quarta-feira, 22 de março de 2017

Espetáculo


A noite de estreia é um espetáculo, mágico, incomparável.

As noites seguintes já não têm o mesmo encanto. Os sorrisos já não são mais os mesmos.

Algum tempo depois, ela junta as tralhas e toma outros rumos, paixão itinerante.



sexta-feira, 17 de março de 2017

Apoética

Quando a poesia
some
sobra algo que eu desconheço
um souvenir,
um endereço,
uma carta sem destinatário,
meu átrio esquerdo dilatado
e a minha boca seca
e insone.


Quando a poesia
se esconde
deixa pistas,
poeira,
sustos,
deixa ferida aberta nos pulsos
deixa a sutura
imperfeita
e ridícula

Essa poesia
fêmea
dominante da manada
irmã gêmea do nada
trôpega,
amanhecida,
poesia-menstruada,
útero à ferro e brasa
gritando uma dor felina
me jogando num manto de breu;

Essa poesia me sangra
me deixa sobre areia quente
acha que me esqueceu...
poesia meu nome é guerreira
se você se afasta,
não temo,
se faltar-me a poesia,
se sobrar-me apenas agonia,
a poesia sou eu.


domingo, 12 de março de 2017

OUTRO MUNDO

Hoje
Repeti o mesmo mundo....no fim
Viver de amor....e depois
Morrer brandamente em mim
Outro castelo recriei
Após rochas caírem
Até a pintura borrei
Com as mais belas alvitres
Agora procure o que te desperta
O que te deixa em alerta
O que queima, mas não arde
O que, mesmo no fim, nunca é tarde
O que ficou para trás
São esfumaturas embranquecidas
Perde-se o tom da tinta
Mas não a importância adquirida
Pois mesmo manchas abstrais
Ainda borram a pintura que já fora
A vida em sete cores iniciais
Torna-se cinza, diferente de outrora
E não segui seus passos
Preferi os meus
Eram mais suaves
E livres do que os teus
Pesadas eram as rédeas
Que determinavam a direção
Dos raios e das pedras
Que atingiam o coração
Amanhã
Vou reinventar outro mundo.....se der
Morrer de amor....e depois
Ressuscitar num domingo qualquer

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Mundano


O golpe ditatorial teve, no exército, seu braço armado
E na imprensa, o desalmado





domingo, 19 de fevereiro de 2017

Doutor Edgar, Psicólogo


O homem olhou fixamente para o cartão de visitas que havia recebido. Nele, a inscrição:

Edgar Christian
Doutor em Psicologia e Mestre em Meditação Transcendental

Já fazia tempos que ele queria fazer aquela ligação. Agora era o momento. Procrastinar não adiantava mais, especialmente àquela altura do campeonato. O homem passou a mão no celular e ligou. Uma voz feminina atendeu. Tratava-se da secretária do doutor. Muito solícita, a jovem (pelo tom de sua voz) marcou um horário para uma conversa com o doutor. Ao final da ligação, contudo, ela salientou: “Se você recebeu o cartão do doutor, é porque foi por indicação. Portanto, saiba desde agora que só divulgamos esse trabalho para quem realmente precisa do doutor. As demandas pelos serviços dele são enormes, e o doutor não pode atender a todos. Então, peço-lhe por gentileza que não comente com ninguém a nosso respeito...”
O homem já sabia aquele papo todo. O doutor vivia corrido. Era “concorrido”. Ele só atendia figurões, gente graúda. Não tinha tempo para qualquer um, para povão. Só podia ser. O homem sabia disso, e ficou feliz que, depois de tudo o que tinha passado, feito e vivido nos últimos anos, finalmente teria a oportunidade de tirar de dentro o que lhe incomodava. “Antes tarde do que nunca” pensou, feliz por ter um horário para si já na tarde seguinte.
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O lugar parecia mais com um prédio abandonado. Uma porta com um pequeno interfone, e pronto, lá dentro estava o homem. “Ao menos, o interior é bem confortável” pensou o homem, sentando-se num sofá de couro, enquanto a secretária – uma menina nova, de fato – o pedia para aguardar um instante. Em seguida, ela perguntou:
- O senhor trouxe o pagamento em espécie?
- Sim. Está aqui. Só preciso de uma nota fiscal, pois sairá como pagamento da empresa.
- Tudo bem. Ao final da consulta estarei lhe entregando a nota, que será para o tratamento todo já.
- Ok, de acordo. – disse o homem, tirando de dentro do paletó uma carteira forrada de notas de cem.
Com a rapidez e a precisão de quem conhece dinheiro, a jovem secretária contou os cinco mil reais, e agradeceu ao homem. Em seguida levantou-se, e disse:
- Vamos? O doutor já pode atende-lo agora.
Entrando na sala, o doutor recebeu-o com um sorriso amigável em seu rosto. Sem um divã para se deitar, havia na sala do doutor apenas uma confortável poltrona de couro preto, que ficava virada de costas para a porta, bem de frente para a do doutor. Atrás do psicólogo, uma estante forrada de livros, que ia de fora a fora. O homem teve a impressão que já conhecia o doutor Edgar de algum lugar, mas não sabia ao certo de onde.
- Sou um tipo físico comum. Muita gente acha que me conhece, seu Firmino... prefere que o chame assim ou por seu primeiro nome?
- Pode ser Oscar mesmo doutor...
- Edgar, me chame só de Edgar. Aqui somos amigos. Nada do que acontece dentro desta sala sai daqui, jamais. Sabe que a minha reputação é algo que estimo muito. E se está aqui, Oscar, você pode me contar absolutamente tudo nos mínimos detalhes, que lhe prometo desde já: sua vida irá mudar drasticamente a partir do fim desta sessão. Você não está aqui por acaso. Ninguém vem aqui por acaso...
- Eu sei Edgar, eu sei. Só espero mesmo que adiante de verdade para mim...
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E a consulta transcorreu muito bem, superando as expectativas de um antes cético Oscar Firmino. Sim, o famoso empresário Oscar Firmino, dono de uma fortuna outrora estimada em 100 milhões de reais, mas que vinha passando por uma série de problemas recentes, a maioria deles, para não dizer todos, por culpa única e inteiramente sua. Após um desabafo profundo e sincero, como Oscar nunca havia feito em toda a sua vida para ninguém, é que o doutor lhe deu as considerações finais:
- Muito bem Oscar, você está de parabéns por hoje. Já tenho tudo o que preciso de você para a mudança, que começará a surtir efeito nos próximos instantes. Antes de lhe dar as instruções de como o senhor procederá para a sua mudança de vida, uma pergunta: estava bom o chá servido por Ágata?
- Hum, sim, delicioso... até por sinal, me parece que agorinha mesmo eu fiquei um pouco tonto...
- É? Nesse exato momento?
- Sim, parece uma sensação de leveza, não normal... mas fale-me doutor, digo Edgar, o que devo fazer a partir dessa semana?
- Sim, só um momentinho... – o doutor voltou-se ao seu laptop e falou: - Ágata? Sim, paciente já concluído aqui...
Voltando sua atenção para Oscar, olhando bem fundo em seus olhos – que já pareciam mais cansados, ligeiramente vermelhos – é que o doutor Edgar disse:
- Pois então, Oscar Firmino, você tem plena consciência que roubou dinheiro grosso de seus ex-sócios... correto?
- Sim Edgar, mas como lhe falei, foi porquê...
- Não, Oscar. Agora você não precisa justificar mais nada. Apenas concorde comigo, se o que eu lhe falar realmente aconteceu, independente de motivo. Tudo bem? Apenas diga “sim” a cada pergunta, para seguirmos com o tratamento, OK?
- Sim, pode ser – dizia Oscar, deixando o nó da gravata mais frouxo, evidenciando o mal-estar repentino.
- Então vamos lá, novamente: você tem plena consciência que roubou dinheiro grosso de seus ex-sócios, Oscar?
- Sim.
- Você negou e/ou abandonou dois filhos legítimos seus fora do matrimônio?
- Ah... sim.
- Você subornou pessoas públicas para conseguir benefícios fiscais ou vantagens sobre outras pessoas?
- Sim, várias vezes...
- Você pegou parte bem maior do que a reservada para você da herança de seu falecido pai, através de esquema ilícito com advogados, para ficar com mais dinheiro que seus irmãos e irmãs?
- Sim...
- Você deveu e até hoje deve dinheiro para fornecedores, alguns dos quais inclusive que tiveram de fechar suas portas, devido principalmente ao rombo financeiro causado pelo senhor?
- Sim, sim!
Nessa hora o suor na testa de Oscar já era visível a olho nu. Que perguntou:
- O ar condicionado tá desligado? Não tô legal...
Gentilmente abrindo a porta do consultório, Ágata entrou delicadamente no recinto, sem que Oscar a percebesse. O doutor prosseguiu:
- Pois então seu Oscar Firmino, a sua tontura e o seu mal-estar não são em vão...
- Como assim?
- O chá que o senhor acabou há pouco de tomar, continha uma quantidade de veneno capaz de matar um ser vivo de até 150 quilos em menos de uma hora... o senhor, como deve pesar uns... noventa, estou certo?
- O quê?!? O que você disse, seu maldito, O QUÊ?!?
Fazendo menção que iria levantar-se atabalhoadamente de sua poltrona, o doutor Edgar, apenas com um olhar assertivo para Ágata, deu o sinal. Com uma agilidade de quem sabe o que faz, antes que Oscar Firmino levantasse da poltrona, Ágata segurou-o firme pela testa com sua mão esquerda, enquanto com a mão direita firme atravessou uma reluzente navalha pela garganta de Oscar Firmino.
Um esguicho de sangue atravessou a pequena mesa de centro que separava doutor de paciente, deixando a cara do doutor Edgar toda vermelha com o sangue quente recém-saído da jugular de Oscar – que convulsionou por poucos segundos, até morrer ainda sendo seguro por Ágata.
Pacientemente, o doutor Edgar tirou um lenço de seu bolso, e começou a limpar o sangue de Oscar do rosto, que era sentido já em seus lábios.
- Ótimo trabalho, Ágata. Você é ótima no que faz. Estou orgulhoso de você!
- Ah doutor, estava com muita vontade de passar essa navalha na garganta de alguém... saudade disso, sabe? Mas... a única coisa é o sangue, sempre dá um trabalho extra pra gente, né... isso não é tão prático, não é doutor?
O doutor levantou-se para auxiliar a “sua Ágata”, que era muito mais do que uma secretária para ele; Ágata era a razão de tudo para Edgar. Que falou:
- Pode soltá-lo, Ágata. Só forra o chão ali que eu mesmo boto o corpo desse Firmino ali em cima. Você já fez demais por hoje, deixa aqui comigo – e nesse momento, enquanto segurava a cabeça do homem para que seu corpo não caísse no chão, é que o doutor beijou Ágata na boca, sentindo um prazer difícil de pôr em palavras.
Quando suas bocas se desencostaram, Ágata, agindo como uma gata de estimação, lambeu do rosto do doutor os últimos vestígios de sangue do empresário.
- Ah, assim você me acaba... vamos terminar nosso trabalho primeiro Ágata, depois a gente pode fazer amor aqui, com o cadáver nos olhando...
- Hum...perfeito!! – respondeu Ágata empolgada, ansiosa para cair nos braços de seu amado.


domingo, 12 de fevereiro de 2017

Liberdade Cativa

Na esperança da liberdade da entrega
Mas preso nos temores deformados pelo tempo
Questionando as certezas da espera
Certamente duvidosas geram medo
Clareando o breu da alma
Faltando o que antes era sobra
Sobrando o que agora mata
Auspicioso continuo na entrega
Entregando o que mais me afeta
Afetivamente preso na liberdade que auferi
Displicente ao que se passa ao redor
Mas consciente ao que se passa em mim
Hoje liberto nos desígnios que hoje pelejo
Mas cativo nos anseios presos a mim
Criados pela certeza que hoje vejo
Mas ainda esperançoso na liberdade que sinto em ti
Tendo certeza do que hoje almejo
Tão certo do que apeteço
Tão clara como a luz que cega
É a dúvida que tudo isso acarreta
Nada mais intenso me inspira
Do que a liberdade cativa

domingo, 22 de janeiro de 2017

Povo das sombras


O povo das sombras aparece sempre no mesmo horário, junto com as sombras, assim que o sol nasce. Sempre muito cedo, ainda na madru-gada, mas, aparentemente, sem nenhuma ajuda de qualquer deus.

Preparam seu café antes de você acordar, limpam o escritório antes de você chegar, colocam o ônibus para rodar antes de você se aglomerar ao congestionamento... Ligam os motores e preparam a cidade para você só chegar e sentar na janelinha, exigindo serviço de bordo.

E você nem ao menos os enxerga, faz questão de desviar o olhar.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

LIBERDADE APRISIONADA

Na esperança da liberdade da entrega
Entrego a ti todas as minhas amarras
Preso nos medos deformados pelo tempo
Libertas os sentimentos prisioneiros da alma
Questionando as certezas
Certamente duvidosas
Afirmando negações
Negativamente silenciosas
Clareando o breu da alma
Faltando o que antes sobejava
Sobrando o que agora mata
Auspicioso continuo na entrega
Entregando o que mais me afeta
Afetivamente preso na liberdade que recebi
Displicente ao que se passa ao redor
Mas consciente do que se passa em mim
Todavia liberto na prisão em si
Criada pela certeza que hoje vejo em ti
Mas ainda esperançoso na liberdade da entrega
Entrega que me aprisionará na liberdade enfim

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Sou e Sempre serei grata.


Depois de alguns anos, vou Encerrando nessa publicação de dia
23 de dezembro de 2016 a minha participação neste maravilhoso
e democrático espaço.
Não há causa que não a falta de tempo.
Sou e sempre serei:
Grata aos que aqui escrevem.
Grata aos que aqui leem.
E aos administradores.
Feliz 2017 a todos.
Catiaho Alc./dezembro de 2016

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Notável

Naquela noite que se fez outro dia, a lua estava tão cheia, de si própria, que mesmo depois de o sol ter se aprumado, ostentoso, ela ainda desviava a atenção de muitos desavisados.





quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Apenas há penas para os raros (?)


Pássaros

Passantes

Passam

Passos...

Apenas há

Penas.

Pisamos 

Por onde nos deixamos

Pegadas (?)

Apenas há

Penas

Sob os pés

Que deixaram rastros (?)


Entretanto e, contudo,

Embora aflitos em conflitos e, confusos

Gravitamos esfera que circunda astro.


Saudemos, então,

Novo verão, no pólo sul.

Com asas camufladas de azul, solar

Pra festejar novo solstício.

Que nossos voos permaneçam

Desafiadores e raros

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Marcel, do Inferno ao Céu


Marcel nasceu numa tarde cinzenta de 1990. Fruto de uma união que não durou mais do que alguns meses, Marcel foi criado então pela mãe, vendo o pai apenas de vez em quando. Apesar de alguns parentes mais próximos por perto, Marcel sempre teve bastante tempo livre em seu dia-a-dia, uma que sua mãe trabalhava em dois empregos para mantê-los em uma situação confortável (escola privada, um bom apartamento em uma boa localização da cidade, um bom carro para ela) e sua avó materna, tadinha, já não dispunha mais de condições físicas para cuidar do neto. Já os avós paternos de Marcel já tinham partido dessa pruma melhor, antes mesmo dele nascer.
E foi num ponto entre os anos de 2003 e 2004 que Marcel conheceu o caminho das drogas. Ainda adolescente, sem ter tido sequer a sua iniciação sexual, Marcel já estava fumando maconha com alguns carinhas, aqueles da turma do fundão da sala – todos ali já eram repetentes. Nem é preciso dizer que junto da maconha, o álcool também passou a ser uma novidade constante na vida de Marcel, que ia conhecendo bebidas e se entorpecendo, enquanto a sua mãe trabalhava para sustenta-los.
E sim, sua mãe percebeu a mudança no filho. Ela tentou intercepta-lo por mais de uma vez, mas o filho ficara extremamente agressivo, o que passou a ser motivo de medo por parte dela. Sabendo que a coisa não ia bem, mas querendo um pouco de paz quando podia estar em casa, a mãe de Marcel “deixou” a coisa ir adiante dessa forma, apesar de um pouco incerta de sua decisão.
E Marcel começou a tomar pau na escola, ano após ano. Com dezesseis, ele já tinha namorada firme e tudo. Mas, com um porém – a menina também era viciada. E agora o repertório no cardápio de narcóticos já havia aumentado: os dois provaram juntos benzinha, cola de sapateiro, chá de cogumelo... e cocaína. Essa última, por sinal, era quase todos os dias. Não havia mais controle. O dinheiro dado pela mãe de Marcel não dava conta dos gastos com as drogas. Enquanto sua namorada roubava dinheiro dos pais, Marcel sabia que se pegasse um centavo a mais que fosse de sua mãe, faltaria para a comida e a moradia dos dois. Ao menos reconhecendo o esforço que sua mãe fazia para conseguir dinheiro, Marcel deu um jeito de arrumar um pouco para si. Só que para isso, ele teria que largar de vez os estudos – afinal, trabalhar, estudar e usar drogas, tudo num mesmo dia, não tinha como dar certo.
E Marcel trabalhou. Foi ajudante de pintor por um tempo. Distribuiu panfletos nas ruas para lojas que eram de conhecidos seus ou de sua mãe. Começou a fazer malabares nos sinais de trânsito, a troco de migalhas. Repassou pequenas quantidades de droga para seus conhecidos da época de escola que, à esta altura, estavam melhores na vida do que Marcel, já cursando nível superior ou até em empresas. Ainda trabalhou lavando carros e por fim como “chapa”, guiando motoristas de caminhão que entravam na cidade.
Outras namoradas também vieram. Marcel mudava de parceira, mas algo parecia inerente à cada uma delas: o vício por drogas. Algumas inclusive já encontravam-se na sarjeta, sem esperanças de um futuro melhor. Enquanto isso, a outra mulher da vida de Marcel, sua mãe, apenas via o filho se perdendo, dia após dia. Magro, andando em trapos velhos... cada roupa que sua mãe lhe dava parecia desaparecer, como poeira ao vento. Os dias pareciam cada vez mais difíceis para esta mulher, que se perguntava incessantemente onde ela tinha errado para com o filho.
Com os “pilas” que conseguia fazer, Marcel passou a gastá-los comprando ecstasy e LSD, drogas essas que passaram a servir como substitutas à cocaína. Marcel até preferiu essa troca de início, só que essa onda durou apenas por alguns meses. Como ele mesmo já sabia, o vazio, a frustação e o desespero vinham da mesma forma, fosse usando droga A, B ou C. E num momento de solidão total, andando com gente em condições iguais ou piores do que a sua, Marcel acabou experimentando o crack, já no início de 2012.
Aí as coisas degringolaram. Marcel não conseguiu mais trabalhar para ninguém, pois ninguém mais queria lhe dar trabalho. Sua mãe, que já tinha buscado ajuda em psicólogos e até algumas religiões, só tentava que o filho se internasse o quanto antes numa clínica. Em vão. Marcel fugia de cada tentativa, para voltar à sarjeta, onde consumia crack com pessoas na mesma situação desoladora em que ele se encontrava. Todo esse martírio, esse sofrimento desumano que deixava filho e mãe cada vez mais afastados um do outro, seguiu-se em 2013, 14, 15...
Até que, perto de completar 26 anos, sentindo fome, frio, e tendo alucinações horripilantes pela falta da droga, Marcel finalmente bateu na casa de sua mãe para pedir ajuda. Pela primeira vez em anos, Marcel viu como sua mãe tinha envelhecido: as rugas, as olheiras profundas pelas noites de sono mal dormidas, e o olhar de medo visível por não saber a reação que o filho poderia ter, tudo isso parecia evidente agora para Marcel. Que, arrependido até o último fio de cabelo, clamou pela ajuda da mãe.
No mesmo dia, Marcel tomou um banho como a muito tempo não tomava, e pôs uma das poucas peças de roupa que haviam restado no apartamento de sua mãe. Trêmulo e cambaleante, foi levado de carona pela mãe para a melhor clínica da região, e por lá ficou por mais de 30 dias.
Hoje, quase seis meses após a sua alta da clínica, Marcel leva uma vida completamente diferente da que um dia teve. Namorando firme, desta vez uma menina trabalhadora e totalmente “do bem”, Marcel vê agora o olhar de sua mãe, outrora marejado, brilhar de alegria com a nova vida que o filho vem levando. E ele também, pela primeira vez em toda a sua vida, se sente finalmente uma pessoa livre.
Hoje, Marcel vive cada dia como se fosse o último, só que da melhor maneira possível. É por isso que na virada de ano – a primeira que Marcel passará em família em muitos anos – ele quer fazer muitos pedidos para ano de 2017. Pensando no tempo todo que perdeu entregue às drogas (praticamente metade de sua vida), Marcel agora mescla desejos de adulto com desejos de menino ao escrever numa folha de papel quais serão suas metas para o próximo ano:
- fazer atividade física todos os dias;
- pular de bungee jumping;
- fazer um cruzeiro de navio com a sua namorada;
- participar de uma procissão ao lado de sua mãe;
- ajudar uma entidade para pessoas com câncer;
- ajudar um asilo;
- comprar o seu primeiro carro;
- participar de uma corrida ou maratona;
- ter um animal de estimação
- fazer uma língua estrangeira;
- ligar para o pai no mínimo uma vez por semana;
- iniciar uma faculdade para buscar uma graduação;
- conhecer o Rio de Janeiro;
- assistir a um show internacional de rock;
- cuidar de sua alimentação;
- assistir peças teatrais com a mãe e a namorada;
-  escrever um blog;
- agradecer ao criador todas as noites antes de dormir;

 Etecetera, etecetera, etecetera...




sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Das tempestades

São tempestades
em copos de água

constantes
desde antanho

das quais somente os copos
desconheço o tamanho.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

DOR NÃO SE COMPARA

Dor não se compara
Não se compara a dor da perda
A dor do coração corado de tristeza
A dor da fome na praça
Dor não se compara
A dor de perder um filho
Não se compara a dor de perder qualquer ente querido
A dor de sentir a pedra na vidraça
Dor não se compara
Não se compara a dor da religião extrema
A dor da invasão sangrenta
A dor de uma mãe perder a guarda
Dor não se compara
A dor da cara suja de lama
Não se compara a dor de nenhum drama
A dor de quem foi levado com a casa
Dor não se compara
Não se compara a dor de se ganhar um rótulo
A dor da intolerância sem modo
A dor do dedo apontado na cara
Dor não se compara
A dor do desgosto pelo trabalho
Não se compara a dor da mãe do presidiário
A dor da mãe da vítima caída na sacada
Dor não se compara
Não se compara a dor do refugiado
A dor do europeu explorado
A dor do extremismo da nossa alma
Dor não se compara

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Espaço


– Eu preencho meus dias com ela.
– E quando ela vai embora você fica com um buraco, vazio.
– Não é que eu fique vazio, eu guardo espaço para quando ela voltar.





segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Favo


Meu amor por você
É
Moreno
Claro!
Dia de sol
Às vezes nublado.
Sedução, tesão trocados...
Sabor doce, 
Que dissolve o amargo.
Meu amor por você
É 
Tom retocado
Alma refeita.
Compartilho
Amor despertado,
Como neófito com chave
Clave de sol e de lua
Poesia rasgada e nua
Palheta de cores sublimadas...
Meu suor, nu seu corpo
Saliva de tudo em um pouco...
No improviso, na canção
Nos acordes, nos sussurros,
Voz, viola, violão.
Por seu amor vi
Estrela cadente
Flor de luz durante eclipse
Chuva incandescente
Devaneios...
Toada em mim.
Eu não entendo direito, mas, creio
Sonhos por inteiro
Desfazem pesadelos.


(Angela Gomes, 12/11/2016)


Imagem: Remedios Varo (Nacer de nuevo)

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Fliperama



fim de noite
perda total

outro nocaute
e mais sangue derramado
outro blecaute

fim de jogo
acabaram-se as fichas.

sábado, 22 de outubro de 2016

Contra o tempo


Explicou ao filho as coisas da vida e do tempo. Para facilitar, usou o relógio de exemplo:

– Aquele é o tempo, passando.

– Ele fica dando voltas?

– Nem sempre, às vezes passa correndo e nunca mais volta, por isso precisamos correr atrás do tempo.

No dia seguinte, após observar o relógio por horas, enquanto o pai corria de um lado para o outro, o garoto retrucou:

– Você disse que a gente tem que correr atrás do tempo; Mas ele tem uma perna bem maior que a outra, nem consegue correr. A gente é que tem que andar com mais calma, para não deixar ele para trás.





quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Leia Agora, Serviço de Utilidade Pública!!



Hoje vou ser breve. Em poucas linhas vou transmitir a você, leitor e leitora, o que quero lhes dizer. Sei que seu tempo é curto, assim é o meu também. Então vamos ao que interessa.
Primeiro, o que te faz parar o que você está fazendo para ler algo? O título? Uma foto que vem logo abaixo ou acima dele (do título)? Ou você pára o que está fazendo para ler, pois o que você faz te cansa, e assim, essa leitura poderá te distrair por uns instantes? Se encaixa num destes perfis? Bem, vamos adiante. Não posso demorar.
Quem sabe você lê porque, ora bolas, você lê muito. Uau, sim, eu estou ligado que existem pessoas como você. Que devoram tudo o que veem pela frente. Que andam pela rua, lendo sob um sol infernal, no meio da multidão. Pessoas que, na falta do que ler, leem toda a bula do remédio, ou o manual inteiro do motorista do carro (números e siglas inclusas). Que bom – você certamente vai ler isto, por isso já lhe agradeço aqui, antes do fim mesmo. Mas falta só mais um pouquinho, vamos ao próximo parágrafo...
Bem, se não leu pelo título chamativo, ou pela foto chamativa acima ou abaixo do texto, se não leu para se distrair duma tarefa chata (ou de alguém chato!!), e se você não é o leitor devora-tudo do parágrafo acima, bem deixa-me ver... Não sobram muitas opções, acho eu...
Rá!!! Já sei!
Você é aquela pessoa que não lê nada. Eu sei, eu sei. Você é muito legal e tudo, mas você não lê, certo? Nada contra, você apenas não lê. Sim, eu sei que lá no fundo você é gente fina e tudo mais... e ora bolas, pra que ler, hum? Afinal de contas... você já sabe de tudo mesmo! Mas é lógico que sabe! Não, não estou sendo sarcástico, até porque, você já viu tudo no noticiário de ontem, inclusive isso que estou escrevendo agora. Eu sei que sim!! E sabe o que mais? Vai acabar no próximo e último capítulo, aqui ó...
Eu sei quem você é, sabia? Quando eu falo com um de vocês, é pra já que reconheço. Vocês andam como se uma aura de sabedoria cintilante estivesse sobre as suas cabeças. É fácil notar. Bem, você deve saber, afinal você sabe de tudo. Inclusive que ler não é para você. Isso, deixa pros outros, vai. Seja bonzinho. Há muitas coisas boas reservadas para a sua “qualidade” de pessoa. A política, por exemplo. Para ela existir, é fundamental que gente como você continue sem ler; viu só? Então, sem mais delongas.

Paro por aqui, conforme prometido; hasta la vista, baby!!!