quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

A Última Morada


Porque me perseguem? Escondido, mal sei onde, enquanto aqueles dois malditos estão lá, a minha espera, com o único objetivo de eliminar-me, varrer minha já tão insignificante vida da face da Terra. Se ao menos houvesse um motivo...Que mal fiz a eles meu Deus? Existir... este foi o meu mal... ter nascido... Não há outra explicação. Penso, logo existo. Existo, logo sou morto. E ainda há esta fome me corroendo o estômago mas que ao menos dá para enganar. Fome eu passei a vida inteira, mas e a sede? Esta não há como controlar... a garganta arde como se alguém houvesse cravado nela um ferro incandescente. Dizem que no inferno o fogo é eterno e minha sede talvez seja um prelúdio do que me espera. Acho que estou enlouquecendo. Melhor dormir um pouco e esperar a noite para que a escuridão seja a minha cúmplice numa tentativa de fuga...
Anoiteceu... meus olhos aos poucos se acostumam com a negritude que a noite banhou o ambiente. O corpo dói, a sede aperta e o silêncio denuncia que meus perseguidores desistiram. Vou tentar a fuga... Guiando-me pelo meu instinto, corro em direção à luz que significa minha liberdade, mas sou traído pelo cheiro de comida. A fome fala mais alto e volto em direção aos odores. Mal senti o peso da ratoeira quebrando o meu pescoço. A dor é desesperadora. Sinto a garganta banhada de sangue. Com certeza este modelo de ratoeira é daqueles que possui em sua superfície uma ponta penetrante de latão diabolicamente mortal. Luto desesperadamente para livrar-me, meu rabo balança chicoteando o ar sem que eu possa dominá-lo. É o fim. Quando o dia raiar e aqueles dois abrirem a porta do escritório certamente comemorarão a minha morte. Terão nojo do meu corpo acinzentado, das pulgas que eu hospedo e me jogarão no lixo, assim mesmo, preso a esta ratoeira, minha última morada.

5 comentários:

giselle disse...

Muito bom, engraçadíssimo,parabéns.

Carlos Cruz disse...

lembrei de Ska, no início de "O Reil Leão", quando, prestes a devorar o ratinho, diz para ele: "A vida não é justa, não?"

muito bom, ô Seu Limão.

Sakana-san disse...

Não sei... Fiquei em dúvida com o seu rabo balançando! ^__- (Obs.: vim retribuir a visita da Beth em meu blog)

Klotz disse...

Kafka achou a vida um barato. Lama rateou a sorte.

liz disse...

nossa, não dá pra achar 'engraçadíssimo'. Como pode ser engraçada a morte de outro, desde q não seja humano?
Isso q Mr.Ze fez é o q escritor faz: sente a dor do outro, escreve na primeira pessoa por puríssima e simles empatia.
Só acho o final um pouco esclarecido demais pra ser o personagem quem é; como se fosse um expert em ratoeiras e soubesse exatamente o modelo daquela q o pegou. Mas q seja.

A melhor frase é essa das pulgas. Bela lembrança.