriram os corpos da esposa e da filha. Os pais dele foram encontrados em Ansfelden, oeste da capital do país. Os restos do sogro estavam perto da cidade de Linz.”
“O machado foi encontrado no carro do austríaco.”
- Que absurdo! Como existem desequilibrados no mundo. Devem ser muito pobres lá na Áustria, né?
- Deixa de ser ridícula! Que pobres porra nenhuma. Pobres somos nós!
- Calma aí. Que história é essa de sermos pobres? Se estamos com essa dificuldade financeira é porque você insistiu tanto naquela viagem no final do ano!
- Olha, por falar nisso, acho que não temos mais escolha, você vai ter que desistir do carro...
- Mas já pagamos 15 prestações! Vamos perder esse dinheiro todo?
- Quem mandou querer tanto comprar esse modelo tão caro só porque tua amiga do escritório tinha um da categoria?
- Puta que o pariu, bem que mamãe me disse pra não me casar com um fracassado!
...
- Em quantas vezes será que posso parcelar um machado?
Como diriam os nossos queridos irmãos do Norte: "based on a true story":
http://br.noticias.yahoo.com/s/reuters/080514/mundo/mundo_austria_machado_pol_1
domingo, 22 de junho de 2008
Twist
sábado, 21 de junho de 2008
Para Ninar Luana
E, com quantas gotas
O mar forma uma onda?
O silêncio faz a noite adormecer?
E, quantos raios de sol são necessários
Para o dia amanhecer?
As respostas estão escondidas
Aonde o gato não perdeu as botas
E onde o vento não fez a curva.
A rota é meio torta,
Mas, cai como uma luva.
Seguindo a imaginação,
Mesmo que por ruas estreitas
Chegasse a qualquer resposta.
Até para as perguntas
Que ainda não foram feitas.
quinta-feira, 19 de junho de 2008
Brusco Poema.
mas você bem que podia ser o verso
a rasgar-me a pele com beijos provocantes,
criar um clima de delírio violento e terno.
Arrombar a gramática dos meus desejos
e inventar em meu corpo outra grafia,
capaz de exemplificar minha fome de ser lida,
Poesia sem rima na cama de nossas taras.
Devagar explorar cada movimento sensual
das minhas pernas a querer prendê-lo (dentro),
fundo no mais profundo de minha cova aberta
ao seu rijo exemplar a tatuar-me.
Porra! Não quero forçar o poema,
mas irei violentar sua alma caso ele não surja
e povoe minha página/carne de volúpias,
adequada forma ao ato dos amantes ao escrever sexo.
E mais molhada talvez aliviada
eu goze insanamente a lucidez do conteúdo de ter escrito,
o que não foi só dito, pensado ou lido,
porém vívido e vivido, até que exista um só verso no mundo:
O nosso!
Feito liga e você sinta o desespero que provei agora,
ao querer demais, que alguma coisa maior fosse dita/feita:
como seu caos a recriar-me - inspirada obra sua.
Eliane Alcântara.
terça-feira, 17 de junho de 2008
.
Mais chuva.No inverno, é o que se tem de mais vivo e o oceano não parece tão importante e único assim. É apenas um em meio a tantos. Avenidas são mares em tempestade e lixos são embarcações em naufrágio.
E a chuva, mais chuva.
Saem de cada pneu, de cada carro, ondas no mar das ruas: tem as preferidas dos banhistas, pequenas e tímidas, e aquelas dos ônibus, que são boas pra surfar. Por apenas R$ 1,75, surfamos todos juntos a mesma onda, unidos nessa mesma prancha, apertada, abafada e calorenta. Pelo menos não tem perigo de ataques de tubarão. Da janela, banhistas em trajes de trabalho carregam guarda-chuvas que só protegem o rosto e os ombros e se escondem das ondas que lhes encobrem metade das canelas.
Boa Viagem – com suas areias vazias, sem vendedores ambulantes de caldinhos, ostras e camarões, sem guarda-sóis que por hora não têm o que guardar, sem famílias, namorados, vizinhos e amigos tomando cervejas e coca-colas e, ainda por cima, perfuradas pela metralhadora de gotas que não cessam de cair – olha o Recife e suas avenidas com ódio e inveja, daqueles que abaixam a cabeça com orgulho manchado e não podem fazer nada. A Domingos Ferreira e a Conselheiro Aguiar estão um mar só, cheio de carros e banhistas. E na Navegantes, todos, literalmente, navegam. A praia, por sua vez, somente espera a melhor oportunidade pra se vingar e se esconde submerso em suas próprias águas salgadas. Sonha docilmente com o próximo verão.
André Espínola
segunda-feira, 16 de junho de 2008
Íntimo

Senhoras e senhores
é com embaraço que apresentamos
um novo espetáculo:
“Temores mais íntimos”
agora com vocês no palco!
Os pequenos grãos
que me apavoram
feito pedra no rim
começo a pontuar
agora, por favor
não riam de mim
Estremeço
quando a mentira
me encara os olhos
e sorri
Tenho pânico
das estacas de adeus
que ainda estão
por vir
Quando os morangos
se extinguirem
e a folha em branco
permanecer intacta
E músicos, pintores
dançarinos e poetas
decidirem greve geral
Temo os infelizes
que sangram
e os santos que não salvam
ninguém
Confesso meu pavor
de ganso, dos maus
e da solidão também
De não ter vontade
de banho de chuva
janela aberta e
vento na face
Saia bonita
ornando colares
O que farei
se o riso quiser brincar
de esconde-esconde
e não conseguir encontrar?
E se acabar a água no mundo
e não puder mais coar café
de que adiantarão os diamantes
do que servirá seguir com fé?
Barbara Leite
domingo, 15 de junho de 2008
A ESTATUETA DE VÊNUS
Logo a viu, ele desejou ardentemente possuí-la.
Era uma miniatura em resina, pouco mais de duas polegadas, em folha dourada e detalhes esmeradamente trabalhados.
Artesanato caro. Enamorou por algum tempo o produto. Seus olhos brilharam, cobiçosos. Analisou o impacto financeiro em seu orçamento. Não teve coragem de despender o dinheiro.
Naquela noite sonhou febrilmente com a estatueta. Acordou compungido, o Espírito carregado de angústia. Imaginou Vênus no toucador, na escrivaninha, ou num altar que construiria exclusivamente para ela, em qualquer nicho da casa.
Mais uma vez, no trajeto, parou diante da vitrina. Lá estava ela, formosa, dourada, um chamarisco à cobiça humana. Mas, custava muito... Excessivamente cara para uma peça de artesanato.
Durante quinze dias experimentou febrilmente os delírios do duelo íntimo, entre o desejo ardente de adquirir Vênus e o escrúpulo financeiro a mensurar o valor real da peça. E, nesse ínterim, sofreu, sonhou, chorou, mil vezes deliberou firmemente esquecê-la, e outras mil vezes esteve na iminência de correr à loja e comprá-la.
E concluiu, inequívoco, que só seria pleno, só teria paz em seu coração e seu Espírito, se a trouxesse decididamente para si.
Foi à loja. Ávido, impaciente, tal qual uma criança, e comprou a estatueta de Vênus. Pagou-a toda, cédula sobre cédula, eufórico, mal contendo em si o contentamento que transbordava em sua face.
Colocou-a entre os bibelôs, no toucador do aposento. E suspirou, profundamente saciado, fitando-a numa inaudita adoração.
Isso repetiu-se no segundo dia, no terceiro; ao quarto, o entusiasmo arrefeceu. E arrefeceu mais, paulatinamente, no quinto dia, no sexto...
Até que esqueceu-se completamente da estatueta de Vênus, agora recoberta de pó, caída entre as escovas, as vidrarias de colônia, os cosméticos da esposa, os apetrechos congestionados do toucador.
sábado, 14 de junho de 2008
Haikai
Junto a um bando de normais
Um louco e a solidão.
sexta-feira, 13 de junho de 2008
Monólogo de uma Obsessão
Toma-me, intimorato, o torpor, um febril torpor. Sinestésica subversão que remete, vez única, a calabouços, penumbras e miasmas. Quais inquietantes tintas derramadas por penas, alhures. Sangue esvaído, drenada vitalidade, dissociando alma.
Basta! Tampo ouvidos a não mais escutá-las! No divórcio dessas letras, cabe-me, tão somente, reconciliação ao catre. Fétido catre impregnado, fumaça e alcatrão. Assim, curar pústulas, fístulas, exantemas. Ou imprecar-me, judicandus homo reus, ao cinéreo adormecer.
quinta-feira, 12 de junho de 2008
Fragmentos I a V
mesmo porque aqueles santos eram ocos de paus-de-arara e de cara ainda tinham a cara-de-pau de ostentar o lacre vermelho-escuro-sangue-falso na face e dizer da migalha do milagre da cura do bicho-de-pé do beato que veio da roça. eram tudo, menos estradeiros ou milagreiros. o que se sabe é que morreram. um de fimose e outro de caganeira.
a serra
jurava que era jabuticaba que brotava naquele espinhaço na Serra do Mar. pudera, o minúsculo ponto negro encravado no dedão do pé de Maria supunha a alcunha dada ao bicho. disse isso e saiu. suspirou aliviado ao notar a presença de uma espécie de serpente que chacoalhava rente ao pênis de Pedro que mijava na pedra logo na entrada da gruta escura. Maria não tirava o palito dos dentes. fui dormir inda cedo sempre lembrando daquele dedo, e do palito. Maria e Pedro, nunca mais vi.
meu avô
meu avô tinha uma verruga enorme atrás da orelha direita. dizia que era onde guardava os segredos que lhe contavam. minha avó era calada e austera e isso causava no meu avô uma certa relutância ao diálogo entre eles. Severo era filho de vó Joana, dona de um terreiro de umbanda numa vila de pescadores. nunca soube o porquê de ter se tornado padre ao vinte e um anos. meu avô sabia.
o chocalho
o conteúdo não importa. veja, meu bem, e ouça a blasfêmia insignificatez da bela sonoridade dessa poesia morta. era o que sempre quis dizer: nada. Maria não entendeu. coitada, teve um colapso nervoso ao ouvir um grito estridente de um choro de criança. apaguei o cigarro no assoalho e fui dar o chocalho pra Fabiana.
1961
Jânio era um resmungão, chato e bicha. queria encontrar alguém de peito que o demovesse daquela idéia alienígena. não achou. Rita servia café-com-leite no gabinete com pretexto óbvio de misturar com sua vodka matinal. ao que tudo indica, ali só se bebia coca-cola. café puro, era raro. o país-continente magoou, e logo daria o troco. e deu no que deu, para o bem e para o mal.
segunda-feira, 9 de junho de 2008
Caim Está Entre Nós
Era alvo constante dos louvores do seu chefe, um editor atolado em dívidas com o tal político e tão medíocre quanto ele. Em verdade, o destino — este sarcástico incurável — ligara as três personalidades apagadas: o Pai, o Filho e o Espírito Pouco Santo do editor.
Acreditando estar escorado pelo prestígio paterno, ficou abalado quando certa tarde o editor lhe fez uma pequena crítica. Construtiva ou não, o chefe lhe dissera que faltava vida no artigo que escrevera. Voltou para casa amuado, deitou-se na cama, encarou o teto e chorou seu primeiro fracasso.
As críticas se tornaram cada vez mais freqüentes. Tentava argumentos que imaginava sólidos, mal disfarçando sua irritação. Cheio de mimos, odiava ser contrariado, pois crescera desconhecendo o significado de uma negativa aos seus caprichos. Em seu íntimo, estabeleceu assim que o editor não passava de um incomensurável cretino, esquecendo que o considerava genial quando antes o elogiava.
Dando seqüência a sua orgia de rancores, decretou que o editor era o maior idiota já parido pela humanidade quando ele passou a desfiar elogios aos textos de uma estagiária de pernas grossas, recentemente contratada.
Neste dia embebedou-se e vomitou o seu despeito.
Passou a acompanhar com avidez as matérias escritas pela estagiária, apontando defeitos nos textos da mocinha e, em contrapartida, auto elogiando-se. Já não era bem visto no jornal e começou a ser evitado pelos colegas na redação que o travavam pelas costas de Caim, o invejoso.
Ao ser foi publicamente censurado pelo editor ao trocar em uma matéria o nome de uma autoridade estadual em visita a cidade, voltou para casa furioso, ligou para o amante clandestino e exigiu prazer naquela noite como tentativa de apagar sua sensação de derrota.
Todo o ódio reprimido explodiu ao saber que o editor tinha um caso amoroso com a estagiária de pernas grossas. Como nutria uma paixão platônica pelo chefe, sentiu-se duplamente traído em sua vida sentimental e jornalística.
Naquele dia, não voltou para casa, não chorou seu fracasso, não vomitou o seu despeito em álcool e muito menos aplacou suas frustrações nos braços de um rapaz. Matou a estagiária com cinco facadas e, vestindo as roupas da vítima, bateu na porta da casa do objeto de sua paixão. Ao atender, o editor pasmou-se com aquela caricatura de mulher, sangue maculando as mãos, rosto desfigurado pela insânia, desesperadamente a gritar: “Eu te amo!”.
sexta-feira, 6 de junho de 2008
Não-soneto Esquizo-dadadodecassílabo Pobre de Rimas

Alvissareiro, o pedreiro filosofa o comércio do amor
Cachaceiro, o tesoureiro vaticina a vacina contra a dor
Matreiro, o vaqueiro tosquia a ovelha do pastor
Brejeiro, o cordeiro ludibria o astuto pensador
Canibalista, o hindu rumina a musical oração
Humanista, o soldado prepara a miraculosa poção
Demonista, o santo apregoa as pregas do sacristão
Fetichista, o exegeta ejeta na aorta o sabão
A Pangéia doente vomita proletários
Tapuias hasteiam a divinal bandeira
Os farrapos devotos da Régia Cangaceira
Riso escarninho, safadeza e: que otários!
Os suados gravatas bravatas crocitam
Fodam-se os asnos que nos criticam
Carlos Cruz - 07/02/2008
Ilustração: The Dada Galaxy by Marcel Janco
quarta-feira, 4 de junho de 2008
A Travessia
e serei novamente um cadáver agradecido
com um sorriso nos lábios
e a tranqüila serenidade
daqueles que não souberam que partiram,
dos que se foram sem se despedir
(lançados ao espaço por desproporcionais choques de massas)
enquanto o corpo descrevia uma parábola descendente
parando no meio do asfalto, meio morto
(morte de cachorro louco, dia frio, na beira de um meio-fio)
Nós,
os que sempre se vão na hora errada
não queremos mais mundos obscuros
onde as lágrimas não podem passear pelos rostos
e as dores não podem ser acariciadas
à luz do dia
Todos os dias
Por conta dessa noite de virgens loucas
a poesia nada mais é que um momento trágico e mágico
eternizado por uma pena perdida
(no fel da loucura embebida)
servida em cálices altos
aos que se embebedavam
no festim da vida
E por conta de toda esta embriaguez
é que viramos a cidade de pernas pro ar,
somente para encontrar
um par de pernas
cruzadas
Os que vierem depois disso quase nada entenderão
(farão falsos discursos em monocórdios maquinados)
mas o mundo muda de repente (à revelia)
e a travessia pode se dar à qualquer hora
confirmando assim a única certeza da vida
Meu presente para o futuro é um passado sem glórias
Ainda agarro a felicidade pelos cabelos
e a beijo sem volúpia e sem vontade
apenas para ter o prazer de lhe cravar os beiços
terça-feira, 3 de junho de 2008
O Homem Santo - Juliano Guerra

No templo, uma mulher se retorce ao som dos urros da platéia entusiasmada e eu, no meio da maior abstinência da porra do hemisfério ocidental, fico vigiando a saída pra mendigar alguns incautos. Esses crentes de merda nem pra fiar um trocado. Os olhos do homem santo não raro cruzam com os meus, mas, envolvido que está no exorcismo de plástico, me ignora solenemente.
Mais tarde, enquanto ele chacoalha a rosa na minha frente, Nina vai fazendo os ganhos. O que dá, enquanto as pétalas vão caindo e o santo homem me açoita entoando sua liturgia nababesca. Umas fotos de família na parede até que o humanizam: o nojo ainda me mela a boca, mas o asco propriamente dito já pode ser sublimado com boa vontade e a velha filosofia do olho no prêmio.
Nina me espera do lado de fora da casinha, muxoxos & rebeldia pra viagem. O santo homem me baba o pescoço – lesmas ficam nauseadas de uma costa à outra. Esse é meu exorcismo às avessas, deixo os demônios entrarem com suas marchinhas de duplo sentido. Deixo também o esmalte preto das unhas de Nina escorrer pelo platô até formar uma poça. É aí que o homem santo me batiza.
Recebo a paga do dia por me deixar abusar. Seria mais difícil se eu não tivesse vendido minha alma para uma seguradora. Tomo um banho de água quente com sal grosso, cantigas de ninar ressoam. Nina escapa do meu abraço pra arrumar as colheres, depois me chama. Aplicamos um ao outro o remédio, encostamos nossos pés sob o cobertor paranóico e nascemos.
*a imagem acima é "O martírio de São Pedro", de Caravaggio.
segunda-feira, 2 de junho de 2008
A fuga
Não sabia distinguir seus próprios sentimentos, como interpretar os alheios? Estava confusa, não suportaria nem mais uma noite ali, no desespero do momento era guerra, ou ela ou ele.
Deu-lhe um beijo aos prantos, sentiria falta, acariciou-lhe a face e deixou-se recostar em seu peito pela última vez. Como podia sentir-se acolhida e querida por um desconhecido? Como se entragara assim? Perdera a conta de quanto tempo perdera ali dentro, mesmo que sentisse ódio, ele tinha sua importância.
Espiou o corredor, olhou dos dois lados, os dormitórios com as luzes todas apagadas, mas ouvia Estela, a louca da boneca de pano". Cantava o que parecia uma canção de ninar, tudo estava vazio e silencioso, pelo adiantado da hora, as pessoas estavam dormindo, com excessão de Estela, que não dormia durante a noite.
Cecília assustava-se com cada sombra, com cada mínimo barulho que ouvia, o corredor ficava mais longo a cada passo e no mesmo compasso a música da louca distanciava-se, foi assim até alcançar o banheiro feminino.
A luz era forte e branca, feria-lhe os olhos noturnos e assombrados, quando se acostumou com a claridade, olhou-se no espelho, no que se transformara? Lembrava-se de suas festas, de seus cabelos arrumados, de suas unhas carmim. Não podia crer que era aquela figura refletida ali, um animal acuado, com medo da própria imagem, olhos esbugalhados, respiração rápida e inconstante.
Tinha que ficar calma, encheu os pulmões de ar, como se aquilo ajudasse, de algum modo, apertou sua mão direita sobre o peito, num acalanto de si e revirou os armários nenhuma roupa apenas uniformes, dezenas de uniformes de enfermeira, tirou sua camisola de algodão-cru, fitou-se mais uma vez, cheia de marcas roxas, resultado das lutas contra seus monstros internos, contra os enfermeiros. Vestiu-se, penteou-se, mais uma vez o espelho, para se certificar de seu disfarce, não pretendia ser notada e saiu descalça pelos corredores por não encontrar nenhum par sapatos.
Mas quem olharia para os seus pés agora, todos dormiam. Ouviu o sussurro de Estela, "-Vá e diga à Orlando que sobrevivi!"
Quem seria Orlando, será que percebera sua fuga? Completou dizendo, "- Diga que não desisti, que derrubarei meus inimigos um a um!"
Ao encontrar a última porta, ainda com a frase de Estela na cabeça, depara-se com um vigia que levanta a cabeça se despedindo, “boa noite, Marie!” Ela respondeu com um breve cumprimento, sem encará-lo e saiu.
Observou, por um breve instante a vastidão escura que a esperava, não havia lua naquela noite, as estrelas cintilavam plenas, como se soubessem que ela estava solta e as luzes amareladas dos postes não abriam tanta claridade quanto precisava. Um calafrio percorreu-lhe a espinha, viu-se liberta, mas para onde ir? Não poderia voltar para casa, tinham-na como um estorvo, uma assassina, a internariam de novo.
Quase sentiu saudade da clausura, do barulho de suas abelhas, da beleza de seu jardim, dos carinhos de Amadeus.
Em seu íntimo entendia que a liberdade utópica era menos complicada que a verdadeira. Não queria pensar em nada, mas seus pensamentos livres como ela, soltos, descalços, sem direção, sem regras, a perseguiriam vitalícios. Respirou fundo e entregou-se a corrida o quanto suas pernas permitiram.
Depois da fuga frenética, encontrou um banco de praça e se sentou, os pés tinham bolhas, alguns pedregulhos estavam presos entre a pele e a carne. Enquanto arrancava-os sem o mínimo cuidado, os ferimentos sangravam, o seu corpo pedia para se deitar, mas na cabeça uma voz alertava-a, se parasse agora seria capturada e levada de volta, o que ela menos queria.
O dia já estava amanhecendo, logo perceberiam sua fuga. Procurou em sua volta, só havia um bêbado deitado na sarjeta, cantarolava algo, mas ela não distinguia o que.
Em uma vitrine sapatos carmim, lindos, flamejantes, uma pedra e os sapatos estavam em seus pés, mais uma vez fugia. E o bêbado gritava, “agora ela tem sapatos vermelhos, a enfermeira tem sapatos vermelhos!”
Sentia-se como "Dorothy Gale", no filme o Mágico de Oz, nos seus sapatos vermelhos, perseguida por monstros e pela bruxa do oeste, tinha a saída em seus sapatos carmim reluzentes, era só batê-los um no outro e repetir seguidas vezes "não há lugar mehor que minha casa, não há ligar melhor que minha casa!"
A quem queria enganar? Não havia lugar pior que sua casa, talvez houvesse, mas ela desconhecia.
Os saltos dos sapatos prendiam-se nos vãos dos paralelepípedos que eram negros e não dourados, como no filme e caminhar com eles era mais complicado que caminhar descalça, tirou os sapatos e continuou a andar, os pés já não doíam mais.
Sentia fome, sede, medo.
Depois de ter andado muito e o dia estar claro, avistou uma pequena cafeteria, entrou, sentou-se, a atendente veio e ela pediu apenas um copo com água. A moça com uma saia curta e olhos gentis, logo trouxe-lhe a água. Cecília bebeu de uma só vez e levou as mãos ao bolso, dissimulando o esquecimento do dinheiro. “A água é por conta da casa”, disse a atendente, comentou que não parecia bem, se precisava de ajuda, Cecília perguntou onde ficava o banheiro.
Viu-se no espelho, estava péssima, ligou a torneira e passou água pelo rosto, pescoço e ajeitou os cabelos mais uma vez. Apática pelo pavor que era tanto que seu coração ecoava dentro de seus ouvidos. Revirava o pescoço com vigor e passava a mão pela nuca, tentando relaxar um pouco.
“Precisa de ajuda?”, uma senhora de olhos caramelados, perguntava, a senhora bem idosa, com vestido colorido, com muita maquiagem nos olhos, cabelos que de tão brancos pareciam acinzentados e uma voz compadecida e carinhosa, insistia, “se precisar de alguma coisa é só pedir”. Como se alguém pudesse ajudá-la.
Acenou que não, com a cabeça e a senhora completou, “deve ter tido uma noite difícil”.
Cecília respondeu internamente, não imagina o quanto e apenas sorriu.
Olhando-se no espelho, sua imagem invertida do outro lado fez-se uma pergunta perturbadora, fugira de si mesma, todo esse tempo?
domingo, 1 de junho de 2008
formiga
Vida, patrimônio, aposentadoria
Apartamento, profissão, casamento
Não me importa errar
Quero ver a formiga andar
Estresse, úlcera, tensão
Mesquinharia, capitalismo, baixaria
Pretensão em ser o fodão
Não me interessa realizar
Quero ver a formiga andar
A formiga movimenta as patinhas
Uma atrás da outra
Arrumadinhas
Filhos, velhice, impotência
Competição, crise, orgulho
Comparação, fofoca, provocação
Não quero apodrecer
Quero ver a formiga correr

