quinta-feira, 24 de setembro de 2009

entrelinhas e pontos...


deixei de existir n-vezes
por causa da sua existência,

até neguei três vezes
a minha forte essência,

que a onda levou por um tempo,
mas foi devolvida pelo banzeiro

num arremesso porta a dentro

escondi no meio do nada,
sem prazo de entrega
para corpo e alma,

entrei em simetria axial
arrebentei a crisálida,
ficou apenas um ponto:final.


Texto: Lena Casas Novas

Imagem: Google

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Porque é de noite

Hoje a noite é apenas esperança,
não pra o que for vivido durante ,
porque isso é apenas expectativa e prazer;
mas sim é esperança que entre o escuro
da noite até mesmo sem luar
seja possível contemplar mais do que
é possível se ver á total luz do dia.
Quem sabe usufruir o tatear
algo tão básico para o sentir
quando não se confia apenas
no que pode ser visto.
Que seja uma noite plena
em todos os sentidos
do sentido
de cada Ser.

Catiaho Alcantara/Reflexo d'Alma

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Consolo

Na sala de espera do consultório, entre plantas de plástico e revistas "Caras", esperando ser chamada pela dermatologista, encontrou algumas velhas amigas e, enfim, sentiu-se um pouco melhor.

Percebeu, com um leve sorriso no rosto, que não havia sido a única vítima do tempo.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Lugar Perfeito

Me arranque do mundo da lua!
Leve-me para qualquer parte...
Comer poeira em Marte?
Não respirar em Vênus?
Me perder em Urano?
Flutuar em Netuno?
Congelar em Plutão?
Enlouquecer em Saturno?
Carbonizar-me de Sol em Mercúrio?
Não!!!
Que tal criar raízes na Terra?

domingo, 20 de setembro de 2009

Do Passado Presente




Muitas vezes vivo morto


Perdido no tempo



Revivendo o desgosto



Do passado amargo, já passado, já pensado e repensado.



Ai de mim pobre coitado, me iludo com esse fato.



Que de fato já não fato, pois tudo já é passado.



Mas nessa eu sou o pato.



Pois procuro viver aquilo que não é mais



Que está em minha mente e nunca se desfaz.



Queria não mais volta pra lá, mas não sei, não consigo me controlar.



Deve ser loucura.

sábado, 19 de setembro de 2009

Viagem.


(Imagem retirada do Google).

Viagem.

A boca, cor,
abraçava lábios
até perder-se na sua.

Eliane Alcântara.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Ao Norte




Hoje eu vou me desfazer da minha bolsa de trabalho e desta farda encarnada; vou vestir uma roupa de viagem, pôr uma mochila nas costas e rumar para o norte. Mas não vou pela estrada; não vou pelas rodovias duplicadas cheias de carros apressados e caminhões cheios de produtos para saciar o insaciável consumismo metropolitano. Prefiro os caminhos de terra, trilhas velhas feitas por antepassados esquecidos; as planícies verdes sob o céu azul escaldante; as colinas vestidas de pedras que guardam a história do mundo. Prefiro o labirinto das pequenas florestas e suas lembranças dos Tempos Antigos, talvez encontre lá alguns animais já extintos. Menino criado em cidade grande, certamente em algum momento eu me perca, mas realmente não me importa, e aí eu queimo o mapa na fogueira e continuo rumando ao norte, que é para lá que eu vou. E quando meus pés estiverem cansados, feridos e calejados, quem sabe algum cavalo esteja me esperando no campo aberto para seguir comigo nessa viagem.
Mas, na verdade eu ainda estou no coletivo, com minha bolsa de trabalho e a farda encarnada. Mas penso em você, meu Norte.


André Espínola


Pedaços






"Minha vida não cabe nos trilhos de um bonde"
(Caio F.)



É, há noites em que o sereno invade a sala de estar, mesmo com as janelas fechadas.
Não sei o que há, Baby. Minhas asas andam descolorindo. Não tenho gosto por cigarros, porém, se eu gostasse, poderia criar uma nuvem venenosa e me afogar em um ritual.
Mas eu realmente não fumo. Tenho gosto por tulipas.
Tulipas não vivem onde mora ausência. Minha sala anda recheada de saudades velozes.
Contudo, certamente não sei se a ausência é apenas de você, sabe? Por entre as pedras soltas, eu acabei descobrindo que ando sumida.
Será que foi o vento de Julho?
Dia desses achei um poema, debaixo de uns livros velhos. Perdi o Leminski que estava lendo, mas guardei a poesia. Desde essa hora em que o achei, pareceu-me que eu sumia. No começo achei que era viagem... Mas agora vejo que me ausentei. Em lapsos, tempos em tempos, percebo que sua bagagem seguindo ao seu lado, de ida demorada, levou-me um pedaço.
E, a continuar nesse episódio, sua conexão via celular, me arrancou mais alguns estilhaços. 
A julgar daí, todos os momentos, foi como se eu estivesse me desmontando, periodicamente, e alcançando seu gesto de alguma forma: Ora pelos remansos dos rios do Recife, ora pelos pingos de chuva. 
A vida é mesmo um desmoronamento progressivo. Eu fui ficando metade, fatia, pó...
E no último dia, antes de vir embora, não percebi ( e nem você ) que eu ficava, completamente carcaça, dentro daquele ônibus interestadual.
(Jessiely Soares) 
Imagem: Google.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Estranho


“Sonho no chão e um dia uma estrada. Um estranho silêncio na rua. Um incêndio calado no homem que passa por mim”
Lô Borges


....

Eram olhos desesperados de paralelepípedos
vasculhando restos de sonhos pelo chão

Imaginei tempo demais
deixando-os esquecidos

Me debrucei da janela
e tentei o meu maior sorriso
ofertado em aquarela

Mas ela não podia ver
além das pernas cansadas
pisoteando o que amava

Eu não sabia que sonhos naufragavam
no asfalto

Perguntei o que a vida lhe fez
cantando outubros que virão
E supliquei em silêncio

Mas eram passos de última vez


“Sonho no chão e a festa não apaga o estranho silêncio na rua” Lô Borges


Barbara Leite

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Descortina-me a alma adormecida

(Sonia Cancine)


Os ventos rasgam forte o meu medo

A chuva irrompe o silêncio
Os trovões soam angustiantes
No espetáculo que se impõe

Gotas incendeiam meu adágio
Que estremece nas entranhas
Cortantes de expectativas
E congelam na memória

Vivi as teias traçadas pelo destino
Mas não vivi os desejos reprimidos
Marcados pelas pedras e tempestades

Vidas desafiam e desfiam o tempo...

Nuvens afagam lágrimas que caem
E enlaçam as dores cristalinas
Da lua escura que se distrai em cólera
Em júbilo junto à noite que desencanta

E sob a indiferença dos céus indigentes
Descortina-me na inerte alma adormecida.

domingo, 13 de setembro de 2009

Dupla Existência, Existência de Duplo

Caminhei como um fantasma em matéria e também em espírito,
A mortalha que me cobre é mutável como minha forma,
Hoje sou amigo de vivos e mortos, com ressalvas lógicas,
A alcova onde durmo é um sarcófago em um mausoléu.

Descobri mistérios da morte e agora recebo oferendas,
Tenho sentidos e habilidades incompreensíveis aos vivos,
Libertei-me da fragilidade mortal, estou imortalizado,
Tenho ciência de outros planos, sou parte de algo maior.

Anúbis me guia até os portões, Thoth relata minha vida,
Maat retira sua pluma, Seth me acusa, todos me observam,
Osíris, Ísis e Hórus aguardam meu espírito transfigurado.

Parte de mim é Ba, parte é Ka, juntos sou Akh,
Tenho quarenta e dois juízes antes do Amenti ou Abismo,
Meu coração será avaliado, apenas aguardo o resultado.


- Mensageiro Obscuro.
Janeiro/2008.

Revelação


Absolvida pelos ventos esfuziantes do sul
Deixo a brisa tocar levemente minha face,
já tatuada de amarguras e profanas inquietações.

Uma força invadiu meu ser,
Mergulho na intensa profundeza
dos meus instintos mais sombrios

Impulsiono-te a conhecer meu inconsciente,
e apresento o que tenho de mais agressivo e feroz...

Revelo-me...

Ofereço a magia inebriante do prazer e,
Proporciono a mais bela e tenebrosa
psique da visão humana.

Faço-te perder os sentidos...

Torno-me o principio do precipício
Da tua perdição...

Se mesmo assim, quiseres me segui
Aviso...

Não é seguro.

(Ro Primo)

sábado, 12 de setembro de 2009

Teatro das Formigas - Décimo Ato

.
em cobertas
das fronhas matinais
sob babas

fruto de sonhos
ou pesadelos
de antigos marginais.

enquanto

salivam gordas
bodas
em conflitos

que atacam-lhe
os últimos
vestígios de sua

sanidade.
.






(foto: Reuters)

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Bênção leiga

Já notaram que quase todo o mundo se despede sempre do mesmo jeito, sempre com as mesmas palavras? Há quem diga “Tchau”, há quem diga “Deus te acompanhe” ou “Vá pela sombra!”... “Deus te abençoe”... “Até logo”, “Até mais ver”, “Até amanhã”, “Adeuzinho” – e os poliglotas que se afastam com um “Adieu”, “See you later, aligator”, “Auf Wiedersehen”... Mas cada pessoa usa quase sempre uma mesma expressão para se despedir.

Fui algumas vezes a um cabeleireiro que tomava o rosto das clientes entre as duas mãos, sapecava-lhes um beijo na testa e dizia: “Eu te dou a minha paz”. Aquilo me incomodava. Excessivamente messiânico. Fui lá só umas três vezes. E, nessas três, respondi – rindo, mas era pra valer – que não queria levar comigo a paz de ninguém! Se ele me "desse" a paz dele, como ficaria? Sem paz?

Lá em casa, quando nos despedimos, dizemos “Juízo!”. Para nós, “juízo” passou a significar apenas uma espécie de “até logo”. A palavra perdeu a conotação real a tal ponto que sempre me espanto quando alguém retruca ao “juízo” automático que digo, levando ao pé da letra. Respondem: “Tarde demais!”, “Eu tento ter, mas não adianta” ou algo equivalentemente lógico. Por um segundo, penso: “ahn?”. E logo percebo, claro, a razão da resposta.

Uma amiga querida, a Claudia Dalla Verde, observou que digo “juízo” como se fosse uma “bênção leiga”. Você pode pensar que não sabe quem é a Claudia, mas sabe, sim. Ela é roteirista de TV, foi parceira do Flávio de Souza na criação do "Castelo Rá-tim-bum" da TV Cultura, depois escreveu o "Clube Disney", do SBT, e agora está fazendo "A Turma do Gueto". Quando a Claudia falou em “bênção leiga”, reconheci que, de fato, ao dizer “juízo”, é como se eu desenhasse uma espiral imaginária em torno da pessoa de quem me despeço. Uma espiral de proteção, um campo de força que isole de qualquer perigo. Nada a ver com superstições; é só uma sensação.

Quando meus filhos saem à noite e lhes digo 'juízo", não estou recomendando que “se comportem”... e eles sabem disso. Se por acaso eu estiver muito distraída e esquecer da “bênção”, parece q ficou faltando alguma coisa, que algo está errado, incompleto. Sou capaz de ir atrás deles, correr até o portão para completar a despedida...

Mas isso gera também histórias engraçadas. Em uma festa, eu disse como sempre “tchau, juízo” para uma moça que conheço muito pouco. Ela voltou da porta.

– Por quê?

Eu nem lembrava o que tinha dito, claro:

– Por que o quê?

- Por que você disse aquilo?

– O que que eu disse?

– “Juízo", ela repetiu, com um olhar desconfiado, de esguelha, me sondando.

Eu ri.

– Ah, digo isso pra todo o mundo... é meu jeito de despedir.

No dia seguinte, ela ligou para uma amiga comum:

– Mariana, a Betty me conhece?

– Bom... se encontrar você na rua, talvez não reconheça... mas se encontrar na minha casa, por exemplo, sabendo que somos amigas... claro que reconhece. Por quê?

– Ah, Mari, ela me disse uma coisa tão estranha!

A Mariana, ao me contar a conversa, estava achando muita graça na “coisa estranha”:

– Imagine que quando se despediu de mim a Betty disse... “juízo”!

E, diante da risada da Mariana:

– Será que ela me confundiu com a minha cunhada?

Eta! Que andará aprontando a cunhada dela? Despedidas podem trazer grandes revelações!

Enfim: se eu algum dia disser a você “juízo” – não me leve a sério. Não me faça confidências! Nem pense que considero você desajuizado, ou que confundi com alguém... É só um jeito de desenhar a tal da espiral imaginária de proteção... um jeito leigo de abençoar.
(2003)

alquimia




É tarde! Estirada ,
a noite sussurra intentos
nesses sonhos vagos

Tua reticente cilada
escora no céu da boca
largos esteios infundados
e desliza pelas abóbadas

Ajoelhada desabotoo
inveteradas promessas
elas exalam teu perfume
e as notas perdidas cantam
a mesma canção embolorada

Um minueto saliente
lançando palavras-raízes
nessa lua minguante
danço nos escombros
desses velhos achados
onde guardo com cuidado
o passado
embrulhado em seda azul

domingo, 6 de setembro de 2009

a vida não tem mesmo jeito...



às seis da manhã, quando distribuem os jornais pelos andares, ouço o ruído do elevador que se movimenta e para, se movimenta e para. isso não impede que eu durma em seguida, quando esse trabalho termina. Acordarei novamente quando a campainha do colégio em frente ao prédio tocar às 7:30, o que também não impede que eu volte a dormir depois. ando pensando em algo que me induza ao sono, ando querendo não pensar, ando querendo acordar daqui há algum tempo, quando já não mais estiver aqui. chorei.
o interfone tocou, esperei que tocasse mais algumas vezes, para ter certeza que havia tocado mesmo. a voz que chamava, o nome. pedi ao porteiro que repetisse e ele disse o nome e o codnome. da sacada do vigésimo andar, vi duas mãos segurando o portão, como a querer abri-lo à força. não. preciso dormir. olho no espelho e não gosto nada do que vejo. volto para cama. mas se fosse alguma emergência? - mulher é assim, não consegue dizer um não e ficar despreocupada - não. vou dormir. não durmo. ligo para o celular:

- aconteceu alguma coisa?
- vem tomar café comigo?! desliga o celular. põe no bolso do paletó do terno. vi da sacada. volto para cama. durmo. meia hora? o interfone toca novamente. peço que espere um pouco. tomo banho, um creme no rosto. um jeans e a primeira blusa que encontro...
- o que houve?
- vim te ver. vamos tomar café na padaria?
- cerveja? passou a noite em claro? ainda não foi para casa? pra mim café .
- a vida não tem mesmo jeito. ele disse olhando em meus olhos, como se essa fosse a conclusão de algo muito pensado e repetiu - a vida não tem mesmo jeito... 00:41 (1½ horas atrás) excluir Ivone fs
há um ano atrás parecia muito certo de seu rumo, pensei. mas eu sei que nada nesta vida é tão certo assim.
segurou minhas mãos e pela primeira vez senti que estava diante de mim tudo o que desejei daquele homem, tudo que duvidei que um dia ele tivesse coragem de demonstrar...

... o sol ofuscava minha vista, eu reparava em sua pele clara do rosto algumas sardas espalhadas, enquanto seus olhos continuavam nos meus. ofereceu-me a face que beijei com carinho...ele se foi...

sobre o que falamos? quase nada foi dito... nem foi preciso

Ivone fs


quadro : Frida Kahlo

sábado, 5 de setembro de 2009

Cômoda Luiz XV


Cômoda Luiz XV

As gavetas entreabertas do móvel denunciavam o ciclo de sua condição primária, o caos. Soube desde menina que não era como as outras, bem que tentou se adaptar, mas também descobriu muito cedo como era agradável descobrir-se fora daqueles compartimentos organizados.
Não conhecia Schopenhauer, mas já não dava valor aos melhores colégios, nem aos bons professores, ou aos bons modos, doou-se sempre à condição de ser contraditória. Coordenava bem seus movimentos, mas não tão bem as palavras quando estava cheia de dúvidas e de ódio. Por consequência de suas confusões existenciais foi considerada a louca.
Julgou engraçado observar os outros e constatar a ignorância impressa em cada gesto de punição ou de tentativas de controle e ajuste que tomavam em relação ao seu comportamento estranho.
Na visão de Cecília as pessoas idolatravam a propriedade, queriam ter, comandar, conduzir a vida e as escolhas dos outros, baseadas apenas em suas experiências e peculiares visões de mundo.
Ela preferiu ser, abriu mão de tudo que teve e saiu pelo mundo, errante. E naqueles dias acreditava que não era pena que os outros tinham dela e sim inveja. Desejavam ter a coragem que teve, de abandonar tudo e de ser chamada de covarde sem sentir nenhum remorso ou culpa.
Aprendeu a rir chorando, pois era contrariar demais ser sem limites e ela tinha os seus próprios muros. Jogou-se contra eles com tanta força que agora se sentia espório daquilo que mais odiava. Estava insegura e sentia vontade de chorar quão grande era sua decepção consigo.
Era evidente que estava mais sozinha que nunca, que se impôs o fardo do ser para vivenciar cada rusga de si como se fosse um desmembrar social, um investimento em suas durezas, enquanto o mundo se fingia afável.
Não sabia se vencedora ou derrotada, mas em batalhas ideológicas não abria mão de sua filosofia. Perguntava-se ali, sentada no chão, de frente para o móvel, imóvel. Em quantas gavetas estaria guardado o seu desatino?
Sim, aquela cômoda Luiz XV guardava na gaveta superior à da esquerda, os seus desatinos, algumas meias-finas velhas e suas calcinhas adolescentes. Na da direita, agora vazia, guardara todas as dores de sua carne e os diários de infância, há muito tempo queimados. Nas inferiores, de cima para baixo: na primeira os sons de todos os desesperos e dias de chuva que viveu; na segunda as crenças que perdera durante toda a vida; e na terceira a realidade, mas essa gaveta estava trancada com chave!

O demônio do meio

Há sol lá fora e não quero ir
A saia me estrangula pela cintura
e a bota revelará o passo lerdo
pelo tornozelo esquerdo
Há um engasgo me esperando

Girassol, Náusea, Asfixia

Tenho sono... fastio dos modos humanos
e nenhum interesse na arte do improviso
Há serpentes e odaliscas ondulando sob o sol
Nunca soube distinguir os guizos
No sofá sob a colcha azul
sou a concha que verte o mar nas almofadas

Não quero ir
Um palmo de luz pela janela já embriaga
E estou certa de que esfolarei a retina
Nas asas finas de alguma fada amarela.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Livre Arbítrio




Um despertar de raiva. Há vários jeitos de se acordar, mas o despertar raivoso realmente preocupava. Sempre descambava em merda. Em dias destes, já tinha largado ótimos empregos, terminado bons namoros, destratado péssimas amantes, mudado toda uma vida. Só um fato não mudava. Em dias como este, sempre fazia merda. A raiva incontida, trotoava ligeira sob a fronte, esperando um comentário menos inteligente, uma brincadeira maldosa, um esboço de pensamento para lançar−se mundo afora, represada que era normalmente, disfarçada em um sorriso cortês e gentil; em certos aspectos ainda vivia orientado por manuais de lanchonetes fast−food. Um despertar de raiva era tudo que a raiva podia querer. Concedia condicional para o mal aprisionado dentro d´alma, inconcebível, diante algumas opiniões, inexistente perante outras, detestável e esquecível para quem já o havia presenciado. Janis deslizava pelo ar, ordenando tentar (just a litle bit harder), então era só amar, amar, amar alguém. Quem?
A raiva, agora ódio, não sabia responder. Então era isso: o tempo passava continuamente e as possibilidades iam se esgotando. Quanto mais tempo, menos variáveis. Quanto mais experiência, menos lugares para aplicá−la. Quanto mais ódio, menos pessoas para direcioná−lo; o afastamento da humanidade, pelo menos na ótica das relações interpessoais, granjeia adeptos diariamente. Séculos de está bom assim, tá certo, eu concordo e não se preocupe, costumam se incrustar n´alma, se avolumando e enegrecendo humores, causando desconforto e rancores. Rancores estes alimentados diariamente com sucrilhos, adolescentes fortes que se tornam adultos vigorosos, tomam corpo e exigem espaço: pronto, está se formando mais um psicopata.
Pensamentos que ecoam em um cérebro rápido e celerado, dando voltas cada vez mais aceleradas sem pit−stops, levam passos pausados para lojas de armas. Dedos longos indicam, os olhos observam e a boca matraqueia qualidades do objeto procurado. Repetição, eficácia, penetração, alcance e calibre são estudados. Por sugestão do vendedor, que fez vista grossa pela falta do porte de arma, ao ver as notas dispostas em série, a escolha do mais caro: se já tivesse munição, começaria por ali. Um teste, por assim dizer. Municia-se falando em caçada, indiferente à indiferença pela mentira, abre a mochila e se vai. O vendedor vai até a porta da loja e dá um sorriso satisfeito.
Uma praça de alimentação de shopping−center, dois ovos maltine e cinco casquinhas depois, observava com frieza o ambiente climatizado. A mão isolada dentro da capanga, esperando trêmula pelo instante, uma faísca que falta surgir. Uma vontade de acabar com tudo que restava ser saciada. Um momento de revide no presente, um retraçar de metas estipuladas em vidas que passeiam paralelamente alheias. O gosto do poder de comandar destinos, na verdade, de destruir sonhos, enterrar esperanças e silenciar vozes. O levantar estático, disposição suicida de não voltar atrás, espera começar pelos que sorriem mais, estes que debocham das dores e dos amores, ao som do mar e à luz do céu profundo, fulguram... Figuram colunas sociais e escândalos nacionais, sob o manto mesquinho e avarento da impunidade; por que todos não somos perdoados? Por que a condescendência atinge somente alguns? Por que a vida nega favores justamente para aqueles que mais deles necessitam? Doze balas iriam dar as respostas que procurava? Talvez não, mas havia trago vários pentes sobressalentes; continuaria seus questionamentos até achar uma resposta razoável. Ou uma morte rápida...
Deu um passo adiante, já tirava a arma de dentro da mochila quando esbarrou em uma senhora franzina que trabalhava na limpeza. Levava uma bandeja repleta de copos de papel e restos de sanduíche que espatifaram−se no chão, causando uma bagunça e um barulho não observados pelos comensais que continuavam a rir, beber, conversar, comer, mentir e opinar sem darem a mínima atenção ao que acabara de acontecer. Ele abaixou timidamente, desculpando−se pelo acidente. A velha, ajoelhada no piso, deu um sorriso amargo e sincero, confirmado pelo olhar cansado e castanho de muitos anos de luta:
− Tudo bem, meu filho! − Aquelas palavras causaram tanto impacto em sua mente febril, que ele teve que dominar−se para que uma onda de emoção, vinda não se sabe de onde, o dominasse. Acocorou−se ao lado da velha, pensava no que faria, afinal aquela senhora de joelhos em sua frente, não obstante todos os problemas, as dificuldades, humilhações, desrespeitos, continuava a manter viva a chama indomada da esperança em dias melhores; de lutar a cada dia uma batalha que ele já julgava perdida e por isso decidira ir ali, com aquele intento assassino na cabeça...Sentiu que uma onda de emoção percorria seu corpo, coisa que até então não havia lhe ocorrido. Parados naquele instante, pode ver que ela olhava com tristeza para a arma que segurava
− Isso resolve algo? – apontou para os indiferentes que os cercavam e arrematou – Há algum dentre eles que é menor do que nós, para que possamos tomar as mesmas atitudes que sempre tomam? Em quê melhoramos e onde chegaremos?
Final
Fechando a mochila com um gesto rápido, precipitou−se para a saída. Ao passar por uma lata de lixo jogou o invólucro recheado de morte e pegou o rumo de casa. Por−se−ia a escrever, esta noite. Sua loucura sempre apaziguava quando escrevia.
O sol caia lento no horizonte quando dois personagens se encontraram no estacionamento do centro de compras:
− Você trapaceou – acusava o rapaz – Interferiu nas escolhas quando apareceu como uma pobre coitada que levava o mundo nas costas.
− Pensa que não sabemos que você ajudou na aquisição da arma?
− Errr...Hehehe. Continuam de olho em tudo, hein? Ora, no meu caso, trapacear não é novidade.
− Entendemos isso. Por isso a Direção optou pela segunda chance para o garoto repensar o que estava fazendo.
− E o tal do livre arbítrio? Vocês são historinha mesmo. Se há uma coisa que não suporto é quando burlam as próprias regras. Elas se aplicam a mim? Lógico que não, pois se aplicasse não estaria lá embaixo, na segunda divisão! – Saiu gesticuladamente esbravejando, sumindo em uma nuvem de enxofre.
Final 2

Jogando a mochila nas costas, com um gesto rápido, levantou−se e apontou a arma para a primeira mesa, no rosto um olhar de ódio, olhava as vítimas, que ainda não haviam se dado conto do que ocorreria... Premia já o gatilho com um gosto de sangue na boca, quando um vulto branco, que podia jurar ser uma imensa asa de pombo, atingiu−o de lado, lançando seu corpo no vácuo... Despencou da praça de alimentação, no terceiro piso, vindo a se estabacar sobre a feirinha de produtos esotéricos; morreu em cima dos cristais que prometiam cura...
O sol caia lento no horizonte quando dois personagens se encontraram no estacionamento do centro de compras:
− Mas... Mas que merda foi aquela? – acusava o rapaz, colérico.
− Um espirro. Pedimos sinceras desculpas.
− Isso não vale! Ela interferiu no prosseguimento das coisas! Eu quero uma contraprova! Marmelada!
− Ora, ora... Se não era você quem ajudou na aquisição da arma.
− Isso é, hum... Um detalhe. Suas regras não se assentam muito para mim. Mas eles... Eles ainda têm o livre arbítrio. E vocês não respeitaram isso!
− Quem disse não respeitamos? O que aconteceu foi um lapso e nossa representante já foi inclusive chamada pela Direção, para prestar esclarecimentos sobre o acontecido. Provavelmente estará sob suspensão até novas ordens.
− Sei, sei...
− Regra nº 76473/E, interferência no andamento natural do Destino.
− Vem cá, você acha que ela vai ser punida?
− Olha, pra te dizer a verdade...Vamos ter que fazer uma CPI.

Final 3

Deixando a mochila cair ao lado, olhou em redor as pessoas que riam e viviam.. Sentiu o peso duro e frio da própria existência, sentiu que a culpa não era do mundo, da vida ou das pessoas... A culpa sempre fora sua, de sua incompetência de gerir a própria existência, sua covardia em assumir riscos e seu medo de viver. A culpa não era daquelas pessoas que alegres viviam; um ser repugnante como ele não merecia continuar respirando o mesmo ar das outras pessoas.
Em um gesto rápido colocou o cano da arma na boca e premiu o gatilho. A explosão do cartucho aconteceu imediatamente... As bochechas ainda se estufavam pela expansão do ar, sendo empurrado pela bala que atravessava o cano, quando ressoou alto, congelando o tempo e os movimentos: − PODE PARAR POR AÍ!
− O que você está querendo fazer? Mexer no contínuo tempo da vida? É total e completamente fora das regras! – a faxineira, junto ao recém chegado, eram os únicos que se moviam no espaço estático.
− Que regra o quê... Peguei vocês manipulando tudo, aqui e agora, sem desculpa nenhuma!
− Tá, quer dizer que você não entregou a arma nas mãos dele.
− Isso não vêm ao caso. O que importa é que isso ia acontecer mesmo. Ele ia sacar a arma e distribuir bala pra tudo quanto é lado... O bonde hoje ia descer cheio. E agora, por sua causa, tão querendo que eu leve somente este banana, isso eu não aceito!
− E quem disse que ele iria mesmo disparar contra os outros?
− Olha aqui, página 9472 da vida do fulano! – Apontou um calhamaço de papel.
− Peraí, como você teve acesso ao Roteiro da Vida?
− Er... Ah, isso? Nada não.
− Sabia que é uma falta gravíssima ter acesso a “dados não acontecidos”?
− Qualé...Suas regras não valem para mim. Mas alto lá! Me responda uma coisa: se vocês sabem que existe um “Roteiro da Vida”, com “dados não acontecidos”, como ainda estufam o peito para dizer que estes coitados possuem “livre arbítrio”? Como vão escolher se tudo já está escrito?
− Bom, é quer dizer... – um telefone toca− Só um momento... Sim Senhor, ok... Vamos resolver tudo. Certo, será tudo feito para sanar isso. Hã? Tá sim... Aqui do lado. Toma... Não queria explicações?
− Não... Deixa pra lá... Nem tava me ligando tanto assim... Podexá que levo esse pôrquera mesmo... Diz que eu já fui...
− Ele não quer lhe atender... Tá... Já esperava por isso, sei... Ok, resolvo tudo por aqui... É, limpeza parece que virou minha área mesmo, hehehe. Já sei o que fazer...



LIVRE ARBÍTRIO


Um despertar de amor. Há vários jeitos de se acordar, mas o despertar amoroso realmente deixava tudo lindo. Sempre descambava em coisas boas. Em dias destes, já tinha arranjado ótimos empregos, começado bons namoros, encontrado ótimas amantes, mudado para melhor seu futuro. Só um fato não mudava. Em dias como este, sempre fazia coisas maravilhosas. Ele sorriu para o céu e saiu confiante pela rua. Era muito bom sentir que tinha total controle de sua vida...






quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Andrógino- Flá Perez

E foi inevitável
- como se me soubesse inválida
e me quisesse em festa-

que esse cacho doce
de uva roxa-em-sangue
caísse
nessa boca ávida.

Ai, deus pagão (como eu)
que apaga quem me ultraja,
e tinge em novo,
entalha
a pele-trama
da tela
agora entregue

e finca tatuagem
nos quadris,
nas pernas,
como quem nada quer!

Ai, Baco de Caravaggio,
Evoé, Evoé!!


Convido todos para o lançamento do meu livro
"Leoa ou Gazela, todo dia é dia dela"
na Livraria Cultura Shopping Iguatemi Campinas,
dia 11/09/2009 a partir das 19:00 horas .
E para o lançamento e noite de autógrafos em São Paulo,
que acontecerá durante o XXIII Sarau Politeama Diverso:
Data: 15/09/2009 Hora: 20 h 46 m
Local: Fidalga 33
Rua Fidalga, 32 – Vila Madalena
Tel: 3032-7346

O desescritor

O descritor desescreveu o descrito de um desescritor que desalento descreveu o descritor

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Por que eu escrevo?


Por que eu escrevo? Quer dizer... por que me dou ao trabalho de construir idéias em formato de um texto para expô-lo num site qualquer que não será visto, nem lido e muito menos ouvido?
Me peguei pensando nisso e, consequentemente, sofri mais uma crise de escritor. Fiquei travadão, não conseguia escrever nada. Eu queria me explicar o motivo de gastar tanto a ponta dos dedos e as pestanas nessas linhas mal traçadas que talvez sejam peremptoriamente desprezadas.
E ontem resolvi minha própria charada: escrevo pois é preciso! Quer dizer... escrevo pois eu preciso escrever. Veja: durante um dia inteiro, tenho centenas, milhares de idéias, compreendo o ciclo social e biológico da vida planetária, resolvo as questões metafísicas da humanidade e ainda me dou ao luxo de orquestrar uma nova sociedade feliz e libertária. Daí quando sento para escrever, só lembro daqueles poucos recados que consegui me rascunhar enquanto mastigava o almoço ou abastecia a moto. Percebi, com isso, que preciso me organizar para registrar e oficializar tais idéias que beneficiarão não somente a mim, mas principal e efetivamente ao homem como espécie.
Sei que parece um tanto pretensioso, quer dizer... é pretensioso para caramba, mas é o que sinto quando sorrio ao desenvolver a equação da miscelânea de fatores que antecedem ao fato, qualquer fato. É nessas horas que vejo que minha formação em História na UnB foi preponderante para a percepção da maioria das sensações. Ou seja, é possível que eu seja tão louco que preciso escrever o que penso senão esquecerei no futuro e me transformarei em outra pessoa (como já aconteceu algumas vezes...).
Essa é uma boa resposta para a questão do título. Na verdade, não tenho outra. Ou sugiro novas idéias ao mundo, ou simplesmente organizo minha demência, tanto faz, quer dizer... escrever é preciso, viver não é preciso.

Flores




As flores
Pétalas inexatas
Cores e cheiros


As dores
Sentimentos insensatos
Dos amores ligeiros


Antíteses
De sinônimos inversos
Controvérsia
Loucura
Tom


As flores
Pétalas inexatas
Abstratas


As dores
Sentimentos insensatos
De quem está vivo...




Me Morte
"A Lenda do Corpo Seco"
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