terça-feira, 20 de maio de 2014

Convidada Lêda Selma




O SILÊNCIO DAS PEDRAS


O silêncio das pedras,
de tão frio e só, incomoda.
Lava-se com a chuva,
e lima-se em restos de sol.

Silêncio que crispa
o ferrão do instante
nos olhos que o fitam.

E guarda uma tristeza
fosca, estéril-lilás,
porção de inércia morta.

Por um talhe diacrônico,
por uma fissura tosca,
caminha o mistério das pedras.

Com ele, vagam, sob musgos,
solidões, nódoas, mofos.
As pedras não estão mortas.

Quando, sutil, as toco,
percebo a pele em ranhuras
de suas muitas saudades.

As pedras sabem que as sinto,
as pedras sentem que as ouço.
Sei que as pedras sofrem.
E elas sentem que sofro.


---

Lêda Selma


segunda-feira, 19 de maio de 2014

Papo de Bar em Época de Copa

Numa dessas coincidências que a vida nos presenteia, encontravam-se reunidos num balcão de bar, tomando chope, quatro homens de quatro nacionalidades diferentes. Era fim-de-tarde. Todos aqui, no Brasil, ansiosos pela Copa do Mundo: um português, em viagem apenas para assistir ao mundial; um inglês, que também já tinha ingresso comprado e já visitava o Brasil regularmente há mais de dez anos, pois trabalhava para uma multinacional que tinha filial aqui; um argentino radicado no Brasil há alguns anos; e, é claro, um brasileiro que estava ali tomando os seus chopes entre o sair do serviço e o chegar em casa. Segue aqui um trecho do bate-papo:

ARGENTINO: Yo creo que Argentina vai aprontar nesta Copa. Já está na hora de ganharmos una Copa de Mundo!
BRASILEIRO: Vai sonhando, gringo... Aqui não tem pra vocês não! É Brasil na cabeça!
INGLÊS: No cabeça? Eu não entendo... (o inglês, apesar de falar bem o nosso idioma, ainda não entendia bem algumas expressões. Já o argentino usava algumas palavras em espanhol, digamos que, por pura insistência)
PORTUGUÊS: Deixe-me explicar-lhe. O que o gajo brasileiro está a vos dizer é que, “na cabeça” quer dizer certeiro, no alvo. Compreendes?
INGLÊS: O.K. Eu acho também que Brasil é o favorito para o Copa.
PORTUGUÊS: Eu não sei. Ora pois. O Brasil tem Neymar, que é um belo futebolista. A Argentina tem Messi, que é excelente também. Pois nós temos o Cristiano Ronaldo, que é de fato o atual melhor do mundo.
BRASILEIRO: É portuga, mas lembra que uma andorinha não faz verão, hein...
PORTUGUÊS: Como é?
ARGENTINO: É, o que tá hablando?
BRASILEIRO: Eita, gringaiada. To dizendo que um só não consegue carregar o time nas costas. Só o Cristiano Ronaldo em Portugal não significa que o time todo é bom. Nem só o Messi na Argentina consegue fazer milagre sozinho.
ARGENTINO: Está louco? Tenemos uma grande equipo! Di Maria, Higuaín...
INGLÊS: Eu concordar com o amigo argentino. O time todo é um equipe. Todos precisam estar bem unidos, e é claro, um fará toda o diferença. Só quero lembrar que o nosso English Team não levanta um taça desde 1966. Pode ser o nossa hora, amigos...
BRASILEIRO: Inglaterra sempre morre na praia...
INGLÊS: Como?
ARGENTINO: O Brasileño quer dizer que Inglaterra não vai longe em la Copa. Que siempre perde antes.
BRASILEIRO: Ô gringo (se referindo o argentino), como você sabe tão bem a nossa língua, podia parar de falar esse castelhano aí, hein? Que coisa...
PORTUGUÊS: Acalmem-se, caros rivais. Estamos somente a conversar, ora pois... A propósito, acho que todas nossas esquadras tem chance. Contudo, Brasil está a jogar em sua casa, com seus torcedores. Só creio que Júlio César é um guarda-redes um pouco velho para a função...
BRASIEIRO: Do que você chamou o Júlio César, portuga?
INGLÊS: Essa eu também não entendi.
ARGENTINO: No comprendo!
PORTUGUÊS: Virgem Maria, é o arqueiro! O goleiro, como vocês chamam nas terras de cá!
BRASILEIRO: Nossa... acho que o chope já está “dando liga” – e antes de que qualquer um perguntasse algo, o brasileiro rapidamente se explicou: Estou ficando levemente bêbado. Hora de parar por aqui, gente.
PORTUGUÊS: Ora... sabemos que tens uma bela rapariga lhe esperando em casa, brasileiro... creio que tens miúdos a lhe aguardar também...
BRASILEIRO: Se miúdos são filhos, tenho sim, duas meninas.
PORTUGUÊS: Pois diga-nos: vais a assistir os jogos da seleção brasileira?
BRASILEIRO: Mas é claro. Na empresa já está combinado que em horário de jogo, todos na frente da TV. Nem pensar em trabalhar!
INGLÊS: O.K. Deixa ver se entendi. Você verá os jogos de sua seleção pela TV, e não ao vivo da estádio?
ARGENTINO: Nem yo.
INGLÊS: Você também não? Mas se mora aqui, por que não vai assistir o Argentina na estádio?
ARGENTINO: No meu caso, yo prefiro assistir de casa. Uma, que tengo dos pontes de safena. Se voy a o estádio, puedo enfartar, pois fico muy nervoso quando Argentina joga. Em casa, fico ao lado do telefone, com mi mujer por perto. Secondo, que comprei uma televisión de 64 polegadas só para isso – tengo que aproveitar!
PORTUGUÊS: Pois bem... e você brasileiro, estava dizendo que não vais ao estádio também pois...
BRASILEIRO: (O brasileiro fica um pouco meditativo, antes de falar) Olha, gosto muito de futebol. Gostaria de estar dentro do estádio. Na verdade, quando voltar do trabalho, vou passar na frente do Maracanã. É meu caminho diário do trabalho. Só que... é tanta conta para pagar. Escola das filhas. Remédio. Reforma na casa. Prestação do carro. Prestação de móveis. Impostos e o caralho a quatro. Eu e a mulher damos um duro danado e não sobra, é duro...

Os outros da mesa permaneceram em silêncio, pensativos nas palavras do brasileiro, bebericando seus últimos goles de chope. O brasileiro, por fim, disse:

- Pelo menos tenho um amigo que é médico da prefeitura. Ele vai me conseguir um atestado frio, e vou ficar umas duas semanas em casa para assistir da segunda fase até a final da Copa. Acho que ele vai colocar que tenho dor nas costas, alguma coisa assim. Que se dane, também sou filho de Deus!

E seguiu seu rumo, deixando para trás os estrangeiros...

domingo, 18 de maio de 2014

Praça no Meio do Nada



ao lado da estrada
no caminho
entre os nadas,
ainda hei de construir
uma praça
pra nós dois.

canteiros com flores
rosadas,
dois banquinhos
debaixo das árvores,
e um espaço
pra levantar nossa estátua
depois.

mas já ficamos nela
sentados,

bêbados de vinho,

vivendo o que ainda
não foi.

André Espínola

sábado, 17 de maio de 2014

Amigo cigarro



Tenho um amigo pra desabafar,
não digo nada e nem preciso dizer,
só preciso acender e tragar,
ele me entende, ele me acalma.
sacio nosso relacionamento do inicio ao fim
e no final eu mato ele.


sexta-feira, 16 de maio de 2014

O empate

tenho um novo plano
é o mesmo de sempre,
tu me diz,
me entoco
neste buraco
que chamo de casa
encho a cara
e me emboleto

nada de mais,
tu me diz

tenho um novo plano
escrevo febrilmente
na minha Olivetti 82
e me atiro
nas paredes
depois
de um poema
como este

batido,
manjado, tu me diz

tenho um novo plano
um embate
nosso
constante
empate
(malditos leoninos!)
pára com isso,
tu me diz,
escreva algo certeiro

mato a garrafa
apago este poema
no cinzeiro.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

O roubo do domínio bardoescritor.net



Em 2007 iniciei a produção do Ezine (eletronic-zine) Bar do Escritor, uma publicação virtual de contos, crônicas e poemas dos autores da comunidade BdE do Orkut. Registrei o domínio www.bardoescritor.net por R$ 30,00, contratei uma provedora por R$ 10,00 e paguei R$ 300,00 para um programador fazer o site. Tudo muito simples, mas arrumadinho e bastante interessante.
Convidei diversos escritores para editarem rodadas com autores de sua preferência, entre nacionais e internacionais, conhecidos e anônimos, sendo que a única obrigação era a permissão para uso do texto e a ajuda na divulgação. O ezine chegou a receber 150 mil acessos. Foram 58 rodadas de literatura (ou drinks literários).
Em 2012 não fiz a renovação do domínio, estava meio sem grana. Lá pelo meio do ano, com a próxima rodada pronta e uns trocados no bolso, acessei o Registro.br para regularizar o pagamento e prosseguir na empreitada de publicação virtual, porém descobri que o domínio havia sido comprado por uma empresa norteamericana, a  www.flancrestdomains.com . Contatei a empresa e, para meu espanto, eles informaram que me devolveriam o domínio pela módica quantia de $ 5000. Em extenso, para não deixar dúvidas: cinco mil dólares!
Em pesquisa na internet, descobri que é pratica comum monitorarem e registrarem domínios com muitos acessos que não são renovados para revendê-los com ágio aos verdadeiros desenvolvedores da marca. Aconteceu com a Coca-Cola, a Sony e até a Madonna. É prática comum, sim, mas não honesta, diga-se.
Obviamente não comprei de volta o domínio, tampouco iniciei ação jurídica internacional, como a Coca, a Sony e a Madonna, para reaver o que era do BdE por direito natural. Averiguei a data em que o registro expiraria e esperei para fazer o procedimento inverso, ou seja, comprar de volta no sistema o domínio que eu havia inventado. Nesse interlúdio, por trinta dinheiros brasileiros, registrei o bardoescritor.com.br .
O registro internacional expirou hoje, dia 14/05/2014. Acessei o site de registro e, para minha surpresa, a malfadada empresa havia renovado o domínio algumas horas antes. Contatei a empresa novamente. Eles me disseram que o devolveriam de bom grado, inclusive com desconto de 50%, por apenas $ 2500. Em extenso novamente: duas mil e quinhentas doletas.
Encaminhei um email ao flancrestdomains: give me back my domain, your thiefs. Imagino, porém, que eles não o farão sem o recebimento do sequestro. Sim, pois é um sequestro de marca, de ideia, de projeto. Uma atitude absolutamente canalha e exploradora, típica do capitalismo arrogante de empresas sem ética.
O problema nesse imbróglio é que a programação do site faz referência ao bardoescritor.net, ao invés de acessar a pasta raiz do ambiente onde estão hospedados os textos, assim, para conseguir voltar com o ezine, é preciso usar o mesmo domínio ou fazer uma nova programação reescrevendo o site antigo. Pesquisei quanto custaria a nova programação: R$ 2000,00.
O BdE é uma entidade sem financiamento, além da ajuda dos barnasianos, é praticamente impossível recolhermos tal dinheirama para refazer o site em outro domínio.
Portanto, ficaremos sem o ezine no bardoescritor.net até pelo menos 13/05/2015, quando o registro expirar novamente. O ruim é que sempre que vendemos uma das três primeiras antologias e o comprador se interessa por conhecer o site, ele acessa o domínio roubado e a cada vez que há um acesso, a empresa sacana percebe que há público e interesse por aquele espaço. Possivelmente renovarão o domínio no ano que vem. Somente nesta quarta antologia é que informamos o novo espaço.
Como há o lado bom para tudo, percebi o quanto é importante formalizar nossos trabalhos. Ou melhor, importante não, necessário, pois há aqueles que não partilham nossas concepções de honestidade e direito. O que a tal empresa fez é legal, mas absolutamente amoral e indigno.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

PRIMAVERA DE 2011

Março sem flor.
Março sem cor...

E a menina japonesa
olha, com tristeza,
a única cerejeira
que o mar não tragou.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

O BECO

Ontem, caminhando pelas ruas me deparei com um beco e percebi que o mesmo me faria cortar o caminho em vários passos. Mesmo com o adiantar das horas e do perigo crescente das nossas cidades resolvi, por puro cansaço (ou foi extinto?), reduzir meu percurso com o auxílio da pequena viela escura e tenebrosa. 
 
Tenho que admitir que meu primeiro sentimento foi o medo, medo de ser assaltado, morto, esquartejado, ou passar por qualquer sofrimento e tortura alheios a vontade de qualquer pessoa “normal”. Contudo, após alguns passos, percebi que não estava só na padieira. Escutei passos, o caminhar de alguém que conhecia, que a muito transpôs minha vida. O medo majorou, o temor de nunca mais vermos tais pessoas e escutarmos seus passos nos inerva a ponderar que na vida nenhum vínculo vale realmente a pena. A não ser o familiar, o doméstico. Assim mesmo, ainda nos pegamos a pensar, às vezes, e se tivéssemos nascido em tal lugar, em tal situação, esse tal, sempre antagônico ao que é pragmático.  
 
Persistindo em minha peregrinação quase táctil pela via bruna, escutei uma voz. Um brado rouco, baixo, quase um murmúrio. Chegando a assemelhar-se àquele silêncio sonoro que todos já ouvimos quando estamos em peleja com quem amamos. Quando o silêncio é o pior das altercações, pois é a única conversa que não amortiza o problema, ao contrário, aumenta-o. De forma que, quando liberado, já está maior do que a própria língua. A própria razão torna-se irracional, bruta, e assim problemas passados são trazidos à tona. Fala-se sem pensar, age-se sem pudor, sem educação, vai-se até o local mais longínquo do coração. Quando, mesmo sendo senhores de nossa língua nos tornamos escravos das nossas palavras.
 
Após o sussurro, veio o tranco, a foice a cortar. E incisivamente cortou, amarfanhou como a quem precipita a navalha bruscamente. Empós o corte, a cicatriz cauteriza-se, mas nunca desaparece. Aguarda o momento injusto, descabido de abrolhar. Quando incisa, a epiderme da alma nunca mais é a mesma. Torna-se mais densa, dura, áspera. Como calos que narram experiências árduas, lições penosas. Assim, cada corte que sangra também doutrina. Quanto mais cicatrizes, estigmas, mais sábios nos tornamos. Todavia, nem sempre o que corta é navalha. A pena, tão leve e doce quanto o beijo de quem se ama, pode ser tão talhante quanto. Por isso, conservo todas as navalhas e penas que foram usadas em as quais usei.
 
Com o tranco corri, corri o mais célere que pude. Como quem corre do medo, do receio de enfrentar o que está por vir, o que está aí, o que ficou para trás. Corri como quem corre de mim, por asco de amar, por medo de ser, estar, ou de quem já fui. Corremos da tristeza, da incerteza, do obscuro, do que não é seguro. Corremos do incrédulo, do que não achamos correto, do soneto em aberto. Até da sinfonia completa, quando temos tudo que nos espera e sempre esperou. Corremos da felicidade, da novidade, da porta aberta. Corremos, sempre. 
 
Finalmente cheguei à luz, ao final do túnel, do beco escuro. A lucidez que sempre desejamos. Que nos faz enxergar, discernir o certo do errado, o sucesso do fiasco, o feliz do amaldiçoado, o sorumbático do afortunado. Nada obstante, a luz imódica nos faz cegos. Ofuscados não conseguimos distinguir quem, onde ou quando. Assim, decisões precipitadas, errôneas, muitas vezes são tomadas, levadas a pino. A luminosidade da vida tem que ser absurdamente controlada, sem medo de mudança, da alternância. Mais ou menos luz? O que define é o momento. Quando acabamos de sair da escuridão queremos a luz extrema, que chega a esquentar a alma. Porém, há um momento em que devemos abrandá-la. Para que possamos enxergar melhor, bispar a quem, onde e quando. Avistar o agora, à frente, clarificar a mente.   
 
Contudo, após cruzar o beco, percebi que ali não se encontrava vida, a não ser as baratas, ratos e outros afortunados sobreviventes seculares da impiedosa evolução. Mas eu estava mais vivo do que nunca, e meus fantasmas também. Os fantasmas que nos fazem companhia pela vida, que nos fazem pensar a cada dia de nossa cadenciada rotina. Todos os dias, ou quase sempre, atravessamos becos, vielas do dia, seja em casa, deitados na cama, sentados na varanda. Sempre percorremos as ruas dos pensamentos, as avenidas dos sentidos, e, ininterruptamente, sentimos que não será a última caminhada pelo beco.

domingo, 11 de maio de 2014

Teatro das Formigas - Ato 9 e Ato 10

Nono Ato
.
em grandes edifícios
desafiam
homens armados...

avistado o cadáver,
a pleno voo
não hesitam e saltam

por vidraças
estilhaçadas e
películas 8 mm

sob luzes de cidades,
olhos de
testemunhas
e ação de gravidade

encerram, triunfantes,
audaciosa pilhagem
de víveres...
.
 Décimo Ato
.
em cobertas
das fronhas matinais
sob babas

fruto de sonhos
ou pesadelos
de antigos marginais.

enquanto

salivam gordas
bodas
em conflitos

que atacam-lhe
os últimos
vestígios de sua

sanidade.
.

sábado, 10 de maio de 2014

Convidada Lucimar Rodrigues


Tenho observado que nós, mulheres, guardamos, acumulamos muito mais coisas que os homens. Por que será? Somos muito apegadas, cuidadosas, ciumentas? Não sei. A verdade  é que em todos os lares, as mulheres são donas de todos os armários e guarda-roupas da casa, restando aos homens, uma ou no máximo duas portas, para que disponham e organizem seus pertences. E eles o fazem com maestria, com raríssimas exceções, é claro. E nós, mulheres, seguimos comprando roupas, sapatos, bolsas, milhões de bijuterias, joias, echarpes, lenços, maquiagens. Estamos sempre nos presenteando com algum mimo, afinal, ninguém é de ferro e as tentações do consumo são inevitáveis.
E, convenhamos, o universo feminino é tão colorido e tão deliciosamente cheio de odores e prazeres. Creio que por mais que se fale em desenvolvimento sustentável e em consumo consciente, por muito tempo ainda continuaremos a perder, não só a cabeça, mas o corpo inteiro, diante de uma vitrine charmosa. Somos assim. E, no fundo, nossos companheiros aprovam, caso contrário, já teriam feito suas revoluções domésticas, içado bandeiras de dominação e posse para reivindicarem uma “porção” maior dos nossos “closets”.
Por outro lado, percebo um aumento na generosidade feminina, quase na mesma proporção em que compramos, fazemos doações para bazares de igrejas, creches, asilos e a qualidade dos produtos doados é excelente. Talvez, no fundo, bem lá no fundo, estejamos ouvindo São Francisco de Assis quando dizia: - irmãos, é dando (doando) que se recebe.
Praticamos o “feng shui” liberando nossos “closets” de roupas não usadas há muito tempo ou que pacientemente aguardam que suas donas joguem fora aqueles indesejáveis quilinhos extras ganhos nas festas juninas do século passado.
Hoje, convido a todos vocês, amigas e amigos,  donos de duas portas de armário que lhe couberam em uma casa gigante, a fazerem uma faxina e retirarem sapatos, camisas listradas, meias, ternos,  peças que simplesmente estão lá, guardadas, esquecidas, ocupando um espaço precioso e doarem para a Paróquia São Pedro Apóstolo, Setor “P” Sul. 
É tempo de festas juninas/julinas e a comunidade mantém um bazar diversificadíssimo, fonte de uma boa renda para as obras da Paróquia. Ali elas serão cuidadosamente preparadas e vendidas a preços módicos. Você será duplamente beneficiado, abrirá espaço no seu armário para peças e novas e ajudará a Igreja São Pedro Apóstolo – Setor “P” Sul. Você poderá levar as doações pessoalmente, fazer uma visita e conhecer  a paróquia ou entrar em contato comigo e eu me disponho a tomar um café com biscoitos na sua casa e entregar as doações. Não deixe para depois a arrumação que você pode começar hoje!
Estamos vivendo um tempo de mudança e mudança supõe tirar velhos trajes, vestir-se de “novo” e recomeçar a cada dia.  Um novo tempo se aproxima, aproveitemos para desapegar, libertar-nos dos sentimentos de posse e sermos pessoas livres.
---

Lucimar Rodrigues
lucimarsantosdelimarodrigues@gmail.com


sexta-feira, 9 de maio de 2014

DEPENDENTE QUÍMICO DE BUCETAS


Não é fácil falar com mulheres
Sensibilidades complexas e obtusas
Mentes
Não quero muito
Contento única mulher por estação
Destrinchá-la ao bel prazer
No máximo duas simultaneamente
Mulheres competindo transam melhor
Uns são viciados em cocaína
Outros em bebidas
Outros ainda em jogos
Eu sou compulsivo por mulheres
Doloroso deixar de foder algumas
Sou dependente químico de bucetas
Observo
Humanos inabilitados em transpor o alvéolo moral
Farsas
Lhufas sexuais
Encarcerados em si
Sou pessimista
Acredito no ser humano traindo com a melhor amiga
Com a vizinha
Com a prima
Com a porra toda
Acredito na maldade humana
Acredito em foder a outra
Fazer o mal
Ser filho da puta por frustrações reprimidas
Não acredito ao contrário
No máximo sendo bem enganados
Consideram-me um comedor
Porra nenhuma!
Trepo com o encéfalo
Migalhas masturbatórias

Pablo Treuffar
Licença Creative Commons

DEPENDENTE QUÍMICO DE BUCETAS. de Pablo Treuffar é licenciado sob uma Licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported.
Based on a work at www.pablotreuffar.com
A VERDADE É QUE EU MINTO

A VERDADE É QUE EU MINTO

quinta-feira, 8 de maio de 2014

O incenso perfura tudo ‪



Há uma agonia esquisita bem ali onde minto
Naquele pedaço de chão tem um tapete fino
Entremeei a trama de agulhas
Pintei de espinhos, flores, terra e sangue
Canto nos fins de tarde para ninguém

Cânticos enovelados ecoam na abóbada
Milênios de cinzas, certezas e dúvidas
Bem ali no canto recito todas as orações
Entremeadas de desvarios e vazio

Elas sobem alto no céu
Ele vê com o canto do olho
E talvez ouça
Atento e rápido

Desenha meus destinos indeterminados
Fala,sussurra , vaticina e murmura quem devo ser
Porque, eu sei, no princípio era o Verbo
Ele conta dum ciclo que se fecha...

Enuma Elish rondando minha cabeça
Tudo isso ou nada...
Não importa muito...
O incenso perfura tudo

Fumaça de dúvidas e preces

Elas cantam!
Nós mulheres entreteladas,
Entremeadas de sombra e luz,
Sibilas esvoaçantes
Sedutoras e assustadas
Enroladas em véus e cilício
Voando em tapetes mágicos.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Licença poética cassada



Recebi uma carta, informando que minha licença poética foi cassada.
Foi abatida a tiros numa tardinha de sol pelos estetas da nova ordem enquanto corria no Parque do Sabiá para manter o corpinho sarado.
Sua carcaça foi levada ao IML do Umuarama.
Devo comparecer o mais breve possível ao local para o reconhecimento do corpo, a fim de evitar que o cadáver seja utilizado pelos estudantes de Medicina em suas aulas de anatomia.
Caso contrário minha poesia será dissecada, servindo desumanamente às causas da humanidade; loucura, ganancia e insanidade. Cura para impotência, mau hálito, dor de cotovelo.

Agora sem licença permaneço, mandando sinais de fumaça e mensagens em garrafas, escrevendo até que me encontrem em meu subterrâneo esconderijo e me alvejem com balas de açúcar candy e impropérios, afirmando sobre como o que escrevo deve parar de ser movido pelo impossível.

domingo, 4 de maio de 2014

Das coisas que aprendo em festas literárias

Poucas atividades na vida nos dão a dupla vantagem de crescer enquanto se faz o que gosta. De poder sentir-se realizado, mesmo naquela ralação de não ter tempo para mais nada que a operação a que se destina. Aquele tipo de aventura que te deixa todo ralado, estropiado e feliz. Sim, feliz, porque não mediu esforços para fazer aquilo que ama e o resultado será sempre satisfatório. O mesmo vale para quem gosta de trilhas, rafting, longas viagens de moto e afins.  
Assim sendo, de 30 de abril até ontem, 03 de Maio, estive na Flipiri – Festa Literária de Pirenópolis, a sexta edição deste evento que traz para esta bucólica cidade o mundo mágico das letras. Autores nacionais e internacionais, oficinas, palestras, shows e tudo o mais que se tem direito em um festival destes. A resposta do público foi imediata e o que vi nos dias que lá estive foi um sinal inequívoco que, quando a arte se mostra acessível, as pessoas comparecem em peso.  


Então, por conta da saída atrasada, cheguei em Piri somente à noite, mas no tempo certo para pegar a show de lançamento, da parceira Isabella Rovo e a Camerata Caipira. A mistura perfeita de sons para começar uma festa que começa a se tornar tradicional, em uma das mais tradicionais cidades de Goiás.

Como não tinha mais como montar o stand de noite, decidi ficar por ali e apreciar tudo com o tempo livre que raramente tenho nestas ocasiões. Foi quando aproveitei a presença de Ignácio de Loyola Brandão para aquela tietagem básica, pois não é todo dia que se topa com alguém com toda essa bagagem literária (havia o encontrado na Feira De Frankfurt de 2013, mas foi uma situação muito corrida). E a partir daí, comecei uma aprendizagem em série, pois o ensinamento está nos olhos de quem o vê.
Por conta do volume do som e da minha propensão a falar enrolado, levei-o a entender que meu nome era “Luciano” (isso acontece frequentemente, a única variação é quando entendem “Juliano”). Informado do nome certo, Ignácio, não titubeou: meteu uma errata e arremeteu que era um autógrafo único, dono de uma retificação que aumentava-lhe o crédito.
Achei aquilo tão natural e simples, que aumentou-me a admiração pelo trabalho. Em tempo, ainda não terminei de ler o livro, mas é excelente.

Meu próximo estágio de crescimento nesta viagem foi a forma como fui recebido e tratado por meus anfitriões, Marcos Lotufo e Edith. Marcão, como é mais conhecido, é um guerreiro das artes, o baluarte da Officina Cultural Gepetto, que, junto com sua esposa Edith, a europeia mais goiana que conheço, formam um dos casais mais agradáveis para um bate papo, seja cultural, político (algo raro hoje em dia) ou sobre amenidades da vida. Pessoas que te deixam à vontade com um simples bom dia, que traduzem tranquilidade só pelo linguajar pausado e a forma de demonstrar o carinho mútuo e respeito ao próximo.
Do tipo de abnegados que conseguiram transferir aos filhos (que já repassam aos netos) a ideia que na vida o importante são os valores pessoais e não os materiais; que o crescimento vem de dentro e deve ser compartilhado, seja ajudando a carregar uma simples sacola de supermercado, ou hospedando de surpresa três marmanjos de procedências diversas  quanto Goiânia, Brasília ou Moçambique. Ótimo foi poder acompanhar as trocas de experiências entre eles e Mahiriri Ossuka, de quem trato mais à frente.

O casal Lotufo e seus convidados

Outra parte importante nestas aventuras literárias é encontrar colegas autores, reconhecidos ou não, amigos barnasianos, como Gláuber Vieira ou Sonnos, o sumido, agora residente em Piri, podendo desta forma mostrar nosso trabalho em conjunto, as antologias onde traduzimos o mundo em poemas, contos, crônicas e afins... E junto poder levar as palavras de outros parceiros.

Giovani, eu e Nicholas Behr



Com o stand aberto pudemos perceber a receptividade do público ao trabalho feito por estes construtores de mundos imaginários, prosadores que subvertem a realidade vigente ou poetas que brincam com as significâncias ou significados, reafirmando a verdade que teimam em esconder, que o Brasil é sim, um país de leitores, assim como uma nação de autores, por mais que o mercado volte sempre sua face para os produtos de filmes, jogos de vídeo games ou postulantes das listas dos “dez mais”. 



Outra parte recompensadora fora a das palestras e oficinas que ministramos durante a festa. Nelas, além de podermos repassar nossa experiência com o Bar do Escritor e os percalços deste caminho literário, no mundo real ou virtual, ainda conhecemos vários exemplos e projetos desenvolvidos pelo publico participante

Descontraídas, eram verdadeiros bate papos onde relatamos o que passamos e aprendemos muito quando estávamos lá para ensinar, algo extremamente gratificante, que corrobora as palavras de Cora, de que “Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”, tudo isso em parceria com autores como Alexandre Lobão e o mais recente barnasiano, Mahiriri Ossuka.. O show de declamação do poeta moçambicano foi algo que me deixou maravilhado. 
Giovani, Mahiriri Ossuka e Alexandre Lobão

Adriano Siri e Cristiano Deveras

Por falar no Ossuka, deixei-o para o final por um motivo básico: conversando com ele, tive aquela nítida impressão que às vezes reclamo demais dos percalços pelos quais passo nesta jornada. Afinal, não tenho que encomendar impressão de livros a aproximadamente 2.300 km da minha cidade; sou circundado por gráficas e editoras, algumas em meu próprio bairro e, por mais que às vezes reclame dos preços dos livros em algumas estantes ou livrarias, a acessibilidade a eles é relativamente fácil para mim.

Ainda lembro-me do brilho em seus olhos, enquanto arrumava a pilha de livros recebidos de diversos autores presentes ao evento (todos cativados por seu jeito espontâneo e o leve sotaque aparentado com o lusitano), um tanto preocupado com o transporte dos volumes, enquanto dizia, quase que para si:
Estes irão ajudar-nos muito com os miúdos...
Espero que aquelas páginas transitem inúmeras vezes por infantis mãos africanas, enquanto o mesmo processo multiplica-se aqui no Brasil.
É isso, ano que tem mais Flipiri. Espero estar lá, de um lado ou do outro do balcão.


P.S. dia 15 de Maio começa aqui em Goiânia a Galhofada Cultural, capitaneada pelo Almirante Lotufo. Estaremos lá, com a mesma dedicação e livros. Muitos livros...   

sábado, 3 de maio de 2014


Calçadas

Seu céu é meu ar,
um dia noturno à respirar
noites perdidas, 
esquinas desertas 
e brisas de calçada.

Teus passos incertos

no silêncio da madrugada,
avançam no acender brasas
fragmentando-se em solidão
e mendigos.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

DE QUE ADIANTA SONHAR?



– vamos dançar? perguntou ela tímida para o garoto ao lado.
– não posso. sou um sonhador.
– e sonhador não dança?
– não. sonhador sonha.
– ah. pois eu danço e sonho.
retirou-se, com pena do menino bonito que sonha, mas não dança. nem perdeu tempo explicando que o sonho é a dança colorida da alma.