segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

CASMURRO

teu dia chora
a inexata geometria
das horas

pulsam cavalos de
poeira nas veias tuas
impolutas e
secas

civiliza teus ossos!
que confluem pela pele
dando-te aspecto
de ave de rapina

encerrada
enegrecida...
pelos adeuses não dados
por amores
não vividos

.

domingo, 30 de dezembro de 2007

Convidada: Jessiely

Entre as mãos

Vejo a borboleta
Que perdeu o rumo
Entre as promessas
(des)feitas.

Resignada
Ao fim
Em idade tão tenra
Ela ainda
Oferece à vida
A cor intacta
Da alma.

Vã oferenda

A vida detém as cores
E almas
furtivas
Tão ou mais coloridas
Que a dela, sutil
E já desfeita.

Só não tem
O detalhe
infinito
Da paisagem
Que desenhaste
No foco
Do meu olhar

Nas mesmas ondas
Que todo mundo

Que beija a areia
E apaga os beijos
Ao retornar

Tu d(escreves)tes
Um caminho
traçado
contínuo
Ao segurar minha mão

Nossos passos
Não ficaram
Mas a vida
Tingiu meus pés
Despitou segredos
Confessou sua razão.

O amor deixa suas cores
A vida se esvai
Mas as marcas que o mar
Não carrega
A brisa traz
escondida
Entre as mãos.

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Jessiely - Em 5 de dezembro de 1984, nasce mais uma Paraibana, Amélia Jessiely Soares Bento, filha mais velha do casal Maria das Graças e Jefferson.
Escritora desde os 10 anos, quando suas poesias passaram a ser difundidas no ambiente escolar, feito que lhe conferiu notoriedade entre os educadores. Assim sendo a paixão pela arte, começou a fluir.
É apaixonada pela arte, sobretudo pela poesia. Blog

sábado, 29 de dezembro de 2007

O sopro de Deus


Como um vendaval

Um sopro de deus

Entrou em minha alma

Para tirar toda a poeira

E iluminar os cantos escurecidos


Como um suspiro

O sopro de Deus

Encantou o meu ser

Com suas doces ventanias

Ao pé do meu ouvido


Hoje, tudo o que eu sei

Ei de seguir

Num singelo sopro de Deus

Que invadiu a minha alma

Na mudança do meu destino

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Natal Brasileiro

Fui convidado a participar deste blog a dois meses, mas não havia me apresentado desde então. Na época fiz uma cirurgia na retina e fui proibido de mexer com o computador. O primeiro texto foi postado pelo próprio Giovani, o segundo pela minha esposa. Finalmente postarei pessoalmente, garantindo tb que passearei com carinho pelas obras dos outros colegas.
Bom, já passamos do Natal, mas creio que ainda é tempo de uma leiturazinha temática...
A propósito: a cidade em que me baseei para escrever a história é São Lourenço, uma estância no sul de Minas.


Atravesso as montanhas e chego a singela vila interiorana. Localizada a menos de uma centena de quilômetros da capital, a pequena cidade era o grande refúgio dos estressados habitantes da metrópole. Era uma estância hidromineral e suas águas eram procuradas para os mais diversos fins.
Era época de Natal, e minha intenção era justamente entregar presentes às crianças carentes do lugar. Embora a capital também estivesse repleta de pessoas nessas condições, queria aproveitar a ocasião para usufruir do clima e das belezas de Lagoa Funda.
Após hospedar-me em uma pousada no centro da cidade, fui passear pela praça principal, enfeitada de pinheiros decorados que contrastavam com os ipês e jacarandás nativos; milhares de bolinhas de isopor estavam espalhadas nos canteiros, a imitar flocos de neve. Pelas lojas, papais noéis sentados, à procura das crianças e, por tabela, dos pais que receberam o 13°. Próximas ao parque, charretes coloridas transportavam turistas, ávidos também para conhecerem as centenas de lojas de artesanato e lembrancinhas.
No dia seguinte à minha chegada, conheci um guia-mirim, Lucas. Como trouxera muitos presentes, resolvi lhe entregar um. Mas pensei em fazer isso na sua própria casa, até para conhecer melhor as pessoas e costumes do lugar. Combinamos que eu passaria lá no final da tarde, já que Lucas trabalharia durante o dia acompanhando os turistas. Por outro lado, eu também passaria o dia entregando os brinquedos em um orfanato.
No início da noite, entrei na tortuosa rua calçada de paralelepípedos; não estava tão bem conservada, certamente por estar localizada na periferia e não ser passagem freqüente de turistas. Achei a casa do garoto sem dificuldades: ele me esperava no portão.
Estava sozinho. A mãe rezava na igreja, o pai, ainda trabalhando, e os 3 irmãos na casa dos vizinhos, onde ele também estaria se não estivesse a minha espera.
Após entrar na casa e me sentar no sofá, abri a sacola e lhe dei o presente. Apesar da impetuosidade de seus 8 anos, abriu o pacote com cuidado (certamente para usar o papel de presente em outra oportunidade) e passou a admirar o boneco de um Papai Noel de pano, vestido com seu casaco vermelho e conduzindo o trenó com a ajuda das renas. O trenó possuía pequenos pacotinhos, como se fossem presentes.
“Renas, casaco de frio, trenó?” Deve ter pensado o garoto, num instante de reflexão que, confesso, nem eu, como adulto, tivera. Apesar da inconfundível simpatia desse símbolo, o Papai Noel naqueles trajes, com aqueles animais e conduzindo um trenó não parecia combinar com o que se via pelas ruas do nosso país.

— É bonito. — respondeu-me afinal — mas meu Papai Noel é outro.
— E qual é? — perguntei, espantado.
Ouvindo um barulho na rua, ele pegou-me pela mão e me puxou para fora da casa. Próximo ao portão, apontou-me alguém e me disse:
— É ele.
Era seu pai, vestido com uma surrada calça e camisa social meio aberta; conduzia uma colorida charrete de turistas, guiadas por dois cavalos sem raça definida. Na pequena carroça, algumas sacolas imitando presentes: na verdade, o alimento do dia.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Algumas cartas - Série O Carteiro

Do Mendigo

E neste momento um mendigo corre descalço pelas ruas procurando abrigo contra a forte chuva. Encontra um restaurante aberto e entra. O garçom pede para que ele se retire, mas o homem não aceita e considera isso uma ofensa. Acaba sendo expulso por dois outros funcionários. Encontra um botequim aberto e lá pelo menos ele pode sentar em uma mesa quase na calçada e escrever para a família que não vê há três anos e meio. Conseguiu papel e caneta pedindo na porta de uma escola aos alunos que saíram mais cedo da aula. O Carteiro ao abrir o envelope umedecido pela chuvarada que caiu agora pouco vai ler que o mendigo mentiu para a família dizendo que está bem, que sente saudade do filho Gabriel de seis anos, que a empresa de enlatados está crescendo, que logo ele estará de volta e a família se mudará para uma casa melhor, com piscina e um grande jardim coberto para proteger as flores contra dias de chuvosos como esse.

De Regina

O envelope de Regina era perfumado:

“Não amo mais você. Cansei de esperar o seu egoísmo perceber que eu sou a mulher da sua vida. Por muito tempo eu chorei feito uma louca, sofri feito uma condenada. Agora não mais. Não quero ver você tão cedo, seu idiota. Espero que alguém faça você sofrer tanto quanto você me fez. O meu amor era verdadeiro e ainda seria se você mudasse de idéia. Adeus. Vou mudar de vida, com você eu fui a mulher mais burra do mundo. Deixei que você morasse em minha casa...Canalha.Saiu sem ao menos se despedir.”

O Carteiro não se sentiu comovido com a carta da mulher abandonada pelo namorado. Talvez se sensibilizasse caso soubesse que em algum lugar da cidade Regina estava sentada no chão de seu quarto. A televisão ligada, a luz do banheiro acesa, uma garrafa de vodka pela metade, vário comprimidos sobre a cama e uma gilete na mão. Pronta para cortar os pulsos.



mais sobre o Carteiro

A quase infância

Quando chegar o verão

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

VILANCETE:TRANSBORDANDO

[Fonte Foto]


No seu âmago permaneço
Bebo deste vinho tinto
Quando transbordas, eu sinto!

O teu vapor se condensa
Ligeiro...voltas ao sóbrio,
Banhas com sangue notório
A cama da inconsciência,
Sem saber da conseqüência,
Mergulhas no meu recinto
Quando transbordas, eu sinto!

Caímos no denso desejo...
Lembra do sonho insensato?
Gosto do estilo arriscado
Deste futuro imperfeito.
Viajo nesse seu jeito,
Com o pavio tão distinto,
Quando transbordas, eu sinto!
.
Recitado no Sarau do dia 16/12/2007 de Flavia Valente e Jairo Alt

domingo, 23 de dezembro de 2007

Um feliz e próspero Natal a todos...

Segundo o Informe da ONU sobre o Desenvolvimento, citado pelo sociólogo Zygmunt Bauman, o conjunto da riqueza dos 358 maiores “bilionários globais” resulta no mesmo valor que a “renda somada dos 2,3 bilhões mais pobres (45% da população mundial)” (1999: 78).

Já Victor Keegan complementa que “se os 358 decidissem ficar cada um com US$ 5 milhões para se manter e distribuir o resto, praticamente dobrariam a renda anual de quase metade da população da Terra. E os porcos voariam.”

Um feliz e próspero Natal a todos...

Referências:

BAUMAN, Zygmunt. Globalização: as conseqüências humanas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.

KEEGAN, Victor. “Highway robbery by the super-rich”, The guadian, 22 de julho de 1996.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Caiçara

teus olhos vêem peixes
saltando das águas
no bordado das luzes onduladas
feixes de cardumes
entre as réstias de ouro e prata
marulhada obsessão
lançando-se contra as rochas.

meus passos, na condução fluídica
de barco onírico
preso em bancos de areia
não deixam trilha, apenas marcas
de partículas salinas
confundindo-se com lágrimas.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Convidada: Soninha Tarja Preta

Entre bichas mártires e bichas-vitrines.
Ontem, ao ver uma festa gay de grande proporção, fiquei imaginando o significado político daquela confraternização. Sim, minha amiga obtusa, eu sou uma bicha pretensiosa e prolixa, não vou falar das abobrinhas típicas da bicharada aqui e se quer isso, é melhor continuar lendo a Caras. Não serei engraçada neste artigo. Foi em uma festa dessas, inimagináveis há uns 20 anos atrás, que presenciei um dialogo conflituoso entre uma vazia bicha vitrine e uma bicha mártir.
Antes de qualquer coisa, deixe-me definir a bicha vitrine: é aquela que não tem individualidade própria, sua personalidade é uma construção de referencias externas, de tendências impostas e prontamente assimiladas. É aquela biba que vive produzidissima, preocupada em ostentar grandes marcas e as ultimas tendências da sociedade de consumo. Ela é vazia, fútil, mas bonita como uma mercadoria na prateleira deve ser. A bicha vitrine logra em ter a disposição liberdades individuais que o mundo liberal supostamente criou. Um mundo onde ela pode consumir livremente, ser respeitada enquanto “Pink market” e ficar em seu gueto feliz com seus cosméticos.
Já a bicha vitrine foi aquela que deu a cara à tapa. Não ao tapa da esteticista, mas ao tapa da policia, dos pastores e dos opressores costumeiros. Foi a que enfrentou os militares e os códigos reguladores. Estas foram encarnadas na travesti endiabrada, na passiva despudorada, na bicha intelectual, no cantor desavergonhado, no ator surubeiro. Essas bichas merecem aplausos. Foram as mártires que pavimentaram o caminho onde as bichas vitrines hoje dançam “tribal house”, felizes com suas roupas de marca.
Mas voltando ao dialogo conflituoso: Uma bicha vitrine, na arrogância dos seus vinte e poucos anos, reclamou que uma quarentona estava olhando para ela.
_ “Que foi tia? Ta com inveja da minha beleza? Não tenho culpa da senhora estar velha e derrotada!”.
_ “Ta doida?” – disse a quarentona. “Eu estava olhando para a sua blusa...”.
_ “Paciência, meu bem”. É Diesel, e eu não tenho culpa da senhora não ter dinheiro para comprar uma. Deve estar gastando muito com o seu convenio médico, né?
A partir daí, não houve mais dialogo. Adorei quando a quarentona, em autentica e valorosa revolta, deu um estrondoso tapa na cara da petulante bicha vitrine. Como diz Raoul Vaneigem: “Não renunciarei a minha parte de violência”.
Sim. Não vale a pena debater com gente obtusa, presa a superficialidades e vazias de conteúdo. Quem tem a aparência física como única referencia só vai entender a dor física como argumento e o tapa da quarentona foi perfeito. Minha amiga obtusa, se você acha que estou fazendo apologia da lesão corporal e da agressão física, o problema é seu, mas que achei a quarentona perfeita, eu achei.
Por isso bibas vitrines, aproveitem seu delicioso mundo de consumo e hedonismo, se reúnam apenas para dar close e fazer carão nas festas. Esqueçam a participação política e o exemplo das bichas mártires. Sim, no mundo dos shoppings e das raves, é feio pensar que antigamente as bichas eram queimadas, mortas, torturadas e internadas em hospícios. Esqueçam das bibas que peitaram o Opressor, que questionaram o Status Quo, que pagaram com a vida pela audácia de serem diferentes e de lutarem pelo direito de exercerem “o amor que não ousa dizer o nome”. Consumam, consumam e consumam! Deliciem-se com o território supostamente livre que o Opressor lhe oferece, desde que você compre os produtos dele e pense de acordo com as diretrizes estabelecidas pelo Poder Midiático Capitalista. Narcotizem-se com as drogas da moda e dancem ao som da diva pop-star do momento. Esqueçam que o fantasma da Teocracia, da Homofobia e da Intolerância ainda continua existindo além das portas das butiques.
E quando estes fantasmas radicalizarem suas posições e tentarem entrar na sua casa, não haverá mais um bicha mártir para lhe socorrer. Nas celas do opressor, não há espaço para perfumes Gucci e a festa de tribal house vai acabar.
Ah, amiga obtusa! Antes que você me pergunte, não era eu a quarentona e se eu fosse ela, alem de ter dado um tapa na cara da bicha vitrine, ainda rasgaria a blusinha da Diesel dela...
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Soninha Tarja Preta
Ex-intelectual, ex-punk, ex-jet setter internacional e locomotiva socialite, não usa roupas de marca, se recusa a comprar qualquer coisa que seja publicada como “must have” e o único interesse no mundo da moda é em dar o cu para os modelos. Crítica, companheira de armas em vários grupos insurgentes anarquistas e revolucionários, odeia frases feitas e pensamentos únicos. Lamenta que muitas bichas viraram objeto de decoração e consumo. soninhatarjapreta@hotmail.com
http://www.manifestomix.com.br/

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Alguma coisa.

Distante acena o sono aos meus olhos e ficam preguiçosos os pensamentos.
Um certo ar de quem morre folheia-me o corpo um certo ar de quem dorme,
Ah... Este maltrata a alma. Tortura é forte atributo ao filho da puta do sono!
Ingrato que me arrebenta com a mente e confusa escorro sem saber se dia ou noite.

Subo aos céus em busca de uma fumaça, na goela falta o vício, sufoco-me.
Poeta de nada que valha risco o isqueiro sem pedra, queimo sem fogo.
Escuros estão meus desejos, em meus olhos estão saudades. Morta pareço viva.
Tenho fome, sede, frio. E a fome dos que morrem nas ruas é outra mais fria.

O sexo a um canto nos anos pendurados sobressai a gozo e riso,
O café esfria, a xícara já não tem asa e voa o infinito - lábios cerrados.
Já não há vinho, tinto ou branco é o passo passado na calçada da vida.
Só granizo sem ser gelo acompanha meu furioso silêncio.

Bato a porta de minhas idéias, mordo a língua para esperar o amanhecer.
Vermelho sorri endiabrado o sono fugitivo. Incendeio papéis. Solto a louca.
Do fundo vejo a criança sorrindo, a mulher gritando, a senhora chorando...
Alguém sabe de alguma coisa? Perdi a lição número oito ou tropecei no sete?

Olho a cinta liga, nada liga o que desligado foi do coração pela chaminé aorta.
Janelas bandeiras sorriem ao dia um crepúsculo intermediário aos meus saltos.
Saio de mim. Visto saia, rodo um fetiche no colchão e soletro desumanidade.
Preciso beber um vidro de tranqüilizantes e comer a bula para suportar tanta miséria.

Indecente, na esquina, um filósofo esperneia ou come uma galinha sem penas,
Desovam mariposas e toda semente vai liquidada para o lixo virar manchete.
Sem drogas, drogada pela hipocrisia de poucos (e são muitos!), estremeço cruzamento.
O cúmulo da vida cabe na insônia. Atenta penso: e esta porra toda tem jeito.


Eliane Alcântara.

***

A todos os que de alguma forma fazem ou fizeram parte da minha vida
desejo Feliz Natal e Novo Ano abençoado.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Orvalho de Lágrimas

A janela aberta
Liberta a brisa
Que traz sentimentos escondidos,
Sufocados como um brado
De lugares mais longínquos.

Viaja pelas colinas,
Mergulha fundo em rios
E chega como chega um navio
Há muito perdido
Num porto amigo.

E faz frio.

Como se nessa noite chovesse,
Mas o céu sem nuvem
Parece junto aos prédios
Estar bebendo e sorrindo.

Faz frio,
Não da noite quente
Que se espalha pela cidade recifense.

Mas o frio
Do orvalho das tuas lágrimas
Que entram pela janela
E me abraçam dormindo.

André Espínola

sábado, 15 de dezembro de 2007

E ATENA INVEJOU AFRODITE.

Era loira – e estonteantemente bela.

Como se isso não bastasse, a sapiência transpirava por todo seu ser. Seus neurônios espoucavam, impacientes, a cada aprendizado.

Era um colosso no mundo acadêmico e até mesmo nos assuntos carregados de empirismo.

Campeã imbatível nos concursos públicos, revelava extraordinária habilidade na gestão empresarial, na administração enxuta, nos tratados de ciências, nas dissertações filológicas. Tinha invejável destreza na condução coerente da sua vida profissional. Era metódica, disciplinada, prudente.

Foi tida como uma Atena contemporânea.

Assimilava conceitos e os processava de forma espantosa. Sabia geri-los com maestria, engendrando formas e métodos para conduzir sua vida.

Foi juíza, presidente de organizações societárias, diplomata em países de difícil trato; teve trajetória brilhante na política, nos assuntos ocultos de Estado, vasculhou com sucesso e salvas o universo científico, corporativo, fez articulações nos fóruns mundiais em suas prementes decisões de esfera global.

O mundo não lhe reservava segredos nem entraves.

Porém...

Estremecia diante dos homens - seu calcanhar de Aquiles.

Não obstante ser bela, inteligente, ativa em todas as áreas de atuação humana - era um grande desastre na condução dos flertes, dos amores que florescem nos encontros fortuitos dos corredores, no cair dos livros e papeletas, nas esquinas, nos hotéis, restaurantes e coquetéis

Sobre a cama, amargava toda a insatisfação muda, discreta, do parceiro, nos epílogos das transas cheias de frustração, paupérrimas de atrativos, sem as riquezas das preliminares, dos acessórios imaginativos do erotismo, do jogo da sedução, do atingir o mais franco e intenso orgasmo.

E sofria, dentro da toga e da profunda ilustração que abarrotava sua mente, buscando num frenesi os segredos da arte de envolver-se, de amar, de atingir a plenitude afetiva, perdida no acervo vasto da memória, entre fórmulas, enunciados, divagações de domínio científico, jurídico, biológico, nas extensões surpreendentes dos neurônios ocultados pelas madeixas loiras, pelo rosto rosado, pelos olhos verdes.

E Atena invejou Afrodite, como outrora Afrodite invejara Atena.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Loucos















____________

O cérebro
sangra
e desaba
em cataratas
vermelhas

Turvando a vista
a nada mais ver
e o tudo é nada
e um nada
a haver

Se me vestem
de branco
e me amarram
não perdi
a razão

.................

Loucos
todos que impedem
que arranque
ao próprio peito
o coração

Mui loucos
os que fazem
que inda deva
respirar
sem convulsão

E mais loucos
os que decidem
que não possa
extirpar
a inútil emoção

____________

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

A Tristeza


ah, tristeza
vem ver o mar
vem se afogar
nas águas
desses olhos
castanhos...

ah, olha só
que tenho feito
da vida
a despeito
do teu corpo
moreno...

vai, e colha
teus sonhos
plantados
e aguados
em adubos
estéreis...

vai, mostra
tuas garras
afiadas e
agarradas
em barris

de aguardente...

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Convidado: L Rafael Nolli

Balada homicida
É preciso matar o vizinho com um tiro de fuzil,
antes que ele compreenda os textos sagrados
e venha, como irmão, a seu lar,
comer do seu pão e beber do seu vinho.
É preciso degolar os amigos,
ou enforcá-los em seus cadarços
(eles não usam gravatas),
antes que eles entendam Marx,
decretem o fim da era dos desiguais
e venham exigir que você participe do combate,
deixando para trás sua coleção de tampinhas
de refrigerantes
e de caixinhas de Malrboro.
É preciso matar os homens
– contrariando Drummond –
antes que eles entendam a poesia que há nas coisas
e comecem a distribuí-la em seus gestos diários.
Assassiná-los antes que liguem para a sua casa
e convidem-no para ver a lua
ou um mosquito de Proust,
retirando você de seu conforto militar, remediado.
É preciso se matar, sobretudo se matar,
antes que a vida se refaça no interior dos lares
e a alegria volte a corar a face dos homens:
antes que eles se compreendam, venham à sua porta
e a derrubem, por acreditarem-na obsoleta.


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L. Rafael Nolli nasceu na cidade de Araxá no ano de 1980. Esteve entre os fundadores do Coletivo Nemo, que tem por objetivo uma nova discussão socialista, através da análise das obras de Nietszche e Marx. Tem poemas publicados em diversos jornais e blogs especializados. Seu primeiro livro de poemas, Memórias à Beira de um Estopim, foi lançado no ano de 2005 de forma independente. Atualmente, é estudante de Letras e prepara monografia sobre literatura na Internet.

domingo, 9 de dezembro de 2007

PEQUENO CONTO NADA NATALINO


Foi contratado para ser o Papai Noel de uma família classe média. Animaria a criançada surgindo da chaminé, gritando “ho ho ho” e distribuindo os presentes, em geral lembrancinhas, bem ao espírito mesquinho dos natais de hoje em dia. Como estava na de pior, aceitou.


Na véspera de natal, roupa vermelha, barba postiça e saco nas costas, lá se foi ele em direção a casa combinada. Mas anotou o endereço errado e desceu pela chaminé da casa ao lado. Estava vazia. Papai Noel foi seduzido pelos eletrodomésticos que decoravam a casa. Dariam uns bons tostões na mão de um receptador que ele conhecia. Esvaziou o saco de presentes, encheu-os com o que pode carregar. Teria um natal muito mais sortido do que o último. Não esqueceu de levar um ursinho de pelúcia para a filha e um carro de controle remoto para o moleque, seu xodó. Corroído pelo remorso, mas vencido pela tentação que o consumismo da data impunha, deixou os presentes para os que estavam ausentes, acompanhados por um bilhete. “Papai Noel esteve aqui. Feliz Natal!”


As crianças da casa ao lado deixaram de acreditar em Papai Noel, que os decepcionou, esquecendo-se deles que foram bonzinhos durante todo o ano. A menorzinha jurou que tinha visto o Bom Velhinho no telhado dos vizinhos. Papai Noel recebeu nota zero em comportamento naquele natal.

sábado, 8 de dezembro de 2007

O Homem de Boa Vontade




– Está bem –, disse o Diabo. – Você venceu. Eu dou o que você quer.

– Venci o quê? E por que você acha que sabe o que eu quero?

O Demo parou de lixar as unhas e sentou-se sobre a tampa da privada. Olhou fundo nos olhos do homem.

– Eu sei –, garantiu.

Justo desviou o olhar. Suspirou e enxugou as mãos sem pressa, com gestos precisos e lentos. Lentos demais, como é do feitio dos justos.

– E o preço, claro, é a minha alma?

– Justamente –, o Demônio concordou, enquanto examinava as unhas com atenção. E viu que estavam bem aparadas e lisas, e viu que aquilo era bom.

Cruzou as pernas, apoiando o tornozelo direito sobre o joelho esquerdo. Começou a lixar o casco e logo parou:

– Não tem uma lixa mais grossa?

Justo suspirou e tirou da gaveta um pedaço de pedra-pome que entregou ao Belzebu, desprendidamente. Teria que comprar uma pedra nova para sua mulher, não queria que ficasse dividindo com Satanás objetos de higiene pessoal.

Preparou-se para ouvir a proposta.

Mas sabia com serena certeza que nada neste mundo faria com que se rendesse ao Coisa-Ruim. Nada almejava: nem fama, nem riqueza. Saúde tinha de sobra. Se a perdesse, paciência. Um dia a saúde se vai, mesmo, para todos os seres vivos, está escrito, maktub.

Nem a posse do corpo da mulher amada, nem dominar todo o conhecimento da humanidade, nada seria tentação suficiente para ceder um milímetro em suas convicções.

Nem a imortalidade, que sabia que não lhe seria oferecida: afinal, como o Diabo poderia reclamar o que lhe é devido, se os vendedores de alma parassem de morrer? Mas não, nem isso ele aceitaria: não trocaria a Vida Eterna pela imortalidade.

O Tinhoso jogou no lixo a lixa, que caiu ao lado da lixeirinha de junco, sobre o piso de ladrilhos em cujo desenho se encaixou com perfeição, como um detalhe que o designer se esquecera de acrescentar naquela antes quase perfeita geometria e agora, por fim, completa.

– Fala! Diz logo o que você acha que eu quero! –, exasperou-se o homem, nu, porque no momento em que o Senhor das Trevas se materializara em seu banheiro tinha acabado de abrir a porta do box para um chuveiro rápido.

Pensou que se as torneiras ficassem na parede lateral seria bem mais sensato... Não precisaria molhar as mãos ao abri-las, antes de a água se aquecer. Seria muito melhor, ainda que os canos tivessem que percorrer um caminho mais longo e provavelmente tortuoso.

O Capeta examinava com ternura a pedra-pome:

– Isto veio lá de casa...

– Sim, sim, é pedra vulcânica, é lava. Eu sei. Pode levar de volta, é sua!

E como o Coisa-Ruim não se decidisse a falar, concentrado que estava em alisar o casco, Justo pressionou-o, abrindo os braços:

– E...?

– Não adianta. Preciso de uma lima.

Satã guardou num bolso interno da capa escarlate a pedra que lhe pertencia.

– Não tenho lima! –, exasperou-se o homem de boa vontade.

Começava a compreender o poder da criatura infernal. Estivera a ponto de perder a paciência. Controlou-se:

– Já aviso que não quero nada.

– Ah, quer! Quer, sim! E quer muito!

Pelo vitrô, vinha o som de musiquinhas natalinas, da casa do vizinho.

– Tá. E como você sabe o que eu quero?

– Você disse ontem, no bar. Eu ouvi.

O homem se viu sem palavras, ali, no meio do banheiro iluminado pela luz avermelhada da tarde de verão, nu enquanto o sol se punha. Não se lembrava de ter dito nada a ninguém sobre desejos ocultos, vontades, apetites, anelos, aspirações inalcançáveis. Era um homem discreto, pouco expansivo, no bar apenas sorria sobre o copo, enquanto os amigos falavam, riam, xingavam-se alegremente.

– Diga logo, então, que inferno! O que eu quero, afinal?

– O que todo homem de boa vontade quer –, replicou o Diabo, faceiro, orgulhoso por ter levado aquele homem a praguejar. E diante das sobrancelhas intrigadas do interlocutor, acrescentou, quase levianamente:

– A paz na Terra.

O homem bom ficou mudo diante da oferta. Depois de instantes, balbuciou:

– Você pode conseguir a paz na Terra?

– Claro. Se não pudesse outorgar o que ofereço, eu não estaria aqui. De que me adianta fazer uma oferta que não posso cumprir? Se eu não entrego o produto, e tudo direitinho, de acordo com as especificações registradas nas linhas tortas deste documento (exibiu um pergaminho enrolado que retirou de outro bolso da capa cor de púrpura), você não me deve nada... E não me paga, certo? O que aqui está escrito, maktub, será o nosso trato, justo e contratado.



Pela janelinha do banheiro, Justo viu o sol rubro de dezembro reproduzir com perfeição a íris dos olhos do Anjo do Mal, que lhe lembrou:

– Você disse que daria tudo, que daria qualquer coisa que estivesse ao seu alcance para conseguir a paz entre os homens.



Diante do silêncio de Justo, o Demo elaborou:

– Todos dizem isso, mas é da boca pra fora. No seu caso, eu sabia que estava ouvindo um homem de palavra. Pensa que não me informo? Lúcifer sabe o que faz.

O homem de palavra continuou sem palavras. Mas que presunção, a daquela criatura!, pensou.

– Não dou ponto sem nó –, concluiu o Canhoto.

A oferta era insuportavelmente tentadora. Justo sabia disso. O Diabo sabia também.

Era uma pechincha, era muito barato. Só uma alma, uma apenas, em troca da Paz no mundo? Uma só alma: justamente a dele!

Justo aceitou. Rendeu-se sem arrependimento.


– Todo homem tem seu preço –, filosofou Satanás, enquanto saía, contrato enrolado na mão direita, assinado com sangue bom; mão esquerda coçando um chifre, na perplexidade que sempre o acomete depois de concluir um negócio.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Neo


A gangue de carecas, munidos de socos-ingleses, correntes e canivetes, adentrou, abruptamente, a loja de sapatos. Ariosvaldo, o vendedor, pensou em esquivar-se, contudo, era a hora do almoço dos demais funcionários, estava sozinho na loja. Receoso, foi atender os clientes.
- Pois não? - disse para o mais alto, que exibia uma cruz suástica na testa e parecia ser o líder.
- Tem coturno aí, paraíba?
- Não. Mas temos ótimas botas de couro cru. São bastante confor...
- Botas de couro cru você enfia no seu cu, seu paraíba filho da puta!
- Olha, moço. Eu tô trabalhando. Não quero confusão.
- Vai tomar no cu, porra! Vocês são escória! Vermes! Tomam nossos empregos, sujam nossa cidade, comem nossas mulheres, infectam nossa raça com o sangue ruim de vocês. Têm que voltar pro Nordeste que é o lugar de miseráveis como você! Mas você não vai voltar, porque vamos te quebrar aqui mesmo. Será menos um.
Os neo-nazistas, brandindo suas armas, investiram contra Ariosvaldo, que, de um salto, refugiou-se atrás do balcão, do qual saiu de peixeira em punho e chapéu típico nordestino. Parecia um cangaceiro egresso dos filmes de Lampião e Maria Bonita. Os carecas, ante a visão daquele Virgulino de cara amarrada e olhar decidido, estacaram por alguns segundos. Foi quando prorrompeu o grito de guerra do líder:
- Matem esse paraíba!
A gangue arremeteu, furiosamente, contra Ariosvaldo. Apesar de extremamente desigual - eram dez contra um - o combate foi renhido. Ariosvaldo, qual um gladiador solitário lutando contra leões vorazes, movimentava sua peixeira com agilidade, desferindo golpes precisos contra seus oponentes. O líder, que encabeçava o ataque, foi o primeiro a tombar, com o bucho trespassado pela peixeira de Ariosvaldo. Outro golpe, outro careca ao chão, o sangue esguichando, aos borbotões, do pescoço degolado. Ariosvaldo ainda derrubou mais três, antes dos demais debandarem. Postado à entrada da loja, rubro do sangue de seus opositores, peixeira em riste, entre gargalhadas eufóricas, Ariosvaldo gritava:
- Voltem, seus cabras frouxos! Passo vocês todos na peixeira! Voltem!

Carlos Cruz - 01/12/2007

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

A bunda de Darwin

O Brasil é um país maravilhoso por abraçar as diferenças raciais com naturalidade.
Eu estava na fila do cinema quando vi, um pouco à frente, um casal diferente. Ela de traços orientais. Olhos puxados, pele amarelada, cabelos negros escorridos, peitos semelhantes a ovos fritos e ausência de bunda. Ele de traços africanos. Pele cor de ébano, lábios grossos, nariz achatado e bundão.
Achei engraçados os dois traseiros ladeados.
Atiçou-me a curiosidade. A mesma curiosidade que teve Darwin ao desembarcar em Galápagos e observar as diferentes espécies de animais.
Lá, em Galápagos, ele desenvolveu a Teoria da Evolução em que, na luta pela vida, os organismos desenvolvem características que favorecem a sobrevivência da espécie. Assim a girafa alongou o pescoço para alcançar as folhas mais altas das árvores e o camelo dos desertos, para armazenar água, consegue beber até 120 litros de água de uma única vez. Nenhum destes animais estava em Galápagos como o filme que eu veria pouco depois também não se passava naquela ilha.
Aquelas bundas e a teoria da evolução me fizeram refletir que, lá no passado distante, a cópula humana devia ser como a dos outros quadrúpedes, naquela posição em que Napoleão perdeu a guerra.
E se o oriental, é o que dizem, tem um bilau pequeno então a fêmea oriental de geração em geração, teve sua poupança diminuída para que houvesse a fecundação.
Por outro lado, isto é, pelo mesmo lado, o traseiro, as fêmeas africanas, com o passar das gerações tiveram sua poupança aumentada para evitar as espetadas doloridas das enormes – é o que dizem – espadas africanas.
Coitada daquela japonesa namorando o negão.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Se num sesse!

.
Se um dia eu acordasse
e nesse dia me descobrisse
num mundo onde a bebida tudo acabasse
e não mais se fabricasse
(onde a cerveja num gelasse
e o whisky num existisse)
e se no congresso passasse
um projeto que tramitasse
(e os anti-tabagista vencesse)
e então se proibisse
que meu cigarro eu bolasse
que meu cigarro acendesse
que meu cigarro tragasse
e depois que eu tossisse;
e embora direito eu não pagasse
(por quebradeira, não sovinice)
se meu bolso se arriasse e as puta toda fugisse

Talvez então eu prometesse:
que bêbado não mais dormisse
que chumbado não mais lesse
esse poema “Ai se sesse”*
pros pesadelo não me acudisse

* Paródia ao belo poema do poeta Severino de Andrade Silva (Zé da Luz), nascido em Itabaiana, PB, em 29/03/1904 e falecido no Rio de Janeiro-RJ, em 12/02/1965

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Fixação

Por facas

armas de fogo

e dentes de tubarão.


Por merda

pus e catarro

e toda e qualquer secreção.


Por cus

bucetas e falos

e órgãos de reprodução.


Por luz,

bíblias, sudários

e formas de salvação.



Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves


sábado, 1 de dezembro de 2007

Momento final

Momento final

no momento final
na hora serena
cerrarei os olhos
e, sorrindo, perguntarei:
- valeu a pena?

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

A minha casa



Distante de você
Caminhei sozinha
Perdida sem seu amor

Mas, estou voltando para casa
Os seus olhos dizem
Estou no lugar certo
O seu coração me acolheu

Eu sinto que estou em minha casa
Nunca mais me perderei na vida
Desejando todo dia o calor do seu amor

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

No Prostíbulo das minhas emoções





No prostíbulo das minhas emoções, a puta mais cara recusou-se a deitar-se com o belo e rico rapaz.
Ardia-lhe o pulso e sentia náuseas e repulsa ao esbarrar no olhar dele.
No entanto, existia a tentação dela de cortar-lhe as mãos de água, mel e seda com a navalha que ela carregava com carinho na meia calça de liga vermelha.
Resolveu dançar sensualmente e endemoniar ainda mais o pobre rapaz.
Ele se humilhou, suando como uma fonte de desejo e lúxuria, tentando acompanhá-la na dança,agitando-se feito um bicho esquisito...movendo-se já sem o controle de seus membros corporais.
Este comportamento patético, só fazia reforçar a negação da minha puta que sussurrava para si própria palavras misteriosas e sem nexo.
Tomada a decisão, ela se aproximou lentamente do rapaz inalando sexo e horror e ofereceu a navalha gelada e pulsante a ele e pediu-lhe que corta-se as mãos, oferecendo-lhe ajuda, e com esta condição absurda ela lhe entregaria não só seu corpo quente e tentador, mas sua alma corrompida e mutilada.
Atônito e embriagado pela voz da mulher de seus sonhos, o homem aceitou.
Caminharam até o quarto numa festa de silêncio e ansiedade e cometeram o ato fatídico.
O rapaz, parecendo estar em uma espécie de estado hipnótico não parecia sentir dor, passeava obsessivamente o olhar pelos seios túrgidos e violentamente redondos da bela meretriz que arranjara também uma serra para o auxílio de seu trabalho,arrancava sem pressa as mãos do rapaz com delicadeza, saboreando o despencar de cada pedaço de pele, de cada carne,de cada veia...beijando,roçando a língua e rindo suave como uma criança que está ouvindo uma história já meio sonolenta.
Postas as mãos e as vestes de lado, o ato carnal foi consumido em meio ao
sangue quente, alucinados e convulsos em um mar de gemidos, o par de amantes casual.
Sem mãos para tocar em sua deusa, o rapaz tinha sua boca como instrumento erótico e pela primeira e última vez ele conheceu o paraíso.
A moça, ausente do mundo, só tinha como referência de realidade as mãos encantadas do rapaz, seu brinquedo, entornavam o liquido sagrado e ela bebia,as fazia tremer e tocava com o mais intenso prazer no seu corpo, fazendo alvoroço,escrevendo palavrão e poesia...De sangue.
Cada um tinha seu objeto de desejo presente e estavam encarcerados nas tramas do querer maldito, e quando estavam exaustos de amar, não um ao outro, mas ás suas fantasias, quedaram seus corpos cada um para um lado da cama.
A razão cutucou-lhes a mente e lhes cobrou o acontecido.

Olharam-se...Ele maneta...Ela sádica, banhada em sangue...sentiram vontade de beijarem-se,mas já era tarde para um amor sadio e verdadeiro,a perversão já tinha armado seu circo, eles eram palhaços tristes, vítimas de acidentes de maus atiradores de facas, trapezistas que caíram e fizeram gritar toda uma platéia.
Apenas se olharam e decidiram. Ele por alguma razão sabia, ela tinha muitos remédios, venenos para os dois.
Eles sentiram merecer morrer por não saber amar,e como um brinde a existência beberam vinho regado a medicamentos,deitaram-se nus na cama e esperaram que suas almas abandonassem aqueles corpos maltratados e invadidos.
Deram as mãos (as dele eram invisíveis) e partiram.
Passado algumas horas a dona do bordel resolvera entrar no quarto e como ela pertencia ao mundo das artes, além de caso de polícia e mídia, a cena virou uma curiosa fotografia.
Quanto ás almas, essas prosseguiram para o inferno do amor demente e sabe-se que se entrega uma a outra eternamente e que desse amor de luxuria estranha nasceu uma flor sanguinolenta e chorosa, de perfume perturbador e que cada ser que se aproxima dela, ama tão desesperadamente que fica como que drogado e experimenta uma extasiante loucura, imerso em uma turba, contorcido de dor.

Rita Maria de Assis





terça-feira, 27 de novembro de 2007

Laranjas

— 180 quilômetros, Henrique?
— É isso. Cento e oitenta.
— É um trecho bom de estrada. Será que essas laranjas não vão se perder no caminho?
— Não tem problema, Afonsinho. Não tem espaço no porta-malas mas a gente arruma no banco de passageiro. Veja só...
Henrique e o irmão pegaram duas grandes sacolas de laranjas e as alinharam uma em cima da outra no banco de trás do carro. Antes amarraram os dois volumes e os prenderam no banco usando inclusive o cinto de segurança.
Estavam em uma fazenda, propriedade dos pais de Henrique e Afonsinho, que ali vivia. Henrique costumava passar o final de semana no local, junto com a esposa e o filho de 7 anos. Naquele momento, domingo à tarde, se preparavam para voltar à cidade.
Já no carro, malas e laranjas prontas, o filho de Henrique, no banco de trás, tenta inutilmente colocar o cinto de segurança.
— Deixa pra lá, Carlinhos. A viagem é curta e a estrada tá vazia.
E partiram. De fato conheciam a estrada, a ponto de batizar com nomes alguns buracos na pista. A BR estava vazia o que incentivou Henrique a aumentar um pouco a velocidade.
No entanto, não contou com um animal que repentinamente entrou na estrada. Num reflexo, acionou rapidamente os freios; o animal – um pequeno cervo – ficou paralisado no meio da pista, enquanto o veículo se aproximava.
Uma fração de segundo depois, deu um salto e voltou à mata. O carro, rodopiando, invadiu em seguida o espaço que o animal ocupara. Metros à frente, parou, transverso na pista.
Imediatamente, Henrique levou o carro até o acostamento. Então, olhou para a esposa e o filho.
— Comigo está tudo bem. — respondeu Vanessa, ainda um pouco tonta.
O casal olhou para trás: fios de sangue manchavam o vidro lateral e o banco de passageiros. O garoto estava deitado no chão do veículo, desmaiado, e sangrava muito.
Desesperados, dirigiram rapidamente até a cidade mais próxima. Estacionaram em frente a um hospital, e enquanto Vanessa pegava Carlinhos no colo, Henrique explicava o ocorrido para a enfermeira da recepção.
O garoto estava inconsciente e foi levado para a emergência. Após a chegada do médico, constataram-se alguns cortes profundos e uma fratura no nariz. Felizmente, ele não corria risco de morte, mas precisaria passar a noite internado, em observação.
Já de noite, acordado e na companhia da mãe, Carlinhos acompanhava um filme na televisão quando seu pai entrou, com um copo na mão.
— Tome, meu filho, vai ser bom pra você.
— E o que é?
— Suco, feito com as laranjas que a gente trazia da fazenda. Como estavam bem amarradas e protegidas, as frutas não se perderam no acidente...

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Quando chegar o verão

Sebastião percebe que o vento não está mais soprando. Ele se ajoelha:

- Quando chegar o verão, eu vou te buscar em casa. Vamos passear no parque. Compro para você um sorvete daqueles que aprecia e peço para o homem com o violão me deixar tocar a sua música. A tarde será perfeita.

O vento agora voltou e parece estar mais forte que o comum. Sebastião deixa as flores em cima do túmulo, desiste dos planos e passa os olhos rapidamente na escritura da lápide: “Aqui jaz Sandra Borges de Medeiro, esposa amada e filha querida”. Ele deixa as lembranças de lado e se põe em pé novamente. Caminha pelo cemitério buscando um sentido para a própria vida, agora que a noiva não está mais presente e nunca mais estará. Ele se vê sozinho, sem família e perdido.

Ele sai do cemitério e, mesmo sem saber o que faria naquele momento, sobe no primeiro ônibus que vê passando. Dentro do veículo ele passa a escrever a primeira carta de sua vida, nunca havia escrito uma antes durante seus vinte e três anos:

“O engraçado (ou o inexplicável) é que eu não lembro de ver a cidade assim tão triste. A chuva, que normalmente não cai, parece tentar dizer a todos que alguém dentro de um ônibus, escrevendo, sofre por uma pessoa que conhece há tão pouco tempo. Isso me faz recordar de um filme qualquer, ou então seria tão único que só se vê em filme mesmo.” - Ele tenta se equilibrar no ônibus e escrever meio sem jeito. “Parece que eu te conheço há anos, que eu te adoro desde sempre. Parece que eu te amo desde que eu nasci... Você merece o mundo e eu só tenho algumas folhas de papel em branco, uma caneta e um lápis. Nem mesmo uma borracha eu tenho.”

Sebastião olha as calçadas, as esquinas, os bares. É hora de descer do ônibus, mesmo sem poder enviar a carta para quem gostaria.





mais sobre Sebastião aqui

domingo, 25 de novembro de 2007

um natal diferente

Um natal diferente


Pela primeira vez em toda sua existência os festejos natalinos a incomodavam; não sentia mais a alegria da escolha dos presentes, a satisfação da gula natalina e, nem tão pouco, o prazer com o ultimo consumismo do ano.

Naquele ano, aos trinta e cinco anos de idade, descobrira, quase sem querer, que papai noel não existia e que todo aquele gasto infundado saía de seu parco bolso, às custas de muito trabalho durante o ano.

Tivera a revelação tardia de que o décimo terceiro salário só servia para fomentar a economia mundial , descobrira ainda que toda família é um núcleo doente por natureza e que a sua não ficava para trás- os minutos de festejo não apagariam os problemas que cruzavam seu caminho há vários natais.

Dessa vez, não haveria pisca-pisca, tender, chester, árvore de natal, bolas vermelhas, chegada de papai noel, presentes inúteis, família distante reunida e um porre para comemorar a merda de ano que ficava para trás, pois, como de costume, merda maior estaria por vir com o ano vindouro.

Assim, cambaleante e decepcionada, saíra a esmo pelas ruas, sem procurar, nem esperar nada, quando deparou-se com um forte papai noel a brincar com as crianças.

Lembrou-se dos quinze anos de casamento, dos filhos adolescentes e problemáticos, do sufoco para adquirir a cobertura em que morava, da dureza dos primeiros anos, da falta de amor, da falta de companheirismo e principalmente da falta de sexo.

Olhou firme naqueles olhos, que de velhos não tinham nada e, percebeu que sua carência era insaciável; os muitos anos de deserto sentimental a deixaram assim- um poço fundo e vazio.

Desejou desesperadamente aquele homem, que só deixava a mostra os olhos. Apenas os olhos, somente as janelas da alma, bastariam para satisfazê-la aquela noite.

Quando a encenação acabou, aproximou-se daquele homem como uma pedinte faminta a implorar por um pão e, sem pronunciar uma só palavra, abaixou-lhe as calças e fez amor com seu membro e principalmente com seus olhos.

Depois, foi embora, ainda em silêncio absoluto e guardou em sua mente a lembrança dos olhos mais ternos que já viu sobre a face da terra.

Aquele fora o único ano em toda sua existência que um papai noel lhe dera alguma coisa, sem que ela tivesse pago antes por isso!

sábado, 24 de novembro de 2007

DESPEDIDA



Dia-após-dia, morrerei contigo!
Cubra-me com teus beijos!
Afaste a distancia
- Meu castigo.
Liberto do hospício,
Meus desejos.

Entrego-me nas firmes garras,
Deixo escapulir meus gritos.
O reflexo das tuas pernas
- Entrelaçadas...
Sinto as mutações dos gemidos.

Não penso em mais nada,
Durmo na linha horizonte
Bebo da boca envenenada,
Viajo no vai-e-vem delirante.

O prazer embriagou meu corpo,
O vinho circula na veia repulsiva,
Desprezei a lucidez
- que amor louco!
Para não enfrentar a despedida.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Orgulho patriota

Com seus cabelos castanhos encaracolados e olhar orgulhoso, a pequena garota entra na sala.
- Papai, papai. Largue o jornal e olhe como estou linda!
- Você é mesmo uma princesa, Laurinha. A menina mais linda que já vi. – responde, com felicidade, Alberto, após colocar o jornal que lia sobre o colo.
- Olha o meu vestido novo. Verdinho, verdinho. Mamãe disse que pareço um passarinho com esse vestido tão verdinho... - rodopiando exibidamente, olhando para o próprio vestido e sorrindo muito.
- Parece sim, parece q vai voar de tão bonita que está. – adora a filha. Sempre sente uma profunda satisfação quando a vê feliz.
- Está pronto, amor? Não podemos nos atrasar pro almoço. – fala a esposa, que acaba de sair do quarto, ainda penteando os cabelos.
- Claro. Estou pronto há tempos. – ele se levanta da poltrona e caminha até Isabel, segura delicadamente sua cintura entre as mãos e dá um beijo em sua testa. Em seguida, chega com os lábios bem perto da orelha esquerda da esposa, quase a tocando, e sussurra: - Te amo, Bel.
Ela sente um leve e gostoso arrepio. Sorri timidamente (ele adora que, mesmo após dez anos de casamento, ela ainda tenha esse sorriso tímido) e responde: - Eu também. Você é o melhor marido do mundo...
O telefone toca, interrompendo os dois. Laurinha, saltitante, corre para atender enquanto anuncia: - Eu atendo, eu atendo!
A esposa se afasta suspirando. Alberto aguarda, tenso.
- Papai, é pra você. É do trabalho.
Ele caminha pesadamente até o aparelho e pega lentamente o fone das mãos da filha:
- Alô, major Pontes falando. – Isabel pega a filha pela mão. As duas vão para o quarto e a mãe fecha a porta atrás de si. Do outro lado da linha, uma voz fanhosa:
- Major, o senhor precisa vir o mais rápido possível. Aquele assunto foi resolvido, precisamos do senhor aqui.
- Estou indo. – um enorme sorriso aparece em seus lábios no momento em que ele coloca o fone no gancho.
- Amor... Bel! Não poderei ir ao almoço, se desculpe com seus pais. Trabalho de última hora, preciso ir...
- Mas precisa mesmo ir? – a mulher pergunta, com voz de choro.
- Bel, você sabe que sim. Sabe que é meu dever! – dá um beijo na testa da esposa, pega as chaves do carro e sai.
Dirigindo, não podia deixar de se sentir eufórico. Finalmente pegaram o Ataíde, quem sabe tenham até prendido mais gente do grupo! Será que caiu o aparelho inteiro? Será que pegaram também a esposa do Ataíde? Devia ter perguntado! Com a esposa junto, tudo seria mais fácil. O cara deve ser duro, mas Alberto (ou melhor, major Pontes) queria ver quanto tempo Ataíde agüentaria ver a própria esposa sendo torturada e estuprada na sua frente sem dar mais nomes, sem entregar outras células. Mas e se a esposa conseguiu fugir? Aí será foda. Alguns desses caras são realmente resistentes. Aquele loiro cabeludo estudante de história, por exemplo, não delatou ninguém mesmo depois de ter uma das bolas esmagadas. Deviam ter dado antibióticos pra ele, mas o largaram lá na cela e acabou morrendo. Burros, não sabem fazer as coisas como devem ser feitas. Por isso o chamam, ele nunca mata nenhum desses comunistas se não for preciso. Conseguiu manter até mesmo aquela negra com o feto morto dentro da barriga pelo máximo de tempo possível sem a matar. O segredo é ser íntimo dos médicos, trabalhar junto deles. Mas tem gente que não entende isso, acha que basta sair batendo, dando choques, quebrando ossos e tudo se resolve. Por isso é que chamam ele, porque ele é bom no que faz. Dor e desespero, tem q se saber as medidas certas. Major Pontes tem muito orgulho do seu trabalho, de sua família e de ser brasileiro! Será um belo sábado!

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Adorado Maldito

Julgas que não sei das tuas mentiras
quando teus olhos fitam os meus.
Acendes meu corpo do desejo insano.
Declamas os versos que comprastes
num jornal vagabundo.
Julgas que sou a mais tola do mundo...
Mas confesso!

Gosto quando diz: Eu Te Amo!
E mentes tão bem... Quase acredito.
Mas posso ver no fundo dos seus olhos
a frieza do teu coração de granito.
E em silêncio ao coração mil vezes grito:
Não te iludas!
Com esse adorado maldito.


(Sirlei L. Passolongo)

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Labirinto

Quarenta e seis olhos sob a lanterna.
Vinte e três pessoas contemplando a noite eterna.
Prisioneiros do seu medo, ajoelhados na capela,
Velando mortos vivos, seus próprios corpos.
Sombrios ventos, tempestivas vozes,
Pensamentos velozes, intragável tempo.
Ritmo de assombro no compasso dos passos
Entre labirintos esparsos de horas vazias...
Sob o signo dos que choram sem esperanças pela aurora,
Suas sombras são espectros das cicatrizes do dia.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

ebooks do bde

O Bar do Escritor, orgulhosamente, apresenta os ebooks de estréia de dois talentosos escritores que bebem das rodadas literárias servidas em nossas mesas.

Emerson Wiskow - Ovos de Touro

"Emerson conta histórias sobre sacanagens e bebidas capazes de ruborizar os pudicos religiosos e obrigá-los a esconder-se nos banheiros dos templos para conseguirem satisfazer seus desejos literários. Também fala sobre zumbis e seres do espaço. Tudo recheado de palavrões, putas, bares e muita loucura.
Só coisa boa!" - Por Giovani Iemini






Alex Plunk - O Pior Poeta do Bar

"
Escatologia, drogas, trocadilhos pueris, reflexões rasteiras, sentimentos confusos, idéias estapafúrdias, nada considerado normal servirá de inspiração. Talvez seja exatamente este o diferencial: sua originalidade é incomparável.
Alex é o plunk da poesia." - Por Giovani Iemini


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em breve: Cristiano Deveras, Mão Branca e outros.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Presenças.


Busco alcançar meus próprios fantasmas,
Os dos outros deixo de lado, já me perseguem.
Sou nuvem quando triste e tempestade quando perco,
Criança a tecer das estrelas pequenos sóis.

Invento borboletas que nunca morrem
E pássaros em liberdade no sul do meu coração.
Imagino o impossível tão ao meu alcance
E tiro a roupa como quem veste o dia.

Não temo saudades ou lamento prazeres idos,
De tudo que conquisto tenho o gozo de ter sido louca,
Vivido conforme a lei do meu sentir,
Depravada moleca (dirão as beatas) a beijar a felicidade.

O ontem é só mais um capítulo do que me espera
Depois do pôr-do-sol. Não paro para não morrer.
Tranquei recordações em minhas montanhas,
Releio o tempo como viciado que come morangos.

Nos meus olhos há brincadeiras da infância
Nos caminhos de meus filhos, nas mãos de outros filhos.
Já amei, esqueci, fugi ou fiquei para mais,
O certo é que me dopei de ternura, ensandeci.

Pouco sei de coisas que não procurei,
De gostos que não provei ou bailarinas que não vi.
Minha luz é aquela que brilha longe e me carrega
Para a ponte ou para o abismo, tanto faz, vivo.

Construo sensibilidade na flor dos poros
E sou mar que quer engolir o mundo ao seu jeito.
Cenário que crio sem retenções ao meu ver,
Prateleira de sonhos que decifro quando deito a cortina.

A pele é nuvem e já não sou mais tão macia,
Despenco pétalas e acolho os anos de juventude.
Aprendi na corda do tempo mais que a carne,
Uso-a para meu delírio e guardo aquilo o que presta.

Direi mais tarde quando baterem à porta:
Não estou pronta, é muito cedo, quero galos cantando.
Ainda não inventaram o dia lilás com bolinhas azuis?
Prefiro ficar mais uns dias, falta encontrar as agulhas

Para que eu borde a cor de todos os meus desejos.
Não tenho pressa e é cedo, direi várias vezes.
Antes que eu feche os olhos de ver pensamentos
Quero alcançar todos os meus fantasmas, é obsessão.

Noturna em plena hora da tarde dirão que deliro,
Mas verei as sombras se moverem, e apenas um terço
Hei de deixar desprender dos dedos... Contas...
O que eu poderei ter esquecido? Claridade?

E depois o sol irá brilhar mais forte para cavalos alados
Buscarem minhas idéias, além-túmulo elas serão inertes.
Não direi mais nada, o resto será segredo.
Meus fantasmas não assombrarão a ninguém. Estaremos livres.

Vivo como quem caça detalhes e dobra papéis.
Há os que possuem o dom de desdobrá-los...

Eliane Alcântara.

sábado, 17 de novembro de 2007

Ca(a)tinga do Coração

Se tu desdobrasses meu coração
Da morada tranquila do meu peito
Tal qual um corte
No bucho inchado de um bode
Desferido pelo facão
Enferrujado
Do sertanejo,

Verias que ele tem
A catinga da caatinga
Das mais ensolaradas manhãs
Inundadas pelas águas poluídas
Do canal da minha Agamenon Magalhães.

Pois eis meu coração,
Em sua forma pura,
Cardíaca,
Sem idealizações.

Ei-lo na tua mão.

Abraçá-lo-ias ainda?
Ou tuas poesias,
Todas,
Fora jogarias?

André Espínola

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

UMA NOVA REVELAÇÃO

Num instante, pareceu-lhe que o ponteiro do relógio parara.

Mas, ouvira o sino, vivera aquele momento. O tempo prosseguia.

Estava estupefato! Era cientista. Mente brilhante nos estudos da quântica. Conhecia a fundo a Teoria Geral da Relatividade.

Tempo e espaço... estaria louco, ou vira de fato o ponteiro do relógio pausar? Olhou agora o seu relógio de bolso. Estava rigorosamente acorde ao do campanário. Trinta longos segundos acreditara ter se passado. Uma abstração! O mundo sofrera um descompasso no segmento espaço-tempo!

A mente fervilhava, como se recebesse num jacto a canalização do Alto, no momento fatídico e urgente de mais uma revelação à Humanidade.

Lembrou-se de Einstein, Newton, Salomão, Franklin, Descartes. da Vinci, Paulo de Tarso, Cipriano, do Mahatma a chorar sob o impiedoso portal cerrado da Agartha... e ditar com urgência as idéias fugidias que retivera na mente, receoso de perde-las para sempre...

Correu à escrivaninha, esquadrinhou uma, duas laudas, fórmulas, teoremas, postulados... Estava diante da grande resposta que atravancara a Humanidade até então: o espaço-tempo, a relatividade do universo, das dimensões, o salto quântico que traria a ciência e a religião ao campo inalienável dos fatos.

A chave estava em suas mãos, trêmulas. Compreendia então o real fundamento do “déjà vu”, dos discos luminosos colocando os militares do ar em frequentes apuros diante da comunidade ufológica, a fieira incontável dos fenômenos ditos paranormais, a vida como um patético ato teatral, rigorosamente representada - início, meio, fim.

Deus era de fato Sempiterno e Todo-Poderoso. O livre-arbítrio um grande engano. E o Big Bang, o início de um fim que igualmente era um início.

Num momento, caiu fulminado sobre sua própria mesa. Não pôde suportar tamanha Luz. Porque Einstein tivera neurônios torrificados. Newton estremecera ao acompanhar a queda da maçã. E da Vinci canalizara toda sua demência nos traços da Gioconda e da Santa Ceia.

Mas, aquela Revelação, era prematura. Os Céus falharam.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Esperanto

Kiom gravas koro
Plena de varmega sango
Se neniom da spirito
De iu vera amo?

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Consternação

De filhos, foram dois. Mal entrados na casa dos vinte. Coragem de partir deste sertão, tinham de sobra. Mas jamais como abandono. Disso não eram. Conformação não tinham. Já viram mais coisa triste por aqui, que não veriam em uma vida inteira toda uma povoação de cidade do sul. E se foram. Rio de Janeiro ou São Paulo, não lembro bem. Se se separaram, foi só depois, naquele restinho dos tempos.

Guerra, tinha contra a seca, contra a natureza do lugar, contra o tempo. Vez ou outra tinha rixa de vizinhos. A perpetuação da sina que era insustentável por aqui.

Partissem em outra época e vida que tenho hoje melhor seria. Pois que chegando por lá e luta era outra. Contra a governação. Distanciamento. Resignação, nunca. Amizades que fizeram eram boas, mas o descontentamento geral bateu também em seu corações.

Muita gente. Gente de pensamento. Aglomeração. Soldados. Cavalaria. Armas. Medo. Assassinato. Violação. Nisso tudo juntaram meus filhos, os dois. Nem comunistas eram, nem em partido eram filiados. Mas, escreveram livros. Gritaram a agonia do nosso povo. Depois disso, nunca mais. Nunca mais!

Que tempo de consternação, já perdura uns 35 anos. Desaparecidos. É como disseram a este velho sertanejo que sucumbe desse mal sem descrição. Incompreensão.

Isso é tristeza. Saudade. Velasse seus corpos e sossegaria. Pois se vivo é porque não tenho ainda paz pra morte.


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Sob pseudônimo de Seu Januário Eurípedes

sábado, 10 de novembro de 2007

Convidado: Bruno Guedes Souto

Lembranças...

Lembrança
Pertinência do viver
Lembrar, mas desconhecer do contrário
Sentir o passado como presente
Temer um futuro arbitrário

A enxurrada te abate
Na escuridão voce busca aquilo que teve um dia
Que pensou que sempre teria
Sempre ele
O Sempre

Que não deveria ter sido dito nunca
Ler e reler palavras que não serão repetidas
Jamais serão re-escritas e muito menos ouvidas
Sendo a última, o martelar do prego da rejeição
Que rasga o escudo da alma sem perdão

Desejos ocultos
Sonhos reprimidos
Passagem negada por aqueles ouvidos
A corda do silencio me sufoca
Por isso eu me calo
Enquanto as pedras falam

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Mini biografia: Bruno Guedes Souto é formando em engenharia da computação e aproveita para escrever nas horas vagas ou insones. Fundou o atualmente parado projeto shadowpath.org para compartilhamento de poesias melancólicas e também escreve artigos de astronomia amadora no blog que mistura tudo http://bitoflove.blogspot.com/

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

A Maldita Pele


Sérgio Alcazar era um virtuose do piano. Um prodígio aos 15 anos, talento consolidado às portas dos 30. Tinha o mundo da música erudita aos seus pés. Catalizara fama, prestígio e um certo conforto que os dois primeiros ajudaram a conquistar. Sérgio era quase feliz. Faltava-lhe o amor de Lucinha.
Sérgio tinha fimose, aquele odioso excesso de pele a cobrir-lhe parte da glande, dando ao seu membro permanente aspecto de uma tromba de elefante. "Maldita pele, maldito mundo", praguejava com freqüência diante do piano de calda após exaustivas horas de prática refinando a já apurada técnica de concertista. Praticar, sempre praticar. Assim fora desde a infância por imposição de sua mãe. Ao menos ela podia ter-lhe examinado a pica uma vez na vida. Esta atitude materna o teria livrado de certos constrangimentos.
Quando adolescente, batia-lhe vergonha no vestiário após as aulas de educação física, quando trocava de roupa às escondidas, temendo ser vítima de chacotas dos colegas de classe. Também não tinha coragem de contar a mãe ou a pai que aquilo o afligia, se bem que, os dois estavam mais preocupados em transformá-lo em um fenômeno da música clássica, mesmo que ele nada tivesse entre as pernas, um assexuado. Bastavam-lhe as mãos para deslizar sobre as teclas do piano e garantir o sustento da família. Com o tempo ele descobriu que seu problema se resolveria com uma cirurgia, contudo, o pânico da operação aliado a vergonha de passar ridículo perante amigos, familiares e o grande público o impediam de consultar um urologista.
Sua tromba o afastou das meninas por toda a adolescência até que um dia, beirando os 20 anos, resolveu ser hora de testá-la. E o fez em grande estilo, em Amsterdã, durante uma folga do conservatório de música onde estudava em Berlim. Escolheu a puta mais bonita que as vitrines do Red Light Distric exibiam, pagou e subiu uma escadinha, com sua cara quase a tocar a bunda holandesa rebolando a sua frente.
— O garoto é virgem? – perguntou a prostituta em inglês impecável.
Como resposta, Sérgio exibiu o falo defeituoso.
— Pra tudo há um jeito – sorriu a mulher maliciosamente.
Sérgio deixou os Países Baixos ao menos sabendo que sua bendita pele não o impedia de exercer as artes da fornicação.
E passou dez anos entre sustenidos, claves de sol, partituras, pianos de calda e putas. Elas ao menos não o questionavam sobre sua condição. Receberiam seu cachê e pronto. Junto a elas não existia vergonha.
Foi apresentado a Lucinha após um concerto no Teatro Municipal do Rio. Naquela noite extenuara-se ao fim de brilhante execução do Concerto nº 3 para piano e orquestra, de Rachmaninoff, obra que poucos ousavam tocar devido a sua complexidade. Desejou ser breve, atendendo àqueles que vieram cumprimenta-lo quando ela surgiu no camarim trazida por uma amiga de um amigo de outra amiga. Dona de penetrantes olhos verdes e sorriso acuringado, pele de porcelana e brilhantismo a cada frase dita, Lucinha deixou Sérgio fortemente impressionado. Ela pediu um autógrafo. Levou mais do que uma assinatura em um pedaço de papel. Nele continha o telefone do grande pianista. Sérgio custou a acreditar em sua própria ousadia, afinal, era um tímido, misantropo, expressava-se com certa dificuldade. O interesse avassalador que Lucinha nele despertara o fizera audacioso.
Lucinha ligou na manhã seguinte. Marcaram um almoço que se estendeu por toda uma tarde. Descobriram afinidades mútuas. Sérgio ficou a escutar, embasbacado, algumas da aventuras da moça no campo da antropologia, sua profissão. Despediu-se no fim do almoço já apaixonado.
Sérgio precisou viajar para Londres para cumprir uma agenda lotada de apresentações. Pelo celular Lucinha ouviu sua declaração de amor. Combinaram um encontro mal ele pusesse os pés no aeroporto.
O reencontro assemelhou-se a uma seqüência romântica de um clássico cinematográfico. Os que presenciaram a cena no terminal internacional do Tom Jobim, viram um casal de poucas palavras e muitos afagos, Sérgio, que não dirigia, foi caroneado por Lucinha até o estacionamento de sua cobertura na Barra da Tijuca.
Foram se despindo em gestos coreografados enquanto penetravam os aposentos até se encontrarem completamente nus em um dos cinco dormitórios da imóvel. Lucinha, demonstrando audácia fêmea, ajoelhou-se diante de Sérgio para presenteá-lo com um oral preliminar. Ao notar o prepúcio avantajado do músico a estreitar-lhe a glande, desistiu do ato, indo sentar na cama king-size que dominava o quarto.
— O que houve? – perguntou o pianista enquanto acariciava suas costas nuas.
— Fimose, Sérgio? Na sua idade?
O jovem concertista percebeu a decepção entranhada na voz da amada. Tentou explicações, falou dos pais em nada zelosos durante a infância, da timidez excessiva a retardar-lhe um tratamento, da prostituta na Red Light Zone e seu pleno funcionamento sexual, a despeito da fimose, mas nada demoveu Lucinha.
— Escuta aqui, cara – agora havia certo ressentimento em sua voz – uns anos atrás conheci um sujeito com um “defeitinho” igual ao seu. A dele até se rompeu durante uma transa. Jorrou sangue para tudo é lado, eu acabei “operando” a criatura, mas as lembranças com ele não foram das melhores. Lamento, estou fora.
E foi catando suas roupas, se vestindo a cada peça encontrada. Parecia um daqueles filmes rodados de trás para frente, tanto que, à porta principal da cobertura ela já se encontrava composta. Sérgio seguiu seu passos nu, coberto apenas de argumentos e desculpas.
Ao se deparar sozinho, abandonado na luxuosa cobertura Sérgio baixou o olhar em direção ao membro focando sua única companheira fiel por toda a vida: a odiosa fimose. Gritou a plenos pulmões, um grito de raiva, desabafo, mágoa contida.
Quebrou vários objetos da sala. Jogou do alto da cobertura uma TV de 42 polegadas, tela plana. Foi manchete no dia seguinte na seção de escândalos de celebridades do principal jornal carioca pela chuva de coisas que caíram do imóvel de sua propriedade.
Naquela mesma semana, apresentou-se no Ópera de Arame, em Curitiba. A crítica especializada aplaudiu em frenesi a peculiar execução de Sérgio Alcazar para a série de Noturnos de Chopin, onde o concertista, dotado de assustador vigor e certa virulência, parecia transtornado ao piano. “Um Mozart em delírio interpretando Chopin”, escreveu um crítico em um jornal curitibano. Mal desconfiavam ser o ódio entranhado misturado a decepção amorosa a guiarem os dedos que impulsionavam o teclado com ferocidade, maltratando Steinway de calda.
Sérgio deixou o Brasil disposto a livrar-se de vez da infeliz pele. Tomado por desconhecida atitude, algo que sempre lhe era escasso, estudou durante semanas na internet os prós e contras da postectomia. Sentiria alguma dor no pós-operatório em virtude de ereções noturnas involuntárias comuns a qualquer homem sadio mas nada que um bom analgésico não desse conta. Os pontos cairiam por si só e, em aproximadamente um mês, poderia voltar a ter relação sexuais.
Consultou o melhor urologista de Nova York, que repetiu com enfeitados detalhes o que ele já havia exaustivamente pesquisado na grande rede. Dr. Jarvis carregava em sua fisionomia um fac-símile de Mahatma Ghandi, fato que transmitia tranqüilidade a Sérgio. Já que iria entregar seu pau a algum açougueiro, que fosse um que lhe passasse total segurança. Dr. Jarvis, com aquela cara de líder espiritual, parecia mais inofensivo que um bicho-preguiça dormindo. Era como se deixar aos cuidados do próprio Ghandi.
A operação poderia ser feita no próprio consultório, com anestesia local, em menos de uma hora com o paciente voltando para casa em seguida.
— Fácil como arrancar um dente – sorriu Dr. Jarvis de maneira quase angelical.
Sérgio optou por anestesia geral e recuperação dos primeiros dias em um hospital. Afinal, dinheiro servia para lhe poupar eventuais desconfortos.
Chegado o dia D, deitado da cama da sala de cirurgia, Sérgio ainda conseguiu encarar pela última vez o membro encapado pelo prepúcio. “Bye, bye, infeliz”, foi o seu último pensamento antes que a anestesia geral o desligasse do mundo.
Acordou sobressaltado em virtude a injeção de adrenalina ministrada. Disse coisas inimagináveis e destituídas de razão, assoviou sinfonias e confundiu Dr. Jarvis com o próprio Mahatma. “Não és primeiro a dizer tal coisa”, brincou o cirurgião enquanto o tranqüilizava.
Assim que recuperou o controle, Sérgio notou-se sozinho em seu quarto no hospital. Sentindo alguma dor, puxou o lençol que o cobria para contemplar a obra de Dr. Jarvis. Viu o membro inchado, enfaixado e apenas a ponta da glande a mostra. Sentiu-se mais aliviado. Ao menos tudo parecia correr bem.
Durante os dez dias de internação, permaneceu aos cuidados de Patrick Jonhson, um enfermeiro negro e parrudo como zagueiro de futebol americano. Jonhson era cantor de rap nas horas vagas e nunca tinha ouvido falar do seu paciente. Sérgio havia optado por um enfermeiro homem. Não queria que eventuais traseiros femininos zanzando em seu quarto metidos em jalecos apertados fossem atrasar sua recuperação.
— Ninguém vem visitá-lo, Mr. Alcazar? – perguntou o ciclope de ébano enquanto fazia a assepsia do membro operado.
— Minha família não sabe que estou aqui, Jonhson. Pensam que estou de férias em alguma ilha do Pacífico.
O negro largou uma gargalhada tsumânica.
Em quatro semanas estava recuperado, de membro novo, glande reluzente, exposta.
Agora, reencontraria Lucinha.
Foi direto do aeroporto para a casa moça. Tocou o interfone. Uma voz masculina atendeu. Calafrio.
— A Lucia, por favor.
— Não mora mais aqui.
— Deixou endereço?
— Não propriamente. O senhorio disse que ela foi passar um ano pesquisando os costumes de uma tribo lá no Alto Xingu. A moça é antropóloga, não?
— Puta merda!
— Qual é, cara? Me acorda às cinco da manhã e ainda fica falando palavrão? Vai se fudê, seu filha da puta! Se tocar de novo eu chamo a polícia ou desço para lhe quebrar a cara, ô caralho!
Foi para casa chorar sua falta de sorte. Dormiu à base de calmantes. Quando a tarde caiu, deixou a cobertura para embebedar-se. Acordou em uma cama desconhecida com uma ressaca demolidora. Ao seu lado, uma morena esculturalmente nua repousava. Reconheceu-a pela tatuagem tribal na altura do cóccix. Sua garota de programa predileta em terras cariocas.
Ela se virou de lado, esfregou os olhos e sorriu dentes alvos enquanto despertava.
— Que surpresa agradável hein maestro? Estreou a batuta nova comigo?
Aurélia, codinome Úrsula, sempre o confundia com um maestro.
— Mas, correu tudo bem? Não consigo me lembrar.
— Também né? Na beba que tu chegou aqui no apê.
Abraçou-o carinhosamente, aninhando-se no seu peito
— Foi muito gostoso, maestro.
— Primeira trepada depois da cirurgia e eu não consigo lembrar como foi – lamentou o pianista.
— Não seja por isso querido, disse ela montando em Sérgio. Temos o dia todo para você descobrir...
Depois deste ocorrido, Sérgio voltou a sua rotina de viagens e concertos Esquecera por completo o fiasco com Lucinha. Até que um certo dia, quando estava em sua cobertura, recebeu interfonema da portaria avisando que a antropóloga desejava subir.
Um misto de aflição e surpresa o assaltou. A paixão pela moça dos olhos verdes como águas límpidas de um lago paradisíaco deixou seu estado latente, percorrendo todo seu corpo feito uma corrente elétrica. Seu coração, acelerado, recebera a voltagem.
Abriu a porta feliz, ansioso. Lucinha em quase nada mudara. A não ser a pele um pouco mais curtida e uma pena indígena a decorar-lhe a orelha esquerda em forma de brinco, era a mesma mulher que o impressionara no primeiro encontro no camarim do Municipal.
Ele beijou-a na face esquerda. Ela entrou, sentou-se no sofá e perguntou pelas novidades. Sérgio teve vontade de arriar as calças e gritar “surpresa!”, mas conteve-se.
Ele sentou-se ao seu lado. Falou dos concertos. O que mais dizer? Que sofrera por ela, até mutilara-se em nome do seu amor, apesar da humilhação que ela lhe infligira? Que vinha copulando feito um fauno com prostitutas pelo mundo afora para esquece-la? Tudo isto ficara para trás. O que importava era o agora, a reconciliação.
Lucinha tocou seu braço direito, acariciando-o
— Sabe, Sérgio, fui preconceituosa em relação ao seu problema. Na verdade, nem deveria chamá-lo dessa maneira. Em minha estada no Xingu, vi índios portentosos com prepúcios gigantescos, alguns até com fimose mais acentuada que a sua. E eram amantes fabulosos! Não posso negar que me deitei com um ou dois. Espero que você me desculpe pois na época já não estávamos juntos. Hoje, sou fã de um prepúcio, acho que não posso passar sem. E melhor ainda se for o do homem que amo, não é verdade? Me aceita de volta?
Um par de lágrimas raivosas brotou dos olhos do pianista. Lucinha, ingenuamente, creditou-as a emoção produzida pela reconciliação iminente.
Livremente inspirado em um excelente e pouco conhecido conto do Sacerdote intitulado "A Bendita Pele". Com o seu consentimento, usei a personagem Lucinha.
Link para o conto abaixo

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

O chiclete, a formiga e o motoqueiro




Um chiclete largado na calçada, coberto de formigas.
A segunda coisa em que pensei, enquanto ia para o carro, foi: “Como será que a formiga lida com o chiclete, quando chega ao formigueiro? Será que essa maçaroca não gruda no ferrãozinho dela? E aí vem outra ajudar – e também fica presa? E puxa uma daqui, outra dali, tentando se soltar, e vem mais outra formiga para ajudar, e em pouco tempo uma teia pegajosa de fios cor-de-rosa prende dezenas de valentes soldados do formigueiro?”

Mas, se isso não acontecer, se conseguirem estocar a guloseima na despensa do formigueiro... como será depois, no inverno, quando forem comer o chiclete armazenado? Ficarão grudadas 'por dentro'?

Pois é; tive tempo para pensar em diversas possibilidades, porque sempre estaciono meio longe, a uns dois quarteirões de distância de onde pretendo ir. Em parte porque faço questão de estacionar na sombra, e por isso rodo até encontrar uma árvore bem copada. Mas também porque é um modo prático de driblar o sedentarismo a que o microcomputador nos obriga. E ainda porque não gosto de 'contratar os serviços' dos flanelinhas e gosto menos ainda de deixar meu brinquedo em estacionamento.

No meio do caminho, com meus pensamentos formigais, empaquei. Pensei: será que não estão grudadas no chiclete? A curiosidade me fez voltar até onde estava a bolota cor-de-rosa. Arranquei um galhinho de um arbusto e aproximei-o devagar do ajuntamento de formigas. Todas fugiram, assustadas, ainda antes que as folhas as tocassem. Todas menos uma. Essa tinha, sim, ficado presa. E eis que uma das formigas fugitivas volta até a prisioneira.

Não fez nada, limitou-se a ficar girando em torno da pequena vítima, enquanto levava as ‘mãozinhas’ à cabeça, repetidamente. A imagem do desespero.

Poucas horas depois, assisti a um acidente na rua Augusta.

O ônibus que ia à minha frente parou para dar passagem a um Vectra, que saía de ré do estacionamento de uma loja. Um motoqueiro, que ia à esquerda do ônibus, ultrapassou-o e foi colhido pelo motorista do Vectra, que não poderia tê-lo visto antes. E que saiu do carro atarantado, levando as mãos à cabeça, exatamente como a formiga fizera. E como fiz eu, que vinha atrás do ônibus.

Enquanto o segurança da loja se comunicava por rádio com os serviços de resgate, o atropelante girava em torno do atropelado, sabendo que não devia movê-lo. Desesperado como uma formiga.

Que pobreza de repertório no nosso gestual. Quer esqueçamos os documentos em casa, quer matemos alguém por um desvio do destino; quer sejamos humanos, quer sejamos formigas, tudo que nos ocorre fazer diante de uma tragédia é levar as mãos à cabeça. Não deveria haver uma gradação? Gestos que mostrassem os vários níveis do desespero?

... Que falta de imaginação por parte da natureza!