segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Uma introdução


Fui convidada para me sentar à mesa com vocês, e com alegria aceitei o convite. Perguntei ao Giovani se meu estilo estava bom, ele me respondeu dizendo que o espaço é livre. Sempre tive muitos motivos para duvidar do meu estilo, talvez todos fictícios (mas que existem, existem).

Não sei para quê escrevo, nem como. Sento e escrevo. Não sei por quê quero ser lida, mas quero. Minha escrita não tem manual. Por isso a julgo inevitável – no sentido de que não há muito que possa fazer, a não ser sentar e escrever. À parte disso, não compreendo mais nada, o que me causa uma alegria e ansiedade enormes. Por não compreendê-la, temo que um dia ela se vá, e a fonte se esgote (mas uma voz otimista que me forcei a criar diz: calma, se é sobre a vida, matéria não há de faltar).

Aprendi a escrever enquanto criança, na escola. Meu primeiro livro fiz antes disso. Na minha escola aprendi que pra contar história não precisava saber escrever, e ditei para a professora, palavra por palavra, a fantástica história do melão chorão que fazia xixi. Apesar de tantas faltas de liberdade inerentes à escola, muito era possível naquela, onde aprendi também a fazer amigos e a discordar (às vezes) de (algumas) autoridades. Me lembro de discussões sem fim com o professor de história sobre nosso otimismo ingênuo, e anos depois fui encontrar um pedacinho de papel entre meus materiais escolares que dizia:

Carta para mim aos 21 anos
Eu acredito que se cada um fizer a sua parte o mundo será melhor.

Esse foi o fim de um debate acirrado sobre nossas visões de mundo: os alunos da sexta série A acreditavam que de gota em gota poderíamos mudar o mundo; o professor nos garantiu que aos 21 anos já não pensaríamos bem assim, e nos orientou a escrever esse lembrete para quebrar nossas pequenas caras no futuro. Emputecidos, escrevemos, certos de que jamais mudaríamos de ideia.

Mas ouvíamos atentos. Entre detalhes sórdidos sobre os cintos de castidade e aqueles incríveis desenhos de feudos completos no quadro-negro, via-se naquele professor um leve tom de foda-se para aquilo tudo que nos intrigava. Era interessante porque esse desinteresse se misturava com uma preocupação conosco e com o mundo – só quem se preocupa defende ativamente sua revolta. Aprendemos ao menos que havia debate; nem todos concordariam sempre. Aprendemos o que era anarquia, pois ele dizia ser anárquico. Detestava crianças. E nos prometia que em pouquíssimos anos seríamos amigos, e conversaríamos de igual para igual.

Ainda hoje acho uma loucura conversar de igual para igual com gente grande. Tenho pretensões muito tímidas com relação à minha escrita – tão pequenas que nem sei quais são. Somente escrevo, do jeito que aprendi. Desde a escola. Como aquele professor, me preocupo o suficiente para me guardar o meu direito de escrever minhas baboseiras nas quais não vejo sentido algum. E publico da maneira que tanto me agrada, num blog, porque numa boa conversa você fala e ouve, assim como acontece aqui, no bar do escritor. Para uma boa bebedora que conversa melhor por escrito, quer lugar mais aconchegante?


Mestre Gigio, é um prazer poder, finalmente, conversar com você!

7 comentários:

A Mina do cara! disse...

Querer ser lido é quase a mesma coisa que querer escrever. Escrever para ninguém é parecido com falar sozinho, o problema que não ser lido pode gerar uma melancolia, e não ter alguém para ouvir já torna o falando maluco, doido...

Ju, nos encontraremos por aqui...

Daya disse...

Eu - ainda - acredito que se cada um fizer a sua parte o mundo será melhor.

coresquenãoseionome disse...

eu tb acredito. e acredito que vc faz uma das suas partes muito bem, ju, nos enchendo de alegria, tristeza, saudosismo, reflexões... com suas palavras tão naturalmente bem colocadas.
bom poder te ler aqui tb!
sucesso no bar!

Marina disse...

E quantas vezes não são as palavras escritas que nos inventam, nos tornam?

É bom fazer da vida uma sopa de letrinha organizada.

Se é sobre a vida, ufa! Vou poder te ler por muito tempo, Ju!

beijos!

Giovani Iemini disse...

sabe, ju, ainda me impressiono em perceber como AMADURECEMOS naquele ano em que lecionei na tua 6a série. não sei se já compreendi tudo o que aprendi, ainda tô tentando entender várias engrenagens da vida, mas sei que o resultado daquela maravilhosa experiência ficou marcado no meu coração.

me arrepiei com teu texto.
obrigado!

ps.: esta carta de vcs foi muito bacana, né?! eu queria ter tido um professor desses... hahaha.

ps.: eu disse que o espaço é livre, sim, mas lembro de ter dito antes que vc escrevia otimamente. não esqueça disso.

Glauber Vieira disse...

Seja benvinda, Ju! Gostei da sua forma de escrever, clara, sem devaneios, indo direto ao ponto.

Ju disse...

Obrigada, queridas!
Obrigada, Glauber!
Fico feliz em participar disso aqui agora!

Gigio, eu também acho que fomos sortudos em ter esse professor de história anarquista na sexta série, hehe.
Sabe que quanto mais eu estudo sobre educação, mais eu vejo o tanto que as crianças, jovens e adultos só querem respeito, cuidado, essas coisas muito mais simples que fórmulas complicadas.
E acho que tinha muito respeito nesse seu lidar conosco, ao se engajar em discussões como essa e não subestimar crianças de 12 anos. Como se vê agora, elas crescem e se lembram dessas coisas, né? São marcadas por elas. E hoje sei que há pelo menos uns bons anos que me entrego a perguntas como essa e me sinto qualificada para pensar nelas, mesmo sem saber respondê-las.
Realmente, muito bom poder conversar com você(s)!

Um beijão!