quinta-feira, 2 de maio de 2013

A VINGANÇA



Em uma daquelas coincidências da vida o nome dela era Julia, que passou a ser Julinha, Juliette, Julita, até chegar a Julieta. E ele, Romeu. Como no melhor da dramaturgia Shakespeareana os dois tragicamente se apaixonaram.
Julieta tinha o pai rigoroso, a mãe ausente. Mostrou cedo que odiava todo tipo de ordem e proibição. Sofreu as consequências da rebeldia: aos 14 anos passou um tempo em um  internato para meninas problemáticas.
Romeu era um rapaz de boa família, tranquilo, honesto. Nunca se envolveu em confusão. Seguia a vida como o esperado. Na escola, bom aluno, passava de ano com facilidade e aos 17 anos já se preparava para a faculdade. Precoce, muito seguro de si.
Foi nesta época que conheceu Julieta. Ia apressado para a biblioteca quando esbarrou na moça sem graça que estava parada indecisa entre ir embora ou fumar um cigarro.
– Desculpe, falou ela.
Ele nem tomou conhecimento. Tinha atenção apenas para o livro aberto que carregava. Continuou o passo, sem se virar pra trás. Nem percebeu que os olhos da menina feia grudaram nele. Julieta ficou encantada. “Que cara interessante”, pensou. Decidiu segui-lo. Foi a primeira vez que pisou na biblioteca desde que entrou para aquela escola. Não tinha o costume de frequentar salas de estudo. Boa parte do hall de entrada estava no escuro. A velha bibliotecária não era lá tão velha, mas mantinha o tradicional ar circunspecto.
– Bom dia, disse friamente à Julieta.
– Bom dia. Eu estou procurando... a senhora viu... é...
Julieta não sabia o que dizer. Olhava para os lados à procura de socorro. Ficou em silêncio, fez uma mesura e afastou-se. Dobrou no primeiro corredor que encontrou. Começou a percorrer as estantes sem rumo. Sem pressa, meio perdida. Logo começou a sentir o cheiro inebriante de café. Sem interesse pelos livros, e sem achar Romeu, foi em direção ao cheiro. Vinha da cafeteria que ficava no segundo andar.
Para sua surpresa lá estava ele, o garoto que esbarrou nela. Ele levantou os olhos em direção à entrada do Café para ver quem tinha causado aquele barulho todo ao abrir a porta de supetão. Deu de cara com Julieta. Ficaram se encarando por mais tempo do que manda o bom senso. Ele sorriu primeiro, com os dentes meio sujos de torta de morango. Ela tropeçou em uma mesa, deixou a bolsa cair e deu um sorriso em troca. Depois de perceber que todas as mesas estavam ocupadas, Romeu ofereceu, por gestos, um lugar ao lado dele. Ela foi. Conversaram, se conheceram, riram mais um pouco e perderam a hora. Na despedida: um beijo tímido entre amigos, um aperto de mãos e a promessa de se verem novamente.
E assim foi. No começo era tudo meio que por acaso.
– Ah, você por aqui? Que surpresa, mentiam mutuamente.
Tempos depois já marcavam horário. E ali, naquele Café da biblioteca, montaram o ponto de encontros. Na quinta vez, resolveram sair para passear pelo jardim. Dos passeios no jardim passaram a almoçar, estudar, caminhar, sempre juntos. Ficar um ao lado do outro se tornava irresistível.
As brincadeiras foram ficando ousadas. Davam um jeitinho de tocar as mãos, encostar um braço no outro, sentir o cheiro um do outro. Riam à toa. E Romeu entregava bilhetinhos a Julieta. Um dos primeiros dizia somente: sonhei com você e acordei feliz! Julieta sorria.
Um dia meio frio, com uma chuvinha chata, foram ao cinema. Filme bobo, sem emoção. Sem emoção na tela, nas poltronas os dois se ardiam em paixão. Sentaram juntos nas últimas fileiras, as mãos se tocaram, foram se entrelaçando. Eles fingiam prestar atenção ao que acontecia no filme. Aos poucos se abraçaram. Iluminados pela luz fraca se beijaram apaixonadamente.  
E assim passaram a ser namorados. Não se desgrudavam. O clima de romance deixou Julieta mais quieta. Em casa, já não discutia tanto com os pais. Tentou pela primeira vez passar uma maquiagem leve, sem aqueles borrões pretos nos olhos, sem o batom exageradamente vermelho. Passou a pentear melhor os cabelos e caprichar no perfume. As roupas ficaram mais sensuais e os sapatos mais elegantes.
Romeu chegava assoviando na cozinha onde era preparado o almoço e abraçava a mãe para dançar entre as panelas e pratos. No muro de casa pichou um “eu te amo” enorme dedicado à Julieta. Estava apaixonado.
Romeu tinha os cabelos escuros, desgrenhados, meio longo. Era de uma beleza singular e aos olhos de Julieta era lindo. Vestia-se como ela gostava: meio maltrapilho, com ares de bandido. Os sapatos velhos davam o toque final para passar a impressão de que era um dândi, um punk, um pária. Culto, bem informado, cheio de opinião, mantinha sempre um ar de mistério.
Apesar das tentativas de se mostrar bonita, Julieta se achava desajeitada, feia e meio gorda. Ficava imaginando o que Romeu teria visto nela. Não acreditava no amor dele.
– Ele tão inteligente, descolado, bonito e eu essa coisa mal acabada, lamentava Julieta todos os dias.
O que ela não sabia é que era justamente essa esquisitice o que mais o atraia.
Enquanto Romeu não se cansava de fazer declarações amorosas, Julieta mantinha a insegurança e o ceticismo. Era uma mulher traumatizada. Nunca antes um homem demonstrara tanto afeto, carinho, respeito. Ela nunca antes havia se apaixonado de verdade e já passara por muitos apertos.
Um dos antigos namorados quase viciou Julieta em drogas, outro chegou a bater nela. Então, aceitar a pureza e a sinceridade de Romeu era uma coisa muito difícil.
Namoravam às escondidas. Julieta acreditava que o pai fosse correr com Romeu assim que ficasse sabendo do romance, afinal já fizera isso com o último rapaz que se interessou pela filha.  E acertou. O rigoroso pai mandou Romeu sumir da vida de Julieta na tarde em que pegou os dois se beijando embaixo de uma árvore próxima à esquina da casa deles. Embasbacado Romeu foi embora sem acreditar no que tinha acontecido. Marcaram então de se verem à noite, durante a volta de Julieta da aula de música. Não que ela tocasse bem qualquer coisa, mas inventou umas lições de piano pra poder encontrar com Romeu.
O amor entre os dois cresceu. Marcavam encontros mirabolantes como da vez em que Julieta fingiu ir dormir na casa de uma amiga imaginária e acabou dormindo no quarto de Romeu, escondido da mãe dele. A mulher não gostava que o rapaz levasse as namoradas pra lá, mas Romeu deu um jeito de receber Julieta pela janela. Sempre inventavam uma saída para ficarem perto. Ela ainda insegura, ele cada vez mais amoroso.
Romeu compôs música para a amada, poemas, lindas cartas de amor. Tirava fotos românticas. 
O tempo foi passando até que Romeu começou a organizar a vida de Julieta, a controlar os horários, a escolher até mesmo o que ela iria vestir. Mandava no que Julieta iria comer e beber. Se a maquiagem estivesse forte, ele passava um algodão pra “tirar o excesso”. Ela já não podia sair sozinha que ele arrumava uma desculpa para acompanhá-la. Era quase uma obsessão.
Julieta passou a se incomodar com aquela dedicação toda, aquele amor. Não estava gostando nada daquilo. Algumas discussões começaram a arranhar o relacionamento.
Certo dia, quase por milagre, Julieta foi sozinha até a praça ler pela primeira vez um livro “sério”. Era um pedido de Romeu. Para ter assunto nas conversas, explicou ele. Sem vontade de começar mais um desentendimento, ela aceitou a leitura. Gostava de romances, mas Romeu a obrigou a ler aquela teoria econômica chata sem sentindo nenhum para ela. Entediada e sem aviso, conheceu Pedro. Ele sentou no banco em frente ao dela. Era o típico bonachão. Bem diferente de Romeu, não tinha ar misterioso, nem cabelo desgrenhado. Era simples, simpático, alto, loiro e olhava meio de lado pra Julieta. Ela com medo, se achando equivocada, relutou, mas retribuiu o olhar. Ele foi chegando devagar, puxou assunto, perguntou que livro a garota estava lendo. Conversaram, descobriram milhares de interesses em comum. Assim como ela, Pedro não gostava tanto assim de ler, nunca tinha ido a uma biblioteca e preferia vinho a café. Riram alto e nem se preocuparam com a chuva que chegava. Pedro falava abertamente, era muito direto. Disse que tinha gostado de conhecê-la e sem rodeios perguntou onde a nova amiga morava. Dois dias depois apareceu na casa de Julieta levando pão e manteiga para tomarem o lanche da tarde. O pai não se importou. Pedro tinha uma cara boa, de “gente rica”, estava sempre sorrindo. Foi logo bem aceito.
Romeu nem desconfiou da nova amizade. Mostrava-se  cada vez mais obsessivo inacreditavelmente apaixonado e irritantemente controlador.  Julieta estava confusa. Começava a sentir medo de Romeu.
O namorado estava cada vez mais possessivo.
– Se algum dia você me deixar eu acho que morro, dizia ele com aquele olhar profundo. 
– Deixa de bobagem, Romeu. Respondia Julieta já sem graça com aquela história.
Sentia saudade de Pedro. Pensava nele de uma maneira leve, solta, alegre. Certa vez, próximo à praça, encontrou o rapaz tocando violão.
Ele nem disse oi, foi logo perguntando:
– Você quer namorar comigo?
Julieta levou um susto, mas foi a deixa pra se sentir imediatamente louca por aquele homem. Ela sorriu e disse que depois respondia.
– Passo mais tarde na sua casa. Fiquei de levar umas ferramentas para o seu pai, ai você me responde. Disse ele, dando uma piscadela.
Pedro foi e Julieta contou que estava namorando Romeu. Que não poderiam mais se ver. E sem imaginar o que aconteceria viu Pedro perder o brilho no olhar e sair mudo. Foi tomada por um sofrimento dolorido de perda. Sentiu que no fundo não queria fazer aquilo. Foi surpreendida por uma grande tristeza e a separação a deixou doente. Ficou de cama por três dias. Uma febre inexplicável. Romeu assistiu tudo de longe. O pai de Julieta nunca admitiu a presença dele.
Uma semana depois Julieta encontrou Pedro por acaso. Entre um papo aqui e outro ali acabaram indo caminhar na beira do lago. Ela arriscou fazer o passeio e deixou o medo de encontrar Romeu de lado. Caminharam alegremente e mesmo com uma brisa gelada enfiaram os pés na água. Deram-se as mãos num gesto muito natural. Sentaram por ali e conversaram sobre a vida, o mundo, e sobre eles. A noite chegou e os dois já com frio, acabaram se abraçando. O abraço cresceu. O clima esquentou e se entregaram um ao outro. O beijo foi apaixonado. Transaram ali mesmo, entre as pequenas dunas de areia. Pedro falava ao ouvido de Julieta coisas que ela se arrepiava. Beijava o pescoço dela e a boca com uma fome que Romeu jamais demonstrou. Foram embora, cada para sua casa, um pensando no outro.
Repetiram o passeio na outra noite. A lua cheia iluminava o mundo e o sexo que os dois fizeram novamente na areia. Julieta e Pedro não resistiam à excitação que corria entre eles. Julieta ao lado de Pedro não tinha dúvidas, nem medos e não esperava por nada. Era apenas feliz.
Ela já não pensava mais em Romeu, fugia dele.  Até que finalmente chegou o dia em que Julieta rompeu de vez o relacionamento. Tentou explicar que não dava mais pra eles ficarem juntos.
– Eu não estou preparada para ser sufocada por esse seu amor. É uma ilusão, argumentava ela.
– Ilusão? Julieta, eu te amo. Dizia ele.
– Romeu, eu não sou uma princesa, eu não sou bonita, não sou inteligente, não sou sua. Você está equivocado. E não falou mais nada porque ficou com muito medo do olhar de ódio que Romeu dirigia a ela.
– Não Julieta, por favor, disse na última tentativa.
Mas não teve jeito. Foram dias duros, difíceis. Romeu obviamente não aceitou o que estava acontecendo. Chorou no colo da mãe que amaldiçoou Julieta:
 – Meu filho, nunca mais chegue perto dessa vagabunda que está te fazendo sofrer tanto, dizia enquanto acalmava o filho.
Romeu continuou chorando. Enquanto isso, Julieta se encontrava com Pedro quase todos os dias. Vivia o caso de amor da vida dela. Romeu já não existia mais nos pensamentos, nem no coração de Julieta.
Numa tarde de verão Julieta passeava próximo ao lago. Repassava mentalmente os momentos mais quentes que tivera com Pedro nos últimos dias. Pensava divertida. Suspirou diante das boas lembranças. Sustentava um sorrisinho meio de lado quando encontrou Romeu. Uma certa culpa tomou conta dela, sentiu uma pontinha de saudade do amor ingênuo deles.
– Ei moço, vem aqui, vamos passear? Convidou alegremente uma Julieta mais mulher, mais centrada, mais calma, mais madura.
Romeu titubeou, sustentou um olhar sombrio, mas acabou sucumbindo aos encantos da ex-amada. Ele exibia na pele as noites sofridas pelo amor perdido. Trazia olheiras escuras, estava mais magro, os cabelos bem curtos. Andava encurvado e tremia.
– Cortou o cabelo. Ficou bom, comentou Julieta.
Ele sequer sorria. Estava calado, fechado. Julieta nem desconfiou que aquele Romeu nem de longe era o Romeu que ela conhecera. Aquele homem ali havia gastado todo o dinheiro que tinha em drogas. Passava as noites bebendo. Após a separação, fazia sexo casual quase todos os dias. Logo passou a pagar prostitutas. E batia nelas. Machucava qualquer mulher que se deitasse com ele. Passou a maltratar a própria mãe. Tinha se transformado em um monstro.
Julieta falava sem parar sobre o pai, a família, até sobre Pedro. E em um impulso impossível de prever, Romeu a jogou na água. Simplesmente deu um empurrão em Julieta. Ela caiu no lago. A raiva era tanta que Romeu apertava o pescoço dela sem dar chance de defesa à mulher que se debatia em vão. Ele segurou a cabeça dela com força embaixo da água. Julieta perdeu os sentidos. Lutou, mas perdeu a briga: se afogou nos braços do homem que tanto a amou. Romeu gritava de ódio, amor e loucura. Um sentimento profundo  de arrependimento e saudade tomou conta dele. Em meio a lágrimas Romeu se jogou freneticamente na água a procura de Julieta, mas não encontrou o corpo dela. Chorou, gritou e nada.
Dias, meses, anos se passaram. Ninguém nunca soube o que acontecera entre os dois. Julieta simplesmente havia desaparecido. Pedro acabou esquecendo a namorada, colocou na cabeça que ela se cansara dele, e foi ser feliz com outra. Os pais de Julieta desistiram de procurar a filha, concluíram que ela fugira de casa e deram por encerrada a busca. Mudaram de cidade e investiram fundo na carreira militar do filho mais novo, irmão adotivo de Julieta. A mãe de Romeu foi internada num sanatório por exagerar nos remédios depois que o filho quase a matou de tanto bater nela.
Romeu se consumia. Tentou suicídio diversas vezes. Sem sucesso em cortar os pulsos, ensaiou uma overdose que não deu certo. Fez uma última tentativa: foi para o lago onde matou Julieta. Mergulhou sem a intenção de voltar. No mergulho, entre a água turva e suja, teve a impressão de ver Julieta. Com o susto tentou subir à superfície, mas não conseguiu. O fantasma de Julieta agarrou a perna dele. E não se deu por vencido mesmo quando Romeu tentou gritar embaixo d'água. Foi uma luta feia. Julieta ganhou. Afogou Romeu, deixou ele lá, sem ar, sozinho, perdido, com medo e remorso. Ela foi desaparecendo da vista dele, sumindo devagar, saindo da eternidade dele. O corpo de Romeu também nunca foi encontrado. Mas quem passa por aquele lago hoje escuta de vez enquando um choro, um murmúrio. E não de vez enquando, mas sempre, uma risada de vingança.
  

6 comentários:

J. Rafael Zakrzewski disse...

Me identifiquei de cara com a história e com certeza já vi muitos passarem por caso similar. É a velha retórica da história não sendo criada, mas simplesmente se repetindo com diferentes personagens. Parabéns.

andrea carvalho deca disse...

brigada pelos parabéns. mas o que mais me deixa contente é a frase "me identifiquei de cara com a história". legal!!!!

Don Bismarck disse...

Hoje li alguns escritos seus. Posso dizer: você ganhou um fã. Que história bem construida.
Parabéns!!!

andrea carvalho deca disse...

don, que legal. seja bem-vindo ao meu mundo.

Giovani Iemini disse...

tava pra te mostrar esse conto há tempos. olhaí:
http://filhos-do-velho.blogspot.com.br/2012/09/ro-meu-e-july-eita.html

hehehe.
bjks

andrea carvalho deca disse...

ehehehe adorei. vai ver eram todos amigos na escola. hehehhe