quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

8760 horas de paz para cada ano...











Em uma fração de esperança

Num ritual de retorno para a paz,


Explosões de luzes e cores

Festejam e saúdam o novo ano e Iemanjá,

Ao som dos tambores e,

Bebendo do branco ondulado das flores

Que a deidade sereia vem buscar.


Na beira do mar cósmico
A madrugada dança enfeitiçada
Em vigília para não despertar.
Yèyé Omo ejá (mãe cujos filhos são peixes)

 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O Preguiçoso

Seu Gláucio sempre fora taxado de preguiçoso. Primeiro por sua esposa, depois por suas duas filhas, e por fim por seus genros - o que foi a estopim para que seu Gláucio pedisse o divórcio, mesmo após trinta anos de casamento. Dona Mariângela aceitou de bom grado, e ficou decidido que eles venderiam o apartamento da praia, para o seu Gláucio morar em um apartamento menor na cidade, só que desta vez sozinho. Ele não queria ninguém por perto para chama-lo de preguiçoso; nem para atender a insistentes pedidos de dona Mariângela “faça isso, Gláucio, faça aquilo”.
Com o dinheiro da venda do imóvel da praia, seu Gláucio poderia escolher, enfim, um lugar para morar sozinho. Mas, com preguiça de ficar escolhendo apartamentos, ele preferiu investir o dinheiro ganho e alugar um apartamento de um quarto no bairro universitário. Assim sendo, ele poderia ver da janela de casa belas meninas indo e vindo para a universidade todos os dias. Até no próprio edifício seu Gláucio poderia ver garotas novinhas, na hora de levar o lixo para fora, por exemplo. Tudo montado para que ele tivesse seus últimos anos de vida em paz, sem dona Mariângela lhe pentelhando, ou mesmo as filhas, que agora estavam casadas. “Já dei o que tinha de dar à elas. Paguei comida, roupa, faculdade. Agora que elas têm seus maridos, que fiquem com eles!” Era o que seu Gláucio dizia quando algum parente telefonava para saber como ele estava.
Mas a nova rotina do seu Gláucio passou a ser motivo de preocupação para sua ex-esposa e filhas. Seu Gláucio, que nunca fora muito de sair de casa, raramente saía do apartamento: com uma TV de plasma de 51 polegadas e mais de 200 canais a cabo, seu Gláucio já dormia no sofá da sala, que ficava em frente a TV. Ali era o seu QG. Quando ele levantava, era para ir ao banheiro, ou para buscar comida nos armários ou na geladeira. Ah, ele também levantava do sofá para ir até a sacada, algo em torno de 1 metro e meio de distância, só para ver “suas meninas” no horário de entrada e saída da faculdade. Sua família começou a se preocupar quando seu Gláucio parou de atender o telefone; primeiro suas filhas acharam que ele estivesse saindo de casa, talvez até namorando um pouco; depois pensaram que ele não queria se levantar da cama ou do sofá por preguiça. A verdade só veio à tona quando as duas filhas, e mais a dona Mariângela, foram fazer uma visita surpresa para o seu Gláucio.
Já no corredor, ao se aproximarem da porta do apartamento, o cheiro de mofo ia crescendo a cada passo que elas se aproximavam. Após tocarem insistentemente na campainha, as mulheres ouviram um: “Já vai!”. Quando seu Gláucio abriu a porta, as filhas viram o pai barbudo, pela primeira vez na vida. Não uma barba simples, e sim uma barba branca e grossa, tapando metade do rosto do pai:
- Ah, são vocês... O que vocês querem? – indagou seu Gláucio da porta.
- Queremos entrar, pai. Que tal? – perguntou Luana, a mais nova.
- Já vou avisando: tá bagunçado. – e abriu caminho para as “suas ex-mulheres” entrarem.
Dona Mariângela entrou tapando o nariz, devido ao fedor. Luciana, a mais velha, estava de boca aberta com a bagunça: extratos bancários, sacolas de supermercado, farelos de comida, tudo atirado no chão. Luana, sempre a mais animada, tentava brincar com a situação:
- Bem, mãe, certamente o pai não arrumou outra ainda. Não há vestígios de que uma mulher tenha passado por aqui.
- Não me importo com isso. Me importo com sua saúde, Gláucio! Isso é jeito de viver, homem?
- Me separei de você para não ouvir isso. Trata já de mudar de assunto...
Mas antes que uma nova discussão se iniciasse, as filhas apaziguaram os ânimos, para que não houvesse briga. Por uns quinze minutos elas ficaram lá, para ver o pai e sua decadência como homem. A maior decepção foi saber que seu Gláucio tinha um telefone sem fio, com bina, que ficava ao lado dele o tempo todo, e ele não havia atendido sequer uma ligação das filhas. Mesmo após a frustrante visita, Luana se propôs a visitar o pai, ao menos uma vez por mês. Luciana disse que precisaria de mais tempo para se refazer do baque, então sua visita seria trimestral. Já dona Mariângela lembrou-se da frase que ela mais falou para o marido ao longo da vida, frase esta repetida aos milhões: “Êta homem preguiçoso!”

domingo, 18 de janeiro de 2015

A Polaquinha

Mestre da narrativa curta, quase haicais em forma de prosa, Dalton Trevisan sempre foi cobrado pelos seus leitores a aventurar-se em uma história mais longa. Dezoito livros de contos depois nascia, em 1985, A Polaquinha, novela de que narra as estripulias de uma jovem curitibana no universo do sexo.
Polaquinha, cujo verdadeiro nome nunca nos é revelado ao longo da narrativa, leva uma vida medíocre, com namorados e amantes não menos ordinários do que ela. O primeiro, um moleque asmático, o segundo um jovem imberbe com problemas de coluna trocado por um advogado mau caráter e manco que por sua vez dá lugar a um motorista de ônibus de maus bofes e desempenho na cama proporcional à sua canalhice. Todos eles, de uma forma ou de outra, usam e abusam de Polaquinha que, mergulhada em um oceano de prazeres, deixa-se levar passivamente.
A prosa é enxuta, levemente pornográfica, contudo divertida. Rimos. Às vezes um riso de compaixão por uma moça que se deixa ingenuamente enganar por tipos de homens tão baixos, mas presentes no imaginário brasileiro. Em outras ocasiões o riso é amarelo, de identificação. Quantas Polaquinhas já não foram vítimas da nossa lábia, canalhas de plantão?

Os capítulos finais do livro simbolizam de certa forma a tragicômica mesmice em que Polaquinha se meteu (trocadilho forçado), numa constante troca de parceiros em um dia comum de uma moça que decide “dar-se” para ganhar uns trocados a mais dentro de um bordel fuleiro. O texto quase que se repete, inclusive nos diálogos, a despeito da rotatividade de clientes. Polaquinha nos desperta compaixão, pero sin perder la sensualidad.

Pagamento do Dia


vista cansada
sombras dormidas
em assombradas casas.
e uma dor
paga
à vista.

André Espínola

(Poesia presente no Ebook "Apenas Cinco Minutos")

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Predestinado

Um poema
de conteúdo etílico
escrito em letras garrafais

delirante
febril

Num guardanapo
amassado no bolso da calça
fadado ao esquecimento.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

FELIZ 2015!

RÉVEILLON

Na contagem regressiva,
fogos queimam meus remorsos
e a champanhe banha a Vida.

*

RÉVEILLON JAPONÊS

No silêncio de um templo,
os deuses e o vento
nos conduzem pelos tempos.

***

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O foxtrote dos desiludidos


Como o salão é todo espelhado
uma hora você acaba se enxergando
severo, severo demais.
Você sabe que perdeu no jogo
qualquer coisa que te fará muita falta
mas a banda continua, inflexível
porque o show é bem maior que a vida.

É a primeira vez que você dança
o foxtrote dos desiludidos
mas a dama não vai perdoar
o seu menor deslize.
Você dança, algo entorpecido
e pensa em quanto ainda falta
para a hora do embargo total.
Mas a banda continua, inflexível...
zomba de tua desjuventude.

A dama quer tentar aquele giro
que você se esqueceu de ensaiar.
— Hoje você tem dezenove, ela diz,
amanhã terá trinta. A temporada
de ensaios it's over. E rindo:
Todas as formas de suicídio, darling,
resultaram/resultarão inúteis.

Você ri também (em todos os espelhos
suas mãos espalmadas contra o tempo).
Mas a banda continua, inflexível
enquanto a dama desliza (e com que
facilidade, e com que doçura) para
os braços de um cara mais jovem.

***
mais poemas do autor aqui

OUTRO MUNDO


Hoje
Repeti o mesmo mundo....no fim
Viver de amor....e depois
Morrer brandamente em mim

Outro castelo recriei
Após rochas caírem
Até a pintura borrei
Com as mais belas alvitres

Agora procure o que te desperta
O que te deixa em alerta
O que queima, mas não arde
O que, mesmo no fim, nunca é tarde

O que ficou para trás
São esfumaturas embranquecidas
Perde-se o tom da tinta
Mas não a importância adquirida

Pois mesmo manchas abstrais
Ainda borram a pintura que já fora
A vida em sete cores iniciais
Torna-se cinza, diferente de outrora

E não segui seus passos
Preferi os meus
Eram mais suaves
E livres do que os teus

Pesadas eram as rédeas
Que determinavam a direção
Dos raios e das pedras
Que atingiam o coração

Amanhã
Vou reinventar outro mundo.....se der
Morrer de amor....e depois
Ressuscitar num domingo qualquer

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

REZANDO


Não tá fácil pra ninguém
Sem salário não há vida
Num país de desemprego
Quaisquer mil paus
Um apertamento em Benfica
Plano de saúde
Vale transporte
Vale alimentação
Um mínimo de dignidade
Salvariam
Não tenho nada disso
Abandonaram-me ao azar
Durmo de favor na casa dos outros
As refeições são da mesma forma
Agora
Definhando com dores na cabeça de mil martelos
Deitado neste colchão nojento
Sem comer
Com febre
Sem forças
Meus ditos são os piores
Outra vez
Penso em roubar, matar…
Quando falta o pão sabemos não ter ninguém
Pesando cinquenta quilos sei os responsáveis pela minha bulimia
Negaram-me feijão
A fome mata!
“Matou a facadas por um Big Mac”
Escondido no porão
Não vejo a hora de estar preso
Ter alimento pra ingerir todos os dias
Reformatórios são hotéis cinco estrelas


Pablo Treuffar
Licença Creative Commons
Based on a work at www.pablotreuffar.com
A VERDADE É QUE EU MINTO

A VERDADE É QUE EU MINTO

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Um poema sem nome



Se meu filho se chamar Benjamin
faremos juntos um som, livre e experimental,
bem jazz, talvez com o Jack, colhendo notas,
como beija-flores sugando uns girassóis e alguns jasmins

Se minha filha se chamar Teresa
serei seu cúmplice, ligeiro, em assaltos a reinos imaginários,
ela sendo sempre muito mais companheira de fortaleza
- com a cara suja de terra, escavando túneis para nossa escapada –
do que donzela ou princesa

Se seu nome for Pablo
caminharemos pelas ruas de cidades antigas,
pisando nossos calcanhares calçamentos de pedras ancestrais,
visitando calabouços, catedrais e gargalhando em descalabro

Se seu nome for Rita
levará onde for um sorriso no rosto, e vez ou outra, ainda pequena,
andará pela casa tendo nos cabelos flores de margarida,
dançando dentro de um curto vestidinho rodado de chita

Se se chamar Benício
prevejo muitos tombos de bicicleta, joelhos ralados,
ansioso para abandonar as rodinhas, me ensinará sobre
a infante insensatez das crianças
e todos os dias serão um eterno recomeço e início

Se se chamar Manuela
gostará dos astros e se interessará pelas estrelas,
será questionadora e arisca, como as personagens de Jorge Amado,
e seus cabelos lembrarão de fato, em dado momento, os cabelos de Gabriela

Se teu nome for João Francisco
gostará de futebol, iremos a partidas em estádios
e o time que você escolher torcer será então meu novo time também
e chorarei ao seu lado nas conquistas,
dizendo ser em meu olho somente um repentino cisco

Se teu nome for Maitê
dividirei apenas em três as estações do ano,
criando uma nova e quarta primavera outonal,
onde as folhas das árvores e os frutos vibrantes florescerão
simplesmente por conta dos sorrisos que brotam em você

Se o chamarmos Joaquim
poderá ser um músico, violonista,
desses de ganhar corações com um sorriso e escrever
canções de amor sobre a disputa entre Pierrôs e Arlequins

Se a chamarmos Júlia
ouviremos discos de vinil, leremos poemas de John Lennon sobre sua xará
e aos nossos pés bolinaremos com dedinhos e dedões
nossa gata preta, que chamaremos Tertúlia

Se você se chamar Ernesto
discutiremos política e economia,
discorreremos sobre as guerras e as revoluções,
lhe explicarei sobre o Wikileaks e conceberemos, nós,
nosso particular e familiar “contra-o-mundo” manifesto

Se você se chamar Janaína
gostará do mar, do vento solar salgado na face, e quando já adulta,
morando no interior, será pelos amigos conhecida sempre;
sereia, seja das águas de cachoeira ou de fluorescente piscina

Se meu filho se chamar Dante
organizaremos nossa biblioteca pelas cores das capas dos livros,
em festiva ordem degrade, seu exemplar d’Os meninos da Rua Paulo
ao lado das minhas epígrafes e micro contos de Jorge Abrantes
e da Literatura Latina, fantástica e delirante

Se minha filha se chamar Nara
será pequena leoa delicada, de cabeleira volumosa,
sempre com as melhores perguntas na ponta da língua,
como as personagens de Drummond que um dia eu amara

Meu poema mais bonito,
ainda sem nome,
se avolumando no mundo,
silencioso e urgente
Nesse momento
eu olho e ainda não entendo,
à minha volta, venta, mas
o tempo, este parou de repente

sábado, 3 de janeiro de 2015

Gula

No dia da fome
Os bolos se divertem
Pães doces, salgados,
Biscoitos, guloseimas...
E na incompreensão
Das coisas
Da linha entre a gula
E o desperdício,
Entre a inanição e a saciedade...
Uns clamam pelas tetas da fartura
Outros só querem tetas
De mães mortas ou dilaceradas.
Na hora da fome
Há quem coma,
Há quem clame,
Há quem chore,
Há quem morra...
Enquanto mãos assinam sentenças
Outras mendigam
Rasgam o chão seco
Chão morto
Na esperança de colher,
Mas não haverá fruto
E já não há nada.
Apenas os bolos, bobos e tolos
Divertem-se.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Convidado Ronie Von Rosa Martins



A VELHA


Todo cão é um bicho. O homem. Bicho também. Pensou a velha. Sentada na cadeira. Rosto na janela. Moldura antiga. Vetusta imagem do tempo gravada. Nas rugas que percorriam todas as carnes que compunham o rosto da velha.  A televisão era a janela. Sempre a janela. E o fora do mundo. O seu.

A rua e sua oferta. Pobre a rua. Mas proposta. Que recusara há muito. A janela bastava. E os olhos iam longe. O que não viam criavam. Poderosos olhos de inventar verdades. Que seriam ou não.  Virtualidade latente. A semente e a árvore. A árvore em estado de vontade de ser.
Velha. Lhe chamavam carinhosamente. E sorria sempre. Dentes desgastados mas ainda presentes em sorriso espirituoso e distante. Os parentes eram memória. O marido ausência. A morte era uma coisa interessante. Pensava. No início magoava, doía. Depois afagava, acarinhava... não sabia se queria. Estava em dúvida.
Decisão difícil. Viajar para o distante... sorriu. A janela como moldura. Da rua os olhos outros sempre viam o mesmo quadro. Até a noite. No escuro. Não saia da janela. O sono não existia, parecia morte, e ela não tinha decidido.
E era com ela. Ninguém interferiria. Ela tinha o poder. Na aparente fragilidade,  uma força latente pulsava, e era nos olhos grandes e claros que se mostrava. Olhos de ver tudo. Olhos de devorar tudo. Nem a noite escondia dela seus segredos. E da janela ela via. Sem medo. Via as angústias de todos, os medos. Via os fantasmas e segredos que escapavam dos sonhos e dos tormentos noturnos. Também as fantasias e os terrores, desejos... e nem ruborizava, acostumada com as coisas humanas dos homens.
Criaturas estranhas.


---


Ronie Von Rosa Martins



segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Eu não escrevo o amor, mas amo quando escrevo...



amor se faz amando
como tratamento cancerígeno
mata-se temores
mata-se pudores
depois em metástase
nascem plenos, de novo
pelas veias, pele, em rogos
gemidos, gritos sem socorro
corpos grudam em harmonia
numa plena quimioterapia
numa cura total, sem cura
num ápice carnal, que não dura
acaba em gozo
ou crime passional...

sábado, 27 de dezembro de 2014

Retrospectiva 2014



        Esse ano de 2014 foi um ano de conquistas literárias, inéditas, e que muito me alegraram. São elas:

     Duas poesias selecionadas nos concursos "Poesia no ônibus", de Gravataí e Santa Rosa, cidades gaúchas.
     Nesse concurso, poesias são selecionadas para serem transformadas em adesivos, colados nos ônibus que percorrem as ruas dessas cidades. Há uma iniciativa igual em Porto Alegre, mas lá não consegui ser classificado. Vejam os textos:


POEMINHA (SANTA ROSA)

Passatempo
Passarada
Passarela
Passageiro

Tudo passa
Só não passa
Teu passado em mim


TERCETO (GRAVATAÍ)

Jardineiro
Trabalho que me encanta:

Cabeleireiro de planta.



     Uma poesia selecionada no concurso "Pão e Poesia", promovido pela prefeitura de Blumenau (SC).
     Nesse concurso, poesias são impressas em sacos de pão, distribuídos em pontos diversos de Blumenau e de cidades ao seu redor, como Gaspar e Timbó.

     Veja qual foi no seguinte link: http://www.recantodasletras.com.br/poesiasdeamor/5047288


     Outra conquista será a publicação de um conto meu, em uma antologia organizada na Alemanha. Mas, por enquanto, prefiro manter segredo. Aguardem notícias sobre esse livro em  2015...

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Pequeno Assovio

Me sinto pequeno, diante de cada harmonia que a princípio soa simples, mas a cima de tudo soa sincera. É como se todas as minhas tentativas fossem meros falsetes, com extremo esforço posso atingir um purismo técnico, porém vazio de criatividade. No momento em que penso isso, caminho sobre a praia. Minhas calças jeans e minha camisa vermelho sangue chama atenção no meio de tantos corpos seminus.
Paro. Olho para o mar e vejo as linhas poéticas que surgem de cada onda. Ele zomba de mim. O mar zomba de mim. Brincalhão como é, não poderia fazer algo diferente naquele momento.
- Oi.
Olho pro lado e lá está ela. Pequena menina branquinha, singular em cada gesto, mulher atraente aos olhos comuns, muito atraente.
- Nunca pensei que fosse te ver aqui.
- Nem eu.
- Como assim?
- Só quero dizer, que nunca me imagino caminhando na praia. Sei lá, é estranho pra mim. Mas tudo ultimamente anda tão estranho, que agora já não faz diferença.
Ela sorri. Ri. Sua risada é um pouco mais disfarçada do que a do mar. Mas aquilo me soa como um sorriso. Vejo os dentes e a boca, tudo fica em silencio naquele momento. Quantas vezes eu beijei aquela boca? Era salgada como o mar? Talvez só no final. Ela me pergunta:
- Mas afinal quais são suas crises atuais?
- Inutilidade poética em pleno auge criativo.
Belos sons de gargalhada. Maravilhosos sons de gargalhada.
- Como assim? O que isso quer dizer?
- Não sei, é essa a questão. Não quer dizer que eu não tenha feito nada, mas tudo soa como inútil. Para poesia, pro nosso mundo até que tem algum valor.
- Você sabe que não vejo sentido nenhum nessa conversa.
- Sério? Pensava que não. Qual foi a última vez que a gente se viu?
- Sei lá, faz muito tempo. Você tá mais maluco do que antes, acho que foi por isso que a gente não deu certo.
- A gente não deu certo pela utilidade que eu almejava naquela época. E agora que tudo finalmente se torna inútil, eu não vejo sentido.
- Meu Deus, as vezes isso cansa sabia? Você nunca pensou em relaxar, em ser normal?
- Normal? Corta essa vai. Você sabe o tanto que isso é furado.
- Sei, mas quem sabe dizer essas coisas não te ajuda a voltar pro eixo.
- Eixo, eixo, eixo, eixo, exu, exu.
- Acho que já vou indo.
- Não espera, senta aqui do meu lado.
Ela usava biquíni, o loiro do cabelo refletia bem o sol. A pele tinha um contraste bom com aquilo e eu despenteado como sempre sentia o suor escorrer, grudento, simplesmente grudento. Mesmo assim me atrevia a estar ali, ao seu lado, na ousadia da troca de presenças.
Sentamos. Foi bom. Realmente bom saber que existia alguém ali do meu lado, olhando o mar zombeteiro e que a chacotas do espelho já não seriam secretas. O que ela pensava, o que ela pensava dele, o que pensava de mim? O que eu penso sobre ela? Quem dera fosse a única, mas foram tantas que minha esquisitice teimou em afastar. Se afasto tanto porque será que atraio? Consiste numa teoria de polos opostos e complementares?
- Você não tá com calor com essa roupa?
- Sim.
Olho pra ela bem nos olhos. Azuis, porém bastante sérios.
- Pra você o que é conversar comigo nesse exato momento?
- Estranho, como sempre foi.
- Entendo.
- Entende nada, finge que entende.
Eis o meu primeiro sorriso do dia. Ela gosta, gostou, sei que gostou. Maria Flor é o nome dela. Nos conhecemos a dois anos atrás, o nosso relacionamento durou quatro meses e vinte e sete dias. Poderia considerar como cinco meses, mas prefiro ser exato. Na verdade o seu nome é Marcia ou Lidia, não sei, não me lembro mais. Mas esses são os nomes mais recorrentes na minha cabeça, provavelmente é algum deles.
A atração carnal era ponto forte, mas nunca se tratou disso. Ela cantava. Nem a canção materna era tão reconfortante como a voz dela. Talvez pela ausência materna considerasse isso. Postura de mãe não tinha. Era daquelas eternas crianças que aprende as brincadeiras da vida adulta e sabe levar muito bem desse jeito. Fez muito bem para mim, como todas de uma certa maneira fazem. A minha boa influência como sempre foi somente no início, depois o caos.
Gostava de acariciar os cabelos do meu peito, era fanática nisso. Eu tinha tara em seus pés. Depois que terminamos cheguei a sonhar algumas vezes, somente com eles. Desperto novamente com frases perdidas.
- Sabe o que é? Quando ti vi, pensei em passar reto. Percebi que você estava distraído e provavelmente nem ia me ver. Mas não sei, alguma coisa me atraiu pra você, magnetismo, e eu bancando de pedaço de metal. Ai que raiva de falar essas coisas.
- Relaxa.
- Enfim, já deu pra notar mais ou menos como anda sua vida, mas a minha também não tá boa.
- Eu nunca disse que minha vida estava ruim.
- Ai, viu? É por isso que eu te odeio.
- Eu sei e acho que você tem razão.
- E por isso também.
Tapei a boca dela com minha mão. Os olhos refletiam indignação, mas lá no fundo agradeciam, pois sabiam que aquela forma de comunicação a muito tempo já estava falida. Faliu para humanidade toda. O gesto de carinho nos cabelos loiros veio como sucessão, a mão ainda continuava na boca, os olhos me diziam tudo o que precisava. Pediam para não fazer aquilo, mas denunciavam a entrega. Enfim ambos cederam, ela deitou no meu colo e eu continuei com o carinho nos cabelos.
Queria perguntar para o mar agora, o que ele achava de tudo isso. Será que ainda achava engraçado. Eu ao menos, sentia que aquele gesto não fora um falsete, suspeitava que poderia haver algo de poético ali. Cabe ao julgamento de cada um, ao meu, ao seu, ao do mar e ao dela é claro.
Ficamos ali durante muito tempo, ela no meu colo e eu lhe fazendo carinho. Por aquilo eu já conseguia compreender porque sua vida estava ruim. Estava ruim, pelo mesmo motivo que a vida de todo mundo está. Pela impossibilidade de uma nova forma de comunicação que nutra corpo e mente e que seja para todos. Não havia o que fazer, a não ser dizer que continuasse tentando.
Ela sabia também que eu continuaria flutuando em minha orbita especifica, mas que aquilo ainda poderia ter uma utilidade para todos nós. Uma autentica utilidade poética.
Passado muito tempo, nos levantamos. Para não quebrar o protocolo, disse um pedido de desculpas com o olhar. Nunca terei a certeza de qual foi a resposta. Ela simplesmente se virou e foi embora, decidida sobre alguma coisa. Alguma coisa realmente importante.

Eu do meu lado, voltei a caminhar na praia e ainda continuei a me sentir pequeno. Só que as notas já estavam todas embaralhadas em minha cabeça. Arrisquei um assovio e acreditei que deu certo. Fui emendando os fraseados e não parei mais. Continuo até hoje e compartilho sempre que posso.

Encanto

Sem forma foste feita
e o acaso tornou rara,
formosa e assim perfeita,
qual encomenda para
se encaixar, na certa,
nos braços do poeta.

Do encanto o canto fez-se
e o verso ao pé do ouvido
faz arrepio nesse
corpinho aturdido.
Pra vida então desperta
nos braços do poeta.

E o anjo agora humano
num corpo de menina
descobre o quão insano
é o tom da sua sina
e vive a vida incerta
nos braços do poeta...

(em 13/11/2013)