quinta-feira, 21 de junho de 2012

A índia

CONTO

(O que é um engasgo para quem se afogou?)


      Aconteceu: “fudi”. A índia mais bonita que já vira na vida. Estava ali, sentada ao seu lado, esperando que o ônibus alcançasse o destino. Haveria de ser em um jardim, guarani ou paulistano, sabe-se lá. O fato é que estava ali. Aquelas coxas que mais lembravam dois bolos de carne, amassados sobre o assento com o peso de toda aquela massa que constituía peitos, quadril e etc. Não era obesa, mas do tipo fogosa. Os cabelos eram negros e lisos, nascidos da pele vermelha, flutuantes conforme o vento. Não usava cocar nem nada que é do costume arcaico, mas vestia jeans, uma blusa comum e quiçá tivesse até um óculos escuros dentro da bolsa de couro que levava. Mas era uma índia, exploradora, guerreira, descobridora, enfim. Que peça rara! Em meio toda aquela normalidade cotidiana das pessoas desesperançadas, devoradas pelos rituais coorporativos de cada dia, lá estava ela, uma índia. Precisava falar alguma coisa, puxar assunto, mas desajeitado, não sabia nem por onde começar. Depois da lambada, começou até a ouvir tango. “Olá”, disse, então. Olhou-o como se agradecesse, mas voltou o rosto sem dizer nada. Era um nervosismo mútuo: ele pela presença dela e as várias hipóteses e, ela, pelo trânsito talvez, o que denotava com linguagens corporais: uma índia indefesa na cidade, assustada com o caos, levando as mãos ao nariz, olhos, arregalando-os a cada buzinada. No mínimo talvez estivesse mal acostumada, o que não deixava de ser diferente. As vezes, o que percebia pelo reflexo no espelho do motorista em frente à primeira dupla de assentos onde estavam, seu rosto se transformava e deixava de sentir o tal medo, como se fosse pego de certo conformismo, dando a impressão de conhecer o caminho ou ir-se acostumando aos poucos, coitada, talvez morasse naquele jardim a que era destinado o percurso, antes tivesse ficado em sua aldeia, ô, deus! Mas em outros momentos, também, dava lugar a uma guerreira, ao exemplo de quando subia alguém suspeito; ou caçadora, com toda a seriedade que não deixava de lhe ser inerente. As mãos remetiam à dignidade. Por qualquer motivo percebeu as mãos. “Você é bonita”, insistiu. ”Gracias”, ela então respondeu. A índia falava castelhano. Que coisa incrível, pensou. Por que tudo se tornara um encanto? Você permanece condicionado (por qualquer razão pessoal idiota qualquer) dentro de um lugar onde só se ouve falar a tal “língua-gueto” - salve Caetano! - pequenas diferenças tornam-se surpresas agradáveis. Tirou uma revista da bolsa e a viu folhear, num instante de desapego qualquer.
      “Você é de onde?”, perguntou
      “Soy peruana...”
      "O que está lendo?”, curioso
      “Hablam política, não entendo muito bien, algunos reacionarios protestanto la corrupción”
      “Tô sabendo...”
      “São Paulo em crise...”, refletia a índia, com certo ar de frustração por escolher ter vindo à “cidade errada no momento errado”, talvez
      “É assim mesmo, linda... O mundo é uma história só, desde sempre, com vários personagens...”
      “Personarrens?”, riu
      “Todos mascarados, BOO!... tá cheio de “Robin Hoods” por aí, até conseguem alguma coisa, mas no final acabam sempre cedendo ao sistema corruptivo e, os bodes, coitados...”
      Ficou olhando-o assim como quem pensa “caramba”, e então passou pela cabeça dele dizer: “sim, sou corrupto... corrupto às minhas catarses, corrupto às minhas paixões...”, mas não disse nada.
      Ficaram por segundos olhando um ao olho do outro em uma transfusão de energia propagada pelo Deus Sol que, enfim, transbordava!!!
      “Vem cá, conheço um bar de esquina no próximo ponto. O que acha de uma cervejinha?”
      “Muy bien, vamos!”
      Foram caminhando até o bar que ficava há poucos metros do ponto onde desceram. Ele se dirigiu rapidamente até o banheiro por que estava apertado e, enquanto mijava (sem fazer uso das mãos), tirou a carteira do bolso e abriu-a para saber quanto tinha de dinheiro, então viu: a foto dela. Aquele banheiro era desses típicos de bar e fedia à beça, olhou dentro daquela privada cheia de merda. “Não, Linda, não vou te deixar aqui dentro...” Deu a descarga e PARTIU!

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2 comentários:

RITA PACHECO disse...

Bacana, bacana, seu texto e seu blog.
Passando para agradecer sua visita a meu blog e avisando que no dia 23, passarei novamente por aqui!
Um abraço
RITA
www.olharesedetalhes.blogspot.com

José María Souza Costa disse...

Eu sempre imaginei a vida, como um desafio, e sempre observei o comportamento humano, como o retrato da personalidade das pessoas. Cada um desenha os seus trejeitos e deixa deslizar as suas dores ou escancarar os seus pensamentos. Interessante a sua postagem. Parabens, sempre.