sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Sou e Sempre serei grata.


Depois de alguns anos, vou Encerrando nessa publicação de dia
23 de dezembro de 2016 a minha participação neste maravilhoso
e democrático espaço.
Não há causa que não a falta de tempo.
Sou e sempre serei:
Grata aos que aqui escrevem.
Grata aos que aqui leem.
E aos administradores.
Feliz 2017 a todos.
Catiaho Alc./dezembro de 2016

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Notável

Naquela noite que se fez outro dia, a lua estava tão cheia, de si própria, que mesmo depois de o sol ter se aprumado, ostentoso, ela ainda desviava a atenção de muitos desavisados.





quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Apenas há penas para os raros (?)


Pássaros

Passantes

Passam

Passos...

Apenas há

Penas.

Pisamos 

Por onde nos deixamos

Pegadas (?)

Apenas há

Penas

Sob os pés

Que deixaram rastros (?)


Entretanto e, contudo,

Embora aflitos em conflitos e, confusos

Gravitamos esfera que circunda astro.


Saudemos, então,

Novo verão, no pólo sul.

Com asas camufladas de azul, solar

Pra festejar novo solstício.

Que nossos voos permaneçam

Desafiadores e raros

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Marcel, do Inferno ao Céu


Marcel nasceu numa tarde cinzenta de 1990. Fruto de uma união que não durou mais do que alguns meses, Marcel foi criado então pela mãe, vendo o pai apenas de vez em quando. Apesar de alguns parentes mais próximos por perto, Marcel sempre teve bastante tempo livre em seu dia-a-dia, uma que sua mãe trabalhava em dois empregos para poder mantê-los em uma situação confortável enquanto a sua avó materna, tadinha, já não dispunha mais de condições físicas para cuidar do neto. Já os avós paternos de Marcel, àquela altura já tinham partido dessa pra uma melhor, antes mesmo dele nascer.
E foi num ponto entre os anos de 2003 e 2004 que Marcel conheceu o caminho das drogas. Ainda adolescente, sem ter tido sequer a sua iniciação sexual, Marcel já estava fumando maconha com alguns carinhas, aqueles da turma do fundão da sala – todos já repetentes. Nem é preciso dizer que além da maconha, o álcool também passou a ser uma novidade constante na vida de Marcel, que ia conhecendo bebidas e se entorpecendo, enquanto a sua mãe trabalhava para sustenta-los.
E sim, sua mãe percebeu a mudança no filho. Ela tentou intercepta-lo por mais de uma vez, mas o filho ficara extremamente agressivo, o que passou a ser motivo de medo por parte dela. Sabendo que a coisa não ia bem, mas querendo um pouco de paz quando podia estar em casa, a mãe de Marcel “deixou” a coisa ir adiante dessa forma, apesar de um pouco incerta de sua decisão.
E Marcel começou a tomar pau na escola, ano após ano. Aos dezesseis anos, ele já tinha namorada firme e tudo. Mas, com um porém – a menina também era viciada. E agora o repertório no cardápio de narcóticos já havia aumentado: os dois provaram juntos benzinha, cola de sapateiro, chá de cogumelo... e cocaína. Essa última, por sinal, era quase todos os dias. Não havia mais controle. O dinheiro dado pela mãe de Marcel não dava conta dos gastos com as drogas. Enquanto sua namorada roubava dinheiro dos pais, Marcel sabia que se pegasse um centavo a mais que fosse de sua mãe, faltaria para a comida e a moradia dos dois. Ao menos reconhecendo o esforço que sua mãe fazia para conseguir dinheiro, Marcel deu um jeito de arrumar um pouco para si. Só que para isso, ele teria que largar de vez os estudos – afinal, trabalhar, estudar e usar drogas, tudo num mesmo dia, não tinha como.
E Marcel trabalhou. Foi ajudante de pintor por um tempo. Distribuiu panfletos nas ruas para lojas que eram de conhecidos seus ou de sua mãe. Começou a fazer malabares nos sinais de trânsito, a troco de migalhas. Repassou pequenas quantidades de droga para seus conhecidos da época de escola que, à esta altura, estavam melhores na vida do que Marcel, já cursando nível superior ou até em empresas. Ainda trabalhou lavando carros e por fim como “chapa”, guiando motoristas de caminhão que entravam na cidade.
Outras namoradas também vieram. Marcel mudava de parceira, mas algo parecia inerente à cada uma delas: o vício por drogas. Algumas inclusive já encontravam-se na sarjeta, sem esperanças de um futuro melhor. Enquanto isso, a outra mulher da vida de Marcel, sua mãe, apenas via o filho se perdendo, dia após dia. Magro, andando em trapos velhos... cada roupa que sua mãe lhe dava parecia desaparecer, como poeira ao vento. Os dias pareciam cada vez mais difíceis para esta mulher, que se perguntava incessantemente onde ela tinha errado para com o filho.
Com os “pilas” que conseguia fazer, Marcel passou a gastá-los comprando ecstasy e LSD, drogas essas que passaram a servir como substitutas à cocaína. Marcel até preferiu essa troca de início, só que essa onda durou apenas por alguns meses. Como ele mesmo já sabia, o vazio, a frustação e o desespero vinham da mesma forma, fosse usando droga A, B ou C. E num momento de solidão total, andando com gente em condições iguais ou piores do que a sua, Marcel acabou experimentando o crack, já no início de 2012.
Aí as coisas degringolaram. Marcel não conseguiu mais trabalhar para ninguém, pois ninguém mais queria lhe dar trabalho. Sua mãe, que já tinha buscado ajuda em psicólogos e até em algumas religiões, só queria que o filho se internasse o quanto antes em alguma clínica para dependentes. Em vão. Marcel fugia de cada tentativa, para voltar à sarjeta, onde consumia crack com pessoas na mesma situação desoladora em que ele se encontrava. Todo esse martírio, esse sofrimento desumano que deixava filho e mãe cada vez mais afastados um do outro, seguiu-se em 2013, 14, 15...
Até que, perto de completar 26 anos, sentindo fome, frio, e tendo alucinações horripilantes pela falta da droga, Marcel finalmente bateu na casa de sua mãe para pedir ajuda. Pela primeira vez em anos, Marcel viu como sua mãe tinha envelhecido: as rugas, as olheiras profundas pelas noites de sono mal dormidas, e o olhar de medo visível por não saber a reação que o filho poderia ter, tudo isso parecia evidente agora para Marcel. Que, arrependido até o último fio de cabelo, clamou pela ajuda de sua mãe.
No mesmo dia, Marcel tomou um banho como a muito tempo não tomava, e vestiu uma das poucas peças de roupa suas que haviam restado no apartamento de sua mãe. Trêmulo e cambaleante, foi levado de carona pela mãe para a melhor clínica da região, e por lá ficou por mais de 30 dias.
Hoje, quase seis meses após a sua alta da clínica, Marcel leva uma vida completamente diferente da que um dia teve. Namorando firme, desta vez uma menina trabalhadora e totalmente “do bem”, Marcel vê agora o olhar de sua mãe, outrora marejado, brilhar de alegria com a nova vida que o filho vem levando. E ele também, pela primeira vez em toda a sua vida, se sente finalmente uma pessoa livre.
Hoje, Marcel vive cada dia como se fosse o último, só que da melhor maneira possível. É por isso que na virada de ano – a primeira que Marcel passará em família em muitos anos – ele quer fazer muitos pedidos para ano de 2017. Pensando no tempo todo que perdeu entregue às drogas (praticamente metade de sua vida), Marcel agora mescla desejos de adulto com desejos de menino ao escrever numa folha de papel quais serão suas metas para os próximos anos:
- fazer atividade física todos os dias;
- pular de bungee jumping;
- fazer um cruzeiro de navio com a sua namorada;
- participar de uma procissão ao lado de sua mãe;
- ajudar uma entidade para pessoas com câncer;
- ajudar um asilo;
- comprar o seu primeiro carro;
- participar de uma corrida ou maratona;
- ter um animal de estimação
- fazer uma língua estrangeira;
- ligar para o pai, que ainda vive, no mínimo uma vez por semana;
- iniciar uma faculdade para buscar uma graduação;
- conhecer o Rio de Janeiro;
- assistir a um show internacional de rock;
- comer alimentos saudáveis;
- assistir a peças teatrais com a mãe e a namorada;
- escrever um blog;
- agradecer ao criador todas as noites antes de dormir;
 Etecetera, etecetera, etecetera...




sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Das tempestades

São tempestades
em copos de água

constantes
desde antanho

das quais somente os copos
desconheço o tamanho.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

DOR NÃO SE COMPARA

Dor não se compara
Não se compara a dor da perda
A dor do coração corado de tristeza
A dor da fome na praça
Dor não se compara
A dor de perder um filho
Não se compara a dor de perder qualquer ente querido
A dor de sentir a pedra na vidraça
Dor não se compara
Não se compara a dor da religião extrema
A dor da invasão sangrenta
A dor de uma mãe perder a guarda
Dor não se compara
A dor da cara suja de lama
Não se compara a dor de nenhum drama
A dor de quem foi levado com a casa
Dor não se compara
Não se compara a dor de se ganhar um rótulo
A dor da intolerância sem modo
A dor do dedo apontado na cara
Dor não se compara
A dor do desgosto pelo trabalho
Não se compara a dor da mãe do presidiário
A dor da mãe da vítima caída na sacada
Dor não se compara
Não se compara a dor do refugiado
A dor do europeu explorado
A dor do extremismo da nossa alma
Dor não se compara

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Espaço


– Eu preencho meus dias com ela.
– E quando ela vai embora você fica com um buraco, vazio.
– Não é que eu fique vazio, eu guardo espaço para quando ela voltar.





quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Fliperama



fim de noite
perda total

outro nocaute
e mais sangue derramado
outro blecaute

fim de jogo
acabaram-se as fichas.

sábado, 22 de outubro de 2016

Contra o tempo


Explicou ao filho as coisas da vida e do tempo. Para facilitar, usou o relógio de exemplo:

– Aquele é o tempo, passando.

– Ele fica dando voltas?

– Nem sempre, às vezes passa correndo e nunca mais volta, por isso precisamos correr atrás do tempo.

No dia seguinte, após observar o relógio por horas, enquanto o pai corria de um lado para o outro, o garoto retrucou:

– Você disse que a gente tem que correr atrás do tempo; Mas ele tem uma perna bem maior que a outra, nem consegue correr. A gente é que tem que andar com mais calma, para não deixar ele para trás.





quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Leia Agora, Serviço de Utilidade Pública!!



Hoje vou ser breve. Em poucas linhas vou transmitir a você, leitor e leitora, o que quero lhes dizer. Sei que seu tempo é curto, assim é o meu também. Então vamos ao que interessa.
Primeiro, o que te faz parar o que você está fazendo para ler algo? O título? Uma foto que vem logo abaixo ou acima dele (do título)? Ou você pára o que está fazendo para ler, pois o que você faz te cansa, e assim, essa leitura poderá te distrair por uns instantes? Se encaixa num destes perfis? Bem, vamos adiante. Não posso demorar.
Quem sabe você lê porque, ora bolas, você lê muito. Uau, sim, eu estou ligado que existem pessoas como você. Que devoram tudo o que veem pela frente. Que andam pela rua, lendo sob um sol infernal, no meio da multidão. Pessoas que, na falta do que ler, leem toda a bula do remédio, ou o manual inteiro do motorista do carro (números e siglas inclusas). Que bom – você certamente vai ler isto, por isso já lhe agradeço aqui, antes do fim mesmo. Mas falta só mais um pouquinho, vamos ao próximo parágrafo...
Bem, se não leu pelo título chamativo, ou pela foto chamativa acima ou abaixo do texto, se não leu para se distrair duma tarefa chata (ou de alguém chato!!), e se você não é o leitor devora-tudo do parágrafo acima, bem deixa-me ver... Não sobram muitas opções, acho eu...
Rá!!! Já sei!
Você é aquela pessoa que não lê nada. Eu sei, eu sei. Você é muito legal e tudo, mas você não lê, certo? Nada contra, você apenas não lê. Sim, eu sei que lá no fundo você é gente fina e tudo mais... e ora bolas, pra que ler, hum? Afinal de contas... você já sabe de tudo mesmo! Mas é lógico que sabe! Não, não estou sendo sarcástico, até porque, você já viu tudo no noticiário de ontem, inclusive isso que estou escrevendo agora. Eu sei que sim!! E sabe o que mais? Vai acabar no próximo e último capítulo, aqui ó...
Eu sei quem você é, sabia? Quando eu falo com um de vocês, é pra já que reconheço. Vocês andam como se uma aura de sabedoria cintilante estivesse sobre as suas cabeças. É fácil notar. Bem, você deve saber, afinal você sabe de tudo. Inclusive que ler não é para você. Isso, deixa pros outros, vai. Seja bonzinho. Há muitas coisas boas reservadas para a sua “qualidade” de pessoa. A política, por exemplo. Para ela existir, é fundamental que gente como você continue sem ler; viu só? Então, sem mais delongas.

Paro por aqui, conforme prometido; hasta la vista, baby!!!

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Sem título

Que lucidez despertará tua manhã
que maça morderá teu desejo
que vociferar rugirá tua coragem
que janela abrirá teu peito
que sexo revigorará teu corpo
que poesia começara de novo
quando o sol parir teus versos e beijos
que olhar pupilará o céu do teu pensamento
que surpresa presenciará tua essência una
que brancura de horizonte beberá teu deleite
que cara lavada terá tua consciência
quando a poesia lavares na pia
que grito desabafara teu mundo
quando cargas d'Água levantares tua cabeça
que caminho levará teu passo ao outro lado do presente
que cosmo arrepio sussurrará em tua pele
quando ventos solares assobiarem em teu ouvido
quando pássaros cantarem as asas do teu ser
que ruga do tempo apanhará teu sorriso preso
que ruga da tua história lembrará aquele que ficou vivo de ti vivo
quanta alegria dormira tua realidade
quando teu sonho silenciar a vida
que precipício jogará teus sonhos
que sente sentirá nossos ossos
que chuva matará nossos corpos
que recordação carregara no bolso d memória
que que se queixara tua querencia
que olá dirá tua saudade
que distância liga teu reencontro
que desejo reciproca teu caminho
que estrela gritará teu voo noturno insólito na madrugada
quando o silêncio gritar mais alto em tua liberdade
que procura encontrará teu pensamento a reencontrar-se
que loucura repousará teus olhos estasiados e habitará teu reino
quando habitar em ti os sonhos mais deusvaneios
que sorrir sorrei sorrirá teu seio
que vento penteará teus longos cabelos
quando ele passar anunciando
que turbilhão fará teu coração
quando a tempestade tocar-te com fúria e som
que partituras comporá com a visão de novos sóis
que tropeço acentuará tuas sobrancelhas alto como faróis
que caminhar acalmará tua alma
que fruto morderá teus dentes
quando o néctar solar irradiar tua mente
que dengo fará tua vontade
quando o que querias era outro alguem
que feridas esconderá no escuro
quando alguem amares demais
que falta não terão mil palavras
quando beijares tua mulher
quão ventos loucos serás
quando cavalgares nas crinas do vento
que maturescência terá tua juventude
que juventude terá tua maturescência
que musica tocará tuas pálpebras nas noites insones
quando grilos velarem as estrelas
que espada empunhará tua mão
quando começar a guerra de teu coração
que deuses adorará
quando de só um precisar
quem estará contigo
quando não tiveres mais ninguém para estar
que será do teu ser
quando sendo ele não se foi
que será dos teus escritos
quando não tiveres mais que escreve-los
que céus descansará tua alma
quando o teu corpo estiver morto
que poder terá tua palavra
quando não disseres nada de novo
que sentido terá teu sentido da vida
que resposta responderá tua pergunta
quando a própria interrogação foi você
que grave espanto no rosto brilhará tua certeza
que dor no peito sofrerá tua duvida
que camisa de força aprisionará teus sonhos de viver
que sombra inundara teu sono
quando dormires no acalanto estelar
que silêncio fará tua vida
quando a morte em ti chegar
que abraço estará seguro
quando o sol amanhecer e afastar as sombras
que imenso vazio preencherá tua realidade
quando mais nada existir
que lama levantará teu corpo da cama
que bençãos receberam teu corpo
que ar tomará tua alma livre
que riso de criança derrubará teu orgulho
que pegadas deixará teus passos
quando caminhares na estrada da vida
que espinhos pisaram teus pés
que calmaria fará teu tormento
que ais sentirá tua dor
que será do teu amor?

domingo, 16 de outubro de 2016

Limpeza estomacal

Vomite tudo de volta

o que foi engolido
durante todo este tempo
não era teu

arrancaram a costela do macho
e enfiaram goela abaixo

ninguém questionou
a procedência da carne
do sangue ou do vinho
da cruz ou do espinho.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Nau Lua















Ensina-me uma canção
Para despertar a lua

Desencantá-la do seu sono
Imerso na densidade das esferas

Componha uma canção
Isenta de pecados

Dissolva-os com a saliva
Do nosso amor trocado

Componha uma canção
Com notas soltas
E acordes de jasmim

Que seja doce e,
Dissolva na boca
Das noites lilases

Na transparência do negro azul mar
fim

Afete
O amor
O amargo
O denso
O fraco

Clareie a lua
A sua canção

O afeto
O gosto
O som


De cifra 
Astro irradiado

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Svalbard, I Love You

Durante seis meses, tive a oportunidade única de morar na cidade mais ao norte do mundo: Longyearbyen, no arquipélago de Svalbard. Graças a um convite muito especial do explorador do ártico Chicco Mattos, consegui passar esse tempo de minha vida em um lugar ímpar.

Dona de uma natureza exuberante, com um clima subpolar, Svalbard possibilita aos seus visitantes e moradores a chance de testemunhar o sol da meia-noite em seu verão, e a noite polar em seu inverno. Durante a fase escura, vi um dos maiores espetáculos da natureza: a Aurora Boreal, e suas luzes verdes a dançar no céu estrelado do Ártico.

Além do frio que senti, – com direito a um início de frostbite em meu rosto - vi uma natureza única de animais que sobrevivem ao frio intenso, e a beleza de aves que migram todo o ano para Longyearbyen. Vi a vida, através das pequenas pétalas das flores, que se multiplicam para tentar sobreviver ao verão a embelezam ainda mais este lugar, que agora faz parte de minha história, e que ficará para sempre no meu coração.


 Longyearbyen, cidade mais ao norte do mundo
 Rena típica de Svalbard no inverno
 Eskerfossen, cachoeira congelada
 O transporte mais comum de Svalbard no inverno: o snowmobile
 Aurora Boreal em Adventdalen, início de março
 Tempelfjorden
 Uma barraca estilo indígena, clareando o branco da paisagem.
 Aves migratórias - o fim do inverno chegando
 Navio Nordstjernen, final de agosto
 Natureza viva sobre o gelo
 Eu em Magdalenefjorden
 Uma foca solitária, repousando sobre uma pedra
A estátua de Roald Amundsen, o maior explorador norueguês, na localidade de Ny-ålesund

domingo, 18 de setembro de 2016

a recíproca é verdadeira



eu sinto o blues o tempo inteiro,
todo dia.[1]
é minha sina, nasci com má sorte[2], dizem,
ao menos foi o que uma cigana disse a minha mãe[3]; 

nasci com o blues e pronto[4],

minhas 24 horas do dia cantam os blues
incansavelmente,
e eu canto junto.

afinal, se os problemas fossem dinheiro,
eu juro que seria um milionários[5];
como não posso perder o que nunca tive[6],
eu continuo bebendo[7] e esperando o sol bater na minha porta
algum dia[8],
pois os tempos são difíceis onde quer que você vá[9];

porque, sabe, é tão difícil amar alguém
que não ama você[10],
até porque ninguém me ama, a não ser minha mãe,
e olhe que ela pode estar bincando também[11],
mas logo eu estarei morto e dormindo a sete palmos do chão[12];

pois bem, é tanto blues na cabeça que
não sei se sou eu que sugo o blues,
ou se é ele quem me suga;
se eu o respiro ou se é o blues
que me re(in)spira.

André Espínola



[1] B. B. King – Everyday I Have The Blues
[2] Albert King – Born Under a Bad Sign
[3] Muddy Waters – Gypsy Woman
[4] Memphis Slim – Born With The Blues
[5] Albert Collins – If Trouble Was Money
[6] Muddy Waters – You Can’t Lose What You Never Had
[7] Pinetop Perkins – I Keep On Drinking
[8] Big Bill Broonzy – Trouble In Mind
[9] Skip James – Hard Times Killin’ Floor
[10] Son House – Death Letter
[11] B. B. King – Nobody Loves Me But My Mother
[12] Howlin’ Wolf – How Many More Years

sábado, 17 de setembro de 2016

Vida'mor

Quero a poesia madura
fruto recém colhido do pé
sabe-se lá o que é

não quero rascunho, esboço, nem tristeza
quero a palavra suculenta
antes que o fruto apodreça

quero as estrelinhas do teu corpo
afago de brisa
e sopro

quero a loucura escaldante
comer a polpa, a carnadura
a infinita tessitura do instante

quero a saliva
o sabor-a-ti, o orgasmo revigorador
antes de mais nada

quero a vida e o amor

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Chuva de canivetes

Pensava em um rumo
todos ali esperavam

todas as gotas
todos os minutos
todos ansiosos

aos poucos
eles iam embora
sozinhos
casais
ou grupos

tão escuro
tão frio
tão nervoso

estava na parada
seu ônibus
nunca veio.

sábado, 27 de agosto de 2016

São Thomé das Letras (MG)


     A cidade de São Tomé das Letras é um dos meus lugares preferidos, e sempre dou um jeito de passar por lá quando vou a minha Varginha, a uns 40 km de distância. A cidade é famosa pelo misticismo, bons restaurantes de comida típica e cachoeiras.
     Não por acaso, mereceu uma poesia bem humorada, que estará no meu próximo livro, Poesia Estradeira:

São Thomé das Letras

A nave do ET de Varginha estava com o GPS quebrado
O que queriam mesmo
era flanar por São Thomé
pousar perto da Pirâmide, de madrugadinha, sem ninguém por perto
sentar no telhado, a 1400 metros de altitude
discar o DDI, Discagem Direta Intergaláctica
e falar com a patroa:
“Meu bem, aqui é lindo! Daqui vejo nossa estrela:

pertim de casa!”

 A Pirâmide citada no texto é essa casa abandonada, que, no entanto, está bem conservada e é usada como mirante. A cidade está a 1440 metros de altitude.

 Do alto da gruta onde começou São Thomé, se vê a igreja matriz na praça


 Igreja do Rosário

 Pracinha com a estátua de Chico Taquara, morador já falecido, tido por alguns como um representante de outros mundos...


 Uma lojinha de artesanato local, na entrada da cidade


segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Cinzas


Em uma metrópole qualquer. Debaixo de uma chuva fina, mas tão fina que se tornava quase invisível, caminhavam lado a lado, de mãos dadas, o garotinho e a mãe. A mãe ia andando com pressa, sem dar atenção ao filho, arrastando-o pela mão.

Quando eles pararam em um cruza-mento, esperando o sinal abrir, o garotinho girou o pescoço e reparou no mundo à sua volta: nas centenas de pessoas apressadas, nas plantas, pássaros, prédios e tudo o mais. Após uma breve análise, por sinal muito precisa, ele virou-se para a mãe e perguntou:

– Mamãe, se os passarinhos são coloridos, as plantas são coloridas, os prédios são coloridos e até mesmo a comida é colorida... Por que é que as pessoas são assim, cinza?

E ele ficou olhando, esperando por uma resposta. Enquanto o rosto da mãe, por vergonha, passou de cinza para rosa.

domingo, 21 de agosto de 2016

Contraste


Como pode haver poesia
Se existem barrigas vazias

Se há crianças em perigo
Refugiados sem abrigo

Se o medo é companheiro
A liberdade usurpada

A convivência insana?

Mas, poesia é tão intensa que,
Crava n’ alma as dores e,

Faz ouvir os gritos de pavores
Perceber o amargo do sangue

As cores que o corte derrama
A lucidez que a tez exclama!

Rogo em prece às Musas
Para que o bom senso que jaz reviva

Como brotos depois da chuva
Como a paz que trazem as flores

Para que viver e a Primavera
Continuem a fazer sentido


(Angela Gomes, 23/09/2015)

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Poetizo-me

Faço de mim carne
Corpo para Deus manifestar-se
Faço de mim mente
Para Deus meus pensamentos povoar
Faço de mim espirito
Alma para Deus abençoar-me
E enfim faço de mim pássaro
Para com a liberdade poder voar.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Feito o diabo fugindo da cruz

Ela saiu correndo
e o derrubou
e atordoado,
custou a perceber
o que havia acontecido
forçou as vistas
procurando
e foi atrás dela

Dobrou a esquina
e pôde vê-la
estava longe

nada mais a fazer

Lá se ia a sua boa sorte,
tropeçando num gato
e se esparramando numa roseira.

M83 - "Wait" (Official Video) Thanks M83


sexta-feira, 22 de julho de 2016

Sutil


Cantarolando, colheu do chão uma flor cheia de pétalas. Delicadamente, retirando pétala por pétala, começou a falar, entre sorrisos e suspiros:

– Bem me quer... Bem me quer! Bem me quer... Bem me quer!

Um amigo um tanto sem sal, e totalmente sem açúcar, interrompeu:

– Não! Não é assim!

Ao que ele respondeu:

– Você só diz isso porque você não conhece ela!

E continuou sorrindo.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Conversas a sós


Conversas a sós,
Entre mim e,
Sombras que me habitam.

Entre as que me agradam
E, as que me irritam.

Na solidão de uma cela
Cheia da minha companhia.

No aconchego do descanso
E, terror da luz que as clareia.

Entre, quem ama e se odeia.

Entre o que se conhece
E o que não se imagina.

Ante a contemplação
Do que nunca termina...

Cosmos em átomos...,
Moléculas em desenhos abstratos.

Meu amor em um porta-retrato
Desbotado pelo tempo
Perdido.


(08/09/2013)

terça-feira, 19 de julho de 2016

Bush Doctor

Arnaldo saiu de casa no horário de sempre. Banho tomado, cabelo penteado e baseado enrolado. Entrou no carro, selecionou no seu pen drive a sua coletânea preferida do Bob Marley, ligou o ar condicionado no talo e seguiu o seu tradicional trajeto da semana, por entre as ruas da cidade.

Arnaldo já sabia o tempo de percurso, tanto que sabiamente fechava o seu baseado tamanho extra large para, metricamente, fumar metade no caminho de ida, e a outra metade na volta. Sempre atento aos policiais ou guardas de trânsito, Arnaldo já tinha tanto a manha da coisa que escondia por entre seus dedos o cigarro de maconha de uma forma que poucos, ou ninguém, conseguiria perceber de fora o que era. Além de quê, seu carro tinha película e, devido ao calor tropical de sua cidade, Arnaldo sempre dirigia com os vidros fechados.

Na batida do reggae, Arnaldo prensava sua cannabis e viajava ao som do rei. Nada tirava-o do sério durante o seu ritual matinal. O trânsito, o stress, as discussões, tudo ficava de lado nessa hora. Absolutamente nada fazia Arnaldo perder sua calma. Apenas ele e seus dois Bobs, um no som do carro, o outro indo direto para a sua mente. Simples assim.

Quando o seu cigarro chegava à metade, Arnaldo já se punha a apaga-lo, geralmente entre as avenidas 07 de Setembro e Pedro II. A partir dali, se nada de anormal acontecesse, eram menos de quinze minutos até o seu destino final. Tempo para mascar um chiclete, e olhar no retrovisor a vermelhidão dos olhos. Mesmo tendo mais horas de fumo do que urubu tem de voo, Arnaldo ainda achava graça em olhar a si mesmo com as pupilas dilatadas – assim como quando era adolescente, antes ainda de entrar para a faculdade, quando Arnaldo fumara seus primeiros beques. Sim, Arnaldo parecia não perder aquele seu lado infantil, mesmo já estando perto dos quarenta – afinal, para ele, aquilo sim era a mais pura alegria.

Ao estacionar seu carro na vaga de sempre, Arnaldo pegou o colírio e pingou em seus olhos. Borrifou um pouco de perfume por entre os dedos e pelo pescoço e entrou no prédio comercial. Ao chegar no consultório, foi já de cara avisado pela secretária:

- Bom dia Doutor Arnaldo! Bem, são cinco pacientes agendados para a manhã, e quatro para a tarde de hoje. Isso se o seu Azevedo não aparecer aqui lá pelas duas horas. Aí já viu né... o que digo pra ele?

- Diga que espere. Se ele quiser uma reconsulta, vai ter de pagar. Não adianta querer fazer pelo plano, viu?

- Ah, vou dizer pra ele. Nossa, já estou até vendo a cara dele... Bem, já deixei seu chá gelado no frigobar e o café expresso na sua mesa, doutor Arnaldo. A primeira paciente já deve estar chegando...

- Obrigado, Marialva. Até mais!

Arnaldo entrou em seu consultório e ficou cantarolando a última música que escutara no carro. Bebericou o café e viajou o que pôde, até que sua primeira paciente chegasse e acabasse com sua festinha particular.


segunda-feira, 18 de julho de 2016

México 70 - A Copa que eu não vi

Será possível alguém sentir saudades daquilo que não vivenciou? Por mais estranho que pareça, eu sinto, pois sempre me lembro com nostalgia da Copa do Mundo que, com meros quatro anos de idade,  eu não vi.  Ele foi disputada  no México, 1970, quando onze homens vestiram a camisa amarela da seleção brasileira e juntos elevaram o futebol à categoria de obra de arte.
Esqueçam tudo o que ouviram falar do governo Médici, seus porões sangrentos e a utilização do futebol como massa de manobra para manter o povo alienado e em seu lugar. Ignorem milagres econômicos, Guerra do Vietnã ou o movimento hippie. Procure no Youtube a Copa de 70 e foque-se apenas nas quatro linhas que demarcaram o campo de batalha do Estádio Jalisco, na cidade de Guadalajara. Naquele longínquo mês de junho, o “scratch canarinho” como era carinhosamente chamada a seleção, apresentou um espetáculo futebolístico nunca visto antes e quiçá impossível de ser reapresentado pois, a despeito do futebol haver mudando tanto em disciplina tática quanto nos aprimoramentos físico e técnico, as peças do xadrez eram outras, e de qualidade infinitamente superior ao que vemos hoje.
Para começar, havia um deus de ébano no esplendor de sua forma física, tecnicamente perfeito e amadurecido nos seus trinta anos de idade. Pelé, simplesmente o Rei, que conseguiu a façanha de ficar eternizado na Copa em que foi magistral não pelos gols assinalados, mas pelos perdidos. Veja, reveja e deslumbre-se com o seu chute do próprio campo contra a meta adversária e o desespero do goleiro theco, ou a clássica cabeçada defendia pelo inglês Gordon Banks, jogada responsável pela fama do arqueiro da seleção inglesa por muitos anos, ou ainda a incrível, fantástica, esteticamente maravilhosa meia-lua sem tocar na bola contra um goleiro uruguaio de prosaico nome polonês. No México Pelé foi perfeito, um maestro acompanhado pelo spalla Tostão, talentoso meia do Cruzeiro que meses antes sofrera um grave descolamento de retina e, do inferno a redenção, brilhou em terras aztecas. Justamente no confronto mais difícil, contra o “English Team”, consagrado campeão do mundo quatro anos antes, Tostão deixou sua marca em uma jogada individual pelo lado esquerdo onde, após provocar um salseiro, passou a bola para Pelé que, com um simples toque para lado, deixou Jairzinho livre para decretar a magra, contudo heroica vitória por um a zero.
Como esquecer de Jairzinho, o Furação da Copa? Seis jogos, seis gols, façanha nunca antes alcançada, nosso camisa sete levou pânico as defesas adversárias com suas arrancadas mortíferas. Tivemos ainda Rivelino e sua patada atômica; Brito zagueiro raçudo, considerado o pulmão da copa; Carlos Alberto, nosso eterno capitão que perpetuou o gesto de beijar a taça Jules Rimet (que como dizia o samba-enredo “derreteram na maior cara-de-pau”); a juventude veterana de Clodoaldo, a organização tática e os lançamentos milimétricos de Gerson, o canhotinha de ouro; a classe de Piazza, a discrição de Félix e Everaldo.
Campanha sem igual, coroada com a brilhante exibição na final disputada na Cidade do México. Um 4 x 1 convincente contra a seleção italiana, tão diferente destas finais insossas que nos acostumamos a presenciar nas últimas Copas.

Parafraseio Pablo Neruda e confesso que não vivi o momento, não vi a maior seleção de futebol de todos os tempos mas, graças ao milagre tecnológico, este espetáculo está ao alcance de qualquer mortal . Aprecie sem moderação.