segunda-feira, 1 de março de 2010

Sobre o menino que morreu na garagem do meu prédio, meu último acidente de moto e a indesejável.


Um menino morreu esmagado pela grade do portão eletrônico do meu prédio no último domingo. Desci a pedido da síndica para apoiá-la, estava abalada com a tragédia. Os dados: moleque perdido de 7 anos entrou no lugar errado.  Perambulei entre policiais e curiosos, vi o corpo, aparentava uns 8 anos, grandão, descalço com pés imundos.
- corre, vem ver, gente, tiraram o lençol. – Relinchou uma senhora com criança no colo, como se chamasse as fãs prum show da banda Calypso. Voltei para casa, detesto espetacularização de tragédia.
Contei o que vi para minha mulher: menor de rua tentou roubar a garagem e se deu mal. Simples assim. Mais tarde, já à noite, vim conhecer a amplitude do meu preconceito. Na verdade, o menino tinha 4 anos, era hiperativo e tomava remédios, morava na quadra vizinha, entrou no prédio pois era igualzinho o seu próprio e, quando percebeu que estava no lugar errado, voltou e foi pego pelo portão quando, com o susto, sofreu um surto. Uma fatal e infeliz coincidência.
Analisei por dias minhas emoções para escrever este texto. O que senti durante o desenrolar da história? Nada. Ou melhor, pensei no sofrimento se acontecesse com meus familiares, mas só isso. Tive pena do menino, e tal, mas acho que já estou acostumado com violência e morte ao meu redor.  Histórias novelescas de traição, vingança e medo acontecem com meus amigos, inclusive roubos, seqüestros e assassinatos. Por que eu me surpreenderia com uma fatalidade? E, olha, vivo num chamado bairro nobre, trabalho no serviço público e tenho nível superior, sou classe A pro IBGE. O que não acontece por esse mundão afora?
Lembrei que quatro dias antes eu mesmo havia me acidentado de moto. Um emo resolveu sair do carro do pai num semáforo enquanto eu transitava ao lado, trombei contra a porta de frente, capotei e pousei quase sentado no asfalto (ainda bem que tenho os instintos do rolamento no Judô). Foi na frente do Schlob, uma da tarde, aquela confusão, Samu, polícia, Hospital de Base. O único ferimento grave foi saber que o japonês pai do emo não quer se responsabilizar pelo prejuízo.
- meu filho ficou muito triste por você não aceitar suas desculpas. – Argumentou o pilantra.
- por que eu ira apertar a mão de quem quase me matou? Sou o Gandhi, por acaso?
Naquele dia não temi a morte, só senti uma pena antecipada por meus familiares se algo tivesse ocorrido de sério. Todos morrerão, cedo ou tarde, o que importa é como se gasta o tempo da vida, sem temer novos tombos ou fatalidades coincidentes, senão já estaremos mortos sem saber. A moto foi pro mecânico, já tô com saudade do vento e da liberdade.
E o menino continuou morto. O pior, ainda sofrendo os julgamentos espúrios de gente como eu, que espera o pior das pessoas como cartão de visita e que se distancia de tudo que desconsidera como quem se afasta de uma fossa séptica. Ele era só um coitadinho que nem teve tempo de errar, no primeiro já se deu mal. Talvez crescesse como um emo que um dia abriria a porta do carro no trânsito e mataria um motoqueiro, ou talvez descobrisse a cura para a corrupção, vai saber.
A única coisa que eu sei é que um dia todos morrerão.

5 comentários:

Cesar Veneziani disse...

Sua prosa continua fluida. Leitura que se mantém atenta e fiel até o final do texto! Parabéns!

Giovani Iemini disse...

obrigado, chapa. só espero que o assunto tb seja interessante. hehehe.

Angela Gomes disse...

Gostoso de ler, provocativo. Bom demais.
Essa ironia cínica é de matar.rss
Sucesso sempre!

Larissa Marques disse...

Só é.
Bacana, Gigio!

Giovani Iemini disse...

brigadus, queridas.