terça-feira, 4 de setembro de 2012

As Time Goes By



No meio do saguão do aeroporto, o trique traque trique do salto alto de Alice denunciava o nervosismo pela demorada espera andando de um lado ao outro. Ele haveria de passar por ali, tinha certeza que embarcaria para algum lugar paradisíaco, distante, intocável, onde as palmeiras dançam ao som vento e o céu anil beija o mar no horizonte, provável fundo de algum cartaz de agência de viagem. “Como fui estúpida!” — pensava emburrada consigo. Ela o procurara durante anos e quando finalmente o encontrou, deixou que escorresse pelos seus dedos longos, saindo de cena com aquele ar de cavalheiro de outros séculos e o charme blasé de filme de quinta.
Aquilo implicaria péssimas consequências: de nada adiantaria seus protestos invocando todo o afinco que empenhara, as noites sem dormir, observando-o todo momento, mantendo-o como única meta, sendo praticamente sua missão de vida. Aquilo lhe custara a inimizade de amigos e o desgosto dos parentes; estar tão focada naquele homem, nutrindo-se de tudo o que se referia a ele, buscando de todas as formas entender seu pensamento e como se adiantaria aos seus movimentos, estando sempre um passo à frente, preparada para ele. Não, nada daquilo adiantaria: seria culpada, ou pelo menos suspeita de ter provocado ou — e porque não? — ter sido a idealizadora daquela verdadeira fuga.
Retornou ao café, comprou cigarros, fumou a impaciência, tragando cada minúscula faísca de ansiedade. Olhava desesperadamente a multidão que ia e vinha, lembrando cada contorno daquele rosto másculo, o queixo quadrangular, habitat natural de uma barba de eternos três dias, os olhos claros recheados de promessas — vazias, na grande maioria, quando se deu conta de que o hangar dos jatinhos seria o local onde deveria procurá-lo.
Alfredo sentia-se muito bem naquele momento. O adocicado cheiro da liberdade invadia suas narinas; como é bom estar livre e saber-se acima das pequenas vicissitudes da vida podendo escolher o que e quando fazer algo, pelo puro prazer de poder. Parado ao lado do LearJet, imaginava-se como um Bogart moderno: o copo de whisky, um piano de cauda, sua música favorita sendo dedilhada com singela maestria. Ao piano, estaria Jobim, por conta dos ares nacionalistas. Faltava somente uma Ilsa para fazer o pedido em sussurro:
— Toque uma vez, Tom. Pelos velhos bons tempos.
— Toque, Tom. Toque “Chega de Saudade”.
Foi levado no pensamento de tal maneira que começou a cantar:
— “Vai minha tristeza, e diz a ela que sem ela...
Despertou de seu sonho acordado pelo acompanhamento não esperado no final, vindo na forma de uma voz de veludo:
— “Que sem ela não pode ser”.
Parada em sua frente uma bela loira, versão tupiniquim de Ingrid Bergman, tomava-lhe já a mão:
— Você possui uma voz maravilhosa, senhorita...
Subitamente sentiu o frio do aço cercando-lhe o pulso: Alice — respondia com um sorriso maroto — Delegada Alice Miranda, Polícia Federal. O senhor está preso por desvio de dinheiro público.

7 comentários:

Giovani Iemini disse...

o brasileiro tá louco pra ver corrupto preso.

Gessica disse...

Muito bom parabens ^^


Beijos
SEMCONTROLE.NET.TC

Sissym disse...

Eu já li ou ouvi historia parecida, bom seria se tornar uma realidade !

Sds

Eden disse...

Thank you for your visit .

Raul Yabuki disse...

Pessoal, sei que é incômodo. Mas percebi nesse blog pessoas que se interessam pela leitura e sabem criticar. Estou escrevendo uma história e publicando num blog quem quiser me dar uma ajuda, estou aberto a opiniões.
Desde já, agradeço

The Lazy Girls disse...

oie...
Gostei muito do texto!
O melhor é que se tornasse real...

Obg pela visita lá no blog!
tem resenha nova lá se vc quiser ir lá e deixar um comentário...
http://falleninme.blogspot.com
Bjão

Mary disse...

Lindo texto!

tenha um ótimo fim de semana.


bjos