segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Presenças.


Busco alcançar meus próprios fantasmas,
Os dos outros deixo de lado, já me perseguem.
Sou nuvem quando triste e tempestade quando perco,
Criança a tecer das estrelas pequenos sóis.

Invento borboletas que nunca morrem
E pássaros em liberdade no sul do meu coração.
Imagino o impossível tão ao meu alcance
E tiro a roupa como quem veste o dia.

Não temo saudades ou lamento prazeres idos,
De tudo que conquisto tenho o gozo de ter sido louca,
Vivido conforme a lei do meu sentir,
Depravada moleca (dirão as beatas) a beijar a felicidade.

O ontem é só mais um capítulo do que me espera
Depois do pôr-do-sol. Não paro para não morrer.
Tranquei recordações em minhas montanhas,
Releio o tempo como viciado que come morangos.

Nos meus olhos há brincadeiras da infância
Nos caminhos de meus filhos, nas mãos de outros filhos.
Já amei, esqueci, fugi ou fiquei para mais,
O certo é que me dopei de ternura, ensandeci.

Pouco sei de coisas que não procurei,
De gostos que não provei ou bailarinas que não vi.
Minha luz é aquela que brilha longe e me carrega
Para a ponte ou para o abismo, tanto faz, vivo.

Construo sensibilidade na flor dos poros
E sou mar que quer engolir o mundo ao seu jeito.
Cenário que crio sem retenções ao meu ver,
Prateleira de sonhos que decifro quando deito a cortina.

A pele é nuvem e já não sou mais tão macia,
Despenco pétalas e acolho os anos de juventude.
Aprendi na corda do tempo mais que a carne,
Uso-a para meu delírio e guardo aquilo o que presta.

Direi mais tarde quando baterem à porta:
Não estou pronta, é muito cedo, quero galos cantando.
Ainda não inventaram o dia lilás com bolinhas azuis?
Prefiro ficar mais uns dias, falta encontrar as agulhas

Para que eu borde a cor de todos os meus desejos.
Não tenho pressa e é cedo, direi várias vezes.
Antes que eu feche os olhos de ver pensamentos
Quero alcançar todos os meus fantasmas, é obsessão.

Noturna em plena hora da tarde dirão que deliro,
Mas verei as sombras se moverem, e apenas um terço
Hei de deixar desprender dos dedos... Contas...
O que eu poderei ter esquecido? Claridade?

E depois o sol irá brilhar mais forte para cavalos alados
Buscarem minhas idéias, além-túmulo elas serão inertes.
Não direi mais nada, o resto será segredo.
Meus fantasmas não assombrarão a ninguém. Estaremos livres.

Vivo como quem caça detalhes e dobra papéis.
Há os que possuem o dom de desdobrá-los...

Eliane Alcântara.

3 comentários:

Fernando Rozano disse...

Excelente, dos teus melhores textos, por sua densidade e, principalmente, por fazer com que os tecidos da pele tenham esperança, pois neles há o novo. Beijo.

Flávia Umpierre disse...

Eliane, lindo texto!
Transformou o tempo de experiência em algo leve e prazeroso.
bjo

Anônimo disse...

Ótimo e perfeitos