quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Fotos de viagem



                Para variar um pouco, postarei agora fotos da viagem que fiz aos Lençois Maranhenses, há poucos dias. Vale muito a pena.

 Praça da Matriz, em Barreirinhas, cidade de apoio ao Parque Nacional dos Lençois Maranhenses.

Barreirinhas

Calçadão ao lado da Avenida Beirario, em Barreirinhas





 As lagoas são formadas com a água da chuva, e por isso são temporárias. Podem ser visitadas durante 3 meses ao ano.




Cabanas com artesanato e lanche, vistas do alto de uma duna

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Nuance

vida pulsante
vida que vibra
em cada traço
do semblante
em cada nuance
em cada gesto
o riso do ser grato
que elege
valer a pena
cada cena
cada segundo
neste mundo
vida que contagia
quem diria
o cético descrente
vida que dá vida
à pobre vida da gente

(em 18/07/2014)

sábado, 22 de agosto de 2015

Alheio


Mal sabia que seu trabalho fazia dignos apenas aqueles que colhiam os frutos de seu esforço.

Sádico e bem treinado, agradecia de bom grado todo resto que lhe era dado

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Se Essa Porra não Mudar, Olê Olê Olá...

Cássio tem 14 anos. Como todo adolescente, já se sente um pouco adulto. Não só pelo tamanho – já ultrapassou o pai em 3 centímetros – mas, porque também está descobrindo coisas de adulto. Cássio é, acima de tudo, um adolescente ‘cabeça’. Certamente um garoto especial. Assistindo da sacada de seu apartamento aos protestos do último domingo, foi que ele bateu este papo com o seu Valdir, seu pai:
- Pai?
- Fala filhão. O que manda?
- Você não protestou nenhuma vez, desde aquela vez do aumento das passagens de ônibus. Por quê?
- Não, não... não tenho saco para esse tipo de coisa, filho...
- Mas, pai – Cássio olhou nos olhos de seu velho – Você não fala sempre que esse país é uma bagunça? Que nada funciona direito?
- Hum...
- Você não acha que o protesto é um bom jeito de reclamar do que está ruim?
- É sim, filho. É uma forma de o povo se expressar sobre o que não está agradando mais. Você tem razão, moleque.
- Então por que você nunca foi a nenhum?
- Hum... – seu Valdir deu uma pensada, talvez tentando achar argumentos não tão radicais. Afinal, não queria desmotivar o filho com pensamentos negativos. Após titubear um pouco, enquanto Cássio ficava impassível aguardando uma resposta de seu velho, seu Valdir disse:
- Olha, filhão. Eu já não acredito mais que essa joça possa mudar. Por isso não vou. Prefiro fazer qualquer outra coisa do que gastar minha energia num protesto que... que... não dá em nada filhão.
- Mas, pai, parece que a Dilma vai sair. Querem o impeachment dela, não é?
- OK. Mas ainda assim não vai mudar porcaria nenhuma. Sai uma bandida, entra outro. Ou outra, sei lá.
- Mas... – Cássio mostrava esperança em sua fala – ...se muda quem está roubando, quem entrar vai se tocar de que o povo não quer mais roubo e patifaria no governo...
- Olha Cássio, acho que não. Não quero parecer um negativo de carteirinha. Acho legal que você acredite, viu?
- Mas...?
- Bem, faça a seguinte analogia meu filho: digamos que sou chamado para trabalhar em uma nova empresa. Meus objetivos são os melhores, você me conhece: trabalhar certinho, se possível não faltar, trazer conforto e qualidade de vida para você e sua mãe, não fazer nada de errado no serviço... Mas, supondo que eu não saiba que na verdade esta empresa em questão não passa de uma quadrilha de bandidos. Que os diretores, gerentes, supervisores, todos nos melhores cargos são preenchidos por pessoas do mal; que esta empresa, por conseguinte, faz o mal a outras pessoas, seja roubando, mentindo, coagindo...
- Bem, você sairia na hora pai, sem dúvida.
- Justo, Cássio. Mas, suponha que eu continue lá e permaneça trabalhando com esses caras ruins. O que você acha que ia acontecer?
- Olha pai... Acho que eles iam tocar um terror para cima de ti, e você ia ter que fazer o que eles te mandassem fazer. Se você fosse contra eles, iria se dar mal.
- Perfeito. Eu teria que consentir com os crimes que esta empresa comete. Teria que ficar de bico calado, e provavelmente passaria a agir como eles, me tornando um homem mal também.
- É... – agora Cássio tinha um olhar meditativo.
- E se, por alguma razão os mais afetados por essa empresa, no caso, os consumidores do produto que ela oferece, saíssem para protestar e botassem a boca no trombone, você acha que os bandidos que a comandam sairiam numa boa de lá?
- Eles iriam aos seus advogados perguntar o que fazer.
- Na mosca filho. E com dinheiro pesado, eles contratariam bons advogados, certo?
- Os melhores, eu acho.
- Sem dúvida. E, se por um acaso eu lhe disser que a chamada LEI, que deveria em teoria ser imparcial, FAVORECE as empresas, muito devido ao dinheiro que elas movimentam ao longo do ano, você acreditaria?
- Sim, pai. Do pouco que eu sei, o dinheiro manda.
- Então, num possível imbróglio judicial, quem se daria melhor: a empresa multimilionária e poderosa, regida por mentecaptos, ou o povo afetado pelos produtos desta empresa?
Cássio sorriu esta hora. Olhou para a rua, lotada de gente, bandeiras, buzinassos e faixas, e disse para o seu Valdir:
- Ah pai... Deixa eles sonhar, deixa. É tão bom acreditar em algo... mesmo que esse ‘algo’ seja impossível... Ainda assim a sensação é boa, certo pai?
- Certo, meu garoto. Agora vem cá dar um abraço no seu velho, vem!
Pai e filho se abraçaram na sacada, por quase um minuto. Aí entraram no apartamento e foram ver uma comédia besteirol americana no Netflix.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Dona Ondina e Seu Teto

Desde a mudança para o novo apartamento, aqueles passos vinham lhe martelando a cabeça. Pesados, firmes, marciais, passos de quem nenhuma consideração nutria pelo vizinho de baixo. E o morador sob aqueles pés que pisavam com tamanha voracidade era ela, viúva, inválida, prisioneira de uma cadeira de rodas, clamando por sossego no apagar de sua existência, sossego quebrado pelos maus modos do morador do 802.
Menos de uma semana convivendo forçosamente com aqueles pés de pedra e pouco sobrara da curta paciência de Dona Ondina. Bastava o morador do 802 chegar em casa e o tormento se iniciava. Passos, a qualquer hora do dia. Uns secos, denunciando os pés descalços do vizinho em contato com o assoalho - Dona Ondina tinha a certeza pela natureza dos sons que o chão acima de sua cabeça era forrado por tacos - outros, agudos, quando a criatura portava sapatos. "Maldito! Se ao menos tivesse um piso para amenizar o trote", lamentava.
Certa noite, despertada pelo andar paquidérmico do vizinho, Dona Ondina, abandonou sua cama e embarcou na cadeira de rodas rumo ao interfone. Reclamou com o sonolento porteiro do comportamento anti-social do morador do 802 e pediu providências. Minutos depois, o empregado, agora desperto, certo assombro modulando a voz, informou à importunada velhinha que o "Seu Rosalvo" havia demonstrado bastante irritação com a abordagem àquela hora da madrugada e, como conseqüência, mandara um recado à reclamante.
— Que tipo de recado, Diderot?
O porteiro, iluminista só no registro de nascimento, ainda tentou amenizar a situação.
— Com todo o respeito, Dona Ondina, ele mandou a senhora tomar naquele lugar onde o sol não bate...
O incidente fez que dela germinasse profundo ódio em relação ao morador do 802. O rude trotar de Rosalvo tornou-se apenas um componente no manancial de insatisfações que a anciã cultivava por ele. Suas gargalhadas, visitas, músicas escutadas, barulho da descarga, cheiro das suas frituras de homem solteiro, tudo era motivo de reclamações. Diderot ainda tentava apaziguar a contenda porém, Dona Ondina era resoluta: “Até a respiração desse calhorda me incomoda”, dizia ela ao porteiro da noite.
A solidão de Dona Ondina provocada por sua dificuldade em locomover-se era, diluída pela visita semanal da faxineira e pela internet. Os netos, presença bissexta no apartamento, costumavam provocá-la, chamando-a de “Vovó Internauta”. Ela assentia rejubilada àquelas homeopáticas manifestações de carinho dos seus enquanto conectava-se em ondas cibernéticas com o mundo que lhe era privado pela fraqueza das pernas. Cadeira de rodas em frente ao computador, Dona Ondina surfava na rede,  comprando o que era necessário para sua sobrevivência de mulher que pouco ia à rua, fazendo amigos virtuais, trocando receitas por e-mails, vasculhando a vida alheia nas páginas de relacionamentos pipocantes no universo web.
Foi quando ela chegou, obra do acaso, em curioso endereço eletrônico intitulado “Despacho.com”. No site a anciã descobriu, num misto de encantamento e horror, diversos trabalhos de religiões afros para o bem e para o mal.  Numa seção, o internauta poderia enviar o seu “ebó virtual” para prosperidade, saúde, doença ou morte de algum desafeto.
Rosalvo estava impossível naquele dia, sapateando nos miolos de Dona Ondina, cd dos sambas-enredos no último volume. Ela olhou a tela iluminada à sua frente, encarou o teto como se dali brotasse o barulho provocado pelo morador do 802, suspirou e pediu perdão a Santa Prisciliana, de quem era devota.
Selecionou com o mouse o mais perverso dos ebós.
Clicou em “enviar”.
Os dias correram em velocidade banda larga e Dona Ondina esqueceu por completo Rosalvo, macumbas virtuais e netos ingratos, mergulhando por inteira em sua invalidez e no passatempo da internet. Em certo momento, percebeu que há dias nenhum barulho partia do andar de cima. Agora era o silêncio que a incomodava. Incômodo de mãos dadas com o remorso. Temeu que o ebó encomendado houvesse surtido efeito e internamente se justificava: “Foi um momento de desespero, o homem me perturbava o dia inteiro”. Ou ainda: “Não levei a sério o Despacho ponto com, foi uma brincadeirinha de velha”.
Entrou em pânico ao sentir o cheiro da carne apodrecida vindo do andar de cima. Imediatamente ligou para a portaria. Aristófanes, porteiro do dia, atendeu e de pronto foi averiguar. Minutos depois o interfone soou no apartamento de Dona Ondina:
— Ligue não, Dona. Era um pacote de carne podre que alguém jogou fora e ficou entalado na porta da lixeira do oitavo andar. Seu Rosalvo deve estar vivo e gozando a vida por aí.
— E você sabe dele, Aristófanes?
O porteiro do dia, que de gracejador possuía algo além do nome de batismo, não perdeu a oportunidade de vomitar um gracejo:
— Seu Rosalvo viaja muito. Faz uma semana que eu não vejo ele. Deve estar queimando a rosca em algum lugar.
— Como?
— Essas coisas, Dona. Tenho até vergonha de falar com a senhora. Esses negócios estranhos, de homem com homem, a senhora entende?
Dona Ondina entendia, mas não eram os gostos sexuais do vizinho do 802 o alvo de suas preocupações. Queria o silêncio pairando sobre sua cabeça e temeu o regresso de Rosalvo, pisando duro, gargalhando alto, ladrão de sua paz.
— Quem sabe ele se casa, Dona, com um gringo bonitão que leve ele lá pras estranjas? Copacabana tá cheia deles!
Se casou, não deu notícias. Meses avançaram sem que um único barulho escapasse do andar de cima. Nem o som de uma chave girando dentro da fechadura chegava aos ouvidos de Dona Ondina. Arrependida por julgar haver vitimado Rosalvo com as artes do ciberfeitiço, a anciã acendeu uma vela virtual e deixou uma oração pela suposta alma no “Santa Prisciliana on line”.
Alívio percorreu seu ser quando foi acordada uma noite pelos passos de Rosalvo. Por debaixo das cobertas, chegou a sorrir ao reconhecer as passadas familiares, rítmicas, do vizinho do 802. Ele estava de volta. Nada acontecera. Certamente, largado pelo namorado estrangeiro que não deveria existir somente na cabeça maledicente de Aristófanes, Rosalvo retornara. Dona Ondina  reencontraria o sossego de espírito, roubado pelo silêncio que tanto ansiara. Jurou nunca mais reclamar de Rosalvo, emitir-lhes pensamentos rancorosos ou botar seu nome em bocas de sapos de mentira  nas páginas da internet. Tentaria selar a paz  com o morador de cima.
Porém, dias transcorriam e os baques provocados pelos pés de Rosalvo tornaram-se insuportáveis. Houve momentos em que ele chegou a andar por horas a fio massacrando os miolos da anciã a qual deixou de lado a trégua e acionou o porteiro da noite.
— Diderot, avisa para o Seu Rosalvo que ele está me deixando doida com esse barulho na minha cabeça.
— Como assim, Dona Ondina?
— Os passos, Diderot, desse cavalo batizado do Rosalvo.
Percebeu uma sensação de constrangimento do outro lado da linha.
— Dona Ondina, Seu Rosalvo morreu. O corpo foi encontrado semana passada lá na estrada das Paineiras. Desovaram o coitado...
— Tem alguém no apartamento?
— Não, os parentes dele vêm amanhã para tirar a mobília.
Dona Ondina negou-se a consultar um psiquiatra. Os filhos, agora mais presentes, tentaram de todas as formar dissuadi-la da decisão, mas ela manteve-se firme. Era o finado vizinho que estava lá, sapateando sobre sua cabeça como forma de vingança por ela ter encomendado sua morte através das forças ocultas. E ela, pecadora, teria que permanecer ali até o final dos seus dias purgando a sua maldade com um semelhante. “Deixe de besteira, mãe” dizia um filho. “Se ouvem a senhora falando deste modo, acabam acreditando e te denunciam”, dizia o outro. “Vocês não o percebem porque ele é esperto. Fica quietinho quando tem mais alguém em casa. Ele só que me atormentar, e com justiça”. Os filhos desistiram. Que a mãe ficasse com suas loucuras.
Dona Ondina passou a pesquisar em sites sobre fenômenos mediúnicos e descobriu que o modo mais fácil de se comunicar com aquele tipo de espírito seria através das pancadas que ele emitia.
Logi que as batidas no teto voltaram, ela perguntou com firmeza:
— É você que se manifesta, Rosalvo? Se for você, bata duas vezes.
Três batidas secas.
Repetiu a pergunta diversas vezes. Sempre as mesmas três pancadas em negativa.
Intrigada, ela catou caneta e papel para em seguida pergunta:
— Pode então soletrar seu nome através de um número de batidas correspondente a cada letra do alfabeto? Um batida para a letra "A", duas para "B" e assim por diante? Se concordar, bata uma vez.
Uma batida.
— Então, vamos ao trabalho.
Gastou a tarde inteira conversando com o morto pelo método das pancadas. Descobriu chamar-se Ângelo e que vivera naquele apartamento 30 anos atrás. Permanecera no imóvel sempre assustando àqueles que se aventurassem nele morar, porém, estava cansado dessa vida de fantasma batucador de tetos. Antes, tentara fazer o mesmo com ela, Ondina, mas ficara decepcionado com a confusão que a velhinha fizera entre suas batidas e os passos de Rosalvo, realmente barulhentos. Estava mesmo surpreso por ela imaginar ser ele o espírito de Rosalvo. Tranqüilizou a anciã afirmando que o morador do 802 não fora vítima dele, nem tão pouco dos seus ebós à distância. Rosalvo morrera por obra de um assaltante especializado em seduzir homens para roubá-los. "Reagiu, o pobre coitado".
Aperfeiçoaram o método de comunicação, passando das batidas, alvo das reclamações do vizinhos, para a escrita no computador. Dona Ondina digitava e Ângelo respondia logo abaixo, guiando o cursor como por encantamento.
Dona Ondina viveu seus últimos anos assim, em colóquio diário com o espírito batedor. Soube noticias do outro lado, inclusive de parentes. Ângelo revelou-se um ótimo correspondente do além. Guardou segredo até o fim. Ninguém acreditaria mesmo...

Da aurora

da aurora
pouco
pode-se enxergar:
ou se está muito sonolento,
ou bêbado demais
abrindo/fechando bar.

André Espínola

(Poesia presente no Ebook "Apenas Cinco Minutos")

domingo, 16 de agosto de 2015

Coma nº 7

arrastar-se pra casa
catarse constante
o coma

restos e mais restos
de si mesmo

deixados pra trás
desde o parto
desde o berço

no rastro
do tempo.


sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Trova de Edweine Loureiro



À criança brasileira,
retransmito esta lição:
a decisão mais certeira
é ter um livro na mão.

(Edweine Loureiro – Japão)

domingo, 9 de agosto de 2015

O ÉPICO DO MAL


Ontem foi o pior dia na vida dos torcedores-pseudo-conformados-incrédulos
Os hereges do futebol sucumbiram
Quem não abandonaria seus valores diante do improvável épico
Os céticos torcedores receberam um soco no estômago
Pensemos num Flamenguista a semana toda se convencendo do pior
Proliferando, a eliminação é certa!
Programado pra não sofrer o torcedor nada esperava
Tudo havia acabado na patética derrota para o Emelec
Ele já mirava o Carioca
Não pensava mais em Libertadores
Deu merda nos seus planos de paz interior
O dia 12 de abril de 2012 foi inesquecível
O jogo rolava e o ateu torcedor conversava com outros não tão incrédulos
Dizia ele sereno e convicto: - “Não criem expectativas, os jogos estão começando.”
Dois jogos simultâneos pra apreciar
O Flamengo precisava vencer e torcia por um empate no outro jogo
O primeiro gol do Flamengo saiu no primeiro tempo
O cético torcedor se conteve de razão e ponderou: - “Eu sei, com a vitória breve, o empate simultâneo no Paraguai, estamos momentaneamente classificados, mas o jogo de lá terá vencedor, podem apostar, estamos abolidos das oitavas.”
O anuído torcedor seguia agnóstico
Segundo gol do Flamengo e final do primeiro tempo
Torcedores comuns comemoravam a parcial classificação
Não ele!
Gol do Olímpia, e o torcedor-pseudo-conformado-incrédulo articulou: - “Eu falei pra vocês, relaxem o Flamengo não vai classificar.”.
Começa o segundo tempo e gol do Flamengo, a essa altura do campeonato o jogo do Flamengo não importava.
Todos os olhos voltaram-se para:
Olímpia 1 X 0 Emelec
Os momentos passam, e aos 21 minutos do segundo tempo:
Emelec 1 X 1 Olímpia
Desse jeito, Flamengo classificado.
Isso não afetou o budista torcedor, ele continuou incrédulo e iterou: - “Esse jogo vai ter vencedor, não comemorem.”.
Dos 21 minutos aos 41 o resignado torcedor manteve seu discurso racional
Ainda no presente do passado, o classificado torcedor-pseudo-conformado-incrédulo, sabia, sua fiúza seria convalidada.
Não deu outra, aos 42 do segundo tempo, aconteceu o inequívoco esperado:
Emelec 2 x 1 Olimpia
E o torcedor-pseudo-conformado-incrédulo arrazoou aliviado: -“Eu falei, viu, acabou, fim de papo, fatura encerrada, Flamengo desclassificado, eu te disse... eu te disse... eu te disse, vai acabar o jogo...”.
Ele estava certo e sereno, teria uma noite tranquila.
Entretanto aos 45 minutos do segundo tempo o improvável aconteceu:
Olímpia 2 X 2 Emelec
Não teve jeito, o torcedor-pseudo-conformado-incrédulo, comemorou a impossível classificação, ele abandonou seus ideais e foi feliz, tudo era pleno, o Flamengo estava classificado, agora ele podia comemorar, era épico.
Mas não
Ele não devia ter comemorado antes do apito final
Ele se traiu
Ele acreditou
Ele que não comemoraria, comemorou.
Não podia, nunca!
Eis que o já não descrente torcedor-pseudo-conformado-incrédulo tinha razão, e aos 47 minutos do segundo tempo, no último lance do jogo:
Emelec 3 x 2 Olímpia
Flamengo desclassificado
E o torcedor-pseudo-conformado-incrédulo, programado pra não sofrer, sofreu como nunca antes sofrera.
Esse dia foi épico
O Épico do Mal

Pablo Treuffar
Licença Creative Commons
Based on a work at www.pablotreuffar.com
A VERDADE É QUE EU MINTO

A VERDADE É QUE EU MINTO

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

VERSUS

Sonhar alto
conseguir a Bolsa,
passar no concurso,
atingir a meta de vendas,
fabricar um catálogo,
instituir parcerias,
aprovar no Mestrado,
definir prioridades,
alavancar os resultados,
dinamizar as relações,
conquistar mais espaço,
organizar o almoço de fim
de ano do departamento;
ter e aparecer.

Sonhar
incendiar a Bolsa de Valores,
nunca mais preencher um curriculum,
dar o que não mais deseja,
se irmanar dos iguais,
fumar as anotações do artigo acadêmico,
beber nas segundas-feiras,
dividir o aluguel,
bater ponto só no Terreiro,
ler tudo do Piva,
escrever nos muros da cidade,
quando morrer, ter um albergue
para moradores de rua
batizado com seu nome
e enfim desaparecer.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Tratamento do Choque *



            De começo foi imperceptível e estranha infecção, daquelas que espreitam corpos desavisados, trechos não vistos e períodos decompostos. Amigavelmente, ia atingindo um setor, um membro, daí se espalhando para todo o corpo. Ou a maior parte dele.
            Isto em geral poderia resultar em uma atividade febril, na suspensão de sensações ou, em casos mais extremos, a morte do organismo. E os órgãos sabem que morrem coletivamente; o problema nunca é somente dos outros... Cada um tem sua parcela, a falência individual acaba tornando-se múltipla. Morrer é fácil, viver é fácil, o difícil é conviver, como já disse o poeta...
            Não que estivesse já nos estertores: por fora ainda brilhava o lume do uso diário, de aventuras passadas e outras atividades recentes que sempre refrigeravam, traziam um frescor de vida e beleza que areja lugares insalubres. Assim como o tifo, aparece quase sem querer.
            Austregésilo do Perpétuo Amparo tremia convulsivamente no meio da birosca mal ajambrada onde havia se refugiado, estrofes e parágrafos estragados nas mãos, um sem número de rostos, rodopiando em sua volta, sussurravam sibilantes: “Lindo”, “Maravilhoso”, “Belíssimo”, fora os “Bravos” e “Bis”. O pobre sabia estar nu e todos aplaudiam. Austregésilo tremia e tremia e tremia... Sabia estar infectado com o vírus do elogio gratuito.
            Foi salvo por um ornitorrinco resmungão, que aplicou-lhe vocabulária vacina:
            − Tu não escreveu nada! Não disse alhos com bugalhos e ainda quer palmas?
O pobre quedou ali sem entender, mas sentindo os tremores cederem, enquanto o Ornithorhynchus anatinus saiu gingando no melhor estilo Bogart e ao som dos maiores sambas da velha guarda barnasiana.
− Sincerol 500 miligramas, direto na veia. O melhor remédio para o nhe-nhe-nhem...
           

Austregésilo, de súbito atingido por inclemente chuva de tomates podres, sentiu que se não estava curado, ia no caminho da cura. E pôs-se a reescrever tudo aquilo que já havia dito um dia, sem dramas, nem dracmas, nem choro, nem lágrimas...  

* Em homenagem aos 10 anos de Bar do Escritor, um aperitivo publicado na quarta antologia do BdE: Tomo IV. 

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Piromaníaca


Acendia fogueiras, despretensiosa, apenas para vê-las arderem, estalarem e consumirem-se.

Quando sentiu frio, desamparada, já não tinha mais ninguém para servir de lenha.



Memórias


Desde aquele dia, virei um fantasma, uma sombra - um vulto

Aquele reflexo no espelho, no qual você não se reconheceu, aquele era eu

domingo, 19 de julho de 2015

Do Contra

Wallace era o cara do contra. Até onde se sabia, NINGUÉM era tão do contra quanto Wallace. Se esta categoria de ser humano entrasse para o Guinness, Wallace seria um forte candidato a fazer parte do livro dos recordes. Mesmo tendo pouquíssimos amigos, para não dizer nenhum, Wallace insistia em manter contato com pessoas, afinal, a sua motivação maior na vida era ser o cara do contra.
Pois foi num coquetel com colegas de Faculdade que o diálogo de logo em seguida ocorreu. Laura, uma nova aluna do curso, ficara sabendo da fama de Wallace. E logo ela percebeu que Wallace não conseguia ficar com mulheres, exatamente por sua mania de contrariar a tudo e a todos. O que Wallace não sabia, era que Laura tinha um fetiche por homens que normalmente não atraíam outras mulheres...
Após serem apresentados, o papo tomou o rumo que Wallace gostava. Laura disse:
- Não suporto política.
- É interessante. Não gosto dos políticos brasileiros. Mas o tema política é interessante...
- Eu também não gosto dos políticos brasileiros. Nem um pouco – disse Laura categoricamente.
- Bem, na verdade, tem alguns que eu gosto. O Getúlio, por exemplo. Um grande político. O João Goulart também.
- Também curto o Jango. Foi um grande cara, injustiçado.
Wallace, desconfiado, falou:
- Não... Acho que você não gosta dele não, Laura. Acho melhor você refletir a respeito do que está falando...
Laura levou a conversa para outra direção:
- E de quais esportes você gosta, Wallace?
- Não tenho um favorito em particular... E você?
- Gosto de hóquei no gelo.
- Hum... Muita brutalidade. Não é para mim.
- Sou fã também de nado sincronizado, nas olímpiadas.
- É bonitinho, mas para mim isso não é esporte. É arte. Está no lugar errado.
- Perfeitamente.
- Hum?
- Também acho.
Nisso, Wallace pegou mais um canapé na bandeja que estava ao seu lado, e comeu. Laura emendou:
- Estão uma delícia estes canapés, hein Wallace?
- Não acho. Só estou matando a fome.
- O que você mais gosta de comer?
- Depende do momento, depende o dia.
- E música? Você gosta de MPB?
- Bem... – Wallace olhou bem para Laura, tentando decifrar se ela gostava ou não de MPB. Sem sucesso. Aí disse, na defensiva:
- Por que, você gosta?
- Não tenho uma opinião formada. Preciso ouvir mais esse estilo. As críticas são as melhores, não?
- Não dou bola pra críticas. São só opiniões individuais. Assim como eu e você, qualquer um pode falar o que quiser de MPB. Vai pedir, por exemplo, para algum retardado tipo, sei lá, o Supla, se ele gosta de MPB.
- O irmão dele é músico e toca MPB.
- E daí? Já soube de irmãos que um era padre, o outro assassino de aluguel. Novamente, gostos diferentes. O que eu quero dizer é que há muitas opções, não tem como...
Enquanto Wallace vinha, como sempre, tentando provar seu ponto de vista, o garçom passou por eles; Laura aceitou uma dose de uísque, já Wallace, olhando bem ao seu redor e vendo que ninguém pegara o único copo de Martini da bandeja, não hesitou e se agarrou ao copo.
- E o cinema americano clássico? Film noir, os musicais da Metro... Isso sim era bom. – disse Laura, após um gole imenso no seu uísque on the rocks.
- De clássico, prefiro um western.
- Nossa, você é fã de John Wayne então?
- Sou mais Roy Rogers.
- E entre Marylin Monroe e Audrey Hepburn? Qual das duas?
- Sophia Loren. Sem dúvida.
- Cinema italiano, hum... Sabia que você tinha uma queda por cinema europeu, Wallace...
- Na verdade, não. Gosto de cinema europeu como gosto de qualquer outra coisa.
- Como o quê?
- Como, sei lá, comer pera. Tanto faz. É uma boa fruta e tal, mas não vou morrer se não comer uma pera. Só isso.
Nisso o garçom passava por eles mais uma vez. Laura pegou para si duas doses de uísque, desta vez a caubói, e disse:
- Pelo seu papo Wallace, vejo que você não vira uma dose de uísque dessas nem aqui, nem na China. Certo?
- Me dá aqui. – Wallace virou a dose num gole só, depois tossiu e por fim, limpou uma lágrima que saía de seu olho.
- Uau... Bem, eu vou tomar essa minha aqui bem devagar... – disse Laura, com um olhar penetrante nos olhos agora vermelhos de Wallace. -... já que detesto beijar a boca de alguém com hálito de uísque puro, assim, no seco, quente...
Quando os demais colegas se deram por conta, Wallace estava atracado aos beijos com Laura. Que, esperta como ela só, havia apostado com mais de uma dúzia de colegas ali presentes que ficaria com o turrão do Wallace, e por iniciativa do próprio.

Touché!









sábado, 18 de julho de 2015

Narrativa Literário-futebolística em Quinhentas Palavras


“Zagueiro bonzinho acaba como babá do filho do atacante”. Pensava assim o beque Roberval até o dia em que vitimara Zeca com avassalador carrinho. O artilheiro flamenguista e ídolo da seleção brasileira ficou quase um ano no estaleiro com tíbia e perônio fraturados. Em conseqüência, Zeca, perdeu a Copa do Mundo e Roberval a paz de espírito corroída pelo remorso.
Viveu assim tempos difíceis o Roberval, beque conhecido pelo estilo viril aliado a certa malvadeza para com os adversários. Fora criticado por toda a imprensa futebolística, virando um bandido perante a opinião pública que antes o endeusava por sua demonstração de raça em campo. O zagueirão só não capitulara porque Jesus entrou de sola em sua vida quando Bernardo, meio-campo e Atleta de Cristo, o presenteou com uma Bíblia mandando que ele a lesse. Em semanas Roberval largou as noitadas, carros importados, marias-chuteiras e tomou ojeriza pela violência nos gramados. Virou um zagueiro clássico, daqueles de tirar a bola dos adversários como se houvessem pinças em seus pés. Nas entrevistas após as partidas, parafraseava Jesus ao justificar o sumiço de suas botinadas: “Não faça com os outros o que não quiser que façam com você”.
Brasil, celeiro de craques, viu nesta época surgir nas Minas Gerais Dentinho, para os especialistas da crônica esportiva, o novo Pelé. Dentinho humilhava os marcadores com sua técnica apurada e talento de malabarista com a bola nos pés. Zagueiros renomados perdiam o sono na véspera dos jogos contra o Cruzeiro, temendo a vergonha de serem entortados pela jovem revelação mineira.
Quis o destino que Cruzeiro e Botafogo decidissem o Campeonato Brasileiro em jogo único no Maracanã. Rádios, jornais e a televisão vomitaram durante toda a semana o duelo entre o malvado arrebanhado por Jesus e o novo deus da bola tupiniquim. Roberval passou a noite em claro. Cristão antes de ser zagueiro, tinha a obrigação moral de não machucar aquele menino prodígio.
Maracanã cheio, um clima de euforia intoxicando o ar. Antes do jogo, Roberval fez questão de presentear Dentinho com uma Bíblia.
A partida transcorreu nervosa como uma digna final de campeonato. Aos 35 minutos do primeiro tempo, o Botafogo fizera o seu gol e segurava a vantagem no marcador com um desempenho sólido de Roberval que, apesar de tomar alguns dribles de Dentinho, não deixava o atacante levar perigo à meta botafoguense.
 Acontece que, a natureza do escorpião revelou-se e ele picou a sua vítima.
Eram 44 minutos do segundo tempo. Em um contra-ataque, a bola foi esticada para Dentinho que ganhou na corrida de um zagueiro e rumou em direção ao gol. Roberval partiu para a cobertura e, temendo o empate cruzeirense, atingiu barbaramente o joelho direito de Dentinho.Um palmo fora da área. O atacante saiu de maca direto para a mesa de cirurgia, Roberval foi expulso e o Botafogo sagrou-se campeão.

Enquanto a festa alvinegra tomava a cidade, Roberval isolou-se em um templo evangélico. Chorando, Bíblia segura na mão direita, o zagueiro rogou a Deus para que perdoasse seus pecados.

Poesia Muda

Quando estiveres cansada
De ver sempre as três fatídicas palavras,
Todas juntas,
Nas minhas inúmeras
Posias de amor,
Tudo bem.

Fecha teus olhos
E com a visão escura,
Escuta.

Pois o silêncio que a boca declara,
É o meu amor também.

Em forma de poesia
Muda.

André Espínola

quinta-feira, 16 de julho de 2015

O medo

tarde demais
ou tão cedo
o velho receio
o medo

todos os meus suicídios
empecilhos
martírios
fracassos

tarde demais
ou tão cedo
o velho receio
o medo

todos os meus atrasos
vôos rasos
acasos
e afins

tarde demais
ou tão cedo
o velho receio
o medo

todos os porres
tarde demais
ou tão cedo
todas as mortes
tarde demais
ou tão cedo
todas as dores
tão tarde
tão cedo
tudo agora
no tempo certo
ou errado
em mim.

terça-feira, 14 de julho de 2015

A Poesia de Edweine Loureiro

Tema: Infância

ALEGRIA

É ver
o sorriso da criança
espalhar Poesia.

Nota: Poema selecionado na 16ª edição do Premiado Projeto “Um Poema em Cada Árvore”. 

quinta-feira, 9 de julho de 2015

VOU ACABAR NA IGREJA PREGANDO EM NOME DE JESUS


Eu não posso fumar maconha
A maconha leva-me no caminho inverso
Ela não é subversiva
Pelo contrário
Super moralista
Quando eu fumo eu quero viver uma vida normal
Tudo diferente dos ensinamentos dos meus gurusbebuns
Penso automaticamente ”chapado” em trabalhar mais, ganhar mais dinheiro, sair menos, não dar tamanha importância ao sexo.
Quando não fumo a erva moral eu quero trabalhar o mínimo necessário, não dou a mínima pra dinheiro, só quero sair e fuder.
Não sinto culpa “careta”
Quando não fumo eu tenho a total consciência do poder viver uma vida de bar e sexo
A maconha é a minha culpa
Leva-me automaticamente pro mundo padronizado no caminho dos iguais no não viver
Eu fumo e quero ser mais um
Quero ser o cara criticado ao limite nos bares e pras consequentes mulheres em discursos efusivos e anárquicos
Se eu fumar todo dia vou acabar na igreja pregando em nome de Jesus

Pablo Treuffar
Licença Creative Commons
VOU ACABAR NA IGREJA PREGANDO EM NOME DE JESUS de Pablo Treuffar é licenciado sob uma Licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported.
Based on a work at www.pablotreuffar.com
A VERDADE É QUE EU MINTO

A VERDADE É QUE EU MINTO

terça-feira, 7 de julho de 2015

Arrasta sua sandália de odalisca triste pelo asfalto

Sua pele de animal selvagem
Coberta de fuligem, sujeira e sal
Suas escamas sobre as costelas salientes
Denunciando a fome que te ultrapassa

Ancorado em minha mesa, observo
A nervura de teus passos, buscando mais uma dose
O traficante que não chega
Te oprime como o tombo de uma guilhotina

Sob o astro frio da tarde que finda
Sua agonia, tão imensa, quase nubla o sol poente
Se eu quisesse poderia tocar sua angústia
E fazer dela pequenos cubos de gelo d’alguma bebida

Arrasta sua sandália de odalisca triste pelo asfalto
Suas unhas mal feitas, como garras de um bicho enjaulado
Eu sei como dói, são os ossos rangendo dentro da carne
São os olhos que não se interessam por mais nada

Dentro de sua calcinha, pulsa, teu sexo aberto em ferida
Corrimento fétido e viscoso, pelas pernas escorre e corrói a pele
Já foi bela, foi como flor, dama singela e longilínea
Agora apodrece viva, chamada antes Simone

Agora a chamam pretinha da Vila Silva
Louca dos cabelos arrancados, magrela desgraçada
Favelada sem pai nem mãe, ladra de beira de esquina
Mas eu ainda te chamarei Simone, pela vida que te negaram

E pela dor que não posso te arrancar
Pela incapacidade de te salvar
Pela miséria que carrego comigo
_ Tome um cigarro, Simone, se cuide.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

hoje, no globo repórter


4.3 e inda não aprendi o tal pulo do gato que tira o cavalo da chuva, o boi da linha e coloca o ruminante na sombra; talvez o bicho de sete cabeças, se não estiver com a macaca, espante o espírito de porco e me ensine a dar o drible da vaca no lobo em pele de cordeiro. quero acertar na mosca mas a morte da bezerra está recorrentemente nos meus pensamentos. nesses dias, ando trôpego, feito barata tonta e as velhas raposas me vendem gato afirmando enfaticamente tratar-se da mais felpuda lebre. sempre pratico a discrição e tento manter minha boca qual a do siri, contudo, sempre vem um raio dum papagaio de pirata cabeça de bagre me apontar o bico e eu, bode expiatório, acabo pagando o pato, ou pior, caindo do cavalo paraguaio. o lance é mandar esses amigos da onça irem pentear macaco quando vierem com aquela conversa pra boi dormir. ora, cada macaco no seu galho! se ameaçarem soltar a franga, solto os cachorros em cima deles. tô farto de engolir sapos, de assistir impassível à vaca seguir mansamente rumo ao brejo. chega de cutucar a onça com vara curta! quero amarrar o burro, afogar o ganso, matar a cobra e mostrar o pau. encerro minha sina de vaquinha de presépio e aviso: prendam a respiração porque a cobra vai fumar!

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Inefável

eu tenho um palpite
de como a geração "beat"
fazia poesia

com um "snif" no pó
ou tomando num gole só
a doidera
gera
o verso/vômito
galopar indômito
de imagens e sensações
caleidoscopicamente
na velocidade da luz
da alucinação
da ação
da mente/sonho
randômico
filmessequenciadeslides
a expor vaidades
e mitos
rito xamânico
a evocar o inefável

(em 23/05/2014)

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Ingrato


Vestiu o terno da indiferença, os óculos escuros do desprezo e subiu o vidro da intolerância.

Após realizar o ritual diário, rumou pelo meio daquela gente, que ele sempre desdenhou, para onde aquela mesma gente, que pagava seu salário, o colocou.

domingo, 21 de junho de 2015

In cwb













Luz dos pinheirais

Belíssima Curitiba

Gelada e solar


Imagem da web: neve em Curitiba no inverno de 1975.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Vai assistir notícia!

Você já ouviu alguma vez em sua vida uma frase do tipo: “larga mão de ficar vendo besteira na TV. Assiste um noticiário, que assim você se informa do que está acontecendo!” ou então: “Filme? Série de TV? Não, não assisto. Isso não leva a nada. Só vejo mesmo notícia, e para me manter informado!”. Se já ouviu algo parecido com isso antes e ficou sem resposta, aqui vai uma pitada de polêmica para você ver que não é bem assim como se diz...

Primeiro: isso é um papo velho e ultrapassado. Mas isso não impede que alguém, de pouca idade, venha até você e o censure por assistir os seus filmes e suas séries de TV favoritas; certamente essa pessoa não desfruta deste lazer, e quer destruir o seu. Pior: impondo que apenas ‘notícia’ vale a pena de se assistir, é que eu questiono estes cidadãos: a qual parte da notícia você se refere? Qual, ou mais precisamente, quais notícias valem mais a pena de assistir do que um filme (ou do que um episódio repetido de Friends)?

Bem, se optarmos por segmentar o que assistimos de notícias, estaremos dividindo-as por categorias, da mesma forma que aos gêneros de filmes. Exemplo: minha namorada prefere romance à comédia, então não é qualquer comédia que ela assiste. Já um romance... É, mas a notícia tradicional de TV ainda não nos dá essa escolha – tudo é jogado ali, à sua frente. É assim que é decretado o que é notícia; basicamente a mesma que está nos jornais, ou na internet... hum, quase ia me esquecendo que, na INTERNET podemos escolher o tema de nosso interesse – aí sim, justo, podemos selecionar ao que assistir de notícia, e não o que os jornalistas, ou melhor, os donos de emissoras, querem que a gente assista.

No meu caso, há um tipo de notícia que eu não apenas não gosto, como sinto náusea ao assistir: o noticiário político brasileiro. Prefiro, sinceramente, assistir a um filme B de terror italiano. Ou espanhol. Ou do leste europeu, sei lá. Com imagem ruim. Roteiro tosco. Sim, prefiro. Isso que estou para um terror B tanto quanto minha namorada está para uma comédia besteirol americana. Um pouco deprimente, não?

Outro argumento, para eu que sou fã de Star Wars (pode me chamar de nerd, vai!) é que nos filmes ou séries, podemos torcer para o mocinho e quase sempre conseguimos ver o vilão se ferrar no fim, exceto quando algum gênio da 7ª arte resolve imitar o que acontece na vida real - e aí temos Michael Haneke. Que, por sinal, pode ser uma indicação para esse camarada que “só vê notícia”. Um pouco de realidade nua e crua para esse cidadão. Que não precisa ficar atormentado após a sessão, não. É claro que filmes perturbam. Nos fazem pensar. Mas, se você inocentemente sentar à frente da sua TV e começar a ver o seu noticiário, metade do tempo que se propõe, falando de corrupção no Brasil, na FIFA, denúncia daqui, denúncia dali, suborno, propina, estelionato, desvio de verba... Pode ter certeza que isso sim é o que ATORMENTA. Não o filme do Haneke. Ou do Scorsese. O que se dirá de um mísero Star Wars?

Nossa, como eu queria ter um sabre de luz e desafiar todos esses bandidos que a notícia brasileira nos mostra. Queria ir para qualquer lugar, sei lá, poderia ser a Terra Média também (sim, gosto do Senhor dos Anéis – nerd ao quadrado!). Então, com todo o respeito que os jornalistas deste país merecem - afinal, temos muitos bons jornalistas aqui e no exterior - vamos mudar o foco um pouquinho? Falar mais de cinema, de teatro, de séries de TV? Pode ser até do Chaves. Tá valendo. É melhor rir do seu Madruga fugindo para pagar o aluguel do que assistir a um congresso inteiro que não se mexe. Ou falar mais de esportes, mas de preferência de outras modalidades que não o futebol – uma que futebol já é o assunto diário nas rodas de conversa do brasileiro, e outra por castigo, já que sua organização regente, a FIFA, está seguindo as mesmas ações da política brasileira: roubar, mentir e reinar. Não necessariamente nesta ordem...

Bem, caros leitores, paro por aqui. E que a força esteja com vocês!