terça-feira, 10 de julho de 2007

Convidado: Emerson Wiskow

A Sereia de Osório

Existe um conto do escritor Borges no qual um homem circula pela cidade sempre vestido da mesma maneira. Circula pelas ruas tranqüilamente, calmo, sem dar muita atenção para ninguém. Acho que sem dar atenção alguma. O homem tranqüilo, que veste sempre as mesmas roupas diariamente, que passa sem chamar a atenção de ninguém é apenas mais um pacato cidadão de uma simples cidade. Isso se repete por alguns dias, semanas, meses, até que numa certa noite dois policiais entram em sua casa e o predem. Motivo: O homem andava pela cidade completamente nu. Seu terno não passava de uma simples pintura sobre seu corpo. Genial. Borges havia acertado novamente.
Depois de escrever duzentos contos eu havia desistido deles, ou eles haviam me abandonado. Ou os dois. Estou de jeans, sem camiseta e tendando convercer Lulu que eu deveria estar louco em continuar tentando. Lulu me dava conselhos, dizia que era assim mesmo e que seria uma questão de tempo para eu voltar a escrever.
- Você ainda escreverá muitos livros.
- Sei...
- Gosto dos teus contos.
- Sei.
- Ei, lembra aquela história da sereia que você encontrou em na praia de Osório?
- Lembro.
- Aquela foi uma boa história. A mulher surgir na noite enquanto você caminhava pela praia. Você levou ela para sua casa. Uma história comum, mas boa.
- Foi uma
história verdadeira, mas mudei algumas coisas. Na verdade ela estava deitada na beira da praia. Era uma mulher, quer dizer..., tinha o corpo de uma linda mulher, mas sem o rabo. Quero dizer, sem aquele rabo de peixe. Aconteceu no meio da noite, na minha cama, quando voltei do banheiro ela estava lá. Ainda linda e nua, sobre a cama, depois de termos feito. Você sabe, então me deparei com ela com aquele enorme rabo de peixe, com escamas e tudo. Não sei como mas ela havia se transformado numa sereia. Tive um trabalhão danado para levá-la de volta para o mar. Ela me pediu, sorrindo, linda, iluminada pela lua. Quase chorei quando ela se foi.
- Isso é fantástico! Você quer dizer que aquela história é verdadeira?
- Isso mesmo. Eu dormi com uma sereia.
Lulu ficou quieta, pareceu que estava pensando naquilo tudo. Na sereia, nos meus contos, em tudo. Eu havia escrito 200 contos antes de eles me abandonarem. Porto Alegre dormia aos poucos.



Emerson Wiskow, 36 anos, natural de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Publica na internet desde 1998. Também é cartunista. Criou os blogues de contos Ovos de Touro; Homens, Mulheres e Seres Imaginários em Situações Imaginárias e Noites Quentes e Frias. Atualmente publica no site bagatelas (www.bagatelas.net) e no seu blogue Cavalos Não Correm Deitados http://wiskowcontos.blogspot.com/

3 comentários:

Klotz disse...

Sempre ouvi dizer que as melhores praias gaúchas ficam em Santa Catarina. Vou mudar meus conceitos e rapidamenrte vou morar na praia de Osório.

Me Morte disse...

As gauchas são as melhores, esqueceu que vim de lá klotz?rsss...lindo texto. Esse autor eu já conheço e admiro o talento. Belo conto, muito bom mesmo.Parabéns.

Lameque disse...

Lindo conto. Borgeano não só na referência.