quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Convidado José Hamilton da Costa Brito


O SUPINO

O dia mais difícil da sua vida...houve?
A vida corria, como se diz: legal.
Um dia o menino ficou em pé na porta da cozinha, com as pernas e braços abertos. O cachorro da casa, não tendo por onde passar , “vazou” por entre as suas pernas e o levou junto lá pra baixo...a casa ficava mais elevada, para evitar os danos do rio, nas enchentes.
Um braço quebrado. Era tarde, quase por anoitecer. Seu tio colocou-o nas costas e foi rumo à estação para pegar “ o noturno”; esse, já havia partido. Restou uma caminhada de mais de vinte quilômetros até a cidade, onde os cuidados médicos seriam tomados. Fazenda naquele tempo...tinha carrão, não.
O tempo passou, o braço sarou e a vida mudou.
Já meninão, foi estudar para ser padre, por influência do meio no qual vivia e porque alguns amigos disseram que iam,.foi também.
Rezar, estudar, praticar esportes. Quando não era assim, era praticar esportes, estudar e rezar. Vocês sabem o que é o supino? Pois é: ele sabe.
Nos retiros espirituais, por ocasião da semana de carnaval, incomunicabilidade por três dias consecutivos. Formava-se grupo de três seminaristas que caminhavam pelas dependências do seminário, sob observação dos padres e a única coisa permitida era rezar o rosário. Havia um puxador e os outros ficavam com os ora pro nóbis.
Ave Maria, cheia de graça: “cacete, você me deu uma paulada naquele lance”, o senhor é convosco” ah! Você que é frouxo”, bendita sois vós: “ frouxo é sua mãe, seu filho da puta”
E assim oravam, conversavam e acho que Nossa Senhora ria lá de cima...corja!
Havia um padre que gostava de vinho.No ofertório, o coroinha colocava três gotas no cálice.O padre ficava esperando, olhando com cara de bravo. O menino colocava mais um pouquinho...nada.O padre ali, olhando feio.O jeito era derramar.Um dia, na sacristia, o padre disse:
-Olha, “firio” io non vô ti excomungá. Vô te quebrar a cara, desgraciato.O vinho é seu?
Deus dispôs e o menino saiu do seminário. Na verdade, Ele pôs um rabo de saia no caminho do já adolescente, em uma das últimas férias. Foi-se o futuro papa brasileiro. Ficou sabendo de uma língua que já era morta; mas o que deu de trabalho, a desgraçada. Com ela que ficou sabendo do supino, do dativo, do ablativo etc.
Tomando o café da manhã na companhia do bispo, estava descascando a laranja com garfo e faca. A maldita escapou, correu pela mesa, bateu no bule de café, caiu tudo na roupa do santo homem.Foi excomungado.Virou Corintiano...ad aeternum.
.Por sinal, aeternum está no acusativo, regido pela preposição ad. No seminário a matemática não era lá muito estudada.Padre não aprende a somar, também não multiplica. A divisão que prega não necessita de cálculos. Só restou ao ex-seminarista, o clássico. Depois fez um curso de letras e por fim, de direito.
O que tinha que fazer na vida, já fez.
O supino?
Vide próximo capítulo ou perguntem para a Cecília, tia do Allan Vidigal.


---
josé hamilton da costa brito


quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Tempo Nosso


Ela não o conhece, mas sabe de seu bonito coração. Nenhuma palavra e um sorriso dele a informam que ele ama sua vida, e secretamente o coração dela se alimenta desse amor emprestado. Um olhar ao som do abrir de latas de cerveja é suficiente para dizer a ele que ela está muito feliz exatamente onde está, justo ela, que não é lá exatamente um terreno fértil para alegrias fáceis. Ela sabe que esse seu momento é dele também (um tempo compartilhado), e uma risada vem coroar o feliz segundo seguinte. O perfume dela o faz lembrar que ela é de carne, e o mês é ideal para essas coisas de carne e alegria. Uma cadeira amarela de plástico é trono, e as mãos caladas juntas conversam. Num entendimento mútuo as bocas se beijam, e do silêncio da boca dele ela só ouve bem-querer. Ela não diz, mas sabe que ele escuta. Os corpos tagarelas lamentam ter estado longe, mas logo correm atrás do tempo e sentem os segundos passar, tempo que agora é corpo, um corpo - o pecado mais acertado que poderiam cometer. Uma pele comemora ter encontrado a outra para descansar, como é bom se vestir de pele alheia, e ela poderia ficar embaixo dele por horas. Ele sabe que isso não acontece todo dia, e ela sabe que ele a prefere às outras. O silêncio é como se fosse de reencontro, misturado com despedida. As bocas se calam, mas é só pra deixar os corações, agora quase colados um ao outro, conversarem em alta e boa batida (quantos centímetros separam seus corações?). Os segundos seguem passando, agora correndo, escorrendo entre os dedos que entrelaçados tentam segurá-los. Voam rápido, a deixá-la descabelada. Ele consegue salvar alguns para o dia seguinte, sempre tão bom com essas engenhocas de tempo, e os presenteia a ela, que com um beijo em seu ombro nu agradece. Mas seu estômago sabe que agora a hora é de despedida, são dez-pra-hora-de-ir, e não deixa nem mais a comida entrar (o estômago às vezes tem dessas de inanição companheira - trata de não se alimentar mais de comida quando sabe que ao coração faltará amor). Seu coração sabe que com a distância vai se encher de saudades, mas ele manda na bagagem de mão alegria pra ela. O último beijo a diz que ele tem muitos planos, e sua mala na mão dele esclarece a tristeza que ele nela percebeu. A menina não é feita de pedra. Ela agora segue, sem medo. E ele sabe, ela um dia vai voltar.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Estômago.

    ??
    ??
   ??
  ??
 ??
??
Ué??
Cadê??
Voaram?
Fugiram?
Roubaram?
Ninguém diz.
Não me respondem.
Não sei aonde foram,
as tantas borboletinhas.
Será coisa de cientista?
Há tempos já ando notando
que quem se crê cientista
parece se sentir à vontade
para sequestrar friamente 
imprecisões tão singelas. 
Usando redes entomológicas
capturam, mecanicamente,
tudo o que o cabimento
deixava guardado em
seus devidos lugares.
Borboletinhas! 
Pequenas e
enfeitadas de
todas as cores.
Há tempos lá estavam,
de forma um pouco difusa,
armazenadas na câmara escura.
Que realmente não era grande,
mas também não era tão pequena.
Quando voavam roubavam-me o ar.
Eu suspirava com o bater de asas
dos lepidópteros que sabiam como
acusar a sua presença na paisagem.
Agora já não as tenho. como pode?
Você surgindo no horizonte é coisa
tão irrelevante, que me faz pensar
que carrego dentro de mim um vasto 
silencioso cemitério de borboletas. 
Quem se responsabilizará por esse
sumiço repentino dos seres que me
faziam reconhecer que entre alguns
encontros e tantos desencontros, 
repousam doses diárias de 
ácido clorídrico e uma 
noção de amor sofrido.
Sem o voar das tais, 
me sinto vazia. 
Será gastrite?
Ou será azia?
Quero todas,
de volta.

Me dá?

sábado, 25 de dezembro de 2010

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Verão Incessante. [1]


É sempre assim, chega no final do ano, todo mundo começa fazer promessas para o ano novo, são inevitáveis – corriqueiras! Algumas bem cabeludas, enquanto outras, já estamos carecas de saber. O grande lance é desejar aos amigos e familiares boas entradas, nem que seja pelo cano... e, como ficam as saídas?

Amigas “4ever”

- Amigaaaa... eu já prometi pra mim mesma que no próximo ano, eu vou emagrecer!!
- Ah! Que isso?você está ótima!
- Amiga você não está entendendo... preciso perder uns cinco quilos, no mínimo.
- Pára!
- Chegou o verão. Eu quero ir a praia todos os domingos. Mas pra isso, preciso entrar no biquíni novo que comprei. Precisa vê. É lindo!
- Depois me mostra.
- Shopping no final do ano ninguém merece... Vamos comer uma pizza? Eu tô morta de fome.
- Bem... É assim que você quer emagrecer???
- Relaxa amiga, vou fazer dieta só ano que vem.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Ítalo Calvino - Os nossos antepassados


Aproveito meu espaço para recomendar a leitura de três livros do Ítalo Calvino, um escritor nascido em Cuba, mas que seguiu ainda no colo para a Itália, onde despontou para a literatura.

As obras são: "O cavaleiro inexistente", que conta a história de uma armadura vazia em suas batalhas e dilemas na época das Cruzadas; "O barão das árvores", sobre o teimoso primogênito de um barão que, após uma briga com o pai, promete nunca mais pisar o chão; e "O visconde partido ao meio", que conta a história de um nobre literalmente dividido, por uma bala de um canhão turco, entre uma parte excessivamente boa e uma parte excessivamente ruim.

Os livros compõem a trilogia "Os nossos antepassados" e são - como já deve ter dado para notar pelas sinopses - obras de realismo fantástico, dotadas de um contexto histórico, mas com ares de fábulas. Os livros conduzem o leitor por um quebra-cabeça da formação do que chamamos de "homem moderno" - alienado, dividido e incompleto - e podem ser lidos em qualquer ordem, uma vez que não há relação direta entre os enredos. O caráter lúdico das histórias, quase infantis, torna a leitura prazerosa - diria até relaxante, são daqueles livros que fazem o relógio andar depressa, que te fazem descer alguns pontos depois de onde devia, essas coisas de leitor que se desprende do resto do mundo.

Não pretendo falar mais dos livros porque espero que os que se interessarem leiam eles por inteiro. A trilogia foi publicada no Brasil pela Companhia das Letras e há, inclusive, edições mais recentes - e que cabem no bolso - de "O cavaleiro inexistente" e "O barão nas árvores".


ps: uma curiosidade é que logo depois de ler "O visconde partido ao meio", li "O homem duplicado", do José Saramago, e é impressionante como os argumentos das obras se entrelaçam. Se puderem, sigam este roteiro, vale a pena.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Esfinge


Convidado: Rafael Walter [Palavra sem Teto]

"...O nome da Esfinge é Tempo..."
(Carpindo o dia - Ricardo Pozzo)

como se toda eternidade
esperasse por um momento

e no instante, o coração bombeasse
o sentimento puro, quase inocente

e num beijo, dar a sede
do desejo insaciável

e perder-se na clara evidência
do amor existente,

latente e escondido,
na palavra escancarada

dançar então, na beira do abismo
rodopiar o mundo com a força dos ventos

velejar sem rumo
admirando a "estática" paisagem

e gritar, sangrar o peito,
tragar a vida, suspirar ao alto

ouvir o silêncio,
como bela canção

falar em línguas desconhecidas
dar tudo aos pobres

e pedir a deus, o acerto de contas
porque neste instante pairou:

_ leve, o vôo da borboleta

imagem: arquivo particular.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Convidado Osmar Prestes

Perfume original

Mais original do que o cheiro de Puta não tem

Puta tem perfume original, cheira doce caseiro quente

Respira, fuma, ri, sorri, sonha, encanta tantos por pouco, poucos por tanto.

É original.

É Puta e pronto

Não há Puta falsa

Pode virar esse mundo

Puta tem preço e prazo de validade contratados

Não da pra guardar nem levar pra casa

Puta não mente

Ilude, alimenta sonhos e sonha, goza vez ou outra, coisa de Puta

E não paga

E esconde seus sonhos

Ela pode

É Puta

Tem perfume original com gosto de sal no baton

Que alimenta saudades e chora também


---



(Osmar Prestes)

domingo, 19 de dezembro de 2010

Costura.

Boas festas e um 2011
pleno de conquistas!
Beijinhos.

***


Costura.


Infiltre o jeans dos meus pensamentos,
Os silêncios de gritos gemem suas mãos.
Não importa o sussurro do vento
Desabotoe minha perdição em renda.
Renda-se aos meus pés com palavras sacanas,
Preciso coser seus risos no cálice dos meus prazeres.


Não cale múltiplos gozos, não atrase ou adiante os seus,
Crave dentes, devagar, na volúpia dos meus ombros,
Veste a minha carne de saliva e caso eu pareça louca
Seja camisa de força. Force-me a pontos miúdos.
Vire noite quente a acalmar minha tara,
Muitas vezes serei sua madrugada sorridente.


Condene os tecidos ao encontro, faça-me cor predileta.
Arranhe, apalpe, alinhave minha fome a buscar sua fonte.
Olhe manso meu corpo quando eu adormecer; lamba-me.
Quero acordar com suas marcas, seu gosto, seu cheiro,
Amanhecer nua e recorrer as suas roupas. Minha intenção?
Confirmar que o sonhei alma minha em seda!


Eliane Alcântara.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Por Tão Pouco

bando de mendigos,
cuja fome é eterna,


basta oferecer
um mísero pedaço de vida


que vocês todos
abrem as pernas.


André Espínola

Soledad




É chegado o tempo da solidão.

O tempo de sentir as paredes da casa comprimindo durante o fim da tarde.
É chegado o tempo das ruas desertas e das amigas distantes... É chegado o momento em que tudo mais parece um dia sem cor.
O tempo dos celulares com bônus exagerados e dos chips que se comprometem a ligar de graça por 31 anos. Nada perdura mais que o ermo e o sentimento de que a voz, de alguma forma, consola. É tempo de se aceitar a solidão como amiga. Conviver com ela com paciência e animosidade.

Como pode se estar agora, nesse tempo, em tempos de solidão?

Meu trabalho é solitário. As pessoas entram na minha vida como uma voz. Ouço-as, mas não as conheço. Sei dos seus dados bancários, mas não as conheço. Se as conhecesse, lhes diria "oi", mas não saberia dos seus medos. Ninguém mais quer ouvir sobre os avós... Não há mais a cadeira na calçada e o tio que contava suas passagens de retirante. Ninguém mais se orgulha das raízes. Ninguém mais quer conhecer o passado mais próximo do seu melhor amigo. Eu nunca posso dividir com ninguém os singelos dias com o meu avô e sua cadeira de balanço.

Ninguém mais quer ouvir as músicas que minha avó cantava.

É chegado o tempo de cantos secretos à noite, de pequenos segredos de parafina, de escondidos gatos sobre o telhado.

É chegada a hora de recolher o pano de chita dos sonhos e fazer com ele o encosto para assistir televisão. A hora de fazer comunhão virtual com pessoas do outro lado do mundo e de se armar para a revolução com mouse, teclado e assinatura num blog de ideias.

É chegada a hora.
Nada mais existe, nem os campos de borboletas, nem os dentes de leão, nem as tardes esculpidas nas montanhas.

Só o mundo inteiro, avizinhado pela casa mais vazia com ecos de esconder alegrias, que habita dentro dele mesmo.
 
 
 
(Jessiely Soares)

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Entropia


falo num idioma que entende noites
e dialoga com estrelas

meu dizer não é meu, é do universo
pois não sou de mim ou de ninguém
fui gerado para romper fronteiras
e só agora me descobri

busco a magia escondida em cumes
e a essência do átomo

semeio e me desfaço lentamente

o risco na pele é um sinal
eu sinto
mudo a cada segundo

(Celso Mendes)

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Sensações


A noite escura, a guerra perdida
Os olhos em fuga são colhidos pela tempestade
Que assolou aquele terreno infértil de murmúrios.

Lembranças transformadas em temidos furacões
Redemoinho de sensações
Deserto...

Os sonhos foram perdidos
A lua compadecida os acalenta
E os repousa em uma estrela...
Aquela, que se desprendeu da constelação.

Sem rubor os anjos observam atentamente
Os sentimentos expressados com ternura.

As fadas ensaiam passos novos,
bailam nas palavras proferidas que se encaixam
perfeitamente como notas musicais
Bela melodia...

A alma alimentada e os pelos eriçados...
Sentimentos e sensações jamais experimentadas.

Um feixe de luz...
O sol mansamente começa a brilhar
E nos faz lembrar que,
Construímos nosso castelo nas nuvens

Vendaval...

Desmorono

Restam escombros...

(Ro Primo)

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Convidada Maria Júlia Pontes

Do que não escrevi nos muros dos colégios

É a noite que revira

Sem escrúpulos o afã

Enroscado nos muros

Dos colégios no mês de julho,

É ainda noite

Quando arrepios

Em forma de titãs

Estremecem desejos régios,

Enquanto ladram os cães

Reviram vontades de apenas ser

Num sonhado alvorecer

A rosa de Guimarães.

---

Maria Júlia Pontes


quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

PENSANDO NA MORTE


PENSANDO NA MORTE
PARANÓIA CARDIOPATA DE UM VICIADO


Sentado no vaso sanitário do Braseiro na Gávea
Terrificado
Penso, logo desisto.
A qualquer hora, vou morrer.
Vou ter uma apoplexia
Derrame de merda
Derramo bosta
Aqui, eu sei.
Flatulências
Não posso mais com doce
Meu bestunto tá derretendo
Não consigo respirar
Sinto dores no coração
Compressão
Premonição
Vou morrer de uma parada cardíaca
Ataque de cardiopatia
300.000 batimentos por segundo
Tô nem aí
Bato outra carreira neste banheiro nojento
Onde estou, ensaio sensações.
Pavor, não nego, tenho medo da morte.
Engulo...
... Um ecstasy
Minha testa pinga
Ouço zumbidos
Zumbis
Fantasmas
A passagem pro além eu comprei nas bocas da vida
No trem da extinção, meu sombrio embarcou.
Embaçou, meu olho dói.
Ocularmente, pressionado.
Sinto, a visão vai explodir.
A foice vai me partir
Enfarte
Não
Eu não
Socorro!
Minha cachimônia lateja
Dores
Pontadas
Náuseas
Vômitos
Por fim, a morte vem me buscar.
Não realizei nada
Ninguém me ouviu
Não ouvi ninguém
Sei que vou morrer
Vai ser agora
Não levarei saudades
Vou embora

Licença Creative Commons
Based on a work at http://www.pablotreuffar.com/.
A VERDADE É QUE EU MINTO

A VERDADE É QUE EU MINTO

A DOENÇA É A DESCULPA DO CARÁTER

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

cardo


Escrevo

Um arremedo de poesia
sem rima nem métrica
não há regras
não há nem mesmo verso
talvez...

Um pseudo-verso
perdido na noite insone

O que eu faço?

Cardo almas irmãs
bordo caminhos avessos
distraída artesã
teço versos peregrinos
conto histórias
Do que não sou
fulgores distantes

Persigno velocinos
Em nome dos santos desvarios
Que vagam pela cabeça
Benzo os beijos perdidos
Abençôo meu amor
E esconjuro teus pecados


Rosa Cardoso

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O sol, nossos beijos e as estrelas




Sonhei conosco “sis” dias

Você com uma camiseta do Nirvana
eu de jaqueta e calça jeans

Sentados, cercados de amigos, numa mesa de bar
falávamos sobre política e sobre o Obama
e bebíamos cerveja e batida de cajuzin

Não nos beijávamos
no sonho apenas nos olhávamos como se algo ainda fosse vir a acontecer
e te convidei pra se levantar e vir comigo

Subimos as escadas até a cobertura pra ver a noite
toda sua profundeza negra
e a vastidão das estrelas
já mortas
que piscavam pra nós seus olhos de meretriz

Enciumadas por você estar ali tão perto delas tão alta a ofuscá-las
em protesto pela injusta competição, pararam de brilhar
e fizeram tolas, da noite seu rápido fim
Recolheram-se as estrelas, ao mirar em você
com tremendo assombro
mais luz que em bilhões delas

Foi-se a noite e veio assustado e surpreso o Sol emanar seu dia

Descemos então pra rua a caminhar e só então nos demos as mãos
E entre os carros e os passantes fiz questão de lhe dizer
num beijo
meu desejo de você

O comércio parou pra ver
pessoas aplaudiram
e os jornais do dia seguinte noticiaram nosso beijo na TV.

“Que bonito!
No Fantástico os amantes se beijando.
Desse crime podemos morrer!”

E o Sol invejoso de mim, ao me ver ao lado seu
esquentou suas veias e fez da manhã um fim de tarde ardente
e foi preciso fugir e nos esconder por um tempo
pra que o Sol acalmasse sua ira e flanasse vagaroso
seu costumeiro hálito de mormaço
e seu silencioso rugido quente

Te dei uns óculos escuros
pra te proteger
do olhar fumegante do meu rival enciumado

Dizia ele em delírio e febre
que desde tempos remotos brilhava sobre esta
Terra
fazendo árvores, plantas, florestas densas
animais e seres humanos
respirarem
só pra fazer você existir

Que relação perigosa, essa nossa
O Sol, possessivo de você, ameaça varrer o mundo em labaredas
As estrelas despeitadas do seu brilho
morrem fugazes e se apagam a milhões de km de distância
ao te verem ao meu lado
Sinto que o mundo corre perigo fatal de se extinguir devido simplesmente aos nossos beijos

Já eu
o único perigo que lhe ofereço
é que você fique no bar e queira beber mais um pouco
quando me ver chegar

Mas que o Sol saiba desde já
que de agora em diante
brilhe sua flama por outras saias
ou que ilumine a nós dois
descontente ou desesperado.

E que as estrelas que se contentem
frente à sua luz
com seu brilho extinto e mirrado
pois se eu não puder mais te beijar
que se foda o Sol
as estrelas
e que o mundo inteiro
então
suma apagado ...


#

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O Deus Cadáver


Flutuava, atônito, ao redor de si. O peito doía, mais pelo pontapé em seu cadáver que pela passagem do metal incandescente. Seus volumosos códigos jaziam espalhados na via, à mercê dos passantes, das intempéries. A visão de sua bela toga negra, agora suja, rasgada, sacrilegamente repousada sobre o monturo de excremento canino deixou hirsutos seus pêlos ectoplásmicos. O condenado foragido, a valise, o Rolex e a carteira há muito haviam sido engolidos pelas trevas noturnais, restando, apenas, a capital sentença a reverberar em sua mente confusa, mesclada ao estampido ensurdecedor: "É, seu juiz. O senhor me fudeu aquele dia lá no tribunal. Agora, quem vai se fuder é o senhor. Quem o senhor pensou que era pra ferrar com a minha vida daquele jeito? Deus?"

Carlos Cruz - 07/10/2008

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Segunda elegia

















o homem perturbado
dialoga com a vida
e há quem diga
que é um baseado
ou que é heroína
mas ele encena
a luta diária
de se dar por nada, na perda
no movimento do outros.

o homem entende
com seus olhos invertidos
vê o que ninguém mais consegue
enxuga seus lábios tardios
enfastiados de agonia
para tentar ser feliz
vomita Euclides da Cunha
e drogas ilícitas
para se livrar das grades.

o homem interna-se
só há grades nos outros
no mundo e em si
no retrair do músculo
na tensa paz vazia
nas ocupações diárias
tenta ser livre
e solta seu verbo
na Jaceguaí.

o homem olha-se
e não vê-se completo
vê-se coagido e liberto
e dança parado
com a fumaça do fumo
e se vai com ela
como se fosse o único
a ver, a sentir, amar e perder
tudo que desejou na vida.




(imagem de minha autoria)

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Natureza

A natureza

tão bela

flor roxa

azul e amarela

que coisa singela



mas se piso nela

ou jogo pela janela

Querela!



a esses mosquitos

Insisto

Citronela!

-

terça-feira, 30 de novembro de 2010

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Uma introdução


Fui convidada para me sentar à mesa com vocês, e com alegria aceitei o convite. Perguntei ao Giovani se meu estilo estava bom, ele me respondeu dizendo que o espaço é livre. Sempre tive muitos motivos para duvidar do meu estilo, talvez todos fictícios (mas que existem, existem).

Não sei para quê escrevo, nem como. Sento e escrevo. Não sei por quê quero ser lida, mas quero. Minha escrita não tem manual. Por isso a julgo inevitável – no sentido de que não há muito que possa fazer, a não ser sentar e escrever. À parte disso, não compreendo mais nada, o que me causa uma alegria e ansiedade enormes. Por não compreendê-la, temo que um dia ela se vá, e a fonte se esgote (mas uma voz otimista que me forcei a criar diz: calma, se é sobre a vida, matéria não há de faltar).

Aprendi a escrever enquanto criança, na escola. Meu primeiro livro fiz antes disso. Na minha escola aprendi que pra contar história não precisava saber escrever, e ditei para a professora, palavra por palavra, a fantástica história do melão chorão que fazia xixi. Apesar de tantas faltas de liberdade inerentes à escola, muito era possível naquela, onde aprendi também a fazer amigos e a discordar (às vezes) de (algumas) autoridades. Me lembro de discussões sem fim com o professor de história sobre nosso otimismo ingênuo, e anos depois fui encontrar um pedacinho de papel entre meus materiais escolares que dizia:

Carta para mim aos 21 anos
Eu acredito que se cada um fizer a sua parte o mundo será melhor.

Esse foi o fim de um debate acirrado sobre nossas visões de mundo: os alunos da sexta série A acreditavam que de gota em gota poderíamos mudar o mundo; o professor nos garantiu que aos 21 anos já não pensaríamos bem assim, e nos orientou a escrever esse lembrete para quebrar nossas pequenas caras no futuro. Emputecidos, escrevemos, certos de que jamais mudaríamos de ideia.

Mas ouvíamos atentos. Entre detalhes sórdidos sobre os cintos de castidade e aqueles incríveis desenhos de feudos completos no quadro-negro, via-se naquele professor um leve tom de foda-se para aquilo tudo que nos intrigava. Era interessante porque esse desinteresse se misturava com uma preocupação conosco e com o mundo – só quem se preocupa defende ativamente sua revolta. Aprendemos ao menos que havia debate; nem todos concordariam sempre. Aprendemos o que era anarquia, pois ele dizia ser anárquico. Detestava crianças. E nos prometia que em pouquíssimos anos seríamos amigos, e conversaríamos de igual para igual.

Ainda hoje acho uma loucura conversar de igual para igual com gente grande. Tenho pretensões muito tímidas com relação à minha escrita – tão pequenas que nem sei quais são. Somente escrevo, do jeito que aprendi. Desde a escola. Como aquele professor, me preocupo o suficiente para me guardar o meu direito de escrever minhas baboseiras nas quais não vejo sentido algum. E publico da maneira que tanto me agrada, num blog, porque numa boa conversa você fala e ouve, assim como acontece aqui, no bar do escritor. Para uma boa bebedora que conversa melhor por escrito, quer lugar mais aconchegante?


Mestre Gigio, é um prazer poder, finalmente, conversar com você!

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Quereres

o corpo que te quer coberta
a boca que te quer repleta
a pele que te quer atrito
a ausência que te quer conflito
a idade que te quer menina
o gozo que te quer rotina

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Cárcere privado



Sobre a calçada
fumegam os resquícios
de um colchão incendiado

Em volta,
dezenas de curiosos
observam as contorções
das chamas que ainda resistem.

Ao avistar de longe esta cena,
encho-me de esperança:

finalmente rebelaram-se
os prisioneiros da rotina.


Identidade e prática de escrita em blogs



Em uma pesquisa pelo google, acabei deparando-me com o seguinte estudo:

MENDONÇA, Marina Célia. IDENTIDADE E PRÁTICA DE ESCRITA EM BLOGS: REFLEXÕES SOBRE O FAZER LITERÁRIO NA INTERNET. (clique aqui ler o material)



O artigo, fruto da pesquisa de uma professora da área de linguística da UNESP, baseado nos fundamentos bakhtinianos da análise do discurso, aborda o tema da criação de identidades - e também de subjetividades - através do fazer literário nas ferramentas conhecidas como blogs.

O website utilizado para a análise foi este aqui, o blog do Bar do Escritor. Entre os escritores citados especificamente como exemplo no estudo, constam: Pablo Treuffar (dia 09), Robisson Sete (dia 07), Lena Casas Novas (dia 24) e eu, Rodrigo Domit (dia 22).

Vemos, neste estudo, o BdE e a criação literária virtual repercutindo no meio acadêmico. Espero que vocês apreciem o artigo, postado aqui com a intenção de incentivar os colegas a continuar construindo suas identidades e subjetividades literárias.



sábado, 20 de novembro de 2010

Convidado Renato Saldanha Lima

agora


Em sua caixa de correspondência encontra ele um convite ao final de uma semana mal dormida e, também por isso, extenuante. A palhaça do convidado logo bate forte: que esquisito ser eu, um bebum herege extraviado até da heresia, convidado por escrito para aparecer lá pelas cercanias do bar. Do bar em que parei de ir depois de já ter feito por lá as minhas estrepolias. Por que parei, por quê? Convite instigante esse da porra! A quantas andará o pestilento boteco cujas latrinas rescendem à poesia? E em que as as louras, ruivas e pretas eram refrigerantemente fortes e quentes? Em que rolavam soltas as línguas, entrelaçando-se em verborragias aparentes? Esquisito pra caralho! Esquisito porque estranho. Esquisito porque delicioso. Rememora o convite aquilo tudo vivido em meio à vida ensandecida. Lembra-se deste ébrio o próprio dono do bar. Logo o próprio dono do bar! Estará o estabelecimento às moscas? Se estiver, as moscas certamente esvoaçam sobre estrume fecundo. Deu-me uma sanha de novamente pairar sobre aquelas bandas. Saber do velho e do novo. Ser novamente coberto por essa merda diamantina. Pois bem, aceitarei o convite. Comparacerei lá por aquelas cercanias porque meu tempo é agora:

Agora,
eu quero agora,
pois nada me adianta fiar
pela hora das coisas.

Não sou coisa
que dura infinita no tempo,
mesmo que partida,
estilhaçada,
aparentemente destruída,
mas cujas moléculas persistem,
testemunhas particulares
da existência dela, da coisa.
Ou melhor, de uma coisa,
qualquer coisa,
uma coisa qualquer.

Não sou coisa,
já disse.
Mas também não sou qualquer um,
um qualquer,
em fileiras imensas
de uns quaisquer
igualmente iguais
a outros quaisquer uns,

As coisas são assim,
iguais nos íntimos de si
e eternas porque
para sempre
e desde sempre
já mortas.

Eu não.
Nós não.
Somos seres vivos,
por isso, vez por outra,
temos as carnes inflamadas em fogo,
a alma esvaziada porque exala gases cáusticos,
ao preço de carnes calcinadas,
reais e verdadeiras,
tornando a fuligem cinza
o olhar dos olhos próximos
distante
e gélido.

Com a urgência dos desesperados,
lanço sobre o rubor mínimo e derradeiro
tudo que tenho,
tudo em que em mim posso transmudar
em mim mesmo,
mas melhor,
mais eu,
fiel à minha estranheza original
que se vai construindo
e que jamais se conclui.

Eu quero agora,
porque logo ali,
quase aqui,
um nada além de agora,
tudo se acaba para nós,
seres lindos,
quase divinos,
porém mortais,
parêntesis que se abrem
e dividem
o todo nada de antes,
de um lado,
e o todo nada de depois,
do outro.
No meio, nós.
Nós e o pouco que podemos,
mas que pode ser tudo
se o fizermos.


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Renato Saldanha Lima