terça-feira, 25 de setembro de 2007

O paciente

O Paciente

Acordou cedo, como de costume, e deixou as trinta e sete bolinhas coloridas em cima de sua mesa de trabalho doméstica; todas alinhadas metodicamente por cor e tamanho, mais parecendo um jogo infantil inocente.

Tomou seu café solitário, saboreando-o pouco a pouco, como se fosse o último. Seu pensamento vagou por entre as paisagens de sua infância na fazenda, onde o cheiro de café torrado tomava de assalto seu sistema nervoso central; anos depois, esse aroma continuaria impregnado em sua mente.

Gostava tanto daquele líquido negro, adquirido a partir de um simples pó, como uma verdadeira alquimia, que, às vezes, imaginava ser a única privação na terra capaz de fazê-lo sofrer.

Maneou a cabeça para voltar à realidade, pegou sua maleta e tomou o metrô até seu consultório no Centro do Rio de Janeiro, seguindo absorto em seus pensamentos desconexos.

Atendeu o primeiro paciente, sob os raios de sol da manhã; um esquizofrênico-mitômano em estado avançado, que durante anos enganou a própria família, dizendo-se piloto da força área. Não se sabe como, mas até o uniforme da FAB, a criatura possuía.

Enquanto o homem falava seus devaneios, o médico começou a perscrutar sua mente, iniciando um discurso interior, onde indagava-se: “Acaso, não seria eu próprio um esquizofrênico?” E respondia: “ Não, não criei para mim nenhum mundo paralelo, apesar de odiar o que vivo. Nem isso eu tive a criatividade de fazer! Talvez ele viva melhor que eu!”

Atendeu o seguinte: um bipolar em surto que alternava, em lapsos temporais curtíssimos, os intervalos de euforia e tristeza, em uma oscilação de humor insuportável.

Novamente tornou a perguntar-se a respeito desta última patologia, mas descartou a idéia, afinal seu ânimo era sempre tão retilíneo e constante. Assim, descartou as psico-patologias, enquanto despachava o sujeito à hora do almoço.

Tomou a rua e caminhou até uma Praça no Largo da Carioca, sentando-se no último degrau, ao lado da população marginalizada habitante do local. Observou, com olhar perdido, as árvores em estilo de bonzai que tanto gostava, enquanto ouvia o arrulho dos pombos sem-vergonha que teimavam em invadir sua privacidade.

Pensou em sua vida, lembrou-se da infância reprimida no interior, onde sua família teimava em invocar Deus para as bonanças e o Diabo para as desgraças. Hoje, ateu, definia o bem e o mal como estados da própria consciência, sem manifestações sobrenaturais.

Deparou-se com o sonho infantil de participar de um baile de carnaval vestido de odalisca. Riu sozinho, quando lembrou a realização do feito, em sua primeira ida ao famoso baile gay do Scala, vestido a caráter. Definitivamente, nunca fora tão feliz, como naquela época.

Naquele mesmo dia, conheceria seu grande amor, com quem dividiria trinta anos de longa estrada. Três semanas após sua morte e a vida parecia um pesadelo!

Era a primeira vez em toda a sua existência que ele alternava seu rumo, decidindo entrar em uma Igreja em meio à turbamulta. Sentou-se e chorou desconsoladamente, por trás de seus grandes óculos escuros. Culpou um Deus inexistente pela falta de seu parceiro.

Retornou ao lar mais cedo que o previsto, emparelhou as bolinhas uma a uma, relembrando mentalmente, o efeito que cada uma produziria em seu organismo e o que todas juntas representariam. Repassou mais uma vez a vida, certificou-se de que todos os seus pacientes estavam a salvo de um suicídio e levou à boca o copo com água.

Contra sua vontade, o incalculável aconteceu: o tilintar do telefone o interrompeu. Sua metodologia o impediria de deixá-lo tocar despudoradamente. Poderia ser importante, mas o que seria mais importante que ele naquele momento crucial? “Tudo”. Pensou.

Atendeu. Uma voz vibrante do outro lado, fez-se escutar: - Pai.
Respondeu:
-Filho. Tudo bem?
-Tudo, pai. Tô com saudade. Depois que meu outro pai morreu, eu só tenho você no mundo. A colônia de férias tá um saco. Posso voltar hoje? Você vem me buscar?
-Claro, filho. Claro.
-Pai, te amo muito.
-Eu também.
-Vem logo.

Enquanto falava, inadvertidamente, fora jogando os entorpecentes um a um dentro da água, formando um caldo groso e vicoso que ele derramou ao pés de seu bonzai de estimação. Nem se deu conta da besteira que fez e pensou, enquanto batia a porta: “ Ah, É mais forte que eu, há de agüentar. Além do mais, ele não tem sistema nervoso.”

25/09/07

6 comentários:

Muryel De Zoppa disse...

Gostei. leio como apreciasse nossos grandes literatos, pois a despeito de sabe-la real e amiga, estas narrativas são maiores que eu.

Lameque disse...

Li de um fôlego só e fiquei pensando: até que ponto não somos todos nós desequilibrados emocionalmente, cada um em seu nível?

Comovente a situação do personagem perante seu "filho".

Tecnicamente é um texto correto, com muitas qualidades.

Moniquinha disse...

Muitas vezes é necessário algo real e comum em nossas vidas, para nos tirar do transe em que inconscientemente nos metemos quando ousamos compreender o incompreensível, e nos atrevemos a voar mais do que nossas asas são capazes de suportar.
Colocar os pés no chão, pode parecer uma operação simples, mas muitas vezes exige de nós competência e habilidades de gênio.
Parabéns pelo belo texto, e pelas reflexões contidas em suas linhas.
bj!

esquizofrênica; disse...

Certa vez ouvi que todo sistema nervoso já nasce em desequilíbrio, e que a principal função dele é nos ensinar o que é realmente o equilíbrio.
Nunca conheci ninguém são o bastante para dizer estar equilibrado emocionalmente, e apenas os iludidos me disseram isso...

Fantástico texto!

o sacerdote disse...

Queridos

Agradeço a leitura e fico feliz que tenham gostado. Esse texto é muito especial para mim e foi sentido plenamente em toda sua concepção! a todos um beijo no coração... e fica a pergunta: o que é a loucura? o que é a normalidade? Uma linha tenue as separa e muitas vezes transitamos entre uma e outra....

Deveras disse...

Gostei muito mesmo... Reforça aquela máxima que "de perto ninguém é normal"...

Fodástico, Sacer... Destaque para a frase final. Fecho de ouro.

ficanapaz