sexta-feira, 4 de abril de 2008

Beleza não vai à mesa

“O que diferencia uma pessoa da outra é o seu imaginário,
a interpretação que dá aos fatos da vida.”
Tizuka Yamazaki, cineasta

Estranhas estavam as coisas, como há muito, muito tempo, não se via na Fazenda do Grotão. A chegada do novo dono com a família deixava em todos um misto de curiosidade e receio. Saber quem e como eram, descobrir que planos tinham em mente, as mudanças que poderiam afetar a vida em geral, fazia com que todos ficassem “de orelha em pé”.
Minto. Para três amigos, isso era irrelevante. O que contava para o trio era quem realmente mandava por aquelas bandas. Jean era o mais alto, encorpado e de peito estufado, andava para cá e lá com suas esporas lustrosas, o topete ruivo, orgulhoso do seu porte e classe, era admirado pelas jovens do lugar e também quem cuidava dos horários, preciso como um Bulova. Também era cantor de última hora. Nicholas vivia em uma pompa só, desfilando sua elegância natural de dândi por onde quer que andasse, sabedor do efeito que sua figura causava; chegava a se abrir todo em cortesia e poses, aumentando assim o impacto visual. Por fim restava o fiel da balança: o simpático Arthur, com seus trejeitos particulares, o andar desengonçado, meio rebolante, meio desequilibrado e a voz esganiçada. Andava junto aos dois primeiros, ora dando apoio a um, ora ao outro. Juntos, conheciam todos os lugares da fazenda detalhadamente, não havia lugar naquele terreiro em que eles não tivessem andado ou se estranhado, sabiam de tudo o que acontecia por aquelas bandas. O que ainda não sabiam é que a sua disputa particular em breve seria feita também pelos ocupantes da casa grande.
O sr. R, novo proprietário do local, sentado na sala, imaginava como seria a recepção que daria para o senador V, no dia seguinte. Tudo teria que estar dentro de todos os conformes. Pensou e repensou todos os passos, o que lhe mostraria de suas posses, o quarto de hóspedes que lhe ofereceria – talvez até cedesse o seu próprio, visto ser o melhor da casa – suas bebidas premiadas, os assuntos que mais interessariam seu alojado... Mas ainda faltava algo. Ele teria que mandar servir uma refeição à altura da ocasião e para isso, um prato refinado seria o chamariz ideal.
Enquanto isso, a senhora R entretinha-se apoiada na janela, dividindo seu tempo entre os poemas de um livro e a observação de Nicholas, em seu passeio matinal. O andar elegante e de muita classe dele, realçava a beleza do lugar; ela poderia ficar horas assim, admirando-o. A beleza tinha isso com ela, fazia com que seus pensamentos voassem longe e alçava vôos nas asas da imaginação. “O andado dele é pura poesia” pensou – Voltou-se para o livro e achou uma parte terrivelmente adequada para o momento - "Il pleure dans mon coeur / Comme il pleut sur la ville / Quelle est cette langueur / qui pénètre rnon coeur?" [1]A pequena Matilda, a criança do casal R, brincava na outra ponta do terreiro, atirando pedras no pequeno lago e observando o movimento circular da água, reflexo da ação do objeto jogado. Criança retraída, até os três anos de idade ainda não tinha proferido palavra, mas corria de um lado para o outro. Um belo dia, disse algumas poucas e desconexas palavras e de lá para cá, quase nada dizia, mas quando o fazia, era com uma lucidez lacônica que desconcertava a todos.Agora, aos 12 anos, comparava matematicamente a velocidade do deslocamento das ondas em comparação com o formato oval do lugar, sua profundidade e a comparação com um modelo natural: estava criando maremotos para as minúsculas criaturas que habitavam aquelas águas. Alguém um dia ainda a diagnosticará como sendo uma portadora da Síndrome de Asperger[2]. Mas no momento, os pais ainda acham que ela é só “meio lesa”. Entretanto isso basta para que lhe cedam aos menores caprichos. Bom, na maior parte do tempo.
Nesse meio prazo, os três amigos foram reunidos próximos da entrada da cozinha, pela histérica Giselda, uma tresloucada que afirmava poder ver o futuro, e ficava “soltando a franga”, dizendo-se portadora de um segredo terrível:
- Hoje o futuro de um de vocês será definido pela amizade, pelo amor e pela enganação. Tomem cuidado! – e saiu gritando seus temores sobre o céu e a possibilidade dele vir abaixo. Isso a desacreditou imediatamente junto ao trio.
Entrementes, o Sr. R. encontrou a resposta para o seu questionamento culinário: Um assado. Um assado exótico será perfeito para impressionar o senador! Chamou o cozinheiro e ordenou que juntasse os animais do lugar, para que escolhesse dentre eles o que melhor se adequava para a situação. Em pouco tempo estavam todos devidamente reunidos e cercados na entrada da cozinha.
Jean e Nicholas, impassíveis, observavam calmamente as ações do senhor R., enquanto que Arthur punha-se a pensar: “Eles têm alguma serventia para a fazenda, mas e eu? Com o que eu contribuo?
Neste momento, os olhos do fazendeiro brilharam ao passar todos em revista e deu-se a escolha fatal:
- Aquele ali, o espalhafatoso! – apontava um dos três.
Nicholas sentiu o chão fugir debaixo de seus pés: estando tão chamativo, não havia como se misturar entre os outros. Já sentia o fim chegando quando a salvação veio na forma de um protesto feminino:
- Mas é nunca que o senhor vai assar o meu pavão! – a senhora R., trazendo a pequena Matilda a tiracolo, vinha em socorro ao seu animal preferido.
- Mas querida, um assado de pavão será o prato principal da refeição que darei ao senador. Isso fará com que o jantar seja inesquecível!
- Pavões são somente para o deleite dos olhos, não da barriga; um belo colírio para a alma, um momento poético envolto em penas. Usá-lo como petisco, nunca, jamais!
- Mas a moda nos restaurantes de Paris é comer pavão, hoje em dia.
- Você está querendo dizer faisão! E não temos nenhum no nosso terreiro. Por que não manda assar aquele frangão que está do lado?
Agora foi a hora de Jean se ver em maus lençóis. Sentiu suas esporas começarem a baterem uma na outra, enquanto o coração lhe subia ao bico.
- O quê, meu galo índio? – o senhor R. protestou – E quem será o reprodutor das minhas galinhas? – Nesse momento Giselda deitou um olhar cúmplice para o galo.
- Além do mais, ele é meu despertador todas as manhãs, tem muito mais serventia que esse transviado emplumado que você defende! O casal começou então, um embate sobre qual dos dois amigos iria acabar na panela. Inconscientemente, coube à pequena Matilda incluir mais alguém na querela.
Ajoelhou-se no meio das aves e tomou o ingênuo Arthur em seus bracinhos. Foi a senha para que os pais mudasse o foco de suas atenções:
- O pato! Que tal se assássemos o pato?
- Excelente idéia. Poupamos nossos prediletos e ainda temos um prato principal para oferecer ao nosso ilustre hóspede.
Mas ao dirigir-se para arrancar a ave das mãos da filha, o pai desencadeou uma reação inesperada da parte da pequena: sabedora das reais intenções para com o pato, agarrou-se ao corpo do animal:
- É meu amigo. Não podem fazer isso com ele!
- Veja bem, filhinha. Papai vai ter que prepará-lo para nosso visitante.
- Não se mata um amigo.
- Ouça, eu te dou um pônei, que é que toda menina quer.
- Como me olharei no espelho, se souber que assei o coração de um amigo? Que compactuei para que sua vida tivesse fim, que seus sonhos desmanchassem no ar como fumaça? Que tipo de criatura poderia dizer que sou?
O senhor R. começou a perder a paciência. Coube à esposa, indicar uma saída:
- Querida, o galo canta as horas e é o marido das galinhas. O pavão embeleza o jardim e é um deleite para meus olhos e dos outros que o vêem. Mas o que esse pobre pato faz, além de grasnar para lá e para cá?
- Os amigos precisam necessariamente fazer algo por nós? Não podemos ser amigos só pela amizade?
- Se ele fizer algo que eu concorde que seja absolutamente útil, deixo-o vier – atalhou secamente o pai. A menina acomodou o pato no chão, pegando sua cabeça carinhosamente entre as mãos.
- Canta. Se você cantar, papai lhe poupará a vida e poderemos sermos amigos para sempre.
Arthur, como todo pato, nada sabia de cantar. Olhou desesperado para os amigos, quase que se despedindo deles, quando uma piscadela de Jean trouxe-lhe um suspiro de alívio.
Os pais, vendo no gesto da menina um raio de esperança pueril, estavam já para desistir daquela disputa, temendo que a ação trouxesse danos psicológicos irreparáveis na criança, quando viram o desajeitado animal se perfilar diante dela, como se aprontando para algo. Timidamente, abriu o bico. E cantou. Cantou de uma maneira estrondorosa, plena e vibrante, soltando as notas no ar, tendo como pano de fundo o amplo leque de penas do pavão, o que lhe conferia o status de cenário.
Matilda pôs-se a pular de emoção. O pai, não acreditando no que via, balançou a cabeça, sendo abraçado pela esposa, que sorria agradecida pela empolgação da filha.
Nem bem o canto acabou, enquanto os humanos comentavam empolgados o que acabaram de assistir, o galo saiu detrás das penas do pavão:
- Bela dublagem, Arthur.
- Salvaram-me as penas, camaradas. Não fosse pela menina e por vocês, a esta hora já estaria sendo recheado.
- Ah, um perfeito trabalho de grupo – Giselda, agarrada à asa do galo, se debulhava em lágrimas – ah, e que música linda, Jean! .
- Faz parte do meu show – o peito estufado do galo quase arrebentava.
- Peraí. Quis saber o pavão - Enquanto o patrão se afastava, alguém escutou que fim teria o tal “prato principal” dele?
- Ouvimos ele dizer qualquer coisa sobre lombo, torresmo ou coisa parecida.
- Ih... – virou-se para a franga “mediúnica” – Giselda, vai rápido lá no chiqueiro e avisa o Michelangelo para ele começar a espumar pela boca, senão “vai pagar o pato”...

[1] Chora em meu coração / Como chove sobre a cidade / Que langor é esse / que penetra meu coração?. Paul Verlaine
[2] A síndrome de Asperger é uma síndrome que está relacionada com o autismo, diferenciando-se por não comportar "atraso ou retardo global no desenvolvimento cognitivo ou de linguagem". Suspeita-se que Albert Einstein, Isaac Newton, Mozart, Sócrates, Darwin, Michelangelo, Stanley Kubrick, Wittgenstein, além de Syd Barret (vocalista, guitarrista e compositor do Pink Floyd), tenham sido portadores da síndrome.

3 comentários:

Juliano Guerra disse...

Texto danado de bom.

Larissa Marques disse...

Pois é, eu disse em um poema que não há realidade e sim interpretação, aos meus olhos o texto é maravilhoso.
Acho que pensei em desistir da literatura por isso, minha palavra conta uma e os olhos dos outros dão no mínimo duas interpretações diferentes,beijo!

Carlos Cruz disse...

um de seus melhores, decerto.