sábado, 27 de agosto de 2016

São Thomé das Letras (MG)


     A cidade de São Tomé das Letras é um dos meus lugares preferidos, e sempre dou um jeito de passar por lá quando vou a minha Varginha, a uns 40 km de distância. A cidade é famosa pelo misticismo, bons restaurantes de comida típica e cachoeiras.
     Não por acaso, mereceu uma poesia bem humorada, que estará no meu próximo livro, Poesia Estradeira:

São Thomé das Letras

A nave do ET de Varginha estava com o GPS quebrado
O que queriam mesmo
era flanar por São Thomé
pousar perto da Pirâmide, de madrugadinha, sem ninguém por perto
sentar no telhado, a 1400 metros de altitude
discar o DDI, Discagem Direta Intergaláctica
e falar com a patroa:
“Meu bem, aqui é lindo! Daqui vejo nossa estrela:

pertim de casa!”

 A Pirâmide citada no texto é essa casa abandonada, que, no entanto, está bem conservada e é usada como mirante. A cidade está a 1440 metros de altitude.

 Do alto da gruta onde começou São Thomé, se vê a igreja matriz na praça


 Igreja do Rosário

 Pracinha com a estátua de Chico Taquara, morador já falecido, tido por alguns como um representante de outros mundos...


 Uma lojinha de artesanato local, na entrada da cidade


terça-feira, 23 de agosto de 2016

Queria versos...

Poderia ter um verso novo,
porém não o tenho.
Ainda que tantos livros leia hoje,
 os versos não me vem.
Mesmo que a mente  tenha palavras e palavras
nenhuma me é sentida como verso.
Porque versos não são simples desabafos,
nem elaboradas rimas.
Versos são momentos que cristalizados
 brotam da alma do poeta.
Esse que em estado de graça ou de desgraça
apenas como  que semeando  
  os espalha ...
Seja  com seres que o lerão.
Ou simplesmente como o vento que
somente passa...
ou ainda como a natureza
 que calada 
contempla.
Como a Lua que simplesmente lá  de seu trono 
vê o Poeta que encantado 
versa seus versos
fazendo o mundo sorrir.
Hoje queria ter  versos assim
mas não os tenho por isso não desdenho;
Somente os espero  virem a mim.

CatiahoAlc/ Reflexo d'Alma  entre sonhos e  delírios

PO3 de ago de 2010

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Cinzas


Em uma metrópole qualquer. Debaixo de uma chuva fina, mas tão fina que se tornava quase invisível, caminhavam lado a lado, de mãos dadas, o garotinho e a mãe. A mãe ia andando com pressa, sem dar atenção ao filho, arrastando-o pela mão.

Quando eles pararam em um cruza-mento, esperando o sinal abrir, o garotinho girou o pescoço e reparou no mundo à sua volta: nas centenas de pessoas apressadas, nas plantas, pássaros, prédios e tudo o mais. Após uma breve análise, por sinal muito precisa, ele virou-se para a mãe e perguntou:

– Mamãe, se os passarinhos são coloridos, as plantas são coloridas, os prédios são coloridos e até mesmo a comida é colorida... Por que é que as pessoas são assim, cinza?

E ele ficou olhando, esperando por uma resposta. Enquanto o rosto da mãe, por vergonha, passou de cinza para rosa.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Poetizo-me

Faço de mim carne
Corpo para Deus manifestar-se
Faço de mim mente
Para Deus meus pensamentos povoar
Faço de mim espirito
Alma para Deus abençoar-me
E enfim faço de mim pássaro
Para com a liberdade poder voar.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Feito o diabo fugindo da cruz

Ela saiu correndo
e o derrubou
e atordoado,
custou a perceber
o que havia acontecido
forçou as vistas
procurando
e foi atrás dela

Dobrou a esquina
e pôde vê-la
estava longe

nada mais a fazer

Lá se ia a sua boa sorte,
tropeçando num gato
e se esparramando numa roseira.

M83 - "Wait" (Official Video) Thanks M83


sábado, 23 de julho de 2016

Entrega

A
real
entrega
não é a que
acontece
primeiro
numa cama,
no chão
e nem
a que
se
concretiza
só no
entrelaçar
dos
corpos.
Ela;
a entrega,
acontece
primeiramente
onde
não
testemunhas,
nem
jogos
ou
julgamentos.
Os que
não
se
apercebem
disso,
perdem
de
tantas
formas,
que
quando
finalmente
se
dão
conta,
o real
clímax
se
deu...
Que
Tolos.
CatiahoAlc/Reflexo d' Alma entre sonhos e delírios
PO23 de jul de 2010

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Sutil


Cantarolando, colheu do chão uma flor cheia de pétalas. Delicadamente, retirando pétala por pétala, começou a falar, entre sorrisos e suspiros:

– Bem me quer... Bem me quer! Bem me quer... Bem me quer!

Um amigo um tanto sem sal, e totalmente sem açúcar, interrompeu:

– Não! Não é assim!

Ao que ele respondeu:

– Você só diz isso porque você não conhece ela!

E continuou sorrindo.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Conversas a sós


Conversas a sós,
Entre mim e,
Sombras que me habitam.

Entre as que me agradam
E, as que me irritam.

Na solidão de uma cela
Cheia da minha companhia.

No aconchego do descanso
E, terror da luz que as clareia.

Entre, quem ama e se odeia.

Entre o que se conhece
E o que não se imagina.

Ante a contemplação
Do que nunca termina...

Cosmos em átomos...,
Moléculas em desenhos abstratos.

Meu amor em um porta-retrato
Desbotado pelo tempo
Perdido.


(08/09/2013)

terça-feira, 19 de julho de 2016

Bush Doctor

Arnaldo saiu de casa no horário de sempre. Banho tomado, cabelo penteado e baseado enrolado. Entrou no carro, selecionou no seu pen drive a sua coletânea preferida do Bob Marley, ligou o ar condicionado no talo e seguiu o seu tradicional trajeto da semana, por entre as ruas da cidade.

Arnaldo já sabia o tempo de percurso, tanto que sabiamente fechava o seu baseado tamanho extra large para, metricamente, fumar metade no caminho de ida, e a outra metade na volta. Sempre atento aos policiais ou guardas de trânsito, Arnaldo já tinha tanto a manha da coisa que escondia por entre seus dedos o cigarro de maconha de uma forma que poucos, ou ninguém, conseguiria perceber de fora o que era. Além de quê, seu carro tinha película e, devido ao calor tropical de sua cidade, Arnaldo sempre dirigia com os vidros fechados.

Na batida do reggae, Arnaldo prensava sua cannabis e viajava ao som do rei. Nada tirava-o do sério durante o seu ritual matinal. O trânsito, o stress, as discussões, tudo ficava de lado nessa hora. Absolutamente nada fazia Arnaldo perder sua calma. Apenas ele e seus dois Bobs, um no som do carro, o outro indo direto para a sua mente. Simples assim.

Quando o seu cigarro chegava à metade, Arnaldo já se punha a apaga-lo, geralmente entre as avenidas 07 de Setembro e Pedro II. A partir dali, se nada de anormal acontecesse, eram menos de quinze minutos até o seu destino final. Tempo para mascar um chiclete, e olhar no retrovisor a vermelhidão dos olhos. Mesmo tendo mais horas de fumo do que urubu tem de voo, Arnaldo ainda achava graça em olhar a si mesmo com as pupilas dilatadas – assim como quando era adolescente, antes ainda de entrar para a faculdade, quando Arnaldo fumara seus primeiros beques. Sim, Arnaldo parecia não perder aquele seu lado infantil, mesmo já estando perto dos quarenta – afinal, para ele, aquilo sim era a mais pura alegria.

Ao estacionar seu carro na vaga de sempre, Arnaldo pegou o colírio e pingou em seus olhos. Borrifou um pouco de perfume por entre os dedos e pelo pescoço e entrou no prédio comercial. Ao chegar no consultório, foi já de cara avisado pela secretária:

- Bom dia Doutor Arnaldo! Bem, são cinco pacientes agendados para a manhã, e quatro para a tarde de hoje. Isso se o seu Azevedo não aparecer aqui lá pelas duas horas. Aí já viu né... o que digo pra ele?

- Diga que espere. Se ele quiser uma reconsulta, vai ter de pagar. Não adianta querer fazer pelo plano, viu?

- Ah, vou dizer pra ele. Nossa, já estou até vendo a cara dele... Bem, já deixei seu chá gelado no frigobar e o café expresso na sua mesa, doutor Arnaldo. A primeira paciente já deve estar chegando...

- Obrigado, Marialva. Até mais!

Arnaldo entrou em seu consultório e ficou cantarolando a última música que escutara no carro. Bebericou o café e viajou o que pôde, até que sua primeira paciente chegasse e acabasse com sua festinha particular.


segunda-feira, 18 de julho de 2016

México 70 - A Copa que eu não vi

Será possível alguém sentir saudades daquilo que não vivenciou? Por mais estranho que pareça, eu sinto, pois sempre me lembro com nostalgia da Copa do Mundo que, com meros quatro anos de idade,  eu não vi.  Ele foi disputada  no México, 1970, quando onze homens vestiram a camisa amarela da seleção brasileira e juntos elevaram o futebol à categoria de obra de arte.
Esqueçam tudo o que ouviram falar do governo Médici, seus porões sangrentos e a utilização do futebol como massa de manobra para manter o povo alienado e em seu lugar. Ignorem milagres econômicos, Guerra do Vietnã ou o movimento hippie. Procure no Youtube a Copa de 70 e foque-se apenas nas quatro linhas que demarcaram o campo de batalha do Estádio Jalisco, na cidade de Guadalajara. Naquele longínquo mês de junho, o “scratch canarinho” como era carinhosamente chamada a seleção, apresentou um espetáculo futebolístico nunca visto antes e quiçá impossível de ser reapresentado pois, a despeito do futebol haver mudando tanto em disciplina tática quanto nos aprimoramentos físico e técnico, as peças do xadrez eram outras, e de qualidade infinitamente superior ao que vemos hoje.
Para começar, havia um deus de ébano no esplendor de sua forma física, tecnicamente perfeito e amadurecido nos seus trinta anos de idade. Pelé, simplesmente o Rei, que conseguiu a façanha de ficar eternizado na Copa em que foi magistral não pelos gols assinalados, mas pelos perdidos. Veja, reveja e deslumbre-se com o seu chute do próprio campo contra a meta adversária e o desespero do goleiro theco, ou a clássica cabeçada defendia pelo inglês Gordon Banks, jogada responsável pela fama do arqueiro da seleção inglesa por muitos anos, ou ainda a incrível, fantástica, esteticamente maravilhosa meia-lua sem tocar na bola contra um goleiro uruguaio de prosaico nome polonês. No México Pelé foi perfeito, um maestro acompanhado pelo spalla Tostão, talentoso meia do Cruzeiro que meses antes sofrera um grave descolamento de retina e, do inferno a redenção, brilhou em terras aztecas. Justamente no confronto mais difícil, contra o “English Team”, consagrado campeão do mundo quatro anos antes, Tostão deixou sua marca em uma jogada individual pelo lado esquerdo onde, após provocar um salseiro, passou a bola para Pelé que, com um simples toque para lado, deixou Jairzinho livre para decretar a magra, contudo heroica vitória por um a zero.
Como esquecer de Jairzinho, o Furação da Copa? Seis jogos, seis gols, façanha nunca antes alcançada, nosso camisa sete levou pânico as defesas adversárias com suas arrancadas mortíferas. Tivemos ainda Rivelino e sua patada atômica; Brito zagueiro raçudo, considerado o pulmão da copa; Carlos Alberto, nosso eterno capitão que perpetuou o gesto de beijar a taça Jules Rimet (que como dizia o samba-enredo “derreteram na maior cara-de-pau”); a juventude veterana de Clodoaldo, a organização tática e os lançamentos milimétricos de Gerson, o canhotinha de ouro; a classe de Piazza, a discrição de Félix e Everaldo.
Campanha sem igual, coroada com a brilhante exibição na final disputada na Cidade do México. Um 4 x 1 convincente contra a seleção italiana, tão diferente destas finais insossas que nos acostumamos a presenciar nas últimas Copas.

Parafraseio Pablo Neruda e confesso que não vivi o momento, não vi a maior seleção de futebol de todos os tempos mas, graças ao milagre tecnológico, este espetáculo está ao alcance de qualquer mortal . Aprecie sem moderação.

domingo, 17 de julho de 2016

Flor dos meus pensamentos

Meus pensamentos
são como uma flor
que desabrocha com o tempo
chamuscada pelo sol
despetalada pelo vento

sábado, 16 de julho de 2016

Onda

aquele ali é hippie e está na moda
aquele outro é vegano porque é moda
fulano envenena o próprio corpo
e se diz preocupado
com a natureza

ciclanos e beltranos
estão dizendo que não vai ter copa

e tantos tantos outros
batem panelas contra o governo

poucos sabem
o que realmente estão fazendo

vejo uma onda levando todo o resto
e acabando num redemoinho

alguns se salvam
ficam boiando
como merda após a descarga.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

E pi fa nia do Ser


--> -->Os olhos sobre a pele queimando
As mãos mais que tato não se limitando
apenas ao toque,
na verdade explorando.
As palavras mais que articuladas
pousando como
carícias intensas.
Cada vez que os olhos se encontrando
era magia faísca se tornando.
Assim incêndio no íntimo consumando.
Certamente os que de magia entendessem
por ali passando nítidamente notando
o círculo de fogo formado sobre suas cabeças.
Sob os pés nevoa de encantamento se dando.
Pois certo que em leveza flutuavam.
Enquanto que ao redor tudo
fenecendo...
Rumores,
sabores
cheiros ,
movimento.
Porém como se nada mais existisse
encantados não percebiam.
Segundos, minutos , horas
dessa coisa de tempo não se inquietando.
Verdade é que o mistério da epifania já se dera.
Tempo sem tempo,
momento único passando
num piscar de olhos.
Água na face,
realidade à porta
e o tempo controle da vida
o fio puxando
como que do sonhar acordando
cada um tomando
caminho seu.
Nas mentes doce lembrança.
No corpo dor do desejo...
Na alma rubor do encanto.
E a tarde prosseguindo...
a brisa trazendo de volta o arrepio
que na pele eriça o pelo...
Um pro nada olhando
o outro o céu desvendando.
A lua por testemunha muda
brilhando sorri
pois só ela percebera
a epifania
que entre deles
se dera.
CatiahoAlc./ReflexodAlma
PO23 de jun de 2010

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Visionários


Os donos do mundo sabem que o petróleo derivou-se de animais e vegetação soterrados

Pensando no futuro, matam, desmatam e encobrem

domingo, 19 de junho de 2016

No Bar

Seu Reginaldo estava naquela fase em que qualquer barman já pensa duas vezes se é hora de pular do balcão e tentar remover o cidadão dali. O homem não só enrolava a língua, como também cuspia de quando em quando, ao falar. Seu terno abarrotado e a gravata com nó afrouxado faziam o seu semblante lembrar o do personagem Tavares, do falecido Chico Anysio. Mas, naquela noite de terça, o barman em questão – Aníbal - não queria confusão com ninguém. Era terça, poxa. Ninguém mais entraria no bar àquela hora. Em trinta minutos, ele fecharia o bar e educadamente conduziria Tavares, ou melhor, o seu Reginaldo, para a porta do recinto. Simples assim. Além disso, Aníbal estava lendo um livro intitulado: “Quero Vencer, Não Sei o Que Fazer”, o que o fazia ponderar suas atitudes em horas como aquela. Nada como uma boa autoajuda para se manter calmo...

- Mais uma, meu filho! – ordenou em voz alta seu Reginaldo, interrompendo a pré-contagem do caixa que Aníbal fazia.
- É pra já, chefe. – Aníbal pegou a garrafa e preparou mais uma dose do uísque mais barato para o seu Reginaldo.
- Sabe que você é um bom rapaz, meu filho... Sempre fui com a sua cara!

Aníbal tentou desviar, mas algumas gotículas de saliva acertaram sua bochecha. Ele discretamente puxou um lenço do bolso e passou no rosto.

- Também acho que o senhor é boa pessoa, seu Reginaldo. Se fosse outro, eu já tinha posto a correr do bar.
- Puxa, obrigado. Um brinde a nós! Salut!

Aníbal só pegou um copo vazio e imitou o gesto do freguês, em respeito.

- Eu faço questão que você tome uma, e por minha conta, Arlindo! Você merece!
- Aníbal, seu Reginaldo. Tá aqui no meu crachá, ó. E obrigado mas, nunca bebo em serviço; vou passar essa.
- Não, não... Esse cabra é dos bons. Eu contrataria ele para trabalhar na minha empresa, com certeza! – seu Reginaldo falava para o lado, como se uma plateia de bebuns o escutasse naquele momento. Mas só havia os dois no bar.
- Se ao menos eu fosse mais novo... – continuou seu Reginaldo - ... um cara forte como você, assim, eu não casaria de novo. Ah, nunca. Isso é uma prisão, garoto. Um inferno. Já te disse outras vezes para não cometer o mesmo erro que eu, não disse?
- Sim, seu Reginaldo... E o senhor não lembra que eu já lhe contei, talvez umas três vezes, que sou casado, tenho uma filhinha de 6 anos... Por enquanto, estou feliz em meu casamento. Mas entendo que o senhor está há muito tempo casado, nem tudo dura pra sempre, a gente sabe como é...
- Sabe como é?? – seu Reginaldo se indignou que o cuspe saiu repartido em três direções desta vez. Aníbal sentiu na testa o molhado. – ...porque você não se casou com a dona Gorete. Ah, não. Essa você não ia aguentar nem um ano na sua cola. E eu que estou há mais de trinta com esse traste na minha vida. Eita cruz!!! – virando a dose, rapidamente Reginaldo esticou a mão com o copo vazio no balcão.
- A saideira, Anésio. Por favor, aí vamos tomar o rumo, o rumo da... do meretrício!

Além de trocar o nome de Aníbal o tempo todo, seu Reginaldo vinha com “expressões velhas”. Quem falava meretrício nos dias de hoje? No relógio da parede, intermináveis vinte minutos para o fechamento das portas. Aníbal segurou a onda, e serviu uma dose dupla para seu Reginaldo. Ainda disse:

- Por conta da casa. Para o senhor ir mais embalado para a sua casa, ou para a zona, seu Reginaldo.
- Uau!! Nossa, não se fazem mais barmans como você, Adílio. Infelizmente, não mais. Um brinde a nós, dois homens justos, que pensam o mesmo! Salut!
- É Aníbal, seu Reginaldo. Meu nome é Aníbal. Capisci?
- Hum? Pois foi o que eu disse, meu filho.

“Meu filho” de novo. Aníbal não sabia mais o que era pior: ter seu nome trocado ou ser chamado o tempo todo por aquele bêbado babão de “meu filho”; seu pai, se ouvisse aquilo, estaria se revirando no túmulo agora.

- Mas como eu ia dizendo, casamento é pior do que cadeia. Ou pelo menos, que cadeia de primeiro mundo. Aqui no Brasil já não sei... Tu já esteve dentro duma prisão, Adílson? Ver o que é que esses caras passam lá dentro? Sem contar que tu pode ser enrabado a qualquer hora. A prom... – essa hora Aníbal viu o cuspe caindo no próprio balcão, bem ao lado do copo do seu Reginaldo. - ...a promiscuidade, eita palavra difícil hein, a prom... a putaria nessa prisões é algo que não dá pra imaginar. Pensando bem, aí nesse caso até a Gorete é melhor do que prisão no Brasil...

Essa hora Aníbal saiu de trás do balcão e chegou ao lado de seu Reginaldo. Falou:

- Game over, seu Reginaldo. Vamos até a porta comigo...
- Mas, faltam quinze minutos meu filho... eu nem acabei de te contar ainda o que minha mulher me aprontou outro dia... – Aníbal já não ouvia mais nada. Não queria mais ouvir, e trocou o copo de vidro por um de plástico, dando-o na mão de seu Reginaldo. Agarrou-o firmemente pelo braço e foi arrastando o bebum até a porta.
- Isso é uma falta de respeito, meu filho! Se eu fosse mais novo, isso não ia ficar assim, hein? – Aníbal sentiu o cuspe de Reginaldo entrar dentro de seu ouvido. – ... olha que já fui pugilista nos anos 70, e dos bons viu garoto, eu...

Aníbal soltou o velho Reginaldo cambaleante pela rua, e apressou-se em trancar a porta. Não queria mais ouvir as lamúrias de um velho bêbado, nem ter seu nome trocado, muito menos ser chamado de filho. Sem falar nos cuspes, o que era aquilo?? Aníbal não conhecia a tal Gorete, mas já imaginava que a coitada da história era ela, e não ele. Finalmente contou o caixa do bar tranquilamente, enquanto lembrava do livro de cabeceira. Chegou à conclusão que, de fato, uma autoajuda não fazia mal a ninguém. Talvez ele precisasse de mais um livro para ler, pro caso de um dia lotado, com uma meia dúzia de Reginaldos à sua frente.

sábado, 18 de junho de 2016

O Centauro de Saramago

Conheceu a Nélida no salão de cabeleireiro. Fora fazer um corte a máquina e a gerente, uma felliniana de quase 100 quilos, a convocou para executar o serviço. Sentado na cadeira, observando-a através do espelho, Ignácio sentiu o célebre desconforto machista em ser atendido por um travesti. Suas mãos eram pesadas, mãos de homem, a despeito da  tentativa de figura feminina que Nélida se esforçava em representar. Não fosse o leve azular da barba e a voz  artificialmente colocada, por mulher passaria. Ele voltou para casa incomodado, mas reconhecendo que Nélida havia caprichado no corte.
Na segunda vez, já estavam um pouco mais íntimos e o desconforto diluíra. “Trabalha em quê?”, perguntou Nélida enquanto manejava com maestria a máquina. “Professor de matemática”, foi a lacônica resposta. Como estávamos na Quarta-feira de Cinzas, Ignácio ouviu, atento e assombrado, o relato de Nélida para as outras cabeleireiras sobre suas aventuras no Baile Gay fantasiada de Coelhinha da Playboy. Voltou para casa curioso, imaginando Nélida dentro dos seus trajes carnavalescos.
Na terceira ida ao salão, encontrou um negro forte sentado onde já considerava o seu lugar. A felliniana chamou outra cabeleireira para dar um trato em sua cabeça semi- raspada e Ignácio, disfarçando a contrariedade, ficou bisbilhotando os movimentos de Nélida que, num frenesi entusiástico, esculpia na nuca do Apolo de Ébano a palavra “Mengo”. Voltou para casa platonicamente enciumado.
Em sua quarta visita ao salão, durante ritual do corte, Ignácio pediu Nélida em namoro. Foram juntos para a casa do professor terem sua primeira noite de amor.
Passaram a dividir um quitinete em Botafogo em companhia de um gato angorá chamado Oscar que interpretava o papel de filho que nunca teriam. Viviam como marido e mulher, pois Ignácio não a desejava como homem e tão pouco Nélida prestava-se ao papel ativo. Só um detalhe atrapalhava a paz conjugal: os flácidos 13 centímetros de Nélida. Ignácio tinha verdadeira ojeriza ao falo da amada, mal conseguia encará-lo. Passaram muitas madrugadas de carinhos no escuro, com o membro de Nélida ocultado pelo negrume do quarto enquanto o travesti recebia Ignácio de bruços, escondendo a parte de sua anatomia embaraçosa ao seu amor.
Um dia, pousou nas mãos de Nélida um livro de contos de José Saramago (1). Não era dada a leituras, mas interessou-se pela história de um centauro caçado impiedosamente por um grupo de humanos. Narrava Saramago que a criatura mitológica sempre tivera o desejo de dormir deitado de costas, o que sua constituição, meio homem, meio equino, o impedia de realizar. Encurralado, o centauro queda-se por um desfiladeiro e tem seu corpo violentamente cortado ao meio por efeito de uma pedra pontiaguda. Em seus últimos momentos de vida, a porção humana do centauro caído de costas experimenta o prazer de sentir solo acariciando seus omoplatas. Emocionada, Nélida cerrou o livro e tomou uma decisão.
Foram quase dois anos de espera, mais seis meses de recuperação após a cirurgia. Dr. Euclides Pessoa, conhecido nos meios cirúrgico-científicos como “O Pitanguy das Xoxotas”, fizera um trabalho digno de figurar em qualquer galeria de arte, dada a perfeição em que construíra a vagina de Nélida. Então, tal qual o Centauro de Saramago, o agora ex-travesti provou da emoção única de, omoplatas roçando os lençóis, receber um homem, seu homem, de frente pela primeira vez na vida e ambos, unidos e extasiados, gozarem os prazeres que um prosaico papai-e-mamãe só àquele casal poderia proporcionar.


(1)   Objecto Quase, de José Saramago. Editora Companhia das Letras, Ano: 1994.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Ideia

Um pardal entrou pela sua janela
bateu na parede
na porta da geladeira
e achou a saída

"Taí uma boa ideia", ele pensou

Então abriu a porta
abriu suas asas
respirou fundo
e voou

Dias depois
numa cidade vizinha
foi encontrado morto
apedrejado por crianças
com seus bodoques
e arminhas de chumbo

Não
ele não estava pronto
para sair do ninho

A ideia era boa
o tempo não.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Sobre ditaduras

 King Jong-Un

Muamar Kadaffi


 Josef Stalin




Os ditadores em suas torres de marfim observam

Como cães de guarda, vigiam a nação
Matam minorias
Lambuzam o corpo com as moedas contadas do povo
Sorriem simpáticos  para o mundo

enquanto ignoram armistícios


Os ditadores uma noite acordam com o barulho
Olham a cidade abaixo:
há luzes e agitação


São bombas

Mas imaginam ser fogos de artifício.



Fotos: wikipedia


segunda-feira, 23 de maio de 2016

Pequenos Rostos

São tantos pequenos rostos
     São tantos pequenos traços
       São tantos infindos poros
          São rostos alegres ou tristes
              São traços de amor ou ódio
São poros que exalam os odores da vida
São rostos
     São traços
        São poros
           Visíveis
              Presumíveis.
Mas os corações são mistérios enterrados
E as almas prisioneiras invisíveis.

Ah!
    Se...
       Se... se pudesse trazer à tona
            Os corações e as almas...
               E torná-las visíveis
           Presumíveis
             Então o mundo seria diferente
                 Feliz.
                   Com rostos e traços
                         Trazendo pelos poros
                            O restante do bendito
                                   Hálito da vida.
Então...                                                                                                

   Seriam...
   Muitos rostos felizes!
     Muitas almas cristalinas
        Muitos traços realçados                        
           Trans... pi... ran... do
                  Res... pi... ran... do
                                VIDA!

Catiaho Alcantara
Texto integrante do livro Reflexo d' Alma lançado em janeiro de 2010
CatiahoAlc./ReflexodAlma
PO23 de jun de 2010

domingo, 22 de maio de 2016

Domador de demônios


Deito em minha cama e milhares de pequenos demônios infestam-me as ideias, o travesseiro e o canto escuro do quarto.

Ando cautelosamente até o som, ligo-o e volto para a cama; Com a música, ao menos, eles dançam.