sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Orgulho patriota

Com seus cabelos castanhos encaracolados e olhar orgulhoso, a pequena garota entra na sala.
- Papai, papai. Largue o jornal e olhe como estou linda!
- Você é mesmo uma princesa, Laurinha. A menina mais linda que já vi. – responde, com felicidade, Alberto, após colocar o jornal que lia sobre o colo.
- Olha o meu vestido novo. Verdinho, verdinho. Mamãe disse que pareço um passarinho com esse vestido tão verdinho... - rodopiando exibidamente, olhando para o próprio vestido e sorrindo muito.
- Parece sim, parece q vai voar de tão bonita que está. – adora a filha. Sempre sente uma profunda satisfação quando a vê feliz.
- Está pronto, amor? Não podemos nos atrasar pro almoço. – fala a esposa, que acaba de sair do quarto, ainda penteando os cabelos.
- Claro. Estou pronto há tempos. – ele se levanta da poltrona e caminha até Isabel, segura delicadamente sua cintura entre as mãos e dá um beijo em sua testa. Em seguida, chega com os lábios bem perto da orelha esquerda da esposa, quase a tocando, e sussurra: - Te amo, Bel.
Ela sente um leve e gostoso arrepio. Sorri timidamente (ele adora que, mesmo após dez anos de casamento, ela ainda tenha esse sorriso tímido) e responde: - Eu também. Você é o melhor marido do mundo...
O telefone toca, interrompendo os dois. Laurinha, saltitante, corre para atender enquanto anuncia: - Eu atendo, eu atendo!
A esposa se afasta suspirando. Alberto aguarda, tenso.
- Papai, é pra você. É do trabalho.
Ele caminha pesadamente até o aparelho e pega lentamente o fone das mãos da filha:
- Alô, major Pontes falando. – Isabel pega a filha pela mão. As duas vão para o quarto e a mãe fecha a porta atrás de si. Do outro lado da linha, uma voz fanhosa:
- Major, o senhor precisa vir o mais rápido possível. Aquele assunto foi resolvido, precisamos do senhor aqui.
- Estou indo. – um enorme sorriso aparece em seus lábios no momento em que ele coloca o fone no gancho.
- Amor... Bel! Não poderei ir ao almoço, se desculpe com seus pais. Trabalho de última hora, preciso ir...
- Mas precisa mesmo ir? – a mulher pergunta, com voz de choro.
- Bel, você sabe que sim. Sabe que é meu dever! – dá um beijo na testa da esposa, pega as chaves do carro e sai.
Dirigindo, não podia deixar de se sentir eufórico. Finalmente pegaram o Ataíde, quem sabe tenham até prendido mais gente do grupo! Será que caiu o aparelho inteiro? Será que pegaram também a esposa do Ataíde? Devia ter perguntado! Com a esposa junto, tudo seria mais fácil. O cara deve ser duro, mas Alberto (ou melhor, major Pontes) queria ver quanto tempo Ataíde agüentaria ver a própria esposa sendo torturada e estuprada na sua frente sem dar mais nomes, sem entregar outras células. Mas e se a esposa conseguiu fugir? Aí será foda. Alguns desses caras são realmente resistentes. Aquele loiro cabeludo estudante de história, por exemplo, não delatou ninguém mesmo depois de ter uma das bolas esmagadas. Deviam ter dado antibióticos pra ele, mas o largaram lá na cela e acabou morrendo. Burros, não sabem fazer as coisas como devem ser feitas. Por isso o chamam, ele nunca mata nenhum desses comunistas se não for preciso. Conseguiu manter até mesmo aquela negra com o feto morto dentro da barriga pelo máximo de tempo possível sem a matar. O segredo é ser íntimo dos médicos, trabalhar junto deles. Mas tem gente que não entende isso, acha que basta sair batendo, dando choques, quebrando ossos e tudo se resolve. Por isso é que chamam ele, porque ele é bom no que faz. Dor e desespero, tem q se saber as medidas certas. Major Pontes tem muito orgulho do seu trabalho, de sua família e de ser brasileiro! Será um belo sábado!

2 comentários:

Muryel De Zoppa disse...

já apreciado.

Marco Ermida Martire disse...

hum, lembro-me de um trabalho de faculdade sobre a ditadura. Gostado.