quinta-feira, 13 de setembro de 2012

GH


GH - O cara!

Naquela época, eu trabalhava em uma empresa média, mas que estava crescendo, com muitos negócios. A empresa tinha departamentos técnicos e também uma área de treinamentos. Eu trabalhava de dia na área de consultoria e de vez em quando dava alguns treinamentos de noite. Era bom pelo dinheiro, mas pesava um pouco, pelo cansaço e pelo tempo longe da família e dos amigos.

Mas tinha o GH. GH era um cara legal, conversava com todo mundo, era muito inteligente. GH queria dar aulas sempre, todas as noites. Por causa dele, a empresa criou uma fila para os instrutores serem chamados. GH topava qualquer curso, podia ser qualquer coisa, se ele tivesse uma semana, ele dizia que virava noites e se preparava. GH tinha sua própria empresa, além disso trabalhava no ministério, tinha clientes próprios. GH era O Cara! Durante um tempo, achávamos que GH ia parar com isso depois de alguns meses, mas ele não parava. Uns 5 meses depois, resolvemos querer saber porque GH trabalhava sem parar desse jeito. A primeira coisa foi saber que ele não tinha filhos, família em outra cidade e que a esposa era médica e fazia muitos plantões. Mas nada disso era o motivo principal.

GH tinha uma meta. Ter um milhão de reais com 40 anos. E depois ele ia curtir a vida, segundo ele. Ele sabia que tinha que se dedicar. Apesar de não concordarmos muito com ele, por ele não se dedicar nenhum diazinho para lazer ou amigos, era um plano interessante e ele trabalhava duro e honestamente por ele. Sábados e domingos ele também arrumava o que fazer e o milhão ia chegando, segundo ele. Acho que ele tinha uns 33 anos, naquela época.

E por mais uns dois anos enquanto trabalhei nessa empresa, quase todo dia a noite, lá estava GH para mais um treinamento, sempre feliz, ele parecia mesmo feliz com aquela escolha, apesar de nós, da equipe da empresa, termos sempre umas duas semanas livres entre um curso e outro.

Em mais uma noite, ao chegar o GH, falávamos com um amigo sobre viagens e férias. GH ouviu e foi logo dizendo: Com 40 anos, vou tirar férias eternas! E sorriu. Nós perguntamos quando ele havia tirado férias antes e ele disse: Desde 8 anos atrás, quando comecei meu plano, nenhuma vez mais. Ficamos até desnorteados e mudamos de assunto. Eu sei que férias é uma coisa que muita gente não tem, mas para quem trabalha 3 turnos por dia incluindo finais de semana, 8 anos sem férias pareceu como algo sobrenatural.

Eu saí dessa empresa e ainda ministrei uns cursos lá de noite e ainda encontrei o GH, sempre por lá. Depois de uns 4 anos, estava em um bar com alguns amigos e chegou mais um, um dos donos da empresa onde tinha trabalhado. Ele estava com a cara fechada, tensa. Antes que nós perguntássemos o motivo, ele disse: GH faleceu! Parecia brincadeira. Nós ficamos mudos. Ele continuou: Acidente de carro, foi pego de lado por outro carro e não resistiu aos ferimentos.

Ninguém dizia nada, mas acho que todos tinham a mesma coisa na cabeça: E o milhão? E as férias eternas?
Mais nada, não tinha mais nada. Nem agora, nem antes, nem depois. GH não viveu para viver e mesmo assim não viveu.

2 comentários:

Eva Sabbado disse...

Bom dia Silvio, excelente o texto e uma grande lição, a vida não espera, ela é urgente e presente, não dá pra deixar prá depois a vida, pois não sabemos até quando a teremos, vida é um presente presente, não aproveitou, perdeu..parabens, abraço.

Giovani Iemini disse...

clássico. os melhores se fodem sem sentido.