segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Coloque o cinto, cidadão



- sabe por que te parei? – o guardinha da PM conferia meus documentos.
“Denúncia de que vim a esta favela para comprar maconha?”, mas deixei o pensamento só na cabeça e a sacudi num muxoxo de dúvida.
- o senhor não está usando o cinto.
“Ufs”. E respondi numa indefectível rima urbana: - sinto por isso.
- o senhor sabe que o uso do cinto é obrigatório, a falta de uso é passível de multa...
Fui concordando, enquanto pensava que essa lei servia apenas para o Estado exacerbar seus deveres e transferir ao cidadão o direito de escolher como se proteger em seu próprio carro ou na sociedade, igual o uso obrigatório de capacete para pilotos de motos e bicicletas e a proibição da posse de armas.
- mas desta vez vou te deixar ir embora. – Falou, magnânimo.
“Ah, a providencial preguiça das autoridades públicas que regula o sistema”. Assenti num ok, dei ré e engatei a primeira.
- coloque o cinto, cidadão.
- ué, você não disse que me deixaria ir embora?
- sim, mas de cinto.
Fingi que prendia o cinto e acelerei. Soltei meu corpo tão logo rodei alguns metros. “Sinto mais uma vez, seu guarda, mas sigo regras somente quando são úteis”. Peguei o baseado no cinzeiro, traguei e joguei a bituca pela janela, entristecido, eu não gosto de jogar lixo na rua, mas não podia manter o flagrante no automóvel. “Tchau, seu guarda”.

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publicado originalmente no blog Bastardos do Velho Safado.
 

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