segunda-feira, 2 de abril de 2007

Círculo Vicioso



Flávio tinha dezoito anos de idade e estava numa reunião da seita dos Meninos do Demo de Tatuapé. Tinha acabado de vender a alma ao tinhoso que apareceu em meio ao transe e anunciou: - Serás rico e terás a mulher que desejar, bastando estalar os dedos. Mas preste atenção: um dia venho cobrar.
Vinte e dois anos se passaram. Era dia 23 de março de 2007. Tinha quarenta anos e era compulsivo por sexo, não resistia a uma boceta.
Acordou com o barulho do despertador. Seis horas. Trabalhou e no final do dia se preparou para um encontro em seu apartamento. Contratara uma puta. Estava cansado das mulheres certinhas, queria depravação. A campainha tocou. Era uma loura estonteante com um par de seios que saltava da blusa. –Olá...!
Ele saltou de boca no decote da moça e não viu mais nada. Literalmente. Acordou no dia seguinte com o ânus dolorido. Tentou lembrar do ocorrido, mas não deu. A última coisa que tinha na mente eram os seios em sua boca gulosa. Olhou o relógio: 6 horas. Mas por que o relógio despertou? Era sábado. Ligou para informações e levou um choque: Ainda era sexta-feira! Tinha algo errado.
O trabalho se repetiu e a noite também. Dez dias se passaram,
todos iguais. Seu ânus já estava em carne viva.
No décimo primeiro dia ele acordou mais tarde, o relógio não despertou. -Será? Correu para o telefone. -Alô. Informações?
-Sim. Em que posso ajudá-lo?
-Por favor: que dia é hoje?
-Sábado senhor. Dia 24 de março. Ele deu um grito de satisfação. Correu ao banheiro para se lavar. O telefone tocou novamente. -Alô.
-Flávio?
-Eu mesmo. Quem fala?
-Lembra de mim? O quarto se encheu de um aroma de enxofre. Eu disse que viria receber um dia.
-Ai....
-Calma. O inferno está lotado. Você deu sorte. Não posso mais levar almas até o ano que vem quando teremos uma reforma por lá.
-Mas
andou por aqui esses dias...
-Sim. Eu cobro as dívidas assim. Uma enrabada e deixo a vítima em paz.
-Uma? Foram dez...Suponho. Estou todo deflorado.
-Eu tenho culpa se teu rabo vicia xará?


Me Morte

.

obs.: A expressão xará é uma homenagem ao poema "Xará Demônio" de Mão Branca, assim como o conto, que nasceu inspirado nele.

22 comentários:

Me Morte disse...

Poema de meu amigo Mão Branca que serviu de inspiração ao conto "Círculo Vicioso":

Xará demônio



Na encruzilhada

Entre o rio e a estrada

Contratei o demônio

Que sabia meu nome



Falei: xará,

Que tal deixar meu rabo em paz?



Sorriu inocente

Inebriou-me a mente

Com sua bela balela

Esclareceu-me singelo



Falou: xará,

Teu rabo já é meu há tempos


Mão Branca

Deveras disse...

Quem conhece o poema já saca a referência na hora. Tá meio resumido, rápido, mas a idéia é muito boa (principalmente a da reforma do inferno). Agora, há um erro cronológico: No começo, o protagonista têm 18 anos, 20 anos se passam e ele têm 40.... Teria que ser 38 (ou o demo roubou dois anos da vida do cara, traçando ele todos os dias, rs).

Prá quem dizia não saber escrever contos, tá evoluindo prá caramba.

ficanapaz!

Jimenna disse...

Gostei bastante desse Me, realmente se nota uma melhora em relação ao anterior que vc postou.
Mas pq vc não posta mais poesias? Tô sentindo falta delas!

Parabéns!

Lameque Hyde disse...

Eu curti esta mistura de humor e sobrenatural. fiquei assustado quando soube que era inpirado no Giovani mas o poema escalreu tudo.

Mão Branca disse...

Hahaha, porra, Lameque, achou que aconteceu comigo?

Me, muito obrigado pela homenagem. Até me surpreendeu, mesmo eu conhecendo o conto.

Fico bem feliz em saber que vc gostou tanto da poesia. Vou reformulá-la e a partir de agora ela terá que ser publicada como uma homenagem a vc (embora ela já te pertença).
Beijos

Me Morte disse...

Cristiano, perdão lindo, vc comentou ao mesmo tempo em que eu corrigia o texto. Era vinte anos mesmo, mas eu corrigi junto com a formatação que estava errada. Vc comentou junto e ficou como mentiroso,rss. Jimenna, eu estou numa fase de contos, mas prometo postar um poema logo. Gigio,eu amo teu poema sim, sempre falo dele por aí, adorei. Melhor ainda foi apimentar ele lá no Vale. A homenagem foi tua sim, mas não foi verídico, víu Lameque, apesar que me chamam de Diaba, eu bem que poderia ter abusado dele,rss
Beijão a todos

Thin White Duke disse...

eiuehaiueahiheauaeea
gostei Me, realmente você está detonando em contos!
bjss

Deveras disse...

Caraio... Olha, no "portugeiz" eu sou "bão", mas a matemática me "derroba"...

Hehehe... Ô Mascaruda, me deixando mal na fita, hein?

ficanapaz

Véïö Chïñä‡ disse...

Temperatura máxima em grau de perversão. Quem diria..Satanás chegado num rabo, masculino..Sei!
Quem mandou não ler a minuta do contrato? Se ferrou.

Interessante.

Muryel De Zoppa disse...

que dupla de dois, hêin?! gostei tanto do poema (que não conhecia) como do conto. texto com vida própria. 'dorei.

Klotz disse...

Prefiro a Me nos contos.
Nas conversa o tinhoso se apresentava como doce e sensual mulher. Eu estava em negociação com o espírito das trevas mas acabo de desistir. Li a minuta do contrato e o conto da Me. Obrigado.

Anderson disse...

Não sei qual o melhor. Foi um belo casamento entre a poesia e a prosa.

Paulão Fardadão disse...

Rabo na veia.

Me Morte disse...

Paulão, ganhei meu dia hoje tesudo.

Larissa Marques disse...

Sempre surpreendendo Srta. Me e seus contos loucos, eróticos e cômicos.
Beijos, minha cara!

Eliane Alcântara. disse...

Me, divertidíssimo. Foi muito bom
ler. Parabéns. Ficou excepcional. Beijos!

Mão Branca disse...

Me é minha ídola pela pujança nas poesias, pela originalidade nos contos e pela beleza na personalidade.

Quando nos conhecermos iremos beber muito, querida. Beijos

[barba] Uonderias disse...

Me, é um conto divertido, foi criativo...
mas pecou algumas vezes, principalmente sobre a idade, como foi mencionado, mas ficou um pouco resumido demais
pediu pra ser maior

Fernando disse...

Eu achei que ficou bom o tamanho. :-) É muito bacana ver como nossos autores conseguem ser concisos sem ser incompletos, especialmente porque o blog pede isso. Apesar de não termos o rigor editorial de uma revista, é mais ou menos como se escrevêssemos para uma coluna - é a literatura que se adequa às peculiaridades da situação; normal, isso sempre existiu em todas as eras da arte, de uma forma ou de outra. :-)

Sobre o texto: livre, leve e solto. Flui bem e "incomoda" ao deixar margens a mais de uma interpretação. Além disso, faz um bom par com a poesia do Giovani.

Bjos, Me! :-)

DOCTOR T. disse...

curtí paks! mutio bom ME!
é no gêneero " cômicuzinho" literalmente! rsssss
vc tá cada vez melhor ME musa!
PPARABÉNS!!!!!!!!!!

Me Morte disse...

Nossa, to muito feliz. Todos meus amigos aqui. Doctor, musa? Boa parte do que sou devo a leitura do que vcs escrevem. Valeu a todos, sempre me empurrando a melhorar. Gigio, vou cobrar essa cachaça, também te adoro, tu que é meu ídolo.
Fernando, poxa, eu sonhei com esse comentário. Tu para mim é um professor. Eu sempre brinco: Quando crescer quero ser como o Fê, impecável no que faz. A muito eu queria vc comentando algo meu, isso é algo de muito valor, vou guardar aqui dentro. Beijos meu lindo.
E agora que eu peguei o gostinho nos contos, o que faço Jimenna? Não consigo sair deles...foi praga do Roberto,rsss

Eduardo Perrone disse...

A ME , nessas "viagens ao centro do desconsertado" , é imbatível...rs
Ela fluí , nesse texto, bem ao estilo consagrado. Conta-nos a estória. E, ficamos nós a imaginar o rosto dela, nessa narrativa. Isso é delicioso...!