sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Sobre pesos, desenhos infantis, prumo e o Natal


O fim do ano é, para alguns de nós, uma época pesada. Mais do que todos os compromissos, é o peso. Os pesos que acumulamos não apenas ao longo do ano, mas ao longo dos anos.

Não é o peso das contas, das noites de sono perdidas, do excesso de trabalho, do salário que poderia ser maior. Também não é sobre o mês de dezembro e a sua predisposição ao caos e ao desastre, com a confraternização da firma, o amigo-oculto dos amigos, o amigo-oculto da família, o amigo-oculto da turma de 1997, a festa de Natal, a festa de ano novo, as compras, o shopping lotado, as férias, o planejamento das férias. Não é nada disso.

Não é o peso do ano. É o peso dos anos. É o peso de quem foi, do que não foi, do que poderia ser, de quem deveria estar e não está. A virada do calendário traz a renovação e, com ela, vem a análise. Com a análise, as lembranças. O que nos leva ao tal peso.

É nesse ponto que está a origem daquele sentimento de tristeza diante do fim do ano. É disso que os que não estão por aí saltitando felizes como se fossem figurantes de um musical nessa época de festas falam.

Na verdade, não é bem tristeza. É uma melancolia que a gente sente pesando, ainda que nem sempre saiba explicar na hora. Não é ódio ao Natal ou ao Réveillon. Não é trauma por causa de um presente não recebido. Também não é o arroubo de rebeldia do jovem que resolveu desafiar as convenções sociais e não estar feliz nesta época do ano. Esse poderia discutir a concepção de Maria na mesa do jantar ou colocar uma camisa preta no dia 31.

O peso é outra coisa. É o peso legítimo da piada que não foi feita na mesa de jantar, na hora da ceia e que jamais será feita outra vez. Ao menos, não da mesma forma, com o mesmo tom. É o peso dos encontros que sempre parecem despedidas. É o sonho com o rosto que vai se apagando lentamente.

Como borrões. Sim, borrões na memória, no olhar perdido sentado na mesa imensa, ou minúscula, na rede pendurada na varanda no início da noite quente na casa da infância. Borrões das fotos apagadas pelo tempo. Ou pela umidade. Do papel manchado pela água, pelas gotas, derramada, derramadas, ou simplesmente a marca do copo suado.

O peso do fim do ano, das festas, é o peso das lembranças, coisas com as quais nem sempre é possível lidar. Ou sequer se quer lidar.

Acontece que peso pode ser também prumo. E as lembranças uma espécie de quilha sentimental, própria, original. Como pequenos desenhos feitos com as canetinhas do cérebro, como os desenhos infantis, meio tortos, com sóis sorridentes e árvores flutuantes.

E, como os desenhos infantis, são lindos em um contexto muito específico. Depois, viram um envelope guardado na prateleira, um volume que não deixa fechar a gaveta do armário. Um peso.

Até que um dia, sempre chega um dia, se vai, não há mais espaço pra ele. Ao menos, não para todos. E se salva um. Dois, três. Que vão para outros lugares, que são redistribuídos, reordenados, até redescobertos, reorganizados em meio ao caos, não só do ano.

Que possa ser assim com outros envelopes, pastas, com outros pesos. E talvez uma boa hora pra esse dia de faxina possa ser em dezembro.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Desesperança


Haviam começado o namoro há pouco tempo. Sorrisos, bicos, charmes e birras; Apelidos fofos e juras de amor.

Foi quando ele escreveu a carta de despedida, com a certeza de que a entregaria em breve. Sabia até os motivos da separação, tinha tudo anotado, explicado, em palavras friamente selecionadas.

Nunca teve a chance de entregá-la.

sábado, 19 de dezembro de 2015

Sábias Palavras

Arnaldo chegava sempre cedo à faculdade devido ao horário do ônibus. Calouro em seu curso, além de uma pessoa tímida, Arnaldo se habituara a sentar em um banco que dava de frente para um matagal, dentro do próprio campus, para dar ‘aquele tempinho’ antes de sua aula iniciar. Por mais de uma vez, Arnaldo percebera um senhor próximo a ele, fumando calmamente um cigarro, com um semblante de tranquilidade. Arnaldo reparou também que este senhor sempre tinha o maior cuidado em apagar o cigarro e em colocar sua bituca numa pequena caixinha de fósforos. Mesmo parecendo uma pessoa extremamente afável, Arnaldo era muito reservado para puxar uma conversa, além de detestar o cheiro de cigarro.
Com o passar dos dias, Arnaldo foi gostando mais e mais de sentar naquele banquinho. Havia alguns universitários andando por ali, mas ninguém de sua turma. E, volta e meia, aquele senhor estava ali, mantendo o seu ritual tabagista. Arnaldo já havia pensado “Que vício maldito. Ainda bem que não gosto desta porcaria!”. Até que um dia, ao passar por Arnaldo, o senhor disse:
- Boa tarde, meu jovem. Tudo bem com você?
Arnaldo sentiu pelo calor que suas bochechas tinham avermelhado, mas respondeu brevemente:
- Sim, sim.
- Então, não pude deixar de reparar que você faz Administração de Empresas aqui na faculdade. É um curso prestigiado aqui, garoto.
- Sim. Fui o terceiro no vestibular em minha sala.
- Meus parabéns. Qual o seu nome, a propósito?
- Arnaldo, senhor.
- Deixa disso, não me chama de senhor não. Não tem necessidade disso.
- Como posso chama-lo?
- Caio, apenas Caio.
Após o primeiro encontro, a conversa entre os dois começou a fluir. Quase como um ritual, Arnaldo chegava meia hora antes de sua aula e encontrava o seu Caio lá, no mesmo lugar de sempre. Uma das primeiras perguntas feitas por Arnaldo foi esta:
- Seu Caio, por que o senhor sempre vem fumar aqui?
- Bem Arnaldo, venho até aqui pelo espaço verde que está a nossa frente. Venho também, pois, este é o único cigarro que fumo ao longo do dia. Como não gosto de deixar cheiro de nicotina em meu apartamento – e minha senhora, que não fuma, gosta menos ainda – venho até aqui para estar perto do verde, e para ver os jovens chegando neste ambiente universitário.
- Mas... hum...
- O quê? Pode perguntar, sem problemas...
- Já que o senhor só fuma um cigarro por dia, por que não para logo?
- Ótima pergunta, Arnaldo... Bem, já fui um fumante compulsivo por muitos anos, daqueles de fumar um maço e meio por dia. Claro que passei a ter problemas de saúde devido ao vício, e tive que parar.
- E o senhor voltou, então?
- Sim. Mas veja bem. Hoje, consigo ficar sem fumar. Nos finais de semana ou em minhas viagens, por exemplo, nunca fumo. Quando estou aqui na cidade, faço isso como um ritual. Mas faço de cabeça leve, sem me preocupar. Apenas pelo “prazer” em fumar. Acho muito prazeroso, quando se está de bem com a vida, fumar um cigarro para meditar. Fui criado vendo filmes clássicos dos anos 40, com Humphrey Bogart sempre carregando um cigarro no canto de sua boca. E as atrizes, todas elas belas, fumavam também. Hoje está provado por A mais B que o cigarro é muito maléfico à saúde. Como o álcool, as drogas, o sal e o açúcar também são. Não uso droga nenhuma, mas de vez em quando bebo um pouco. Também como sal, com bastante moderação, e gosto de doces, apesar de evita-los ao máximo. Procedo mais ou menos assim com o cigarro.
- Hum... – Arnaldo se despediu de Caio, e refletiu no que seu novo amigo lhe disse. Mesmo tendo uma opinião totalmente contrária ao tabagismo, Arnaldo entendeu o ponto de vista de Caio, e passou a compreender o porquê de ele fumar.
Com o passar dos dias, os bate-papos foram ficando cada vez melhores, e Arnaldo também começou a se abrir mais para Caio e também a perguntar a opinião deste senhor, que parecia saber muito sobre a vida. Com pouca experiência prática na vida, e deparando-se com a correria cotidiana moderna, Arnaldo pensava para si um futuro um pouco melhor que o de seu pai e de sua mãe – ambos trabalhadores dedicados, honestos, mas que pouco fizeram ou conheceram da vida, pois do tanto de dinheiro que acumularam, investiram nele, Arnaldo. Seria isto mesmo que Arnaldo queria da vida?
- Seu Caio, sei lá... Às vezes penso em fazer diferente... Ir para fora do Brasil, viajar por outros países... Mas me parece um sonho distante... Muito aventureiro, sei lá. Não sei se tenho esse perfil...
- Arnaldo, você é bem novo, não? Quantos anos você tem, dezessete, dezoito?
- Fiz dezoito no mês passado.
- Sim... Vejamos. Você pode votar desde os dezesseis. Pode dirigir também; e já está na Faculdade, sinal de que escolheu o seu curso, certo?
- Sim. Tinha dúvidas entre Administração e Ciências da Computação até me decidir.
- Pois, todas estas coisas que você já pode fazer dependem de sua decisão – só o tempo dirá se estas decisões foram certas ou erradas. Para algumas coisas, temos de decidir muito jovens como, por exemplo, escolher o futuro profissional. Muitos ainda não têm certeza do que querem fazer da vida. Quanto a votar, a definição de maioridade não passa de puro oportunismo dos governantes deste país; já dirigir, esta me parece a decisão mais acertada de todas, apesar de que o jovem deve ter muita prudência ao assumir o volante, uma vez que sua vida e a de outros está em jogo. A propósito, não tenho um carro há mais de quinze anos...
Neste momento, um pensamento ligeiro passou pela cabeça de Arnaldo: seria seu Caio um senhor de limitados recursos, talvez apenas sobrevivendo com uma ninharia de aposentadoria do INSS? Mas ele andava bem trajado, tinha classe ao falar...
-... Não que eu não goste de automóveis – completou Caio - Acho-os, na verdade, cada vez mais lindos e modernos.
- O senhor não tem mais condições de dirigir?
- Aparentemente, tenho totais condições. É uma opção de vida mesmo.
- De vida? – Arnaldo parecia não entender, pois ele, agora que dependia de ônibus para ir para cima e para baixo, queria muito ter um carro.
- Sim, de vida, Arnaldo. Isso tem muito a ver com “tomada de decisões” na vida. Meu caso foi que, ao me aposentar, após trinta e poucos anos de trabalho, passei a dar valor a outras coisas da vida; como viajar, por exemplo.
- O senhor já viajou muito?
- Mês que vem estaremos, eu e minha senhora, conhecendo nosso sexagésimo país.
- Puxa... – Arnaldo ficara boquiaberto.
- Como eu ia lhe dizendo, perto da aposentadoria tive alguns problemas de saúde que me ajudaram a refletir na vida que eu levava. Não era, nunca foi uma vida ruim, mas eu apenas a levava: do trabalho para a casa, de casa para o trabalho. Sustentei e dei estudo para três filhos, melhorava a nossa casa aos poucos, a cada três ou quatro anos saía da concessionária com um carro zero... mas não aproveitava a vida. Como neste momento, agora: vendo a natureza, respirando, meditando. Fazendo novos amigos para bater um papo. Não. Eu apenas me dedicava ao trabalho e ao conforto de meus familiares, pois me considerava o provedor, aquela coisa já ultrapassada de que o homem tem de prover os recursos para sua família, etc...
- Sua esposa nunca trabalhou?
- Por minha insistência, não. Que cabeça a minha... Isto quase acabou com a nossa relação, tempos atrás.
- Me desculpe... – disse Arnaldo um tanto constrangido.
- Que é isso, não se desculpe não. Isto serviu para eu mudar de opinião, e hoje levamos uma vida maravilhosa. Ela, a propósito, dá aulas de piano em nosso apartamento todas as tardes, e é muito feliz com isso.
- E os sessenta países?
- Ah, despertei sua curiosidade então, Arnaldo... Bom, isso é bom. Para você que pensa em sair mundão afora, a único conselho que lhe dou é: ouça o seu coração, em primeiro lugar. Veja bem, estou lhe dando este conselho antes mesmo de te dizer das maravilhas que cada viagem me proporcionou, das inúmeras pessoas diferentes que conheci, que conversei, que fiz amizade. Por quê? Pois, especialmente quando se é novo, a gente dá muita importância para o que os outros nos dizem. Geralmente, crescemos condicionados pelos modelos de pensamento que nossos pais, ou que pessoas ao nosso redor nos dão. Comigo foi assim, com minha esposa também... Meus filhos tinham princípios iguaizinhos aos meus e de minha companheira... Mas você precisa, num momento como este, estando junto da natureza, podendo ouvir o som dos pássaros, escutando a água de um riacho correr por entre as pedras, neste momento em que a buzina dos carros e ônibus não desviam a sua atenção, nem as mensagens em seu smartphone te chamam o tempo todo – é nesta hora que você deve tentar ouvir a voz do seu coração. Aí você tem de ser você mesmo Arnaldo, quem você é, e pensar no que você gosta, na sua própria vida e se perguntar: que vida eu quero para mim? O que eu gosto de fazer? O que eu realmente gosto de fazer?
- Entendo...- Arnaldo ouvia Caio de olhos bem abertos.
- Foi me questionando que decidi por viajar, no mínimo, quatro vezes por ano. Sabe que só fui refletir e meditar sobre isso dentro de um quarto de hospital, quando sofri um princípio de enfarte alguns anos atrás. Ainda bem que não era a minha hora, pois se fosse, não teria tido esta chance de começar a conhecer este mundo maravilhoso em que vivemos.
- Uau... Me conte mais... Sobre os países que você foi, ou, sei lá, qual deles você mais gostou... – Arnaldo estava nitidamente impressionado.
- Antes de nossa próxima viagem, vou lhe mostrar minhas caixas de sapato.
- Como assim? – nessa Arnaldo boiou.
- Não vou lhe vender sapatos, não se preocupe não. É que costumamos guardar nossas fotos em caixas de sapatos antigas; prefiro falar e lhe mostrar as fotos de onde estive, para lhe dar ideias de onde poderá, quem sabe, ir também.
- Mas como você vai trazer estas caixas para o campus?
- Não vou. Você é meu convidado para ir até a minha casa, tomar um bom café passado por minha senhora, dona Matilde, e ver minhas fotos. Isto é, claro, se você puder e se quiser, meu jovem.
Arnaldo aceitou o convite de bate-pronto. Então eles marcaram uma data, que seria já na próxima semana, haja vista que Caio e sua esposa Matilde iriam conhecer o deserto da Namíbia, na África, em questão de duas semanas. Arnaldo se sentia motivado de uma maneira diferente, sentindo ao mesmo tempo um friozinho na barriga, mas uma sensação boa, de paz e tranquilidade que o fazia, por momentos, esquecer da pressão do dia-a-dia, do novo trabalho como estagiário, de pegar o busão lotado todo santo dia, dos trabalhos maçantes de faculdade. Repentinamente, parecia que a sua vida tinha outro valor quando ele aplicava estes pensamentos (ou seriam ensinamentos?) a ela. Até onde isto iria, Arnaldo ainda não sabia. Talvez naquelas velhas caixas de sapato, daquele velho senhor que gostava de fumar um cigarrinho ao fim da tarde, estivesse o começo de uma vida nova para Arnaldo, repleta de emoções, aventuras e descobertas por vir...

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Mondrique

Durante a execução do seu número, Mondrique mal se permitia disfarçar a tensão. Ela estava lá, a congestionar-lhe as feições, perturbando sua performance no picadeiro. Havia errado um truque, mas o respeitável público daquela cidade interiorana perdida no mapa brasileiro parecia alheio à apresentação e não notou seu equívoco quando um coelho saiu sorrateiramente da manga de seu smoking no lugar de um baralho com 52 cartas. Coelhos saem da cartola, resmungou o mágico enquanto mirava sua partner, Reginalda, também tensa em virtude dos acontecimentos que em poucas horas iriam se concretizar. Enfiada em um sumário maiô coberto de paetês, Reginalda fazia caras e bocas mal ensaiadas para o pequeno público que fora prestigiar o Gran Circo Continental na falta de melhor entretenimento naquela cloaca de mundo onde viviam.
Não era bem verdade que os espectadores da última noite em que o Gran Circo Continental se apresentaria estavam totalmente displicentes em relação ao espetáculo. Havia alguém, o delegado da cidade, que aplaudia freneticamente cada trejeito de Reginalda. Também pudera. Ela aceitara o convite para permanecer na cidade, tornando-se amante clandestina do agente da lei com casa, comida e um par de trepadas semanais tão logo o circo baixasse suas lonas. Mondrique estava desgostoso. Jurara amor eterno à Reginalda e não esperava tão sórdida traição. Como descobrira? Mais do que mágico, Mondrique era dotado de poderes sobrenaturais e a arte da adivinhação era somente mais um deles.
Poderia fulminar o casal adúltero por intermédio do seu olhar de seca pimenteira. Já havia experimentado em certa ocasião, não com pimenteiras e sim com um vira-lata que ousara avançar em sua canela numa madrugada perdida no tempo quando fora esticar as mesmas depois de uma apresentação em outra cidade. O pobre cãozinho trincou os dentes, estrebuchou e literalmente caiu duro em questão de segundos. O próprio Mondrique espantou-se com tamanho poder e com o tempo aprendeu a controlá-lo e, sobretudo, não o utilizar em contendas ou descontentamentos. E era esse agora o caso.
Maldita clarividência, pensou enquanto agradecia ao público com uma mesura. Despossuído dela sofreria tão somente o momento da perda e não a certeza ansiosa da véspera. De pouca serventia era aquele talento, visto que raras vezes algo de bom para a sua vida ele previra.
Um super homem que ocultava seus super poderes para melhor viver entre os pobres mortais, assim se sentia Mondrique. O povo preferiria as mágicas inocentes. Caso levantasse um cadáver, que pandemônio não causaria! Seria considerado um deus, ou um diabo. Em qualquer dos casos, certamente desgostos e aborrecimentos teria ele aos borbotões.
O pequeno trailer que divida com Reginalda possuía dupla função de dormitório do casal e camarim. Noites de amores ardentes e preparativos para o espetáculo onde Juvêncio se transformava no grande Mondrique, maior mágico do planeta, nas palavras do mestre de cerimônia do circo, aquele apertado trailer havia testemunhado. O nome de fantasia fora chupado e adulterado de um mágico das histórias em quadrinhos ianques. De início sabia que Reginalda por ele nutria um amor sincero, afinal, Mondrique tudo descobria de sentimentos humanos. Um aperto de mão, um abraço, um simples toque em um fio de cabelo ou a intimidade do coito, o mínimo contato corporal e lá estava o mágico roubando os segredos alheios. Com o tempo, aquela faculdade de Mondrique revelou  o tédio da amada, indiferença, desprezo, até culminar pelo interesse de Reginalda pelo delegado e seu projeto de lhe abandonar. Ao menos algum plano para eliminá-lo ou algo parecido Mondrique não captara nos cada vez mais escassos contatos corporais com a futura ex-mulher. Revolta e conformismo acabaram por se digladiar dentro de suas ideias. Que ela fosse, ou melhor: ficasse na cidade.
Quando ele entrou no trailer, Reginalda já lá se encontrava. Retirava a maquiagem. Ela se assustou como uma criança pega em travessura.
– Fez as malas? – ele perguntou.
– Que malas? A gente leva tudo dentro do vagão mesmo – gaguejou a partner sem conseguir disfarçar a surpresa.
– As malas que o puto do delegado passará aqui para pegá-las ou você iria fugir escondida feito um rato que se esgueira pelos esgotos?
Quando Reginalda se foi, Mondrique decidiu que mulher alguma valeria o sacrifício de seu amor. Nunca mais se apegaria a rabos de saia, rachas ou jogos de seduções femininas. Para ele, bastavam agora as quengas das casas de tolerâncias instaladas nos arredores das cidades por onde o Gran Circo Continental aportasse. Haveria até dividendos: a cada toque recebido ou dado em uma mulher da vida já saberia de antemão o que ela pensava a seu respeito. Muitas vezes, interrompia o encontro ou perceber que por ele algumas damas de bordéis sentiam asco enquanto fingidamente gemiam espremidas entre o corpanzil do mágico e os lençóis fedendo a amores clandestinos. Pagava a cafetina e voltava para o seu trailer sem mais explicações. Nessas ocasiões, tornava a resmungar: maldita clarividência.
Certa ocasião, quando o circo estava armado em um lugarejo perdido no sertão nordestino, algo inusitado ocorreu. Mondrique, após o espetáculo onde se utilizou de maneira sutil dos seus reais dotes de levitação, com certo cuidado para que parecesse um mero truque de ilusionismo, sentiu necessidade de uma mulher para se aconchegar. Como sempre, perguntou de forma discreta a algum homem das cercanias onde estava instalada a zona da cidade. Informações tomadas, rumou para o casarão na outra margem do rio. Puteiro das antigas, com ares de cabaré, shows de moças quase peladas rebolando no palco e uísque de má qualidade servido. Nem bem havia se alojado atrás de uma mesa solitária, uma ruiva de vestido curto exibindo coxões alvos e colo sardento explodindo pelo decote acentuado, sentou sem cerimônia ao seu lado.
– Bebe o quê, meu lindo?
– Para mim, uma água tônica. A moça pode pedir o que desejar.
Água tônica naquele tipo de estabelecimento não havia. Contentou-se com um refrigerante. A ruivona, quase um metro e oitenta de carnes bem distribuídas pela silhueta, lhe pareceu simpática, além de sexualmente atraente. Gastaram alguns minutos em conversa pra lá de fiada e Mondrique pagou as bebidas enquanto combinava os honorários por uma hora de serviços na horizontalidade de uma cama. Subiram uma escada em caracol para o segundo andar do prostíbulo onde ficavam os quartos. A ruiva ia à frente, com o traseiro quase esbarrando nas ventas do mágico. No corredor, ela pegou na mão sinistra de Mondrique para guiá-lo até um dos cômodos. Estranheza correu por todo o seu corpo. Não divisou nada após o contato. Que intenções teria aquela mulher? Sua vidência findara? Haveria alguma interferência, um ruído na comunicação parapsicológica? Maldita clarividência que o abandonara, pensou.
Dentro do quarto semelhante a uma cela de convento pela pobreza dos móveis e cabine de navio pela economia de espaço, quis saber a graça da ruiva:
– Gigi.
Toda puta provinciana se chamava Gigi.
– De guerra? – perguntou Mondrique tocando-a de leve na ânsia de descortinar sua verdadeira identidade. Nenhum sinal telepático.
– Claro, lindo. O da pia batismal eu digo só para aquele que me tirar da vida – zombou enquanto mostrava os dentes alvos como o corpo que revelava à medida que o vestido escorria até o chão.
Diante da monumental voluptuosidade que se apresentava à sua frente, Mondrique esqueceu por um tempo as inseguranças dos poderes extra-sensoriais perdidos e se perdeu nos labirintos de Gigi, que dele fez gato, sapato, barba, cabelo e bigode, deixando-o extasiado.
Enquanto o Gran Circo Continental permanecia naquele rincão no fim do mundo, Mondrique quase que diariamente visitava Gigi nos seus aposentos de luxúria. Ela se mostrou receptiva ao mágico, tratando-o com carinho, ternura e muito sexo. Após cada ato consumado, dia após dia, o mágico tentava, através de abraços, beijos e chamegos, conseguir extrair da meretriz algo que revelasse seus verdadeiros sentimentos. O afeto que Gigi demonstrava antes e depois dos entrelaçamentos mundanos eram reais? Maldita dúvida que me assola, resmungava Mondrique.
E ele foi se apaixonando pela marafona do interior, quebrando a promessa que fizera quando da deserção de Reginalda. Com medo de que o dono do circo resolvesse encurtar a temporada na cidade em razão das baixas bilheterias, decidiu usar seus poderes ocultos e incrementar cada vez mais seu número, visando atrair público e manter o picadeiro montado por aquelas bandas.
Foi um tempo em que o Gran Circo Continental vivenciou apresentações memoráveis, desde a já manjada levitação de objetos, alguns dias depois trocados por voluntários que se aventuravam ao sobrevoo sobre a plateia quase esbarrando no alto da lona circense, passando por um extraordinário espetáculo de luzes e fogos que jorravam das mãos energizadas de Mondrique, este tomando as devidas precauções para não ferir um membro da plateia mais entusiasmado.  O ponto alto foi quando ele deu de fazer adivinhações. Desta forma, descobriu que seus poderes telepáticos só com Gigi não funcionavam. Maldito mistério, lamentou.
O circo entupia de gente na esperança de conhecer um futuro melhor após o mágico tocar-lhe as mãos. Contudo, Mondrique assevera que só o passado revelava. O futuro a Deus pertence, repetia prevenido em não se meter em complicações acerca das fofocas locais. Atendia no máximo a meia dúzia de curiosos, revelando nomes de família, doenças de infância, fatos marcantes em suas existências. Do passado, escondia com habilidade qualquer fato embaraçoso daqueles que se dispunham a tomar parte no número.
A fama do mágico correu toda a região e claro que a outra margem do rio não poderia escapar das notícias que um prestidigitador estava fazendo proezas no cirquinho mambembe que por ali aportara. Gigi, que já sabia onde e no que Mondrique labutava, foi em seu dia de folga, acompanhada por um cortejo de quengas, prestigiar o sucesso de seu cliente preferencial. Sentou-se na primeira fila ombreada por suas colegas de profissão, para o escândalo da sociedade local. Mondrique ficou encantado com a visita e no final da apresentação, materializou um ramalhete de flores que ofertou à amada. Ele tinha planos.
– Quer casar comigo, Gigi?
– Tenho que ir com o circo, lindo?
– Na cidade eu fico, mas terás que largar a saliência.
– Aceito então.
Alugaram uma casinha do outro lado da margem do rio. Mondrique dava consultas, passado, presente e futuro. Até pequenas curas fazia. Tudo a preços módicos, mas o suficiente para levarem uma vida confortável. Com o tempo, caravanas começaram a chegar à porta da casa, no intuito de consultarem o vidente agora famoso. Hotéis, restaurantes e lojas de lembrancinhas alavancaram o comércio da região. Até o puteiro onde Gigi trabalhara se beneficiou com o fluxo de turistas. Mondrique tinha alguns aborrecimentos vez por outra. Em inúmeras ocasiões foi preso pela prática de curandeirismo e solto após alguns dias, voltava ao seu ofício de médium. Gigi na verdade se chamava Laurinda. Isso Mondrique, agora rebatizado de Irmão Juvêncio, não adivinhara. Ela mesma, cumprindo promessa, revelara o nome ao marido. O que nunca Juvêncio descobriu foi que Laurinda também possuía os dotes da clarividência. De alguma maneira o contato corporal entre aqueles seres embaralhou o dom do esposo enquanto o dela se manteve intacto. Abominava utilizá-lo. Durante toda infância, de bruxa era chamada pela família e vizinhança. Assim, quando Juvêncio a tocou na noite em que se conheceram, ela já sabia o final dessa história.


Um Ato de Solidariedade


poupe-me da extrema-unção
e de seus planos funerários;
e poupe-se ainda
de pôr algumas moedas
nos meus olhos
para um barqueiro atarefado.

- não sirvo
para tais sacramentos -

mas quando a hora chegar,
basta-me levar ao Monte Kailash
e entregar-me aos urubus
que rapinam presos à Roda
do Samsara.

- e meu corpo será para eles
tal qual um banquete iluminado -

André Espínola

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Eternos milésimos de segundo

Naquela fotografia
                      Ficamos estáticos
                                                 Esperando o mágico
                                                                                  Momento da eternidade
                                                                                   Quando na realidade
                                                 Ele é um pássaro
                      Que tão sarcástico
Nunca pousaria.

domingo, 22 de novembro de 2015

Destino bipolar


Em alguns momentos, a sorte sorri para mim.

Mas, no momento seguinte, emburrada, franze o cenho, faz bico e me dá as costas.



quinta-feira, 19 de novembro de 2015

O Primeiro

José Hilário havia constituído um pequeno império para si. Na vida política há aproximadamente trinta anos, o atual senador da república não precisava mais trabalhar para viver. Mas seguia no poder, como muitos de seu tipo. Aquela sensação de poder o fazia sentir-se másculo, maiúsculo. Poderoso. Bem quisto por onde passava. Com uma infinidade de regalias, e com advogados do mais alto calibre trabalhando a seu favor, José Hilário iria provavelmente morrer na política – isso era o que ele mesmo pensava, o mesmo para quem o conhecia de perto.
Envolvido em vários escândalos ao longo de sua vida, alguns dos quais já de domínio público – como por exemplo, o das propinas, ou o do desvio de verbas ao longo de mandatos passados - o senador ainda assim podia contar com uma generosa multidão de eleitores em cada eleição, além de seus assessores treinados, que faziam tudo como o senador queria. Já com seus filhos legítimos "feitos na vida", mantendo um casamento de trinta e poucos anos só de fachada, o senador parecia naquela semana querer levar uma vida “mais normal”, sem a tradicional importunação de sempre. Tanto que, sua secretária sabia, seu braço direito também: “o senador José Hilário só tem algum horário em sua agenda para, talvez, semana que vem...”
Logo que chegou ao seu luxuoso apartamento, José Hilário desfez o nó em sua gravata, e preparou para si uma dose generosa de uísque escocês dezoito anos. Atravessou a ampla sala, passou o corredor e foi para a sua suíte, afim de tomar um demorado banho em sua jacuzzi. Não sem antes colocar ao som do home theater de seu quarto a sua coletânea de Frank Sinatra. Agora sim: um banho para deixar o senador pronto para, quem sabe mais tarde, uma de suas amantes novinhas. Olhou em seu Rolex, que mostrava apenas cinco horas da tarde. Quando o senador acionou o botão do controle que abria a cortina automática, com a vista envidraçada de uma Brasília ensolarada se anunciando, subitamente a cortina cessou o seu movimento, deixando apenas uma pequena fresta de sol à mostra. José Hilário estranhou e, ao pegar o controle remoto para repetir o processo, uma voz disse:
- Não adianta tentar.
Na hora José Hilário por pouco não deixou cair o copo que estava na outra mão. Seguido ao susto veio a excitação, e um tremor incontrolável que emanava do corpo do senador.
- O quê?!
- Aqui. – disse a voz.
José Hilário então viu, no canto esquerdo logo ao final da grande cortina, imerso entre sombras, um homem sentado ali em sua poltrona.
- É melhor sem claridade. A que tem assim já é suficiente para eu ver você. É só o que eu preciso...
José Hilário virou a cabeça para a porta, pensou em seu celular “onde estaria?” e julgou tratar-se de um assalto.
- Senta. Aí no canto da cama mesmo. E não tenta nada... – nesta hora José viu brilhar uma pistola automática, no punho do homem sentado; que, além de estar no ponto mais escuro do quarto, trajava roupa preta e o que parecia ser uma balaclava, dificultando ainda mais a tarefa de enxergar o seu rosto. Resignado, apenas obedeceu.
- OK. Você tem o controle da situação. Eu vou te dar tudo o que eu puder de dinheiro. – José virou um gole grande de seu copo de uísque, tentando com isso diminuir a tremedeira. Pensou fingir-se de morto, fingir um enfarte, algo do gênero. Tudo muito rápido. Até seu pensamento ser interrompido pela voz do homem:
- Não estou aqui pelo dinheiro. Estou aqui por você.
- O quê? Como? Quem te mandou? Quem quer me matar? Não pode, isso é coisa do PSDB? Não... Ei, eu te pago o dobro do que te pagaram! – José tentava ganhar tempo e pensar em algo, algo que o livrasse desta situação. Sim, algum rival político havia arquitetado o seu assassinato! Só podia ser.
- Não quero seu dinheiro.
- Como não? Posso te deixar muito rico!
- EI, SILÊNCIO!!! – o homem que seguia sentado empunhando sua pistola gritara pela primeira vez.
- Desculpe, eu...
- CALA A BOCA!
Nisso, José Hilário começou a meio que choramingar, esboçando palavras ininteligíveis, olhando para o seu carpete, e ainda pensando o que ele poderia fazer para defender-se do tal assassino – que, por sua vez, acabara de ajustar um silenciador na ponta de sua arma. Quando José olhou, de canto de olho para o homem, ouviu:
- Olhe para mim agora.
- Desculpe... quem é você?
- Eu sou um representante do EEPR. O senhor conhece?
- EEPR? Hum, é um partido, meu filho? Ai, meu Deus, estou tendo um sopro no meu coração... você já tá me matando fazendo isso, por favor...
- O EEPR, seu José, é a sigla para “Esquadrão de Extermínio Pró Revolução”. Se o senhor nunca ouviu falar, é porque eu e demais membros conseguimos fazer um bom trabalho até aqui.
- O que você quer dizer? É-é um gru-grupo armado? – seu José já gaguejava. Só essa hora o político deu-se por conta que havia um pouco de uísque com a água do gelo em seu copo, o que ele virou sem titubear. “Sim, o copo!” pensou “um arremesso certeiro, em sua cabeça. Aí corro pro botão de alarme, ou me atiro ali, antes que ele comece a atirar...”
- E você, seu José, entre tantos outros, é um dos que vão pagar pelos crimes cometidos ao longo de seus mandatos. Há uma lista, bem grande, e você é o primeiro deles a ir daqui pruma melhor. No seu caso, espero que pruma pior.
- Eu sou ino-no-cente! M-meu advogado pro-provou que...
Nessa hora o homem baixou um pouco a mira da pistola, e acertou o joelho de seu José, que na hora caiu da beira da cama, perdendo sua suposta arma de defesa – o copo, que caiu pro outro lado, na cama. Seu José gritou de dor.
- Aaaiiiiiiii... aiaiaiaiai...
- Eu poderia ficar aqui vociferando contra o senhor, lhe dizendo tudo o que muito brasileiro tem preso na garganta, seu José Hilário, senador da República e tal. Mas não.
- Por favor, vamos conversar... Ai, ai... – José tinha a voz trêmula. O sangue vermelho escuro inundava uma respeitosa área do carpete, outrora claro, do quarto do senador.
- Não somos um grupo de papo. Nada do que eu falar agora vai mudar seu destino, seu José. Esse é o nosso objetivo. É isso. Usar tudo o que eu e meus companheiros aprendemos através de treinamentos, para chegar assim, de surpresa, e por um fim a tudo. E ver o que vai acontecer depois que completarmos nossos alvos. Simples assim.
Nessa hora, seu José, contorcendo-se de dor, tocou sua mão num pé do sapato que havia tirado segundos antes de tudo o que estava acontecendo. Em posição ruim, de bruços, com dois dedos trêmulos, segurou seu sapato para uma medida desesperada, buscando algo diferente, que num improvável milagre o salvasse.
- O senhor tem uma bomba nesse sapato? – perguntou o homem, que seguia sentado no sofá, ofuscado pela escuridão.
– Pois, se não tiver, devo-lhe dizer que sua hora chegou.
- Não, não... eu te-tenho diamantes! Eu... te entrego outros políticos, pe-peixes maiores que eu, eu...
- Seu José, hoje venho em nome do EEPR cumprir minha missão perante o grupo e, especialmente, dizer ao senhor... dizer a você... que eu sou o seu pesadelo. O seu inferno que chegou antes da hora. Você não tem voz nem vez comigo. Eu vou finalizar minha missão, desejando que você sinta dor, muita dor nesses últimos minutos...
- Ahhh, nãããooooo...
Nessa hora, outro tiro atingiu a barriga de José Hilário. Ao som de Frank Sinatra, com o silencioso abafando em muito o volume dos tiros da pistola, José já cuspia sangue em seu carpete. Sua visão já ia ficando turva. Aí, finalmente o homem se levantou, e deu dois passos à frente, deixando um pouco da claridade mostrar seus olhos e nariz. Era um homem grande, de porte. Mas José já não atinava direito. Na busca por alguma coisa que o salvasse, já havia perdido muito sangue, pela barriga, boca e joelho. O homem só baixou a mira, e com um tiro certeiro estourou o crânio de José Hilário.
Guardou sua pistola, e para não pisar na poça de sangue que recém se formara à sua frente, desviou dela, andando sobre a cama king size; deu ainda um chutinho no copo de uísque vazio que se encontrava lá, para deixar o quarto do agora defunto ex-senador, José Hilário.



*****Olá a todos leitores e leitoras que visitam o Bar do Escritor! Esta história tem continuação, e quem quiser conhecê-la, a partir da próxima semana você poderá ler sua continuação no Wattpad. É só entrar lá e me seguir! Obrigado*****

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Pagliaccio

Trata-se de uma deslavada inverdade que eu deteste palhaços. Um equívoco, desconhecimento dos fatos. Gosto inclusive de assistir suas estripulias em programas de televisão e é constante pegar-me em estridentes gargalhadas ao interagir com eles da plateia de um espetáculo circense. Nada contra estes respeitáveis artistas, dignos, a despeito da cara pintada e roupas coloridas. A imprensa exagera a esse respeito. Apenas não quero fazer parte do seu mundo, ser um deles, tenho lá os meus motivos.
Meu incômodo em relação a palhaços iniciou-se no dia em que a Tia Sônia, casmurra professora da turma do jardim de infância, resolveu dividir entre seus pequenos alunos os papéis que cada um desempenharia na festa de encerramento do ano letivo. Eu queira por demais representar um sapo no número musical ambientado em uma floresta, porém, Tia Sônia, mais sorumbática do que nunca, decidiu colocar-me no grupo dos Palhacinhos Dengosos. Reclamei com uma surpreendente polidez para os meus parcos cinco anos e como não consegui convencê-la, terminei por resignar-me, achando que ao explicar o caso à minha mãe tudo ficaria resolvido.
Mamãe já se acostumara com o meu comportamento maduro para a idade. Ela acreditava ser eu um “espírito antigo” desde que fora consultar um pai-de-santo para livrar-me de uma bronquite que nenhum médico da Terra conseguia curar. O pai-de-santo, incorporado por uma entidade que afirmava se chamar “Doutor Marcolini”, médico italiano que habitara Veneza no ápice da Renascença, ao dar de cara comigo abriu um largo sorriso e exclamou.
—  Oh! Você por aqui? Que grande alegria! – e virando para minha mãe disse: — Este já sabe de tudo. Deixe-o tomar as rédeas de sua própria vida. É um espírito muito antigo… Muito antigo…
E receitou um preparado à base de xarope de ameixa e uma série de ervas que em dois tempos deu por encerrada a persistente bronquite que me acompanhava.
Sendo espírito antigo, mamãe deduziu que eu trazia de outras vidas aquele comportamento adulto que eventualmente desabrochava, como no episódio do palhaço. Seria comum na minha idade espernear, armar um berreiro, mas qual? De dentro de minha roupinha vermelha do jardim de infância, tão somente dizia que não queria fazer “papel de palhaço na frente de todo mundo”. Preocupada, a mãe foi ter com a professora.
— Não posso mudar o Marquinhos de grupo agora, Dona Veridiana – protestou a casmurra – Como as outras crianças reagirão? Além do mais, os coleguinhas dele estão adorando a ideia de se fantasiarem de palhaços. Não entendo porque só o seu filho está com esta história. Vamos fazer o seguinte: o Marquinhos ensaia e a senhora diz que ele não vai se apresentar. No dia, lá no teatro, vestido de Palhacinho Dengoso, eu tenho certeza de que ele vai adorar e se divertir como todos os outros. E a senhora vai ficar orgulhosa com os aplausos.
Tia Sônia apelou ainda para o conceito de disciplina e que seria bom para o menino aprender desde cedo que na vida nem sempre podemos fazer tudo o que desejamos.
Mamãe achava que deveria seguir as orientações do “Doutor Marcolini” e deixar-me “tomar as rédeas da própria vida”, mas preferiu não se confrontar com Tia Sônia, lembrando-se que meses atrás eu já havia entrado em contenda com minha primeira mestra ao teimar em não tocar “coquinhos” na banda mirim da escola. Sentia-me ridículo batendo duas meias-esferas de casca de coco seco e sempre que o ensaio se iniciava, pegava na caixa de instrumentos um triângulo de aço. Diante da minha firmeza em não ser um mero tocador de coco, Tia Sônia na oportunidade se deixou dominar pela insubordinação de um moleque de cinco anos, mas desta vez seria diferente. Uma maçã podre dentro de uma caixa poderia contaminar todos os frutos e para tia Sônia não perder o leme de sua turma, eu seria um palhaço.
Os primeiros ensaios revelaram que, mesmo sentindo-me desconfortável, eu era o melhor entre os oito Palhacinhos Dengosos selecionados. Ao som da música tema…
O Palhacinho Dengoso,
Dá três pulinhos assim!
O Palhacinho Dengoso,
Vira os olhinhos assim!
…lá estava eu, virando os meus olhinhos infantis com aplicação espartana, dando três pulinhos e cambalhotas com maestria de um palhaço profissional. Tia Sônia, encantada, decidiu que eu me apresentaria na primeira fila, no centro do palco. Desconfiado, afirmei só estar ensaiando e não iria participar do espetáculo. A professora, livrando-se momentaneamente da sua natureza carrancuda, afagou meus cabelos ruivos e disse:
— Como quiser, meu anjo. Você não vai participar…
A traição rondava a minha própria casa, invadia os corredores, transitava pelos cômodos até chegar ao quarto da minha irmã Natália, dez anos mais velha do que eu e cúmplice do plano de mamãe e Tia Sônia em fazerem de mim um palhaço. Foi de Natália a ideia de comprar uns dois metros de uma imitação de cetim branco com motivos em forma de losangos vermelhos e verdes. Pano não muito caro, contudo de efeito arrebatador. “Maninho vai brilhar no meio daqueles remelentos” – declarava triunfante.
Certo dia, ao chegar do colégio, deparei-me com mamãe e Natália num frenético trabalho de preparo da minha vestimenta de palhaço. Em meio aos seus gritos de entusiasmo diante da obra-prima que julgavam confeccionar, pude, pela primeira vez, ver aquela roupa que iria perseguir-me em pesadelos por anos. Era um simples macacão, parecido com os dos pilotos de corrida, porém com losangos verdes e vermelhos espalhados por todo o seu espaço, tendo o branco como cor predominante ao fundo. As mangas, compridas, eram acompanhadas em toda a sua extensão por uma fileira de guizos que tilintavam enquanto as duas davam os últimos retoques na fantasia. Surpreendidas pela minha chegada, ainda tentaram esconder a roupa. Magoado, resmunguei:
— Já disse que eu não vou me vestir de palhaço!
— Mas a roupa não é para você, Marquinhos,  —  mentiu mamãe. É para o Rogério. A mãe dele não sabe costurar e pediu para eu fazer.
— O Marquinhos tem o mesmo tamanho do Rogério, mãe. Vamos medir a fantasia nele para ver como fica? — perguntou Natália.
E sem que me dessem oportunidade, mediram em mim a roupa que eu ainda guardava pálidas esperanças em realmente pertencer ao Rogério.
No dia da apresentação, um calor infernal assombrou a cidade. Dirigimo-nos, os três, para o teatro onde seria o espetáculo. No táxi eu ainda protestei, dizendo mais uma vez que não iria participar. Mamãe, sorrindo, tranquilizou-me, afirmando que só iríamos assistir, mas a bolsa que minha irmã levava no colo pelo volume denunciava que eu não teria escapatória.
Dentro do camarim, várias crianças eram aprontadas por suas mães, cuidando de suas fantasias como escudeiros zelavam pelas armaduras dos seus cavaleiros. Sem opor resistência, deixei-me vestir e ser maquiado. Na cabeça, recebi uma peruca improvisada com uma meia feminina cujos cabelos em lã vermelha só aumentaram o calor. Nos lábios, um batom que tornou imprestável o sabor do refrigerante a mim oferecido minutos antes da apresentação. Estava vencido, domado, obrigado pela primeira vez em minha curta existência a fazer algo que eu não desejava.
Fomos chamados ao palco. Palmas nos receberam. As cortinas foram abertas. Resignado, encarei o público. Temia a vergonha de me expor diante daqueles desconhecidos, ser ridicularizado pela minha condição, ainda que temporária, de palhaço. Porém, aquele bando de pais e parentes que compunham a audiência pareceu-me amistoso, quase encorajador. Mamãe e maninha, sentadas na primeira fila, aplaudiram freneticamente a nossa entrada.
Um tanto encabulado, corri os olhos pelos meus sete companheiros de jornada. Todos pareciam deslumbrados com a oportunidade de estarem ali. Por um momento pensei ser apenas eu a criatura destoante da atmosfera de alegria a envolver o teatro. De súbito, a introdução da melodia já tão íntima explodiu nos alto-falantes.
O Palhacinho Dengoso, dá três pulinhos assim!
Desviei os olhos da plateia e procurei executar a coreografia ensaiada da melhor maneira possível. O calor por debaixo da vestimenta incomodava, as gostas de suor banhavam o meu rosto e misturavam-se com as rodelas de ruge que circundavam as bochechas. Uma sensação de total abandono me consumia.
O Palhacinho Dengoso, vira os olhinhos assim!
Esta era a parte do número que eu mais detestava. Tínhamos que nos posicionar de frente para o público, pôr as mãos nos joelhos e ao mesmo tempo arregalar nossos olhos e revirá-los. Tia Sônia havia ensaiado aquele momento até a nossa quase exaustão.  Creio que nossa atuação deva ter causado um efeito arrebatador a julgar o “oh” de entusiasmo emitido pelo público. Percebi, em um canto do palco, Tia Sônia com uma expressão de alegria construída no semblante costumeiramente tão sisudo. Em vez de me sentir recompensado, desejei que os minutos corressem, e que tudo aquilo se encaminhasse para o fim.
O Palhacinho Dengoso, dá piruetas assim!
Meus guizos emitiram um estridente som, fruto das minhas piruetas, executadas com maestria. Deus! Como eu queria ir embora!
Por um momento tudo pareceu distante. Já não era eu que ali estava. Meus pensamentos cavalgavam no cérebro desconexos, enquanto o corpo, vazio de emoções, executava o mecânico bailar. Vieram à minha mente as figuras de mamãe e Natália. “Traidoras”, rosnei. O desejo de chorar apoderou-se de mim, contudo, finou-se, sendo substituído por uma poderosa sensação de alívio ao perceber que a apresentação terminara.
Foi então que algo surpreendente aconteceu, moldando para sempre os rumos da minha existência.
Aplausos pipocaram de várias partes do auditório. Longe de serem polidos, levavam consigo a marca do entusiasmo verdadeiro. A plateia havia amado nossa apresentação. Agradecemos com o conhecido aceno que os artistas fazem ao final do espetáculo, mãos dadas, reverência conjunta. A cortina cerrou-se e o público continuou sua manifestação de agrado. Surpreso, eu e meus colegas presenciamos as cortinas serem reabertas e os espectadores levantando-se para aplaudirem de pé! Sugiram os primeiros pedidos de “bis”, que pouco a pouco cambiaram para o desejo quase unânime da plateia. Os acordes de “O Palhacinho Dengoso” foram novamente executados e, quando dei por mim, já estávamos em plena encenação do nosso número sob palmas frenéticas. E eu estava adorando tudo aquilo!
Décadas consumidas por estas lembranças de infância, sentado diante do espelho do meu camarim, chego a rir refletindo sobre as ironias da vida. Não fosse o Palhacinho Dengoso, meu début nos palcos, eu hoje não seria o aclamado cantor lírico Marcos Marcolini, tenor brasileiro de sucesso na Europa. O sobrenome artístico eu tomei emprestado do espírito que mamãe consultara. Em idas posteriores ao centro de umbanda, o próprio Doutor Marcolini revelara ter sido eu um cantor de operetas, seu contemporâneo em Veneza. Afirmava ele que estivéramos juntos “na experiência da carne”. Segundo o médico do outro mundo, eu voltara com o encargo de brilhar através da arte, incumbência que fracassara na vida anterior. Já Marcolini se viu obrigado a dar consultas por séculos até o resgate de suas dívidas contraídas em outras existências. Ainda que duvidasse das crendices cultivadas por mamãe, não desmerecia a boa vontade do médium pelo qual o doutor renascentista se manifestava e considerei justo homenageá-lo usando seu nome.
Apenas um detalhe intrigava os amantes da ópera e a crítica especializada: por que o grande Marcos Marcolini nunca havia interpretado Pagliacci, de Ruggero Leoncavallo? Diante da dúvida, eu sorria sempre que tal questão brotava em alguma entrevista e, brincando, dizia não estar à altura de representar o personagem imortalizado pelo mito Enrico Caruso para, em seguida, invariavelmente brindar o meu interlocutor com um tostão da famosa ária: “No! Pagliaccio non son, se il viso è pallido, è di vergogna…”

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Gravatas


Não gostava de gravatas. Saía pela manhã cheirando a café, cigarro e mofo, suas baratas e ratos de estimação ficavam na porta, acenando, enquanto passava o ônibus com alguns tripulantes engravatados. Seu olho esquerdo tremia freneticamente ao vê-los de relance, preferia ficar em pé, estático, os dentes acirrados e as mãos suando, geladas. Ficava a planejar numa forma de pôr um fim naquilo tudo. Todos os dias.

Já não enxergava mais as pessoas, eram tudo gravatas. No trabalho, mais gravatas. Gravatas tomando café, coçando o saco, contando piadas, peidando. Gravatas trabalhando na grande máquina sanguessuga, chupando a alma dos pobres diabos que chegavam se arrastando, suplicando menos taxas e juros.

Na rua, gravatas berrando ao telefone, xingando umas às outras, gravatas enfileiradas esperando seu McLanche Feliz, assistindo a um imbecil qualquer na TV, outras em transe, rodeando uma gravata com bíblia na mão.

Não gostava de gravatas. Precisava acabar com aquilo.

Certo dia chegou em casa, atirando a pasta na cama e afrouxando o gola da camisa. Pegou a garrafa e começou a mamar seu bíter, ele queria evitar as palavras de seu falecido pai, mas elas marretavam cada vez mais forte em sua cabeça: "- Filho, espero ainda estar vivo para vê-lo homem, com um bom emprego, de terno e gravata. Um homem sem gravata não deve ser levado a sério. Mulher, traga-me o torresmo!".

Então foi até o fundo do guarda-roupa e a retirou de dentro da caixa de uma sandália da Azaléia. Estava intacta, vermelho-sangue, hipnotizante: a gravata que roubara de seu pai quando este descansava no caixão. Colocou-a, e imediatamente sentiu seu sangue fluir, ferver, pulsando nas veias; sente algo com um soco no estômago e começa a ficar sem ar, debruça-se na mesa e aos poucos vai aliviando, a cada inspiração e expiração. E então se sente bem. Melhor do que nunca.

Sai de casa como se um véu tivesse sido retirado de sua cabeça, tudo é muito claro e já não enxerga somente gravatas. Consegue ver os rostos, analisa-os, sente-se feliz. Uma alegria como há muito não sentia. Passeia sem rumo pela cidade até anoitecer. Então chega em casa e tudo é diferente, senta-se no sofá, a paz reina em sua cabeça. Dorme profundamente.

No dia seguinte foi encontrado morto, dizem que se enforcou com a gravata, que havia ultrapassado a pele de seu pescoço, mas ainda assim sorria. Um sorriso satisfeito de alguém que talvez tenha levado a sério demais o nó da gravata.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

O Outro



Sou outro, outra vez
refletido em um rosto que não reconheço
não sei onde me encontro
não sei qual é o preço
da sanidade que não controlo
da ingenuidade que me consola
da concordância com o mundo
ou da revolta que ainda guardo
há na mente tantos quartos !
Tantas lembranças, tantos fardos
mas vou à luta novamente
erguendo-me da lona
onde atirado estava
no fundo da minha vala
que cavei para me defender
dos assaltos ao coração
da covardia e da traição
da minha própria condenação !
sem defesa e sem juiz
me acuso continuamente
por teimar em ser feliz
por sorrir serenamente
enquanto o caos me consumia
levando os socos ainda sorria
fingindo ser tão poderoso
inatingível e inalcançável

Era outro eu que se valia
da bravura e covardia
que dissimuladamente exibia
Estóico !
era o brado que retumbava
por qualquer lugar que eu passava
Heróico !
feitos meus que não contei
que nem mesmo acreditei
terem sido obras minhas...

Mas isso é passado de um outro
que guardo longe dos olhares
e me acompanha aos lugares
sem ser visto por ninguém...

Mesmo comigo ele insiste
quer provar que ainda existe

quer provar que é alguém

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Pivetes




Acordou com dor de cabeça e sentimento de culpa.

Soubera na noite anterior que um grupo de extermínio eliminara três pivetes que perturbavam o sono e o sossego dos comerciantes do bairro.

Ele não tivera qualquer participação no episódio.


Mas ficara feliz quando soube do ocorrido.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Todo dia


– Eu passo o dia todo esperando ela aparecer.

– Que triste isso...

– Não é triste não. Triste é quando ela não vem.



segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Ah, é mesmo? Tá bom, então...

Você é uma pessoa que lê muito?

A pergunta, neste caso aqui retórica, faz a gente se questionar: afinal, o quanto significa “ler muito”? Existe uma medida para tal? E se existe, seria esta mensurada pelo número de páginas lidas? Ou pelo histórico de leitura de cada indivíduo? Seria pela média de livros lidos em um ano?

Bem, independente de como medir o quanto cada um de nós lê, hoje em dia vale a pena lembrar o que de fato estamos lendo. Por exemplo: uma piada que você recebe no seu WathsApp. Ah, isso certamente entra para o seu repertório de leituras. Mesmo que você não esteja procurando ler uma piada naquele instante, você a lê! – seja por curiosidade, por respeito à pessoa que lhe enviou, ou para se livrar de uma tarefa chata no seu trabalho. No fim, valeu a pena – você riu um pouco (ou não), mas definitivamente leu esta piada que estava lá em seu Whats. Se você não a entendeu bem, bastou uma segunda leitura para finalmente entender a piada, o que levanta mais uma questão: ler duas vezes a mesma coisa conta como “ler mais”? Eu diria que não, até porque no caso específico da piada, se ela não tinha graça nenhuma na primeira lida, você, querendo mostrar os dentes para o amigo (a) que lhe enviou, gentilmente a lê novamente, desta vez de forma mais pausada, para ver se você não perdeu nada lá pelo meio dela. Se ainda assim você julgá-la sem graça, talvez na próxima vez você leia só a primeira linha dela...

Outra coisa que se lê muito hoje em dia é a data de validade de qualquer produto alimentício que você compra no supermercado. A tarefa às vezes é inclusive taxada de complicada, afinal, muitas vezes a data está apagada e borrada, ou fica em lugares difíceis de achar, o que ocasiona de a pessoa ler por engano outras informações desnecessárias até chegar a tal data – apesar de quê, dizia-se antigamente: “ler demais não mata ninguém”. Já de menos...

Sabia que, neste papo todo de ler pouco, muito ou nada, um aluno adolescente me respondeu outro dia o seguinte, após eu questioná-lo acerca de o quanto ele lia:
- Ah, professor, eu prefiro ver vídeos no Youtube.
- Mas, meu caro, são duas coisas distintas, veja bem que ler é...
- Não professor, na verdade eu quis dizer que SOU BOM em ver vídeos do Youtube, não em ler livros. Isso é o que sei fazer. Sabe fêssor, cada um cada um, né?
- Ah é mesmo? Tá bom, então... - Após uma explicação tão boa como essa, não tive mais o que falar ao meu aluno...

Bem, agora sendo sincero com você que me leu até aqui, em primeiro lugar MEUS PARABÉNS por sua força de vontade por chegar aqui; penso que das duas uma, ou você é um leitor ou leitora contumaz, ou, alguma amiga ou conhecido meu que de tanto ver o link em minha página do Face, tomou coragem e disse “Meu Deus, vou ler este cara ou ele vai me perguntar qualquer coisa algum dia... Que saco!!!” – o que não quer dizer que esta pessoa não tenha o hábito de ler, talvez ela não tenha tempo ou não goste de crônicas mesmo... Enfim, o que lhes peço agora é que você poste um OK para mim, seja aqui nos comentários logo abaixo, ou nos comentários do Face ou do Twitter. Tudo bem? Isso é fácil de fazer; o mais difícil, que era você chegar até aqui, já está feito: missão cumprida. Ponto pra você, leitor e leitora!










domingo, 18 de outubro de 2015

Caro Amigo Fred

Antes de tudo, queira desculpar-me por escrever-lhe esta carta tanto tempo após o acontecido, mas você há de convir que fui pego de surpresa pelo desenrolar dos fatos e só agora me sinto em condições de relembrar todos os momentos que juntos passamos. Nada como o tempo para cicatrizar tristezas e fazer germinar alegrias.
Lembro-me bem do dia em que o vi pela primeira vez. Mal desconfiava que, algumas horas depois, você já estaria instalado em minha casa. Logo que lhe avistei, saído do ninho em sua inaugural excursão junto com seus outros dois irmãos no telhado da fábrica que dava para a varanda do meu apartamento, desconfiei que você, amigo Fred, era o mais levado do trio e daria muito trabalho à sua mãe. Você não curtiu cinco minutos em liberdade, caindo pela fresta que existia no teto da loja abaixo de casa. Como já era fim de expediente e o estabelecimento estava fechado, você miou por toda a noite. Miado de filhote, assustado, temeroso do desconhecido e do desamparo.
No dia seguinte, eu fui resgatá-lo, lembra-se? Meu plano era devolvê-lo ao telhado, mas, apesar de estranhar o local,  você me conquistou e foi ficando. Com dias de convívio era praticamente o dono da casa e, já que insistia e permanecer junto a nós, que ao menos tivesse um nome. Frederico José, nome de imperador, Fred para os íntimos.
Curti por demais suas brincadeiras de filhote, como a de se atracar com o meu braço que, por consequência, vivia arranhado. Você ainda desconhecia o poder de suas garras, mas com o passar do tempo soube domá-las. Meu braço agradeceu sua disciplina.
Quem disse que gatos são indiferentes aos seus donos?  Se a afirmativa estivesse correta, você, Fred, possuía então alma de cão. De fidelidade canina, sempre ao meu lado em casa, varava madrugadas deitado sobre a minha impressora enquanto eu trocava a noite pelo dia em salas internéticas de bate papo. Era divertido abrir a porta da casa e você vir receber-me, revelando haver passado o dia dormindo eu seu gesto de espreguiçar-se.
Fatos pitorescos envolveram sua curta existência, meu amigo, como aquele em que, durante sua primeira ida ao veterinário, o mesmo, ao examinar sua genitália, declarou solenemente: “é uma fêmea”. Por dois meses você foi chamado de “Frida”, até os testículos aflorarem, revelando sua masculinidade.
Ou quanto você “surtava”, correndo de um lado a outro da casa, subindo nas camas e nos encarando com um olhar ao mesmo tempo brincalhão e assustador? Durante seus surtos, eu tinha a impressão de ter um tigre, um puma ou pedaço da selva dentro do meu apartamento.
Imaginei que conviveria no mínimo dez anos com você, caro Fred. Durou um ano e meio. Gatos em geral morrem de forma violenta, diziam. Eu não acreditei.
Ficou a lembrança Frederico José, doze anos depois, tornada pública.
Do seu amigo,
Zulmar Lopes