quarta-feira, 19 de novembro de 2014

De pai para filho


Ednei havia sido intimado por sua esposa Cláudia a ter uma conversa de ‘homem para homem’ com seu filho adolescente, o Edinho. Já era hora para isso. Ednei vinha dizendo as coisas que julgava melhor para o seu filho, mas tudo assim, ao vento, ou no calor da hora. Era necessário essa conversa mais demorada, pois é na adolescência que surgem as inquietações, as dúvidas, as polêmicas da vida. Ednei puxou pela memória uma conversa marcante que teve com seu pai, seu Ediomar, mais ou menos quando tinha a mesma idade que Edinho tem hoje.
Pensando em ter mais argumentos para com o filho, Ednei perguntou para seu pai Ediomar se ele também havia tido uma conversa com o seu avô Edenílson; para grata surpresa, seu Ediomar lembrava muita bem da tal conversa. Certo de que isso já se tratava de uma tradição em sua família, Ednei visitou seu idoso avô Edenílson, que morava junto de uma de suas tias, a tia Edna. Mesmo com o avô bastante debilitado de saúde, foi possível Ednei ouvir, bem de pertinho, a conversa que seu Edenílson tivera com seu Edelson, o bisavô de Ednei – que ele só conhecia por velhas fotos de família. Por respeito a ordem cronológica das conversas, veremos aqui como se transcorreram estas ‘conversinhas’ de pai para filho:

Anos 30. Seu Edelson, após enrolar seu palheiro para fumar, chama o jovem Edenílson, na época com 15 anos, para uma conversa. Após uns minutos de conversa fora, este é o recado de seu Edelson para o seu filho: “Edenílson meu filho. Lá fora, nas cidades, a vida não é tão fácil quanto parece. Se você reclama de ir para a lavoura com seus irmãos e irmãs, imagina se não tiver trabalho para você nessas indústrias que existem nas cidades; você poderá morrer de fome. Aqui temos fartura, nunca falta comida para a gente. O negócio é você ter cabeça, tentar garantir seu pedaço de terra e cultivar o que nela puder. E também...” sentenciou por fim Edelson “tome cuidado com es bebidas que você tomar por aí, especialmente as da cidade. Você nunca sabe o que esse povo urbano põe lá dentro!”

Início dos anos 60. Seu Edenílson, após acender um cigarro Continental, chama o jovem Ediomar, na época com 15 anos, para fumarem juntos e terem uma conversa. Após uns minutos de conversa fora, este é o recado de seu Edenílson para o seu filho: “Ediomar meu filho. Lá fora na cidade grande, a vida não é tão fácil quanto parece. Se você reclama de ir para a escola pela manhã e de trabalhar como contínuo à tarde, imagina se você não achar trabalho nessas cidades grandes; você poderá parar numa favela. É, toda cidade grande tem favela. Aqui levamos uma vida humilde, mas nunca falta um bom teto pra gente. O negócio é você ter cabeça, tentar garantir seu pedaço de terra e construir seu cantinho por aqui. E também...” sentenciou por fim Edenílson “tome cuidado com os cigarros que você fumar por aí, especialmente na cidade grande. Você nunca sabe se esse povo põe alguma droga lá dentro ou não!”

Fim dos anos 80. Num entardecer ensolarado de verão, seu Ediomar, após acender um cigarro Hollywood, chama o jovem Ednei, na época com 15 anos, para sentarem juntos e terem uma conversa. Numa prova de maturidade mas também de confiança, seu Ediomar divide com o filho pela primeira vez uma garrafa de Antarctica, estupidamente gelada. Após uns minutos de conversa fora, este é o recado de seu Ediomar para o seu filho: “Ednei meu filho. Lá fora nesse mundão de Deus, a vida pode não ser tão fácil quanto parece. Se você reclama de ir para a escola pela manhã e de lavar meu carro e cortar a grama uma vez por semana em troca de mesada, imagina se você não tiver ninguém para lhe dar uma mão por aí; você poderá se perder na vida... Aqui levamos uma vida decente e apesar de você reclamar que ganha pouco, você sempre tem tudo à mão, Ednei. O negócio é você ter cabeça, terminar o ensino médio e entrar numa boa faculdade, a fim de ter um belo emprego quando se formar. E também...” sentenciou por fim Ediomar “tome muito cuidado com as drogas. Essas porcarias estão acabando com a juventude. E não quero te ver fumando cigarros. Não cometa a mesma idiotice que eu!”

Dias atuais. Ednei espera pacientemente o filho Edinho terminar seu game online com um oponente dos Estados Unidos. Jogo terminado, Ednei começa o papo após tomar um remédio para enxaqueca e um relaxante muscular. Para deixar o clima mais ‘entre amigos’, Ednei pede permissão ao filho para fumarem juntos no narguilé de Edinho, enquanto Ednei presenteia o filho com duas essências de fumo, uma de chocolate e outra de menta com limão. Após uns minutos de conversa fora e muita fumaça, este é o recado de Ednei para o seu filho: “Edinho meu filho. Aqui neste país, a vida pode não ser tão fácil quanto parece. Se você reclama de ir para a escola pela manhã, em ficar ‘apenas’ a tarde inteira na Internet, por não ter o último Iphone, por ganhar menos do que merece de mesada, entre outras coisas que você reclama, imagina se você não tiver ninguém para lhe dar esse conforto que lhe damos; será que você saberia fazer algo que não fosse ficar em frente à um computador? Aqui levamos uma vida boa e apesar de você não fazer nada do que te pedimos para fazer, ao menos queremos o teu bem. O negócio é você ter cabeça, e se quiser sair deste país, é bom ter um pouco mais de atitude, reclamar menos e aprender mais coisas para você ter qualificação lá fora, em algum país desenvolvido. Se quiser ficar aqui nesse oba-oba, é melhor ter muitos amigos, e tentar, quem sabe, a política. Acho que é o único jeito de se dar bem sem fazer nada. E além disso...” sentenciou por fim Ednei “se for usar drogas, caso você já não tenha experimentado alguma, fique só na maconha, meu filho”. Nessa hora Edinho, que já estava com a maior cara de tédio, abriu um pequeno sorriso. Ednei pensou bem e concluiu “E se sua mãe lhe perguntar sobre nosso papo, apenas não comente com ela isso que acabei de te dizer sobre maconha. Combinado?”
Edinho rapidamente concordou com a cabeça, simultaneamente enquanto verificava as mensagens do whatsapp em seu smartphone.


terça-feira, 18 de novembro de 2014

Números

Esporro, esporro, esporro. Calou-se uma década aos esporros patronais. Quatro filhos para criar.
Hoje, vida nova se descortinava. De propósito, atrasou-se duas horas.
— Com mil demônios, seu verme irresponsável! – vociferou o chefe.
— Vá para a puta que lhe pariu cem vezes! – respondeu com inusitada alegria. Diante do patrão surpreendido, fez um bundalelê. Três bufas barulhentas.

Zero oito, dezoito, vinte e quatro, vinte e sete, trinta e três e cinquenta e nove. Santo bilhete premiado da Mega-sena dormitando em seu bolso. Vingado, rumou para a Caixa Econômica cantarolando o Trem das Onze.

Sobre quando o céu desaba


Quando o céu desaba
e as nuvens caem
feito escombros,
para mim tu és como Atlas,
e carregas meu mundo
nos ombros.

André Espínola

(Poesia presente no Ebook "Apenas Cinco Minutos")

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

A ESPERANÇA DO AMOR

Neste conto retratei e fundi duas vozes distintas, tamanha eloquência em disritmia e euritmia, ultrapassando proporções distinguíveis, entre dor e amor.
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Durante sete dias um mundo se fez, com toda alegoria, deslumbrantes virtudes e vertigens, presentes sortidos do divino, do destino, e dos metidos a ajudar e dos a atrapalhar, ao dar algum ar de a graça ou desgraça.
Em uma noite de insipidez, após navegar um mar de espinhos e facas, tal como é a natureza da vida,
em mais uma fase da lua que se inicia, em mais um dia que termina, assiduo pombo correio do amor
oliver pega o trem da esperança,a cada vou-o na rua, a cada intersecção de esquina se depara entre seres noturnos, que assim como ele procuram uma satisfação, um refugiu pra esconder suas angustias, ele porém para acalma-las.
na ânsia de encontrar seu amor , num pouso respandecente desce na esquina da alegria e ao chegar em seu destino predestinado,como um mordomo, coloca seu coração nas mãos do amor e com um imenso sorriso, bem alto grita: venha-me amor, venha, já estou cheio de condolencia pelo mundo, e os rancores dele contradigo e transmuto ao teu favor amor, venha-me amar.
Nenhum sinal, siléncio total, semvalor, fatalmente encarou o sol e ele se fez frio e distante, pareceu insensivel, foi desperdiço, deseperançoso, enquanto digeria a tragédia que adentrava-lhe os ouvidos, exaltado-lhe a mente de conturbações, acertando-lhe em cheio um tiro certeiro no peito, desfazendo a felicidade em seu rosto, dando lugar a assolação do mundo, feito chamas de fogo, seus olhos ardentes, transbordaram lagrimas como um temporal.
lagrimas proferidas sob o silencio da lua e das estrelas lembranças e palavras jogadas pelo chão, e a dor que corria em suas veias e em todo seu corpo e mente,feito um lago de aguas cristalinas, transparecia como nunca.
Pisando sobre a grama com os pés cheio de lama se despe dos mals trajes, despido vai até o cume da montanha do sermão e senta-se sozinho sob uma vivida fiqueira.
eis que sob o poder do limite, encontra uma caixa de segredos, trancafiada dentro de um porão, um raio de sol, a luzir em baixa frequencia, mas pronto pra romper a escuridão e eclodir-se em vida. emocionado, guarda-o  em segredo sobre o peito embriagado.

domingo, 16 de novembro de 2014

Boca fechada


Minhas palavras

o perigo

minha retórica
cólica
cacofônica
corrosiva

que não digo.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

VHS



Hoje esquecido,
meu velho vídeo
convida-me a rir,
chorar,
e pelo mundo viajar...

E tudo isso
sem sair do sofá.

***

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

FALTAM SOBRAS

 
Sobram pessoas......faltam
Faltam sentimentos......faltam
Faltam verdades......sobram
Sobram momentos......faltam
Faltam palavras.......faltam
Sobram crueldades.......sobram
Faltam famílias......faltam
Com sobras de bondade.......faltam
Sobram inimigos.......sobram
Faltam tecidos.......faltam
Para pararem tremidos.......faltam
Sobram gemidos.......sobram
Sobram malefícios......sobram
Sobram céticos.......faltam
Faltam contigo.......faltam
Sobro sozinho.......sobro
Faltam calafrios......faltam
Para esquentarem o frio......faltam
Sobra o frio.....sobra
Sem você comigo.......falta
Faltam alegrias......faltam
Com sobrinhos.......sobram
Somente tristezas.......sobram
Você comigo......faltam
Sobram faltas
Faltam.....sobram
Sobras.....faltam
Faltam sobras

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Convidado Sanjo Muchanga

Senhor Doutor!


Quem disse que camponês não é pessoa
Me desculpe senhor Doutor, pela mágoa
Mas é de mim que vem o arroz e o trigo
Banhado do suor do seu humilde castigo.

Pés descalços, roupa roxa e roto de lama
Produzindo o seu precioso orgulho da alma
Nos campos do algodoeiro e nas planícies do arroz
Lá acompanho a minha força que me foz.

A cada chicotada das tuas oficiosas palavras
Que denigre a minha honra de ser camponês
Só porque me falta a dicionário e o alfabeto inglês
São mentes como a sua que nos mata lealmente.

Quando sentimo-nos sem valor e nem socialmente
Porque da terra somos pessoas escravas das lavras.
Se não, senhor Doutor dai-me a minha euforia
Para cantar em sintonia da sua alegria.



---
Sanjo Muchanga

domingo, 9 de novembro de 2014

OS SERES MAIS BAIXOS


Sou afeito à vagabundas exibidas
As adoradoras de sexo por sexo
As gritando aos quatro ventos o quão cadelas são
Gosto das putas assumidas
Das sem vergonha
Das ostentadas
Anseio por essas vadias mundanas
As que não fazem distinção entre bonitos e feios
As que sentem tesão em velhos babões, tanto quanto em pirralhos punheteiros.
Nascidas pra putaria e alardeando-se com estilo, elas levam-me aos mais luxuriantes e insanos fetiches.
Não tenho paciência pra conversinhas de fidelidade
Uma hora a casa cai
Caem os mitos
Eu fujo dos mitos
Aspiro às taras mais sujas
Os seres mais baixos
Não tenho tempo pra conto de fadas
Eu conto de fodas
Meu mundo é imundo
Eu quero é phoder

Pablo Treuffar
Licença Creative Commons
Based on a work at www.pablotreuffar.com
A VERDADE É QUE EU MINTO

A VERDADE É QUE EU MINTO

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Saudosa Maloca ou o fim dos “campinhos de pelada” artísticos



Robisson Sete

Já há alguns anos os cronistas esportivos apontam que a crescente especulação imobiliária nas cidades brasileiras vem produzindo um efeito nocivo na formação de novos atletas e jogadores de futebol, devido ao desaparecimento dos diversos campinhos de várzea espalhados pelos terrenos baldios das, principalmente, periferias do país.

O fim do toque sutil na bola, do drible matemático e da ginga de quem joga descalço arrancando a tampa do dedão ao tentar uma finta ou um elástico, é imposto, invisivelmente, a todo o tempo em contraponto de um treinamento mecânico e moderno. Essa nova lógica vem interferindo diretamente no rendimento e no próprio talento concentrado da juventude esportista. Sem os campos de várzea mais garotos buscam as escolhinhas “profissionais” e um certo tipo de homogeneização no tratamento dos fundamentos e da técnica é dado. Antes de sentirem as intempéries e dificuldades do futebol amador, os garotos já são incensados a mini-profissionais e, enfim, um bundamolismo futebolístico se implanta na identidade desses atletas, tão jovens e já tão desprovidos, muitas vezes, tão cedo, de chama e de alma.

Enfim, futebol no ‘país do futebol’, é uma religião composta de amores, ódios, futricas e disse-me-disses, fogo-amigo e muita gaitada. E violência desmedida também, nas últimas décadas principalmente, e dinheiro, muito dinheiro.

Falo sobre o futebol para poder falar de arte. Pois o que quero tratar nesse texto, na verdade não é sobre o esporte bretão, mas sim sobre os últimos suspiros da mítica República Maloca, situada na antiga Rua Nove no bairro Santa Mônica, bem em frente ao portão da UFU na Avenida Segismundo Pereira.

Essa república que tem, mas há controvérsias, por volta de quinze a vinte anos de existência e que já abrigou tantas e diversas almas; estudantes, professores, artistas, músicos, poetas, malucos de toda estirpe, bandas, coletivos artísticos e políticos e nos últimos tempos, também fanáticos jogadores de videogame, chega ao fim. Será demolida, juntamente com a antiga casa ao lado, para que no espaço dos dois terrenos seja erguido um ‘simpático’ prédio de dois ou três andares, onde os vizinhos não se cumprimentam pela manhã.

A especulação imobiliária corrói a cidade e como ocorre com os campos de ‘pelada’ pelo país, realoca os espaços conforme a lógica do capital e do interesse financeiro. Não é a primeira e nem será a última república ou casa bonita e espaçosa, com árvores, terra e grama, que será destruída nos arredores da Universidade Federal de Uberlândia. Mas é que com a Maloca não devia acontecer isso, não devia acabar, morrer e ficar somente na memória. É um sentimento que ocorre quando pensamos sobre nossas mães, - “Mãe nunca devia morrer”- devia ser algo permanente, e até quando estivéssemos velhinhos nossas mães ainda estariam com trinta e poucos anos nos amparando para a vida cotidiana não nos esvair a seiva primal, que compõe o homem e a mulher.

Mas infelizmente não é assim, tanto com nossas mães, como com outros amores. As coisas acabam, findam, é um processo químico dessa nossa vida no planeta Terra. Quem sabe em outros mundos, algo possa ser eterno. Aqui, não.

A Maloca, que ao que parece, ganhou esse nome de seus últimos moradores, nos quatro ou cinco anos recentes, é como um campinho de várzea artístico e fervilhante, com sua sala de ensaios, com seu espaço amplo, suas árvores e sombras, onde, após as aulas, conferências infindáveis sobre conteúdos acadêmicos foram “digeridos” e debatidos, ao som de Jethro Tull ou de Nelson Cavaquinho. Onde amores se formaram, e também terminaram, filhos foram gerados, viagens à Congressos e manifestações foram combinadas, passeios à cachoeiras foram arquitetados, discussões políticas foram travadas, Coletivos montados, teses de Mestrados e Doutorado suadas dentro das noites, além do tradicional sexo, drogas & rocknroll!!!

Tantas festas que já ocorreram; de aniversário, de fim de ano, de começo de semestre, pra juntar uma grana pro aluguel, um chá de bebê pros amigos que esperam filhx que está por vir; de Carnaval, a Festa da Transa, enfim a república sempre foi um palco aberto pra arte, pra música, para os artistas.

Quem nunca beijou na boca ou passou um certo tipo de vexame num fim de festa?

Não é um privilégio da Maloca ser esse espaço tão prolífico em termos de criação, arte, política e música. Há sim, várias outras repúblicas que percorrem essa cartilha, mas é que a Maloca é especial, vai acabar e vai fazer falta.

Quem sabe, os novos moradores, ouvirão misteriosamente, no meio da noite, como que assentados sobre um antigo cemitério indígena assombrado, risos e gargalhadas, retumbando nos cômodos.

Serão nossas vozes ecoando no espaço infinito buscando sempre a expressão, numa festa interminável. E nenhuma taxa de condomínio ou síndico competente, poderá dar jeito nisso!




Quinta Barnasiana: lançamento em Brasília


Quinta Barnasiana: escritores de Brasília



Quinta, em português da pátria-mãe, é um terreno rural, é uma enfermaria para prostitutas ou é o número ordinal feminino. Esta quinta antologia de contos, crônicas e poemas reúne 38 autores brasileiros e um de Moçambique, escrevendo sobre diversos sentimentos, do mais formal ao mais lisérgico, do mais brando ao mais brabo.
São 240 páginas de entretenimento literário, focado na diversão das experiências vividas em assuntos debatidos em mesas de bares.
Nesta edição de 2400 exemplares, O BdE alcança 13 mil livros publicados em 1246 páginas e firma-se como um legítimo movimento literário, que originou-se diretamente da World Wild Web, no falecido Orkut, e prova que o a anarquia bem intencionada é absolutamente produtiva. O Blog do BdE tem mais de 200 mil acessos, com mais de 2 mil postagens nos oito anos desde sua criação.

 Com capa pintada em naquim por PauloBranco, que ilustrou em revistas como Pasquim, Playboy, Bundas e em livros de Ziraldo e Ruben Alves, este pocket-book do BdE tem os seguintes autores de Brasília:

André GiustiEscritor e jornalista. Nasceu no emblemá­tico maio de 1968, no Rio de janeiro, e mora em Brasília há mais de 15 anos. Entre outros livros, é autor de Histó­rias de Pai, Memórias de Filho, A Liberdade é Amarela e Conversível e A Solidão do Livro Em­prestado, todos de contos, lançados pela Editora 7Letras;

Lourenço Dutra - Nasceu em Brasília em dezembro de 1963. É baixista, pro­fessor, escritor e agora pai de família. Publicou O destino de um certo Frank Zappa pela arte­paubrasil, O Olhar dos outros pela LGE e Cer­rados, frevos e minuanos pela LER;

Roberto Klotz - Engenheiro que saltou do topo do prédio re­cém-construído e esti­lhaçou-se em parágra­fos. Publicou Pepino e Farofa, Quase pisei! e Cara de crachá. Conquistou mais de 20 prêmios literários. Foi jurado em vários concursos e desafios literários. Foi, durante quatro anos, Conselheiro de Cultura do Distrito Federal.

Andrea CarvalhoJornalista por opção, gaúcha por natureza, escritora por paixão. Classificada em vários concur­sos literários, é colunista do blog Bar do Escritor e escreve em ou­tros quatro blogs;

Cinthia KriemlerÉ carioca e vive em Brasília desde 1969. Escre­ve contos e crônicas. Brinca de poemas. Tem três livros publicados, dois pela Editora Patuá e um pelo FAC-DF. Pu­blica textos em duas re­vistas literárias eletrôni­cas. É membro da Academia de Letra do Brasil, ALB/ DF e da Rede de Escritoras Brasileiras – REBRA;

Deliane Leite - Brasiliense e poetisa desde sempre. É membro do movimen­to cultural Tribo das Artes. É apaixonada pelo cerra­do e tem nele seu habitat natural;

Jorge Amâncio - É carioca, nasceu em 1953 e vive em Brasília des­de 1976. Fundador do Centro de Estudos Afro Brasileiro, do Grupo Cultural Axé Dudu, é membro da Academia de Le­tras do Brasil-secção DF e do Coletivo de Poetas de Brasília. Publicou NEGROJORGEN pela Thesaurus em 2007 e foi publicado em inúmeras antologias. Coordena com o poeta Marcos Freitas o Sarau Videolitero­musical Poemação.

Larissa MarquesEscritora e artista plásti­ca, nasceu em 1974, na cidade de Itumbiara, interior de Goiás, e reside em Sobradinho. Já escreve há mais de vinte anos e expõe sua obra na in­ternet, em vários títulos editados, em jornais es­pecializados em literatura e revistas voltadas para arte.

Giovani Iemini – criador e mentor do Bar do Escritor, publicou Mão Branca pela LGE em 2009, participa de diversas antologias, escreve em incontáveis sites de literatura na Internet, organizou as quatro antologias anteriores do Bde, coordenou o concurso de literatura Brasília é uma Festa e é membro da Academia de Letras de Brasília.

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O lançamento será no dia 27 de novembro de 2014, no Senhoritas Café, 408 norte, a partir das 19 horas. O valor é R$ 20,00.

O Bar do Escritor é um grupo livre, aberto, plural e resistente.
 
Para conhecer a história do bar: http://bardoescritor.blogspot.com.br/p/historia.html

As antologias anteriores do Bar do Escritor: http://bardoescritor.blogspot.com.br/p/livros-do-bde.html


www.bardoescritor.com.br
 



terça-feira, 4 de novembro de 2014

OUTRA VEZ




Aqui estou novamente
eu e todas as minhas dores
eu solitário
dentro de mim

Apesar do vazio na alma
sinto-me cheio mesmo assim
o corpo grita por espaço
e estraçalho-me em espasmos

Outra vez grito por socorro
no deserto estéril a voz se perde
ainda assim lanço meu brado

Se resisto e não morro
não se engane, nem erre:

é por ser fraco, não por ser bravo...

O VIDEOCASSETE E MEU PRIMEIRO BEIJO



– Quem quer ficar com o papel da bruxa?

– Eu, eu, eu! – Gritei, me antecipando às coleguinhas.

Para minha grande surpresa, ninguém mais se candidatou. Era a formação do elenco para uma peça do balé. A professora estava montando a historinha da Bela Adormecida.

Lá em Arroio Grande, no Rio Grande do Sul, a cidade era tão incipiente que não havia uma escola especializada em balé. Quando comecei os primeiros passos, as aulas eram improvisadas em alguma sala da escola primária. Até que ganhamos status e fomos transferidas para o prédio do “Artesanato” – onde o nome já dizia, funcionava uma associação de artesãos. As barras para as bailarinas se equilibrarem eram de cano PVC e não tínhamos espelho nem camarim, mas éramos cheias de entusiasmo.

Coube a mim, então, fazer o papel de bruxa. Fiquei tão orgulhosa. Minha roupa era preta, brilhante e eu tinha vários solos na apresentação. No auge dos meus 10 anos, eu estava me sentindo o máximo. A apresentação foi num clube muito chique da cidade.

E por falar em clube, como cidade do interior tem clube, né? Dia desses tive o prazer de conhecer o mais antigo do país. Fica em São Leopoldo, também lá no Rio Grande do Sul, e chama-se Orpheu – criado em 1858.

Enfim, em Arroio Grande tínhamos vários. A apresentação de balé foi no Clube do Comércio. Pena que na época não havia máquina de filmar, nem smarthpone, nem as facilidades atuais. Meu pai se virava com uma “yashika” para fotos e olhe lá.

Isso durou pouco. Muito moderno que era, meu pai comprou o primeiro videocassete da cidade. Ou o segundo. E para a alegria dele, e a nossa, logo começamos a ter em filmes todos os feitos, danças e apresentações. Ele e um amigo eram os únicos que tinham o aparelho.

Nos primórdios da tecnologia, o videocassete era uma geringonça pesada e nada prática. Para filmar era uma trabalheira. Num braço se carregava o aparelho com a fita, no outro uma máquina de filmar gigante. Mas meu pai estava lá, firme, registrando o dia a dia da família.

Não só de filmes caseiros viveu-se nessa época. Começamos a registrar festas, passeios e desfiles. Até uma peça de teatro.

Meu padrinho é metido a artista e montou uma peça teatral: “Grilhões”. Contou com a participação de vários amigos. Ainda sob o rigor da censura e da ditadura, foi corajoso em tocar em assuntos delicados como escravidão, liberdade e racismo. E não é que a peça fez sucesso em toda a região? A encenação também foi num clube que não lembro o nome. E está tudo registrado pela velha máquina do meu pai.

Esses mesmos amigos se empolgaram com a tal peça e resolveram fazer uma brincadeira, dessa vez mais suave: montaram um casamento de festa junina na AABB – outro clube!

E estava lá o elenco todo: noiva – interpretada faceiramente pelo meu padrinho; noivo, pai da noiva, padre, etc., etc. E meu pai registrando com sua parafernália toda a bagunça que foi feita.

Um ano depois estávamos mudando para Brasília. E o videocassete continuava na nossa vida. Fazíamos filmes caseiros e até registro das nossas competições de natação.

Como eu não conseguia ficar longe das ruas do interior, nas férias escolares, a primeira coisa que eu fazia era voltar a Arroio Grande.

Eu já morava em Brasília havia dois anos e o sedex naquela época não existia. Ganhei, então, a missão de levar na bagagem as fitas com nossos filmes para que os amigos de Arroio Grande pudessem ver as filmagens da capital.

Nessas férias houve por lá um festival da canção. Não recordo qual festival, porque no Rio Grande do Sul têm vários. Sei que foi em um parque – misteriosamente não foi no clube. Parque Guilhermino Dutra. Naquele tempo a gente chamava o lugar de “Prado”. Não sei hoje como é. Era um local de exposições agropecuárias, de feiras de artesanato e, naquele ano, palco de um festival de música.

Fazia uns dias que tinha um guri de Bagé me cuidando. Ou, para melhor entendimento, me paquerando.

Eu estava com meus 12 anos. Cabelo longo, aparelho nos dentes e uma inocência de doer. Mesmo morando em cidade grande ainda era garotinha do interior, com toda a beleza de assim o ser.

Durante o festival, ficamos trocando olhares e sorrisos.

Eu estava encantada. Pelo festival, pelas luzes do palco, pelo menino bonitinho que não tirava o olho de mim.

Foi então que, naquela noite, dei meu primeiro beijo. Um beijo suave, nervoso, apaixonado e marcante. Meu primeiro amor. Começamos um chamego infantil. A menina de Arroio Grande e o gurizinho de Bagé.

Desse namorico tenho boas lembranças. Algumas delas registradas em fita VHS. O tal amigo do meu pai, aquele que também tinha um videocassete, fez um filme numa tarde de sol para mandar lembranças para a família que me esperava na capital. E o namoro tá lá, registrado, com todos os sorrisos e nossas mãos dadas, em imagens que tenho medo que comecem a se apagar. Como as fitas antigas do meu pai.

FIM

* CRÔNICA PUBLICADA ORIGINALMENTE NO BLOG "DO MEU INTERIOR"