quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Café com biscoitos




Pressionando as mãos sobre os olhos e teria que encarar mais um dia invadindo a sala, o quarto. O som das crianças brincando lá fora a irritava. Estava com azia e sem abrir os olhos procurava o despertador para calar aquela campainha maldita.
Esfregou o rosto sobre o travesseiro e finalmente abriu os olhos, as sombras pareciam dançar e as crianças lá fora ainda gritavam. O espelho em frente ao canto da cama exaltava seus olhos imperfeitos abrigando as pálpebras caídas, quase desistentes - via semelhanças com os olhos de César, ainda menino e ao lembrar-se dele esboçava um sorriso que logo desapareceria.
Lá estava ela, depois de mais uma noite que não se lembrava de nada, o que seria dessa vez? Pílulas? Láudano? Vinho? Que impulso era aquele que a levava incansável rumo ao fim.
Precisava apenas de seus cigarros e uma boa xícara de café, o que a matava aos poucos era a sua feição humanóide, onde se estampava toda a previsibilidade de suas ações. Vestia um peignoir azul celeste que combinava perfeitamente com a manhã, que insistia em entrar pelas portas de vidro, as cortinas quietas davam o tom da quentura que tomava o quarto àquela hora, não havia brisa.
Seus pés brancos, unhas pintadas de carmim, descalços, não lembravam em nada os pés sujos de lama, os mesmos da fuga, que sangravam com brita do asfalto encarnada nas solas. E estavam agora lisos, alvos e limpos como pezinhos de princesa.
Mas sentia-se ainda naquela praça, com os pés machucados, confinados em sapatos vermelhos, que roubara duas quadras antes dali. Talvez não se percebesse como um personagem dum conto de fadas, em busca de uma estrada amarela, por onde caminharia e alcançaria seu verdadeiro lar.
Será que algum dia sentir-se-ia em casa?
Todos os dias a sensação de que na noite anterior havia feito algo horrível, imperdoável. Desistira de ser ela que deflagrara fugas alucinadas e restava-lhe a falta de vontade de prosseguir, o ostracismo se encarregando de devolvê-la para a cama.
Não gostava de pensar em suas vítimas, em quantas pessoas arruinou até estar ali, envolvida em seus lençóis de cetim e em sua camisola de seda, à espera do café da manhã.
As paredes de tão brancas ficavam amareladas pela força do sol que invadia a sala e o quarto e a acordava, acompanhada da impressão de que estava no lugar errado, mas não poderia contar isso a ninguém. As outras pessoas não a consideravam uma estrangeira.
─ Senhora, posso entrar? – chamava uma voz feminina doutro lado, enquanto batia à porta.
─ Sim, claro, entre! – respondeu Cecília ainda atordoada.
─ Senhora, café, biscoitos, pão, torradas, melão, suco de laranja e requeijão! Bom apetite! – dizia gentil, enquanto ajeitava os travesseiros, para Cecília se recostar,
─ Obrigada, querida! – disse se acomodando entre os travesseiros
─ Se terminar antes que eu volte só toque este sino para que venha ajudá-la!
─ Prazer em servi-la, senhora! – disse a moça saindo do quarto.
Como comer alguma coisa? Seu estomago revirava-se, mas não se lembrava de sua última refeição decente. Como recusar, estava tudo tão bem preparado naquela bandeja?
A porcelana estava reluzente, o café muito bom, pedia um cigarro. Quando criança adorava molhar o pão no café, embora sua mãe ralhasse e dissesse não ser higiênico, qual o problema em molhar o pão no café? Não era higiênico pensar que tudo se misturaria no estômago, virando uma só pasta e depois excremento!
Como estavam bons os biscoitos deliciosamente preparados que pareciam de mentira, recobertos com uma fina camada de cream cheese e geléia de goiaba e com o gosto do café era algo indescritível, o doce e o amargo, mesclados com o frugal, tocavam um momento encoberto pelo tempo.
Será que aquela moça tão delicada teria preparado seu café com carinho, ou feito como todos os dias? Teria a noção de que ela e Cecília eram feitas da mesma matéria? E que aqueles sabores traziam à boca uma lembrança quase perdida e fizeram Cecília chorar?

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Inquebrantável

Não pergunte a lógica do amor.Amor explicável, não o é...
Amor com lista de virtudes é frágil sentimento.
Não se ama o espelho ou o reverso, se ama e pronto.
Quem amou em desmesura, não se arrepende jamais.
(Amar em desmesura é pleonasmo).
Depois de anos, eles de encontram num lugar qualquer.
Não há mais tempo, mas a lembrança está lá, à espreita.

- Você vai sempre ser o meu amor...
- E você o meu...
- Tchau.

- Tchau.

domingo, 1 de novembro de 2009

A sinfonia

O coração tinha garras de metal, afiadas e penetrantemente profundas, o sangue bombeado não era visível, sem cor a olho nu, nem palpável, sem forma, corria ao tato com um interessante magnetismo inverso. O sangue saía do átrio e corria direto aos pulmões: ia a atmosfera e voltava succionado pelo vigor da vida, era filtrado pelo fígado, toda a sua pureza era eliminada junto com a inocência, ele tinha que estar preparado para ver o que iria enxergar ao irrigar os olhos daquele corpo. Olhos foscos, secos, já sem lágrimas sem nem mesmo ter esgotado-las, a asfixia não estava em si. O que via não era o bastante para a razão, e a a razão não bastava para o ambiente.

Seu corpo ainda tinha mãos para inalcançar, nem lembrava mais que tinha unhas, e muito mesmo que as lascas do que elas arranhavam permaneciam sobre a carne, escondidas como ladrões, chamadas inúteis, chamadas desnecessárias, chamadas impossíveis. Não o eram, estavam ali e não foram excomungadas. As mãos viraram engraxates de botas... lustravam os sapatos velhos de pés fedorentos. O couro deles era sintético [assim como a pele dos corpos que os comprara], não eriçava ao toque humano, sua sensibilidade era reduzida a si. Seu maior pecado foi atrair o amor, ele atravessara a armadura e lá envenenara tudo, arrancara a alma do corpo, e saiu; na verdade o amor não saiu, foi vendido a preço de ouro a um mendigo. Este virou o maior milionário, tinha que o ser para pagar tantas dívidas advindas de sua compra.

Minha alma é morta, sou uma carcaça sem dentes, uma fera sem unhas, um sorriso sem face, sem classe, um impasse de ser o que não quero, e não poder escolher meus sapatos, minhas pegadas me foram impostas. Não são minhas digitais.

—Hoje eu não sou
—E ontem?
—Ontem eu era.

Tramitação involuntária da aorta na coluna vertebral, são os sentimentormônios governando as sinapses. Paralisando as pernas quando apenas atacara o sistema nervoso. Sem pernas, sem pés. O tempo não passa mais, a vida não vive mais, é o calcanhar de Aquiles de Hades. No final das contas, eu perco de todo jeito.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

por certo os sertões

nascem no planalto central
e se alastram por veredas
desertas e belas
onde racham
sovacos de pernas
e cotovelos de pedras.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Fruto Novo

Ar novo que oxigena o todo
renovando som ecoando
preenchendo o vazio de cores
formando arco íris no céu
após tempo tão incerto.
Noite de céu estrelado
com brisa refrescando ;
lua cheia no céu
depois de tarde de sol e calor intenso ;
dia novo no horizonte
após madrugada cinza
Eis que assim a vida se mostra
descortinada
depois de ausência tão prolongada,
simples encanto
de encontro sutil
rápido porém,
tão impregnado
não somente dessa saudade doída
mas de esperança
de dias cheios
dessa nova florada
que anuncia fruto novo
após espera que ate pareceu
não teria mais
fim.
Reflexo 2304131209

Catiaho Reflexo d'alma

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Notícias Populares

O mau poeta acossa a musa.
Não admite recusa,
nem se conforma com um “não”.
O mau poeta não desiste:
protocolo, formulário em três vias,
requerimento, recurso — em vão.
Ataca, então, rasga-lhe a blusa:
abuso em busca de poesia,
estupro à guisa de inspiração.
Crava os dentes no peito
ainda quente, embora inerte,
e suga até que repleto
do sangue que o seio verte.
Foge dali safisteito,
Pensando com seus botões,
“Agora me sai um poema que preste”.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Eco

CESAR VENEZIANI

sua ausência
me deixa na iminência
da demência
é silêncio que grita calado
é imenso gigante pesado

mesmo sendo ausente
seu nada se faz presente
eco em meu coração vazio
estio de tudo que prezo
rezo em revolta
volta, volta, volta, volta...

sábado, 24 de outubro de 2009

Ex-passo


O poeta pode chegar à lua

na hora que bem-entender

visitar todas as constelações

ver uma estrela nascer e morrer

.

O poeta pode chegar ao sol

e junto com a terra, orbitar.

escrever poesia a vácuo

deitar e rolar no deserto lunar

.

O poeta pode ver as galáxias

viajar no espaço sideral

ver de perto o eclipse solar

participar da corrida espacial

.

seja nas nuvens ou imerso no mar

não importa qual seja o espaço,

O poeta pode nele chegar


quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Mate

Desde o casamento, acostumou-se a ser tratada como uma rainha, ia para onde quisesse, quando quisesse. Quase todos os desejos lhe eram atendidos, com exceção dos que revelava apenas entre quatro paredes. No entanto, devido às regalias, as dificuldades do marido pouco lhe incomodavam até aquela tarde chuvosa.

Ao arrumar as gavetas, para evitar que os velhos pijamas embolorassem, encontrou as cartas e bilhetes perfumados. Descobriu naquele momento que ele só se interessava pelas outras rainhas.

Tomada por ira, desgovernada, deixou-se levar pelo primeiro peão que cruzou pela casa.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Ex(cripta), nas estrelas?



Casou-se com um arqueólogo que a trocou por outra múmia. A caminho do Egito, para restauro, foi resgatada de naufrágio por pescador que teima haver encontrado uma sereia. Naturalmente enrolada, necessita de um oftalmo que a oriente para o ocidente, onde a sua alma repousa no sarcófago sem o seu grito, digo, mito.


Imagem: rosto da múmia de Tutancâmon (Foto: AFP)

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Tormento

Naufragado em pensamentos
Me encontro quase afogado
Num mar de ilusões.
Clamo a Deus

Para alcançar

A terra vazia do silencio,

Onde a paz lá está.

Quadro "Tormento" de Cátia Rodrigues

Contato caty.vlc @ gmail.com

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Ele em estado líquido.


(Foto: Fernando Rozano).


Ele em estado líquido.


Na canção um verso voa,

lamparina ao ar saudades,

e o verbo que conjugo

minha dor espanta,

faz viver presença,

rio que o coração

em mar transformou.

Sim, é amor.


Eliane Alcântara.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Morada Para Barbara

Morar numa canção de Chico
quando nada fizer sentido
se o problema for desgaste
recomendo uso de Buarque
mas se decidir por uma festa
divirta-se ouvindo o Cesar
Caso o problema seja desgosto
experimente um cd de João Bosco
Abstinência de toxinas?
dope-se com clube da esquina
Se for por falta de maça
encoraje-se ouvindo Djavan
Se for alguma desavença
faça as pazes ouvindo Alceu Valença
Se precisar da loucura de éter
substitua por doses de Cassia Eller
Se está preocupado se vacine
com sacadas e bom gosto de Lenine
Se o dinheiro estiver curtinho
churrasco na laje com Pagodinho
Se estiver farpado feito arame
sugiro descobrir Marco Vilane
Se acha que ninguém te gosta
sofra com pitadas de Gal costa
Se é problema passageiro
encare o relógio ao som de Baleiro
Se a ferida requer atadura
envolva-se na poesia de Cazuza
Se o incômodo for distância
Encurte-a na afinação de Betânia
Se acaso entrou pelo cano
aplique na veia Caetano
Se tá curto seu pavio
Medite com o senhor Gilberto Gil
E se a angústia for maior
suma um tempo feito Belchior
Se é ausência de faz de conta
recomece com Paulinho Moska
Se for coisa pequenina
uma faixa de Elis Regina

Mas se nada disso fez sentido
eu me recolho ao meu lugar
na mais linda canção de Chico
eternamente posso morar

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Sonhos Entre Escombros


Ainda me divirto entre os escombros,
Ruínas de nossa civilização.
Construímos nossas próprias covas
Quando abusamos do mundo.

Sofro com nossa incompetência
Em fazer um mundo melhor.
Dizem que sou pessimista...
A realidade é que é péssima.

Ainda temos conhecimentos e prazeres,
Mesmo assim não basta para melhorar.
Para muitos sou louco por perceber
Que o mundo é um lixo há séculos.

Vivemos um drama, uma tragédia,
Ainda sobra energia para mudar.
O humanismo é uma grande solução,
Assim como a sofrida ecologia.

Entre escombros sonho com um mundo melhor, podem rir de mim.


- Mensageiro Obscuro.
Junho/2008.


Foto: Escombros da II Guerra Mundial.