sábado, 15 de setembro de 2007

O bêbado volta a casa.

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Passava já da meia-noite.

Fortemente embriagado, ele não conseguia meter de jeito algum a chave na fechadura.

Deu um chute violento. A porta escancarou-se. E entrou, corcunda, olhos ébrios, vasculhando na escuridão o caminho da alcova.

A esposa fingia dormir, rosto virado para o criado-mudo, encolhida sob os lençóis. Ela sabia, no entanto, o que a esperava.

O marido sentou-se com extrema dificuldade no leito. Ficou imóvel por uns instantes, como a buscar o raciocínio que lhe fugia na mente a rodopiar.

Bebera em demasia. Percebia, nos laivos de reflexão, que a cada dia exagerava mais no vício. O inferno arrastava-se já por seis meses.

Com custo tirou os sapatos. Atirou-os longe de si, quase num gesto de revolta. Revolta de sua fraqueza, da medíocre vida que proporcionava a si e à sua família. A sua prole já temia ele - uma menina de oito anos, um menino de quatro. E ele se remoia ao lembrar-se dos olhinhos desesperados, do choro convulso, quando ele, o pai, acuava a pobre esposa pelos cantos da casa, nas surras cheias de brutalidade e covardia.

Ele afundou-se no leito. Agora o mundo parecia um célere carrossel. O ventre revolvia-se em terríveis ânsias. O crânio parecia comprimido por duas pedras gigantescas.

De fato, bebera muito.

Sentiu-se só. Tal qual uma criança que ainda entrevê a libido, puxou a esposa para si. Sentiu uma fraca mas visível resistência dela.

Mais uma vez, sentiu-se rejeitado. E desafiado. Um novo puxão, violento, Fê-la voltar-se à força, e, com custo, estirou seu corpo sobre o corpo da mulher.

Pobre esposa! O homem fedia. O álcool, a cebola, o picles, a conserva da bodega, tudo vinha em seu rosto desfigurado, na escuridão, em lufadas insuportáveis, enquanto ele retirava com custo as peças íntimas dela, buscando sua boca, seus seios, sua vulva.

Foram momentos de uma eterna tortura.

Ele não ejaculou. Exaurida a energia, desmaiou, roncando. E ela levantou-se, açodada, num pranto mudo, mão à boca, buscando o sanítário onde vomitou toda sua ojeriza.

2 comentários:

Marco Ermida Martire disse...

Pô, difícil isso mas acrescento que a mulher já não precisa mais passar por isso!

Paulão Fardadão disse...

Era só deitar de costas..