terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Ton-sur-ton

Agora não quero falar
de coisas coloridas,
bonitas, delicadas,
de flores e borboletas.
Não quero falar de nada.
Hoje estou monocromático.

Por que não cantar o cinza
do asfalto e do cimento,
da gasolina e do diesel,
da poeira e da fuligem?

Por que não cantar o cinza
duro, frio, onipresente?
Os diversos tons de cinza
sobre cinza da cidade?

E uma vez cantado o cinza,
concreto armado e neblina,
e pintada a cidade em P/B,
aí, sim, falar de flores
e até, talvez, borboletas.
Sobre o fundo de cimento
não mais apenas bonitas,
mas praticamente perfeitas.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Ocorrência 2831/09

— Sabe... os minutos parecem dias, as horas são semanas, o meu viver parece que está suspenso, não planejo mais nada, não penso no futuro, não imagino o que me espera na rua seguinte, comprar um pão a menos todo dia pela manhã é um suplício, só consigo pensar na minha criança, 15 anos... Nunca tinha me dado trabalho, nunca demonstrou estar com problemas, e, de uma hora pra outra, some. Cada um fala uma coisa: um que fugiu com uma paixão que ninguém conhece, outro que foi vítima de seqüestro e tá no estrangeiro, mais um que aposta que morreu nas mãos de um doido, ai... é uma dor forte que aperta o coração, entende? Tenho mais dois filhos, mas cada um é único, a falta de um não é compensada pelos outros... Um mês, oito dias e três horas. Foi a última vez que falei com minha criança... estava normal, sabe? Não parecia estar com problema nem nada. Ia pra casa de uns amigos ver um filme, mas não chegou lá. Oitocentos metros. É pouco, né? Percorro o caminho da minha casa até a desses amigos todos os dias; são cinco ruas que me cruzam o caminho, fico imaginando em qual delas minha criança subiu. Ou desceu... trinta e oito dias de ausência, e não saiu uma nota no jornal, um comentário na televisão, ninguém se ofereceu pra fazer panfletos, página na internet, então, nem pensar. Aqui na periferia não é o primeiro caso, mas quisera que fosse o último, a dor é demais. Sabe, pode até ser estranho falar isso, mas beleza não era seu forte, não chamava a atenção de ninguém, só gostava de ver filme com os amigos e ler as poesias do Vinicius, aquele do “... que seja infinito enquanto dure.” Conhece? Nunca vi alguém com o seu jeito na capa dessas revistas de famosos. Mas era minha carne, meu sangue, minha história, que talvez não tenha continuidade. Ninguém tem conhecimento pela TV, pelo rádio, ninguém se pergunta “onde estará?”, não apareço chorando na frente das câmeras, mas, pode acreditar, a dor é a mesma que a dos parentes dessas crianças bonitas que somem, e cujo rostinho aparece nos cartazes e nos outdoors. É infinita. E pra sempre dura.

Conto premiado com o 2º lugar no concurso literário promovido pela ULBRA (Universidade Luterana do Brasil), com sede em Gravataí (RS).

Conheça o site www.desaparecidos.com.br

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Série: Cabeça Oca I



1. Toda vez que ouço alguém chamar a mulher de um governante de 1ª dama... não sei se acontece contigo, mas eu sempre tenho a impressão de que tem uma segunda, uma terceira...e, por aí vai.



quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

A chave

me desejam feliz ano novo
de novo
e tudo é velho
olho no espelho
vejo a barba branca de Noel
finjo fazer seu papel
e no ô-ho-hoooo
dou
um sorriso desbotado
tão falso quanto o algodão jogado
fingindo neve
e quando alguém se atreve
a dizer "abra a janela da felicidade em 2010"
meto as mãos pelos pés
e pergunto: cadê a chave do cadeado?

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Miserável

- Mais um!

- Desculpe-me pela indiscrição, mas o senhor já não tomou muitos?

- Mais um, porra! Não estou perguntando merda nenhuma, eu quero mais um! Eu pago a merda do seu salário, quero tomar mais um e você tem que me obedecer!

Abaixando a cabeça, o garçom atendeu-lhe prontamente. Era mais um sorriso que ele mandava goela abaixo, embebedando-se do pouco poder que tinha.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

domingo, 20 de dezembro de 2009

Ouve


Ouve o silêcio, viajante ouve o silêcio
Veja a maravilha que nele habita
Esteja lá e viva cá.

Caos, violência e insensatez

No silêcio tudo se disfaz
Lá não há forma,
Há apenas paz.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Do humano.


(Imagem: Google).

Do humano.


Nunca espere que as portas se abram sós,

é preciso ternura para tocá-las.



Não entre sem convite,

é na magia do olhar que se reconhece,

a existência da vontade de habitar.



As janelas guardam segredos,

nunca ouse espreitá-las, modele o interior.



Não afaste do corpo a alma,

não é assim que se ama ou se faz amar.

Aprenda a cativar o que pretende alcançar.



Não respingue passado no presente,

é do futuro que nascerá a felicidade.



Deixa a beleza sua vida enfeitar,

e mais tarde, bem a frente, sorria,

a vida é bela, para quem a ela, com amor se dá.



Eliane Alcântara.
 
 
A todos, Boas Festas!

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Temporão


Num beijo que nem chegou a ser de amor
é onde estou agora

Era terra infértil de novo
e eu ali me semeando

Não sei que problema há nos meus olhos
e nos meus sentidos

Era superficial e fogo
e eu ali me semeando

Trovões e relâmpagos
alertavam da chuva
que não veio

Por que se injetou na dança, nos planos, nas ancas
se não era para durar?

Tudo o que é demais não cabe
e em silêncio recolhi as minhas sobras

Morri semente sonhando com podas

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Alfarrábios


Percebo uma ruptura que me duplica.

Mas sou feito de ferro e concreto,
fissuras não me comovem.
Já sou azul e amarelo,
preto no branco,
e uma velha testemunha do conformismo.

O sopro que fere meu rosto
é a prova da fragilidade desta armadura.

Redimo-me da canção subalterna a um desejo ocre.

E que não me faltem alfarrábios
para dizer da crueldade dos anjos,
que infernizam minhas noites
e me visitam nas manhãs opacas
pintando-as de tons pastel,
feito palhas que incendeiam sutilezas
e espalham a fumaça:
ardência dessa angústia nos meus olhos,

asas que se queimam em pleno vôo
sobre um chão que já não há.

(Celso Mendes)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Parcas luzes...

(Sonia Cancine)
.

Pudera...
Ter a leveza dos pássaros
A delicadeza das pétalas e
Os sentidos felinos.

Quem sabe assim, sobreviveria
Em meio à tormenta escura em que vivo?

Por assim dizer, respiro.

Respiro lágrimas silenciosas
Que exalam cristais

As parcas luzes
De meu finito desejo
Apagam-se e

Eu não posso mais ver a luz...

Dói-me os sentidos por perceber a alma tão pequena.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Fúria Selvagem


Meu ódio é extenso e implacável,
É uma fera faminta e voraz
Que corre sobre tua sombra.
Não espere que eu tenha piedade
Ao hesitar em lhe atacar.

Em minha mente tu sofres demais,
Com meus olhos calculo tua distância,
Com meu nariz sigo teu rastro,
Com meus ouvidos busco teus sons
E com minha boca hei de lhe rasgar.

Minhas mãos estão armadas,
Minhas pernas lhe perseguem,
Chore e esconda-se
Cale-se e finja que sumiu
Eu vou encontrá-lo.

Tua pele será separada da carne
Em uma bruta tortura sem igual.
Acabou-se tua existência!
Tu és caça, eu sou caçador
Essa é minha fúria selvagem.


- Mensageiro Obscuro.
Novembro/2009.


Foto: "Dante and Virgil in Hell" de William Adolphe Bouguereau, 1850.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Yin

talvez narrativas fiem vidas.
talvez eu não tenha sido como me contei,
talvez nunca serei.
talvez não haja eu, apenas a tecelagem contínua entre dois pólos,
cujo projeto (que desconheço)
pulsa-me a traçar teias de associações arbitrárias,
sentidos trans-lúcidos,
dissipáveis pelo toque da dúvida como bolhas de sabão.

por trás do véu, a natureza sem foco
a noite, as coisas que acontecem
sem sentido ou intenção:
aqui se faz um mundo,
outro ali, em outra oitava
... e o momento um acorde,
dedilhado em terças e sextas e não haja maestro.

talvez os homens das ciências sejam certos e o nosso multiverso seja órfão.
talvez sejam mais loucos que os fanáticos da sé.
talvez seja só uma questão de abstração inútil e as coisas façam-se porque assim são feitas,
ou ao invés de aranhas sejamos primatas que descobriram o sentido ou a falta dele
e houve um alberto caeiro.

talvez nossa narrativa tenha enrijecido idéias,
platônicos discretos exilados na ponta do iceberg.

talvez apolo e dionísio fossem gêmeos e a virgem tenha nascido do oráculo.

talvez os hindus estejam certos e um deus me sonhe
ou tudo seja o espelho e o tigre que são o mesmo
como borges e tirésias, que alertaram para a escuridão.

talvez eu esteja errada, talvez eu creia.
teço um labirinto em que sei e outro em que queimam meus pecados
e outro em que sou louca ou nada.
sirvo a uma lenda que conta a natureza em mim,
a maior das minhas histórias e a inevitável e que talvez seja a poesia.

teci mundos olhando para os antigos, para os sonhos que me antecederam.
teci veias para me enterrar na placenta
e redes hídricas e vermelhas para me reunir em alguém que depois chamaram de um nome escandinavo.

talvez seja a verdade última, o naufrágio
e eu me derreta no oceano frio do mundo
como o gelo no copo
do uísque do meu pai.
talvez a vida me perpasse e desgaste as paredes dos meus poros, me levando em pó
para o deserto quente onde o tempo nasceu como naquele sonho desconexo,
e o tempo seja o deserto e o vento.

ah, dançar com o talvez da Dúvida,
a deusa voraz por epistemologia e altares pagãos como a noite pelo dia.
tolerar o calafrio do espelho na água da superfície e mergulhar no frescor não sabido,
em nem um pio das corujas que alerte os futuros.

o peso do infinito, matéria-prima do fio,
os deuses e a Certeza, outra deusa
enlouquecida em descrédito:
fiar-se com belos dedos, única âncora que há.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

ARCANO 16



o vento brinca com a árvore na janela
e tua voz vem riscar a vidraça

é tão tarde

quando sussurras teus versos
em rimas surreais
que deslizam pelos meus sonhos
junto com umas lágrimas descabidas

é tão tarde

para riscar peles e vidraças
até os mortos sussurram
longas árias 
em cadencias insanas
enquanto você chora
em rimas perfeitas
murmura histórias arcanas

versos
música
hosanas e teu corpo

é tão tarde

eu sussurro
os mortos mentem 
em línguas mortas
enquanto a tua desliza
no céu da boca
segredos estelares
bobagens seculares

mentiras de vento e folha
que eu finjo não ver
nesse gozo esquecido
perdido entre as frinchas da noite
eu entendo
tudo, ou quase tudo,
de tudo que nunca entendi

meus olhos ardem
e te esquecem um pouco mais
fecho o livro sem pressa
guardo o poema junto aos meus 
que dormem sozinhos

teus mortos sussurram
é tão tarde

O rapaz do guarda-chuva cinza


Eu podia dizer apenas isto: o rapaz estava no ponto do ônibus. Usava um terno cinza e um guarda-chuva cinza. O mendigo parou de passar para nos dizer como um profeta manso: que não choveria aquele dia, que nunca mais choveria, porque naquele momento não chovia e o tempo, o tempo, meus senhores, estava irremediavelmente parado (aliás, acho que ele disse: encrencado).

Estes foram os fatos visíveis. Os outros fatos é que me incomodam. Vou completar a estória: o mendigo puxava um cachorro com o pensamento. O cachorro era muito mais bonito, o cachorro era como um nobre russo que viajasse incógnito, o cachorro estava sujo e provavelmente doente. E o mendigo puxava o cachorro com amor. Por que, meu Deus, tenho que falar nisso? Um cachorro é tão irrelevante.

Esse não era. Ou eu é que vi com os olhos do mendigo. Que não devia ter parado de passar naquele instante. Porque então o cachorro viu o rapaz do guarda-chuva.

É importante lembrar que o guarda-chuva era cinza, já que isso prova que o rapaz não existia.

Eu acho que o rapaz não existia; olhava o mundo com tanta confiança que não podia ser.

O cachorro viu o rapaz e pensou: eis um amado. Era. Tão amado que não se importava. No ponto do ônibus as pessoas com calor e vontade de ir para casa esperavam que o mendigo dissesse outras coisas sobre o tempo. Uma criança estendeu a mão para o cachorro. E foi então que o tempo realmente parou, tudo se interrompeu no meio. No meio de eu piscar e respirar, a criança e a mão estendida receando tocar, o cachorro tenso com a descoberta de um amado, o mendigo à espera de que o cachorro andasse outra vez, o rapaz não percebia nada.

Vem, pensou o mendigo com amor. O cachorro não se moveu. Vamos, pensou o mendigo. O cachorro fascinado. Ele não quer você, vi o mendigo pensar.

Então o cachorro disse: ninguém escolhe um cachorro. Se eu andar atrás dele, ele é meu dono. Ainda que não perceba será meu dono. Ainda que me queira enxotar com seu guarda-chuva cinza, eu insistirei e ele será meu dono.

Mas você, meu amor, você tem dono, pensou o mendigo com lágrimas na voz.

Num sobressalto o cachorro olhou para o mendigo, surpreso por descobrir com que intensidade era também um amado. Decidiu-se. (Eu assistia, meu Deus, uma intrusa, que fazia eu em meio a tanto amor, em meio a uma piscadela e uma expiração?) O mendigo deu um passo, blefando, fingindo que ia. Mas o cachorro tinha se decidido e foi também, um olhar de vaga saudade para o que não existia.

O tempo se moveu de novo, eu exausta de sentir o amor alheio.

Foi bom que o cachorro não ficasse, porque logo o ônibus chegou, e num ônibus nenhum cachorro pode seguir o dono.

sábado, 5 de dezembro de 2009

No sanatório





Ali deitada, no meio de sua urina e de suas secreções, mais parecia um bicho sujo, feio e repugnante. Recordava de suas horas, de suas noites, antes de estar ali. Unhas pintadas num carmim encarnado, cabelo sempre arrumado e do cheiro de lavanda que tinha. Não era mais nem a sombra daquela mulher, finalmente estava livre das pessoas, das taças cintilantes, dos burburinhos, das risadas falsas, das superficialidades. Tinha saudade do vinho de boa safra, de seus cigarros.
O canto mais escuro daquele quarto a acalentava. Mesmo com todas as perturbações diárias, ouvir os gritos que vinham de fora, despertar no meio de sua própria imundice, sentia-se melhor ali do que no meio de tanta hipocrisia.
De sua janela gradeada podia ver o jardim, cheio de margaridas brancas, petúnias, havia manhãs que as rosas sussurravam, riam-se dela e em outras as abelhas faziam um barulho ensurdecedor.
Logo uma enfermeira perceberia que ela estava acordada e viria cuidar dela.
As pessoas daquele lugar a tratavam bem, só fugiam à regra quando tinham seus problemas pessoais, descontavam nas injeções, na maneira de tratar os pacientes. Por suas mãos sabia quando estavam bem ou não.
Elas eram boas, davam-lhe banho, falavam com ela, mas preferia os enfermeiros, eles eram tão cuidadosos.
Agora limpa e composta em sua camisola de algodão cru, sentia-se mais humana. Bem que ele poderia chegar agora, ver seus cabelos ainda molhados, seus olhos calmos de abril. Seu coração batia no compasso dos passos dele, o sentia bem antes que entrasse no corredor, vinha com seu jaleco branco azulado, que cheirava água sanitária, sua marcha percorria toda a ala, para depois invadir seu quarto.
Seus passos tinham um barulho diferente, cada passo dele era um orgasmo latente nela.
Suas passadas aproximavam-se sisudas até a porta de seu quarto, mas quando entrava e fechava a porta parecia trazer toda ternura em seu olhar. Ele trazia a civilidade que ela necessitava, trazia suas mãos, com seus dedos finos e toque suave. Ouvia seus batimentos cardíacos, viraria seus olhos, olharia sua língua.
Seus dedos fugiam do estetoscópio, procurando os seios e naquela altura ela se lembrava de como eram os homens, só queriam saber de si, mas ela já não se importava mais, tinha sido mandada para aquele inferno, por ter descoberto seu marido infiel e pedófilo. Conhecia bem os homens, pelo menos com aquele era diferente, ele a usava e ela tinha consciência disso e o usava também. Talvez nem soubesse dizer quem era a vítima real do assédio, olhava-o com desejo e queria-se limpa para esperá-lo.
Já havia perdido a conta de quantas vezes ergueu a camisola, para que a olhasse, para que a tocasse. E numa noite de surto psicótico seus dedos descobriram seu colo, seu sexo e tudo o que queria acontecera ali.
Apenas suas visitas quebravam as crises temperamentais, a vontade de gritar e de se matar. Ele não sabia, mas se tornara o sentido da vida dela, embora César sempre aparecesse para visitá-la, ele era como um irmão, respeitoso demais.
Enquanto gozava, pedia baixinho por mais calmantes, queria ficar desacordada, chegava desejar ser estrangulada, por não suportar mais a vida.
Ela não tinha cura, se ele a liberasse se mataria. Esquizofrenia, alucinações, faziam parte de seu quadro clínico. Jurava ter feito sexo com todos os enfermeiros dali, mas nenhum admitiria tal fato. Mas o psiquiatra era sua razão de viver.
No fim, ele tinha o cheiro dela em seu jaleco, que já não estava tão alvo, ela recebia uma dose de calmante e dormiria até o outro dia, para acordar no meio se suas secreções.
Mas naquela noite, tudo seria diferente, ela conspirava meses consigo mesma, até pensar em uma maneira de se livrar de tudo.
(...)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Camuflagem de Rapina - Flá Perez

Não há mais espanto
que me pegue:
essa nau de pau e corda
- embora ande à solta -
agora sabe
a ponta do iceberg.

Soldado em noites de atalaia,
os olhos de mil lentes
já percebem
a conjura e a intriga
das tocaias mais antigas.

Um mal lento e paciente
fingindo-se água pura,
matava-me antigamente.

Nonsense. Não mais.

As bactérias degeladas vão caindo,
inertes,
no fogo bento do meu sangue
de fervuras e vontades
imorais.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Sobre um Mote de Tati Bernardi

("Recaída é o nickname do diabo." - Tati Bernardi)

O certo seria, no fim duma história,
deixar para lá e se dar por contente.
Deu certo? Beleza. Não deu? Tudo joia.
Azar, paciência. E bola pra frente.

Problema é a gente ficar nessa noia,
de achar que o tal fim pode ser diferente,
sonhar fantasias que em nada se apoiam,
não ver que é erro e tentar novamente.

Descaminho que começa onde termina,
cicatriz que se desdobra em chaga aberta,
cobra estúpida que morde o próprio rabo.

Insistência em conhecer uma só sina,
um destino só que nunca se completa.
Recaída é o nickname do diabo.

Croniquinha de viagem

Cenote (poço natural) de Ixxil


Ói eu doando o livro!

Pirâmi de kukulkan (Chichem-Itzá)


Isla Mujeres



Amigos, tive a chance de conhecer Cancun no mês passado. O mar é tudo aquilo mesmo que dizem, mas as atrações da região não se limitam ao Caribe. A cerca de 200 quilômetros de distância, ergue-se Chichen-Itzá, uma das cidades maias, recentemente eleita uma das novas maravilhas do mundo, juntamente com o Cristo Redentor.
Bom, o fato é que aproveitei pra doar um livrozinho meu no hotel em que nos hospedamos. Ao contrário dos brasileiros, os estrangeiros tem o belo hábito de ler muito, inclusive na piscina, motivo pelo qual o hotel disponibilizou uma pequena estante que recebe doações de livros. Acima, umas fotinhas da região.




terça-feira, 24 de novembro de 2009

Contra as Regras


Do nada, ela viu uma fumacinha em formato de carranca atingir sua áurea. Era como se seu pulmão estivesse sendo arrancado em um tempo que, para ela, parecia uma eternidade. Sua voz e respiração se separaram, ela experimentou o licor de menta oferecido pela morte que saia da boca de um homem que estava ao seu lado. Quando voltou a si, ela estava dentro de um cinzeiro a céu aberto. Viu muitas bitucas espalhadas, e, um monte de pessoas passando pra lá e pra cá, de longe, avistava várias carrancas saindo da boca de pessoas desmioladas. Em sua cabeça passava um filme de terror que ainda está em cartaz: “O Ministério da Saúde adverte...”. Eis que um tiroteio avança em sua direção... Nina foi atingida em cheio no coração. O atirador portava muita munição, entre tantas estava a que ele mais usava, a nicotina, pois ele acreditava que servia para proteger e fortalecer os bravos guerreiros, mas no fundo ele sabia que era para recarregar seu vicio, uma arma com alto poder de destruição. Ele mirou e atirou sem piedade na jovem. Ela caiu diretamente nos braços dele, a arma do crime é bastante comum entre os homens. Alguns possuem porte ilegal: a sedução.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Perdendo-se sempre

Se deu conta que perde-se sempre,não importa o quanto segura de si esteja.
Pois na hora em que menos espera pronto;lá se foi o bom momento e já perde a visão do horizonte que nítido mostrava-se a poucos instantes.Coisa rápida de um piscar de olhos e pronto.Muitas coisas na vida são assim, até o sexo que é algo extraordinariamente incomparável; logo depois de saciado basta que as energias se refaçam pra que tudo tenha uma possibilidade de recomeçar.
O sentir-se perdida que sente é algo assim;porque é como se já em quase oitenta por cento de uma caminhada voltasse ao ponto zero, como num simples piscar de olhos...
Mas a verdade é que anda um pouco descontente com essa forma em que as coisas acontecem.Andou ouvido muito sobre ser bom não dar muita importância aos fatos que incomodam e agir como se nada tivesse acontecido, seguir em frente sempre, não importar-se com o que ou quem fica pra trás no caminho.Só que a prática e o observar mostra que não é algo tão fácil assim,por mais que tente não consegue não ligar...por isso apega-se ao essencial: Seguir perdendo-se um pouco de cada vez;um pouco aqui outro pouco acolá ;sem contudo nunca de si mesma.


Catiaho Reflexo d'alma

domingo, 22 de novembro de 2009

Em pé

Tirou a bota para dar um pouco de ar ao pé. Uma crosta endurecida de sangue cobria os três dedos menores. No dedão e no outro, o sangue ainda corria, agora solto.

Já havia quase duas semanas que recebera o par de botas em uma igreja e até agora arrependia-se por ter sorrido e falado que cabia direitinho. Na hora, apavorou-se com a idéia de que não lhe sobraria nenhum calçado além das botas e, sem outra opção, teria que voltar a caminhar no asfalto quente - às vezes, tinha a impressão de que o calor derreteria até os pneus dos carros, não fossem estes tão rápidos.

Sem tempo para perder indo ao hospital para ser ignorado, voltou a olhar para o pé, limpou a ferida com o único pedaço da meia que ainda não estava empapado de sangue e arriscou encostá-lo no chão. Ao sentir o calor do asfalto, desolado, puxou o pé de volta para cima, calçou a bota com muito esforço e continuou andando, o dia seria longo.

sábado, 21 de novembro de 2009

Ensaio


guardei teu azul
nas vidrarias e na porcelana.
no cadinho, coloquei para secar.
teorias e ensaios.
teu azul coloriu de sonho
o que não havia para sonhar.
acordo mudo mútuo refratário.
no cadinho, coloquei para secar.
no laboratório de ensaios
as vidrarias quebradas
as cruzes retorcidas
tudo já foi usado.
em qual vidro restará
o que não foi apagado?
em qual estudo ressurgirá
do cadinho de porcelana trincado
o resto da tinta do teu olhar?

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Poeminha para um dia antigo

http://dudabrama.files.wordpress.com/2009/10/recife-antigo.jpg
.


Era sexta-feira santa
e nada era mais claro
na sequência de postes
pela madrugada

que os teus olhos
de Recife antigo
- refletindo vinho barato -
na calçada.




(Jessiely Soares)



Como é de se esperar, a imagem tem dono: Olha ele aqui.

Nas barbas do Capibaribe


os olhos
angelicais das
nuvens

acusam-me;

a brisa,
a mais morosa
das brisas

dilacera-me;

os deuses
e sua corja
de assassinos

perseguem-me;

e diante
da maldição
do mundo

refugio-me;

nas barbas
do Capibaribe.

André Espínola

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Do que não é amor

Não somos cinza
mas não chegamos a ser dourado

Somos uma delícia
mesmo que equivocados

-Paixão, eu preciso lhe dizer

Eu gosto mais da nossa história
do que propriamente de você

sábado, 14 de novembro de 2009

Bela Dama Exótica

Minha bela dama exótica,
Que prazer é tê-la ao meu lado,
Tuas cartas exaltaram meu peito.
Tais mensagens intensas
Sustentaram sonhos saborosos.
Agora não estou tão só,
Detrás de tua voz infantil
Existe uma mulher amável.

Com linguagem mansa,
Tuas palavras extasiam,
Como se eu nunca amasse
Nessa vida breve.

Em mistérios de teu íntimo
Faço-me um detetive
E descubro tuas facetas
Enquanto as horas passam.

Penso em nossa inconstância
E busco-te entre tantos rostos.
Liberemos agora nossos instintos
Para viver o indefinido.


- Mensageiro Obscuro.
Abril/2005.


Foto: "Dance" por Alphonse Mucha, 1898.

O Silêncio que Cala

(Sonia Cancine)


Do novelo de fatos estranhos
O maceramento dos olhares
Do exílio, intacta indignação.

É limítrofe
(a insanidade e a lucidez)
Nos ventos álgidos
Que encobrem meus passos
Entre ruas laceradas da Terra.

Queria um Silêncio absurdo

De gritos lascados
De lágrimas gritantes
De cada gota de sangue
De cada lágrima derramada
Da arena da vida

Mas um silêncio profano e de pupilas ardentes
Pôs-se a caminho, tendo às costas a ninhada.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Café com biscoitos




Pressionando as mãos sobre os olhos e teria que encarar mais um dia invadindo a sala, o quarto. O som das crianças brincando lá fora a irritava. Estava com azia e sem abrir os olhos procurava o despertador para calar aquela campainha maldita.
Esfregou o rosto sobre o travesseiro e finalmente abriu os olhos, as sombras pareciam dançar e as crianças lá fora ainda gritavam. O espelho em frente ao canto da cama exaltava seus olhos imperfeitos abrigando as pálpebras caídas, quase desistentes - via semelhanças com os olhos de César, ainda menino e ao lembrar-se dele esboçava um sorriso que logo desapareceria.
Lá estava ela, depois de mais uma noite que não se lembrava de nada, o que seria dessa vez? Pílulas? Láudano? Vinho? Que impulso era aquele que a levava incansável rumo ao fim.
Precisava apenas de seus cigarros e uma boa xícara de café, o que a matava aos poucos era a sua feição humanóide, onde se estampava toda a previsibilidade de suas ações. Vestia um peignoir azul celeste que combinava perfeitamente com a manhã, que insistia em entrar pelas portas de vidro, as cortinas quietas davam o tom da quentura que tomava o quarto àquela hora, não havia brisa.
Seus pés brancos, unhas pintadas de carmim, descalços, não lembravam em nada os pés sujos de lama, os mesmos da fuga, que sangravam com brita do asfalto encarnada nas solas. E estavam agora lisos, alvos e limpos como pezinhos de princesa.
Mas sentia-se ainda naquela praça, com os pés machucados, confinados em sapatos vermelhos, que roubara duas quadras antes dali. Talvez não se percebesse como um personagem dum conto de fadas, em busca de uma estrada amarela, por onde caminharia e alcançaria seu verdadeiro lar.
Será que algum dia sentir-se-ia em casa?
Todos os dias a sensação de que na noite anterior havia feito algo horrível, imperdoável. Desistira de ser ela que deflagrara fugas alucinadas e restava-lhe a falta de vontade de prosseguir, o ostracismo se encarregando de devolvê-la para a cama.
Não gostava de pensar em suas vítimas, em quantas pessoas arruinou até estar ali, envolvida em seus lençóis de cetim e em sua camisola de seda, à espera do café da manhã.
As paredes de tão brancas ficavam amareladas pela força do sol que invadia a sala e o quarto e a acordava, acompanhada da impressão de que estava no lugar errado, mas não poderia contar isso a ninguém. As outras pessoas não a consideravam uma estrangeira.
─ Senhora, posso entrar? – chamava uma voz feminina doutro lado, enquanto batia à porta.
─ Sim, claro, entre! – respondeu Cecília ainda atordoada.
─ Senhora, café, biscoitos, pão, torradas, melão, suco de laranja e requeijão! Bom apetite! – dizia gentil, enquanto ajeitava os travesseiros, para Cecília se recostar,
─ Obrigada, querida! – disse se acomodando entre os travesseiros
─ Se terminar antes que eu volte só toque este sino para que venha ajudá-la!
─ Prazer em servi-la, senhora! – disse a moça saindo do quarto.
Como comer alguma coisa? Seu estomago revirava-se, mas não se lembrava de sua última refeição decente. Como recusar, estava tudo tão bem preparado naquela bandeja?
A porcelana estava reluzente, o café muito bom, pedia um cigarro. Quando criança adorava molhar o pão no café, embora sua mãe ralhasse e dissesse não ser higiênico, qual o problema em molhar o pão no café? Não era higiênico pensar que tudo se misturaria no estômago, virando uma só pasta e depois excremento!
Como estavam bons os biscoitos deliciosamente preparados que pareciam de mentira, recobertos com uma fina camada de cream cheese e geléia de goiaba e com o gosto do café era algo indescritível, o doce e o amargo, mesclados com o frugal, tocavam um momento encoberto pelo tempo.
Será que aquela moça tão delicada teria preparado seu café com carinho, ou feito como todos os dias? Teria a noção de que ela e Cecília eram feitas da mesma matéria? E que aqueles sabores traziam à boca uma lembrança quase perdida e fizeram Cecília chorar?

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Inquebrantável - Flá Perez

Não pergunte a lógica do amor.Amor explicável, não o é...
Amor com lista de virtudes é frágil sentimento.
Não se ama o espelho ou o reverso, se ama e pronto.
Quem amou em desmesura, não se arrepende jamais.
(Amar em desmesura é pleonasmo).
Depois de anos, eles de encontram num lugar qualquer.
Não há mais tempo, mas a lembrança está lá, à espreita.

- Você vai sempre ser o meu amor...
- E você o meu...
- Tchau.

- Tchau.

domingo, 1 de novembro de 2009

A sinfonia

O coração tinha garras de metal, afiadas e penetrantemente profundas, o sangue bombeado não era visível, sem cor a olho nu, nem palpável, sem forma, corria ao tato com um interessante magnetismo inverso. O sangue saía do átrio e corria direto aos pulmões: ia a atmosfera e voltava succionado pelo vigor da vida, era filtrado pelo fígado, toda a sua pureza era eliminada junto com a inocência, ele tinha que estar preparado para ver o que iria enxergar ao irrigar os olhos daquele corpo. Olhos foscos, secos, já sem lágrimas sem nem mesmo ter esgotado-las, a asfixia não estava em si. O que via não era o bastante para a razão, e a a razão não bastava para o ambiente.

Seu corpo ainda tinha mãos para inalcançar, nem lembrava mais que tinha unhas, e muito mesmo que as lascas do que elas arranhavam permaneciam sobre a carne, escondidas como ladrões, chamadas inúteis, chamadas desnecessárias, chamadas impossíveis. Não o eram, estavam ali e não foram excomungadas. As mãos viraram engraxates de botas... lustravam os sapatos velhos de pés fedorentos. O couro deles era sintético [assim como a pele dos corpos que os comprara], não eriçava ao toque humano, sua sensibilidade era reduzida a si. Seu maior pecado foi atrair o amor, ele atravessara a armadura e lá envenenara tudo, arrancara a alma do corpo, e saiu; na verdade o amor não saiu, foi vendido a preço de ouro a um mendigo. Este virou o maior milionário, tinha que o ser para pagar tantas dívidas advindas de sua compra.

Minha alma é morta, sou uma carcaça sem dentes, uma fera sem unhas, um sorriso sem face, sem classe, um impasse de ser o que não quero, e não poder escolher meus sapatos, minhas pegadas me foram impostas. Não são minhas digitais.

—Hoje eu não sou
—E ontem?
—Ontem eu era.

Tramitação involuntária da aorta na coluna vertebral, são os sentimentormônios governando as sinapses. Paralisando as pernas quando apenas atacara o sistema nervoso. Sem pernas, sem pés. O tempo não passa mais, a vida não vive mais, é o calcanhar de Aquiles de Hades. No final das contas, eu perco de todo jeito.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

por certo os sertões

nascem no planalto central
e se alastram por veredas
desertas e belas
onde racham
sovacos de pernas
e cotovelos de pedras.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Fruto Novo

Ar novo que oxigena o todo
renovando som ecoando
preenchendo o vazio de cores
formando arco íris no céu
após tempo tão incerto.
Noite de céu estrelado
com brisa refrescando ;
lua cheia no céu
depois de tarde de sol e calor intenso ;
dia novo no horizonte
após madrugada cinza
Eis que assim a vida se mostra
descortinada
depois de ausência tão prolongada,
simples encanto
de encontro sutil
rápido porém,
tão impregnado
não somente dessa saudade doída
mas de esperança
de dias cheios
dessa nova florada
que anuncia fruto novo
após espera que ate pareceu
não teria mais
fim.
Reflexo 2304131209

Catiaho Reflexo d'alma

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Notícias Populares

O mau poeta acossa a musa.
Não admite recusa,
nem se conforma com um “não”.
O mau poeta não desiste:
protocolo, formulário em três vias,
requerimento, recurso — em vão.
Ataca, então, rasga-lhe a blusa:
abuso em busca de poesia,
estupro à guisa de inspiração.
Crava os dentes no peito
ainda quente, embora inerte,
e suga até que repleto
do sangue que o seio verte.
Foge dali safisteito,
Pensando com seus botões,
“Agora me sai um poema que preste”.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Eco

CESAR VENEZIANI

sua ausência
me deixa na iminência
da demência
é silêncio que grita calado
é imenso gigante pesado

mesmo sendo ausente
seu nada se faz presente
eco em meu coração vazio
estio de tudo que prezo
rezo em revolta
volta, volta, volta, volta...

sábado, 24 de outubro de 2009

Ex-passo

Ex-passo


O poeta pode chegar à lua

na hora que bem-entender

visitar todas as constelações

ver uma estrela nascer e morrer

.

O poeta pode chegar ao sol

e junto com a terra, orbitar.

escrever poesia a vácuo

deitar e rolar no deserto lunar

.

O poeta pode ver as galáxias

viajar no espaço sideral

ver de perto o eclipse solar

participar da corrida espacial

.

seja nas nuvens ou imerso no mar

não importa qual seja o espaço,

O poeta pode nele chegar


quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Mate

Desde o casamento, acostumou-se a ser tratada como uma rainha, ia para onde quisesse, quando quisesse. Quase todos os desejos lhe eram atendidos, com exceção dos que revelava apenas entre quatro paredes. No entanto, devido às regalias, as dificuldades do marido pouco lhe incomodavam até aquela tarde chuvosa.

Ao arrumar as gavetas, para evitar que os velhos pijamas embolorassem, encontrou as cartas e bilhetes perfumados. Descobriu naquele momento que ele só se interessava pelas outras rainhas.

Tomada por ira, desgovernada, deixou-se levar pelo primeiro peão que cruzou pela casa.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Ex(cripta), nas estrelas?



Casou-se com um arqueólogo que a trocou por outra múmia. A caminho do Egito, para restauro, foi resgatada de naufrágio por pescador que teima haver encontrado uma sereia. Naturalmente enrolada, necessita de um oftalmo que a oriente para o ocidente, onde a sua alma repousa no sarcófago sem o seu grito, digo, mito.


Imagem: rosto da múmia de Tutancâmon (Foto: AFP)

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Tormento

Naufragado em pensamentos
Me encontro quase afogado
Num mar de ilusões.
Clamo a Deus

Para alcançar

A terra vazia do silencio,

Onde a paz lá está.

Quadro "Tormento" de Cátia Rodrigues

Contato caty.vlc @ gmail.com

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Ele em estado líquido.


(Foto: Fernando Rozano).


Ele em estado líquido.


Na canção um verso voa,

lamparina ao ar saudades,

e o verbo que conjugo

minha dor espanta,

faz viver presença,

rio que o coração

em mar transformou.

Sim, é amor.


Eliane Alcântara.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Morada Para Barbara

Morar numa canção de Chico
quando nada fizer sentido
se o problema for desgaste
recomendo uso de Buarque
mas se decidir por uma festa
divirta-se ouvindo o Cesar
Caso o problema seja desgosto
experimente um cd de João Bosco
Abstinência de toxinas?
dope-se com clube da esquina
Se for por falta de maça
encoraje-se ouvindo Djavan
Se for alguma desavença
faça as pazes ouvindo Alceu Valença
Se precisar da loucura de éter
substitua por doses de Cassia Eller
Se está preocupado se vacine
com sacadas e bom gosto de Lenine
Se o dinheiro estiver curtinho
churrasco na laje com Pagodinho
Se estiver farpado feito arame
sugiro descobrir Marco Vilane
Se acha que ninguém te gosta
sofra com pitadas de Gal costa
Se é problema passageiro
encare o relógio ao som de Baleiro
Se a ferida requer atadura
envolva-se na poesia de Cazuza
Se o incômodo for distância
Encurte-a na afinação de Betânia
Se acaso entrou pelo cano
aplique na veia Caetano
Se tá curto seu pavio
Medite com o senhor Gilberto Gil
E se a angústia for maior
suma um tempo feito Belchior
Se é ausência de faz de conta
recomece com Paulinho Moska
Se for coisa pequenina
uma faixa de Elis Regina

Mas se nada disso fez sentido
eu me recolho ao meu lugar
na mais linda canção de Chico
eternamente posso morar

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Sonhos Entre Escombros


Ainda me divirto entre os escombros,
Ruínas de nossa civilização.
Construímos nossas próprias covas
Quando abusamos do mundo.

Sofro com nossa incompetência
Em fazer um mundo melhor.
Dizem que sou pessimista...
A realidade é que é péssima.

Ainda temos conhecimentos e prazeres,
Mesmo assim não basta para melhorar.
Para muitos sou louco por perceber
Que o mundo é um lixo há séculos.

Vivemos um drama, uma tragédia,
Ainda sobra energia para mudar.
O humanismo é uma grande solução,
Assim como a sofrida ecologia.

Entre escombros sonho com um mundo melhor, podem rir de mim.


- Mensageiro Obscuro.
Junho/2008.


Foto: Escombros da II Guerra Mundial.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Domínio


Nesta noite tão fria,
Partículas pulsam quentes em meu corpo.
Me torno imprevisível: instabilizo, devasto;

Afloro em potencial perigo,
quase desejável.

Mesmo assim
O frio insiste.
E me toca.

Do estado de dormência
latente que me encontro,
Posso passar ligeiramente
ao estado altivo do vulcão
prestes a uma erupção.

Mas com sua indiferença,
o frio conseguiu.
Me domar.

E o restante
da noite continua.

Tão frio.


(Ro Primo)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

quimera


"What's in a name? That which we call a rose By any other name would smell as sweet."
Romeo and Juliet (II, ii, 1-2)



Guardo tudo em arquivos ilógicos e anárquicos que nem eu mesma entendo. Estranhas conexões, símbolos absurdos. Guardei você, sua imagem, sob um desses ícones multicoloridos.

Outro nome, outras cores, mas é você.

Sabe como funciona: “Que há num nome? Aquilo que chamamos rosa com qualquer outro nome seria igualmente doce”.

Janelas ↔nuvens↔espelhos↔sonhos↔olhos tristes↔Kamikazes de papel!

Coleciono palavras e gosto de dançar com elas, me esconder debaixo delas. Você brincando distraído e rápido as decodifica. Devo ser fácil e óbvia demais.

Sorriso→sorvete→tarde→música→notas erradas!

Palavras e imagens caem sobre mim em largas e pesadas gotas.

Janelas→nuvens→espelhos→sonhos→olhos tristes→Kamikazes de papel!

Tudo fica absurdamente importante quando nada é tudo que se tem.

Sorriso→sorvete→tarde→música→notas erradas!




Sorriso→sorvete→tarde→música→notas erradas!

O menino sorri e me pede a caneta, ele precisa que eu lhe desenhe os olhos do homem-aranha, a adolescente resmunga e eu sorrio.

Janelas→nuvens→espelhos→sonhos→olhos tristes→Kamikazes de papel!

Seu sorriso surge na tela da memória, bem ali ao alcance da mão, ao alcance do beijo. Está bem ali transfigurado em símbolo de algo bom. É meu agora e eu gosto dele, mas e daí?Nada? Tudo? E daí? Ainda preciso desenhar os olhos do homem aranha e ou vir alguns resmungos importantíssimos.

Sorriso→sorvete→tarde→música→notas erradas!

Guardei você também, sorrisos e palavras, mas vamos combinar assim: Você não me decifra e eu não te devoro.

Janelas→nuvens→espelhos→sonhos→olhos tristes→Kamikazes de papel!

Estar sozinho também é Globalização

Estar só é igual em qualquer lugar do mundo.

Estar sozinho em Tóquio é exatamente igual a estar sozinho em Nova Iorque ou em São Paulo: tem as luzes, a música, você olha para a pessoa que está dançando com você, você sorri, dizem alguma coisa que você não entende, você pergunta o quê, repetem, você finge que entendeu, sorri de novo, acena com a cabeça. Você fecha os olhos e mesmo assim, através das pálpebras, percebe as luzes piscando.

Você pode ter chegado lá com a galera, você esperava uma noite alegre, mas – espera! – quem você conhece, de fato? Quem conhece você? Todas as noite são iguais, você quer se divertir, você poderia morrer de puro tédio.

É diferente de estar sozinho no alto de uma montanha, sentado no chão, abraçando os joelhos, olhando a paisagem, mas estar sozinho abraçando os joelhos no alto da montanha também é uma experiência idêntica no Morro do Elefante, no Monte Fuji ou em Aspen.

Isso é globalização.

Não há mais experiências únicas, nada transcende. Você não vai ter a Grande Revelação ao entrar num templo budista, nem ao ouvir o canto gregoriano no Mosteiro de São Bento, nem quando o coral do gospel vier lhe trazer a Palavra.

Você vai entrar na mesquita, na sinagoga, na catedral, vai olhar em torno, vai ver rostos humanos, rostos. Todos solitários. Você não vai se surpreender com nenhum ritual, nada pode emocionar você, tudo já foi visto antes, você conhece isso, você sabe como é, já viu no cinema, no Discovery Channel.

Você vai saber que não há salvação.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Anima Mundi


mundo
redondo

terra
como
cerveja
pétrea
gelada
diáfana

iscol

isca
tira-gosto
presunto
perdigueiro

perdigoto

perdigão
putrefacto
nimrod

caçador

caçado
morto
perdiz
assassina
menina

mulher

messalina

comandante
cabeça
pensante
mandante
coadjuvante
rompante
hidrante

hidratante

monange
desidratado
factóide
imaculado
são
bernardos
benedicti
beneditinos
encapuzados
touca
ninja
mal
criados

mudos

surdos

absurdos

estampido

projeto

projetil

achados

perdidos

busca

aleatória

besta

fera

círculo

vício

cego

vil

infecundo

óvulo

mundo.


Carlos Cruz – 08/07/2008

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

O vestido



Odiava esperar as coisas acontecerem, mas talvez por um momento, pudesse se permitir ser levada pela força do vento, esvaziar seus pensamentos e deixar-se como folha avulsa que se solta, em idas e vindas lascivas.
Atordoada, não sabia se pela espera ou se pelo número de pílulas que tomara, Cecília entregava-se ao vento e como seu vestido de seda púrpura ela ondulava quase dançava. Aquela leveza tomava sua pele clara, sem a devida noção do tempo não distinguia dia ou noite, se aquilo era real ou se mais uma de suas visões.
Lembrou-se de César por um momento, parecia que nunca vivera sem ele, a impressão mais forte que tinha era que ele era uma constante em sua vida, mas com a mudança de vento, seus pensamentos mudaram de rumo.
Ateve-se ao vestido, olhava a disposição de suas saias e suas dobras, adorava aquele vestido, tinha vontade de dançar e sorrir. Em movimento de rotação, rodava sozinha e ria de si, quase que embriagada de nada. De tanto girar, sentiu vertigens e parou num movimento brusco. Ainda observando as dobras do vestido, como se a vida fosse só aquele pedaço de pano e tivesse dobras como suas saias. Como descobrir onde começa uma coisa e termina a outra? Haveria uma linha intermediária entre o contemplativo e o ativo? Olhar as saias a agradava, mas rodar para fazê-las se movimentar era infinitamente melhor! Sentia-se tonta, mas realizada, leve como uma pluma!
Apetecia-lhe vislumbrar as coisas, mas das esperas nunca gostou, eram angustiantes, quase entediantes.
Ouvia das pessoas a mesma reclamação, que era inconseqüente, impaciente, que se precipitava ao primeiro sinal de perigo, que feria para não ser ferida, fugia, para não se sentir pressionada. E quem não age assim, se perguntava.
Mas seria ela a única dona de seu destino? Será que tudo que lhe acontecera até ali teria sido apenas por suas escolhas mal feitas, ou por hora ter se tornado prisioneira de uma liberdade ilusória?
Finalmente estava no estágio que pretendia alcançar, a dormência, a gentil sensação flutuante de estar livre de qualquer amarra, tudo parecia ocorrer em seu ritmo próprio, o vento ganhava voz e sorrisos.
Seu vestido era roupa para seu corpo, para o vento não passava de um tecido, um obstáculo que teria que transpor para chegar ao seu destino final. As dobras eram transitórias, ao menor movimento do vento ou de Cecília se desfaziam por completo, sem marcas, sem rusgas.
Quem dera fosse livre como o vento, dona de seu destino, quem dera soubesse fazer as escolhas certas, quem dera não ter que escolher. Tudo parecia confuso e claro, não havia liberdade, apenas um simulacro dela. Mas por hora, estava feliz com seu vestido.
Por um momento pensou ouvir a voz de Otávio, seu corpo desabou, sentiu suas mãos suando e um desconforto vertiginoso. A voz perguntava:
─ Para que faz isso, Cecília? Quantas pílulas dessa vez? Não sei mais como posso te ajudar!
Ela só tinha vontade de rir, mas estava fraca demais para isso. Sentia raiva dele agora, queria ser esquecida naquele estágio, será que nunca a deixaria em paz?

domingo, 4 de outubro de 2009

Viagem Clandestina

Viagem Clandestina

Depois de seis anos trabalhando quase ininterruptamente, eis que vi na minha demissão a oportunidade de ouro de fazer uma viagem (pobre é assim mesmo, só viaja com o dinheiro do acerto ou para correr da seca). Escolhia entre vários destinos possíveis: Caximbó do Aterro, São João da Piriquituba, Taiobópolis e por aí ia, quando meu amigo Batata chegou quase quicando:
- Aí, fiquei sabendo que você tá querendo viajar!
- Querendo não, eu vou passar uns dias no interior, descansar, pescar, sei lá.
- É o seguinte: estamos, eu e o Juvenal, ajeitando para ir para a fazenda da tia-avó da prima da cunhada da minha irmã...
- Como é que é?
- Enfim, a fazenda é de alguém conhecido, tá afim de ir?
- Olha, eu não sei...
- Vai um monte de mulher junto. Só as gatas. – isso merecia uma longa reflexão.
- Que horas que vocês estão querendo sair?
- Sabia que você ia topar. Mas ó, tem que dar um dinheiro para rachar a gasolina.
- Ah, isso é o de menos.
Ajeitei “trintão” na mão do Batata e marcamos de sair no sábado logo de manhã. Estava tão animado para viajar que nem me importava do risco que corria; no geral, todo e qualquer programa idealizado pelo meu amigo sempre dava em merda. Sem contar que quando ele dizia “só as gatas”, na verdade se resumia a uma ou duas bonitinhas no meio de meia dúzia dos melhores canhões Krupp.
O sábado nem bem havia batido as sete da matina, eu e o Batata esperávamos nossa carona no lugar combinado. Diferentemente de outras oportunidades, tudo se materializou na mais perfeita ordem. Juvenal chegou na hora marcada, dirigindo seu valente Gol 1.8, ano 1995, inteirinho. E ainda por cima, cheio de mulher. E mulheres bonitas, na verdade, lindas! Aquilo era uma visão do paraíso:
- Irmão, tu é o cara.
- Sabia que você ia curtir. Vai por mim, essa viagem vai ser inesquecível.
O que deve ter sido inesquecível foi a cara que fiz ao saber do plano do Juvenal; como as três beldades ocupavam o banco traseiro, ele ia no do motorista e o Batata era passageiro-que-abre-porteira-e-conhece-o-dono-do-lugar, não restava assim nenhum espaço dentro do veículo para mim. Teria que ir de ônibus e eles me pegariam na rodoviária do povoado próximo. Era isso ou quando eu chegasse lá que arranjasse uma carona.
- Ó, é muito fácil. Todo mundo conhece a fazenda por lá, além do mais, é encostadinho na cidade, você consegue, safo como é.
- Sei não, Batata. E a grana que eu dei pro gás?
- Pois é, as minas tão meio na pindura, sabe como é.
Assim contra todos os meus instintos, lá fui eu de ônibus para o interior. Acomodado em uma das poltronas do fundo, saquei minha garrafinha de alumínio e tomei um belo gole de bourbon para acalmar os ânimos.
- O Batata me paga essa. Na volta ele é quem vem de busão. – Depois da metade da garrafa eu já dormia o sono dos justos e o dos injustos.
Acordei com o sol esturricando na cara. O ônibus, parado em uma dessas espeluncas de beira de estrada, estava com a tampa do motor aberta e cercado por peças, porcas e parafusos por todos os lados.
- É grave? – perguntei ao motorista que tirava uma de mecânico.
- Fosse gente – dito na pureza do sotaque soteropolitano - podia pedir a extrema-unção, visse?
- Batata, seu filho da mãe.
- Cuma?
- Deixa pra lá. Continua com o moribundo aí.
Adentrei as espetaculares instalações da birosca sentindo meu estômago acordar. E pelo jeito estava em uma mal humor homérico. Esse negócio de biritar sem beliscar nada ainda assassina meu fígado. Talvez até leve o bucho junto. Decidi dar uma olhada nos petiscos; torresminho, kibe com ovo, salsicha empanada, pé de porco, coxinha; o colesterol nadava de braçada ali e ainda dava pirueta. Apontei o pote estranho no canto.
- Aê, que é isso?
- Batata em conserva, vai uma?
- Nem na bala. Vê uma coxinha e um kibe
- E para beber?
- Uma pinga. Melhor, põe logo duas num copo só.
- Para o abrir o apetite, hein? O dono da birosca dava seu “sorriso 1001”, onde somente dois incisivos apareciam, cada um no seu próprio canto.
- Não, é para ajudar a empurrar esse treco pela garganta.
Acho que ele não gostou muito da minha crítica culinária. Nisso uma longa fila de crianças, uma escada perfeita do menor ao maior, sai do banheiro e começa a pipocar pedido de “quero isso, quero aquilo” daqui e de lá. Se a coxinha e a pinga não me dessem uma baita azia, com certeza esses pentelhos conseguiriam. Resolvi ir para fora fumar um pouco e ver a quantas andava o conserto do ônibus. Ou o milagre da ressurreição. Olhava desanimado para aquele monte de peça espalhado pelo chão, quando um anjo travestido de gente abriu a porta de um Doblô estacionado ao lado: o cabelo louro esvoaçante, uma bata branca que revelava os contornos perfeitos de um corpo bronzeado, o provocante perfume que me agarrava pelas narinas, a hipnose dominadora daqueles olhos azul-acinzentados que incrivelmente se dirigiam para mim. Aproveitei a filmada para colocar meu charme de Bogart do Cerrado em prática. Saquei um cigarro com extrema maestria e colei com a divindade:
- Fogo? – dois minutos depois e ela estava quase me passando a senha do Orkut dela. Tenho que admitir, aquele curso de paquera por correspondência valeu cada centavo. Quinze de papo e já sabia que ela era viúva, tinha perdido o marido dois anos atrás, Gérson Ganso, ex-zagueiro do Catulense. Em meia hora, batuta, tinha descolado uma carona com a gata. Ia para a mesma direção, tava dirigindo sozinha, precisando de ajuda na condução, isso é o que chamo de sorte. Quando estava tascando a primeira beiçada, me vi repentinamente cercado pela turba de crianças que havia visto pouco tempo antes, dois casais loirinhos e um japonesinho perdido no meio – ela virou-se repentinamente e animada:
- Crianças, boas novas... – rodopiei-a – Irmãos?
- Filhos. – virou-se de novo – Este é o Juliano, ele vai viajar com a gente daqui para a frente. Esses são Gilson, Gelson, Gérson Júnior, Gilda, Gilvânia, e o Wanderley.
- Wanderley?
- É... O pai dele era nosso jardineiro – sussurrou.
Duas horas de estrada depois, entendi porque ninguém se arriscava a viajar com ela. A doida ia pela estrada como se fosse o Mister Magoo bêbado. Andava um pouco em uma faixa, um tanto bom na outra e seguia cantando junto com a gurizada.
- Eu arrebento o Batata.
- Que cê disse, amor?
A luz amarela, avermelhou naquele ponto. Nem tinha ido pro rala e rola com a gata e ela já tava me chamando de amor? E ainda por cima com aquela molecada cantando “com quem será” o tempo inteiro?
- Arrebentar é pouco. Eu mato o Batata.
Agarre minha garrafinha da sorte, tomando altos goles para ver se conseguia segurar as pontas. A doida aumentava o som do carro e ia gritando as música (aquilo não era cantar, não senhor) junto com os filhos, em um coro desafinado que lembrava o urro de uma manada de quatis com dor de barriga. Concentrei-me em imaginar diversas formas de tortura chinesa para aplicar em meu amigo Batata. Uma chuva fina que começou a vir de encontro a nós e rapidamente se transformou em uma tempestade torrencial, que não deixava ver um palmo à frente. Tentei dizer para a gata ir mais devagar, mas foi como se pedisse para enfiar o pé no acelerador; a estrada foi rapidamente ficando para trás, as crianças gritando, aquela música do fim do mundo, quando o carro começou a girar sobre o próprio eixo, totalmente desgovernado, quando atingiu as amuradas de uma ponte, me lançando no vazio. Ainda pude vislumbrar, enquanto era lançado janela afora, que alguns dos garotos rolavam de rir, achando achavam que aquilo era só mais uma brincadeira. Uns belos filhos da puta, esses sacanas.
E então foi o silêncio. E junto com ele um mar branco, cheio de nada, onde eu parecia flutuar livre de todos os meus medos e receios. Comecei a me dar conta então, que finalmente estava encontrando aquilo que procurei minha vida inteira. Eu estava começando a desfrutar da...
- Vai ficar esticado aí o dia inteiro?
Olhei para o lado e lá estava um senhor vestido de branco e que tinha uma cara engraçada, que pareceu se transfigurar do nada.
- Como é que é?
- Tenho um negócio para te propor. Uma proposta tentadora.
- Propor, o quê? Que estória é essa de negócio, se eu nem sei onde eu estou...
- Ai, ai. Mais um desavisado. É o seguinte; você tá tendo uma E.Q.M.
- E.Q.M. ?
- Experiência de Quase Morte. Era para você ter visto um túnel, vários parentes, o resumo da sua via, mas estamos em uma fase de corte de despesas (morre gente toda hora, o custo dessa parafernália toda é uma nota!), daí que pulamos a introdução. Pois bem, você sempre foi um cara mais ou menos a vida inteira, agora tá entre lá e cá...
- Mas o que realmente me aconteceu?
- Era para ser coração. Básico, rápido e um dos meus favoritos. Mas você se engasgou com um pedaço de coxinha.
- Quer dizer que eu tô morrendo?
- Isso mesmo.
- Ah, se eu morrer eu mato o filho da mãe do Batata! Peraí, quem é você?
- Já me chamaram de vários nomes: Caronte, Nhunhabá, Volstour... Agora me chamam de "o sacana de branco". Sou eu quem leva a galera de um mundo ao outro, bicho, chuchu beleza...
- "galera", "bicho", "chuchu beleza"?
- Pô, xará, os sessenta foram de lascar. Muito psicotrópico, sacou? Mas voltando aos negócios.. Mesmo você sendo um cara meio maneiro, a probabilidade de pegar o elevador descendo tá muito grande.
- E o que eu posso fazer para melhorar isso?
- Seguinte: tava precisando, não, na verdade, tô querendo pegar aquela dona do Doblô, a da mulecada, mas sem a mulecada, entendeu?
- Entendi. Mas se você pode tanta coisa, porque não vai atrás dela sozinho?
- Questão de horário, meu filho. Não tá na hora dela. E vi que você tinha um jeito especial de lidar com estes assuntos. Daí juntei uma coisa à outra.
- Bom, é que... – Será que minha honra começou a ter preço?
- Ah, vamos lá, você tem que me ajudar. – parecia que o velhote não via uma mulher há séculos. No fundo talvez isso fosse verdade, afinal das contas.
- Então você tem como me fazer voltar?
- Claro, seu futuro está muito incerto. Parece até que está sendo escrito por várias mãos. Nunca vi nada parecido. Posso dar um jeito de você voltar no momento propício.
- Mas se eu voltar e fazer esse acordo contigo, quando passar por aqui de novo, pego o rumo de baixo sem escalas, não?
- É verdade. Mas cê já tá quase lá mesmo. E aí topa?
Não me lembro se acenei a cabeça em um sim ou se disse alguma coisa. O que sei é que senti um puxão e acordei deitado em uma ambulância, sacudido pelo choque do desfibrilador operado por uma enfermeira ruiva e extremamente peituda.
- Sorte sua nós estarmos bem atrás quando aconteceu o acidente, gatinho – Eu estava a salvo. Por enquanto.
- E o pessoal do Doblô, as crianças?
- Estão todos bem. Se estivesse usando cinto de segurança, não seria jogado fora do veículo – ralhou com fingida raiva. No final ainda deu uma piscadela.
- Batata, brother – pensei – te devo uma, cumpadre.
Em outra dimensão, um velhinho vestido de branco e extremamente grilado gritava aos quatro ventos:
- Concorrência desleal, essa tal de tecnologia!

Conto escrito em partes na comunidade “Contadores de Causos” (nem todas elas utilizadas)
http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs.aspx?cmm=21661322&tid=2491747672918963349

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Brincadeira Musical - Flá Perez

Chorinho e pede com jeito,
que fico Transversal,
pra tocar sua Flauta Doce
(de quebra seguro seu Sax).

Te deixo acordar
meus vários acordes e tons,
violar meu Violão.

Pra mudar de água pra vinho,
bate no meu Pandeiro
com a palma da mão

e me pede pra sambar devagarinho.

Depois aumenta o compasso
(ou deixa que o ritmo eu faço).

E se eu pedir pra parar,
se faça Surdo.

Continua o samba pela noite afora,
me faz suar em bicas,
até furar a Cuíca!

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

A sinfonia

Cofres com garras no lugar do coração, sangue feito de tinta cuja cor não é visível, cujo sangue não é palpável, mas é respirável, não pelos pulmões, mas pelo fígado, direto pros olhos. Estes sem lágrimas, seco, isento de sensibilidade à luz.

As mãos não lavam mais embaixo das unhas, não é importante, não é necessário, não é possível. Viraram engraxates de botas. Couro sintético que não eriça ao toque, anel magnético cujo pecado foi atrair o amor. Barganha de sentimentos, maldito comércio clandestino. Não há trocas, só ônus unilaterais de ambos lados.

Minha alma é morta, sou uma carcaça sem dentes, uma fera sem unhas, um sorriso sem face, sem classe, um impasse de ser o que não quero, e não poder escolher meus sapatos, minhas pegadas me foram impostas. Não são minhas digitais.

—Hoje eu não sou
—E ontem?
—Ontem eu era.

Tramitação involuntária da aorta na coluna vertebral. Paralisa as pernas quando apenas atacara o sistema nervoso. Sem pernas, sem pés. O tempo não passa mais, a vida não vive ais, é o calcanhar de Aquiles de Hades. No final das contas, eu perco de todo jeito.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

domingo, 27 de setembro de 2009

SM

Há momentos para a delicadeza das rendas.
Mas não hoje: corpete de couro, correntes.
É noite de algemas e vendas.
E ninguém tem nada com isso,
A não ser a gente.

Você se rende, se entrega,
Se dá ao luxo da confiança cega
No carrasco que elegeu.
Em pé à beira do leito, o tal eleito, eu,
Faço de você brinquedo e deleite.

Te quero dada de corpo e mente,
Te quero em bondage, amada, afoita,
Te quero em estro, miando, felina,
Te ouvir gemer meu nome entre dentes.
A cada meu toque de afago-açoite
E cada beijo quente da parafina.

Se quiser, depois a gente troca,
Você senhora, eu submisso.
Danem-se vizinhos e fofocas!
Ninguém tem nada com isso.
Há muitas e várias formas de gozo
E titio Sade ficaria orgulhoso.

Casa do Cantador

Única obra de Niemeyer no Distrito Federal localizada fora da área tombada de Brasília, a Casa do Cantador foi construída na Ceilândia, que é tida como a cidade mais nordestina do país foram do nordeste, atraás apenas de São Paulo.

A Casa do Cantador reíne uma pequena "cordelteca" e recebe habitualmente festivais de cantadores. No andar superior, hospeda artistas em passagem pelo Dsitrito Federal.

Tentei incluir algumas fotos, mas não foi possível; quem quiser conferir algumas imagens pode entrar no meu orkut e procurar o álbum correspondente na parte de fotos.

A Casa do Cantador é facilmente acessada por metrô: basta seguir em direção a estação "Ceilândia Sul" e andar mais 10 minutos.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Sem Medida

O quanto isto dista
daquilo lá?
A distância da ânsia
do esperar.

O longe é perto quando é certo
o destino.
Mas perto demora na hora
do desatino.

Não é a escala que fala
a dimensão,
nem o metro dá ao certo
a medida.

É o que se sente de repente
na paixão,
e que se mede na lágrima
vertida...

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

entrelinhas e pontos...


deixei de existir n-vezes
por causa da sua existência,

até neguei três vezes
a minha forte essência,

que a onda levou por um tempo,
mas foi devolvida pelo banzeiro

num arremesso porta a dentro

escondi no meio do nada,
sem prazo de entrega
para corpo e alma,

entrei em simetria axial
arrebentei a crisálida,
ficou apenas um ponto:final.


Texto: Lena Casas Novas

Imagem: Google