quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Somniu


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Ainda era madrugada quando ele me tomou por assalto. Onírico, lançou seu corpo sobre o meu, dormiu em mim, contou-me de vulcões e trigais, roçou-me a língua da inverdade. Abandonou-me. Acordei solitária. Manhã azul, anunciação de Sol.

Sendo assim, fiquei dividida. Metade pétala, metade vento.

Porta entreaberta. Algumas gotas ainda brilhavam sobre o assoalho branco-fosco da primeira sala. Seus passos, ainda mornos, mergulhavam naquela imensidão azul que cantava lá fora. Deixei meus olhos sentarem. E me re-dividi: Um quarto de tristeza, um quarto de vulcão, um quarto de andor, um quarto de descrença.
Dois dedos de café com leite e canela.

Na cabeça ecoava alguma coisa de gratidão. Alguma coisa de certeza. Alguma coisa de dor. Algumas palavras entaladas de faringe abaixo. Anulações.

Só teu sorriso ainda cantava desperto no meu travesseiro.

Fui duas, dez, mil vezes ao teu encontro, e em todas, tu me lambeste e pediste pra que eu ficasse. Eu tonta, sentava em teu colo, tu me dizias palavras bonitas: “Tudo é possível, em breve, acredite, estarei com você”.

Até que a última cortina cerrou no fim do último ato.
Não lançaram flores, recém beijadas, ao meu encontro.
Ninguém aplaudiu.
Ninguém secou aquela lágrima salgada que correu serena até os teus pés.
Nem mesmo tu.

Ingrato.

Tu a quem devotei minhas noites mais mansas e as mais quentes. Tu, que amamentei, ninei, aconcheguei e embalei como a um filho.

Foste, e nem me deixaste bilhetes. Só cacos.
Cacos imateriais que machucam mais que farpas de vidro.

Fiquei.
Partistes.

Adeus, Sonho.

(Jessiely Soares)

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