quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Entrevista com Mahiriri Ossuka, primeiro participante internacional em uma antologia do Bar do Escritor

Desistir é para quem não sabe para que serve uma luta” Mahiriri Ossuka

Entrevista com Mahiriri Ossuka, primeiro participante internacional
 em uma antologia do Bar do Escritor

Seu nome artístico possui um significado todo especial, que une tradição e bravura; encontrou na escrita a chave mestra para desvendar os mistérios da existência. Sua poesia, inquire, perscruta, disseca a realidade e o que nos faz humanos. Vem d´Àfrica o primeiro participante internacional de uma antologia do Bar do Escritor. Apresentamos aqui algumas facetas do poeta moçambicano Mahiriri Ossuka.

Por Sara Reis e Cristiano Deveras

Bar do Escritor – Como começou na escrita?
Mahiriri Ossuka - Engraçado que como comecei tem pouca ligação com a minha caça aos factos agora. Comecei escutando músicas com mensagens de amor. E com elas comecei a compor os meus primeiros poemas que também eram de amor. Nessa altura, por volta de 1998, também gostava de imaginar cenários de amor e diálogos comigo mesmo. Depois passei a gostar dos textos de alguns escritores que por coincidência encontrava nos livros velhos que comprava de alguns escritores portugueses como o Luis de Camões, o qual segui por algum tempo os seus estilos literários. Encontrei na mesma estrada escritores moçambicanos que escreviam de outra forma que acabou roubando a minha atenção, como o Grandal Nkpe, Jose Craveirinha, isso nos anos subsequentes até por volta de 2003.
Ainda nos meados de 2001 juntei-me a um grupo de amigos que mutuamente fomos nos descobrindo até em 2003 quando criamos um grupo de escritores. Naquela altura já me tinha encontrado distante do amor, específico por alguém. Dispersei a minha escrita pelos olhares que lancei e dores ou alegais que vivi. Comecei a cavar mais profundo a poesia. Já criticava e se necessário elogiava "o sistema".

BdE – E seu processo de escrita?
M.O. - O processo de construção da escrita, acelerou através de amigos, manos da OLEPA (Organização Literária de Escritores e Princípios Artísticos) onde o olhar pela injustiça compôs cada palavra dos meus poemas. A OLEPA foi a minha primeira casa de orientação e combate literário em Nampula (minha província de origem), e em Cabo Delgado (outra província do norte de Moçambique) formei a ComArte (Combatemos com Arte) desde 2006 para juntos promovermos actividades culturais de exaltação da literatura e outras expressões artísticas.

BdE – Como você define sua poesia?
M.O – Minha poesia é um instrumento de caça, aos factos.

BdE – Como está hoje a literatura em Moçambique?
M.O. – A literatura em Moçambique ainda não está como deveria ser mas está a crescer. No entanto ainda há conflitos internos de oportunidades claras para publicações e disponibilidade de recursos literários para acesso disponível a audiência. O problema de acesso é um factor contribuinte para a redução de interesse de leitura nas comunidades, principalmente rurais. Mesmo nos centros urbanos, as famosas cidades, o interesse pela leitura não é invejável. As razões ainda estão por ser devidamente descobertas, mas curiosamente há quem atribua o problema ao acelerado e descontrolado ritmo da globalização em que as pessoas interessam-se mais por outras coisas que livros, muito menos literários. Mas os níveis de analfabetismo e qualidade do sistema de educação pública são os factores determinantes desta batalha

Deveras – Neste ponto, assemelha-se a uma grande parte do Brasil; sei disso pois sou do Centro-Oeste.
Sara – Exatamente o que ia afirmar. E diria que em todas as partes do Brasil.

BdE – Quais seus autores prediletos ou referências?
M.O. - Referências minhas da literatura são várias. Mas de reconhecer a organização estrutural do Luiz de Camões, A liberdade criativa da Paulina Chiziane (a grande contadora de estórias com corpo e cara das nossas culturas Moçambicanas), Mia Couto (o grande poeta e romancista, que não se trava com o fim das palavras, inventando para isso as suas), Grandal Nkepe (dos poucos escritores de Cabo Delgado), Rui Catoma (poeta impulsionador da OLEPA), Machado da Graça (a pesar da multiplicidade das suas capacidades, reservou uma peculiaridade de escrever grande para as crianças com sede de ouvir contos em livros adaptados a si), Calane da Silva (com o seu especial envolvimento para a disseminação e educação linguístico literária, a sua dinamização de grupos de escritores, e a sapiência de recitação de um poema que transborda com a sua experiência), Azagaia (pela poesia de combate frontal expressa na sua Música de Intervenção Social). Todos eles e elas, com as quais cruzo em cada página desconhecida ou famosa dos livros que andam por aí ou por acidentes cruzo na esquina sendo rasgadas as páginas para embrulhar amendoim na rua.

BdE – Bom, como estamos no “Bar do Escritor, temos que perguntar: drink predileto?
M.O. - Nos drinks atingi a reforma (aposentadoria). Hahahaha...! Mas se for para fazer a noite cantar ou chorar dependendo da ocasião, uma boa poesia com música acústica seria um grande drink e petisco misturado. Se vier no copo, que seja algo com doçura natural (risos).

BdE – Tu tens uma temática preferida em teus poemas?
M.O. - Bom não tenho uma temática específica. Mas muitas das vezes me descubro escrevendo em protesto das várias injustiças contra quem não pode lutar por si.

BdE – Segues um modelo estético ou tua poesia é livre de regras acadêmicas?
M.O. - Quase sempre, opto pelo gozo da minha liberdade. Tenho esse defeito de pensar que as palavras não podem estar presas sobre regras. Mas nalgumas vezes tenho também me juntado nalguns modelos estéticos.

BdE – Classificarias tua poesia como “contemporânea”?
M.O. - Bom, contemporânea talvez arrisque-me classificar assim. Mas tenho alguns receios acadêmicos sobre isso.

BdE – Tens influência, ao escrever, de algum de teus poetas favoritos?
M.O. - Tenho muito pouca influência actualmente. Mas carrego a liberdade expressa de cada um deles na origem do meu pensamento.

BdE – Na tua opinião, qual o melhor poeta de todos os tempos, se é que se pode escolher apenas um?
M.O. - Não consigo escolher um poeta, como o melhor que não sejam as pessoas do meu circulo de amizades, colegas de trabalho e companheiros de guerra contra o sistema. O cidadão comum é meu melhor poeta, pertencente a este povo com o qual aprendo, luto e cresço.

Sara – Boa!

BdE – Que alcance tem teu conhecimento a respeito de poetas brasileiros em geral?
M.O. - Tenho apreciado bastante a poesia brasileira também. Um dos grandes nomes que fixei e segui é o Vinícius de Morais. Principalmente na sua peculiaridade de construir uma personalidade política de elite e que é também da massa. Já também viajei momentos com os escritos da Clarice Lispector pela sua forma múltipla de escrever transparecendo uma realidade e uma imaginação que sem parar querem se encontrar.

BdE – Mahiriri Ossuka é teu nome ou pseudônimo?
M.O. – É meu pseudônimo. O meu nome é Leopoldino Jerónimo.

Sara – Adorei teu pseudônimo.
M.O. – Que bom! Mahiriri Ossuka quer dizer, “Banho tradicional antes da caça protege.”

Sara – Banho tradicional antes da caça para proteger?
M. O. – Sim. Antigamente, se não até agora nas zonas onde ainda sobrou pelo menos um caçador, antes da ida a caça havia um ritual baseado num banho de água tratada com algumas plantas tradicionais e invocação dos espíritos dos antepassados, que protegia o caçador para não ser atacado por animais ferozes ou para não regressar sem comida para sua família.

Sara – Amei! O meu é Magmah, inspirado no “magma” do vulcão. Ok, voltemos...
Deveras – Este que é um dos grandes baratos na conversação com outros escritores. Isso que nos move neste campo: a cooperação entre autores. Tive conhecimento de Mahiriri por conta da Bienal do Livro de Volta Redonda; ele foi um dos convidados. O legal é que para lá fui convidado pela Regina Vilarinhos, que está nesta edição da antologia também. Mas voltemos ao prumo da prosa.

BdE – As novas regras ortográficas que agora valem para nós, brasileiros, são as mesmas para vocês?
M.O. - Moçambique ainda não ratificou o acordo. Então ainda usamos a antiga ortografia.

BdE – Mahiriri Ossuka por ele mesmo.
M.O. - Eu sou radical muitas das vezes. Foi a instrução que ganhei no percurso dos dias que já vi o sol nascer, passar e deitar. Aprendi que a única forma de acabar com um problema é eliminando a causa desse mesmo problema. Não me deixo ficar pelos meios, no conforto de que "ninguém é perfeito" porque essa frase foi inventada exactamente para confortar as pessoas de não fazer o melhor de si. Um segredo: amo meu filho, Kevin e a minha caça é mesmo por ele. E por fim, oxa-la que o amanhã nos cure as chagas que o sistema não para de nos causar.

BdE – Agradecemos a cortesia e simpatia. Tens algum link que gostarias que a gente acrescentasse? Alguma foto? Algo mais que tu gostarias de dizer e nós não perguntamos?
M.O. - www.facebook.com/communitycbuilding este é o link de alguns trabalhos que realizo com as crianças e pessoal do meu bairro e aldeias que visito. Bom, actualmente coordeno a implementação de actividades da Oficina de Arte, para orientação literária, introdução a pintura artística e introdução a olaria para crianças do ensino primário numa Escola Primária (EPC de Natite) todos sábados das 10-12h. Este é um projecto gerido em Moçambique pelo Grupo Voluntariado Civil italiano (GVC).
          Iniciei, um programa radiofônico designado "Tjampranttani", termo em Emakhua que significa "Era uma vez", a frase que se usa para iniciar contar estórias a volta da fogueira, onde trabalhamos com "Activistas do saber Antigo", as Avó Helena e Auagi (Residentes do Bairro de Ingonane, em Pemba). Naquele programa Tjampranttani, junto das activistas do saber antigo trazemos poetisas, poetas e artistas do futuro que apresentam as suas poesias e contos também. E por de trás a música acústica com a Banda local "Myuna”.

Sara – Gostaria de escutar isso... Tem como ouvi-lo na internet, o programa? Em que link?
M.O. - Em paralelo, tenho realizado, sempre com amigos e combatentes da mesma trincheira "Noite de poesia e contos" nas aldeias e bairros, onde batucadas locais juntam-se a volta da lareira também. Posso preparar algumas faixas para semana e lançar na página. Neste momento não lancei online os programas radiofônicos. Irei fazê-lo em breve.
Também colaboro para uma rádio comunitária "Rádio Sem Fronteiras" produzindo e apresentando o programa "Histórias de Amor" desde 2006 e recentemente criamos a página www.facebook.com/historias.de.amor.RSF. Todas as 5as Feiras das 19-21h30. Neste espaço recebemos mensagens e chamadas telefônicas de gente apresentando problemas de seus relacionamentos, curiosidades ou mesmo experiências de sucesso. E outras pessoas nos escrevem ou ligam a dar a sua opinião sobre uma determina questão que um "coração ouvinte colocou". Praticamente, um programa de inter ajuda. Também posso preparar faixas para postar online. Por enquanto só lá postamos as mensagens que recebemos.

Sara – Uau!
Deveras – Que barato! A cada momento fica mais interessante. 

M.O. – Isso é que é exagerado. Não? (risos). Sobre a foto, irei enviar outra. Infelizmente cortei o cabelo. Mas penso que não fará diferença do conteúdo. Não?
Deveras – Muda-se a embalagem, mantem-se o conteúdo.

BdE – E sobre a participação na Antologia do Bar do Escritor, quais as expectativas?

Mahiri OssukaA participação desta 5a Antologia, primeiro me entrance e me enche de muito orgulho de poder estar junto duma turma que cozinha, serve come e bebe em conjunto o mundo da literatura. Gostaria de poder levar para minha turma Moçambicana este espírito de dinamização de outras formas de fazer viver a literatura. Ao BdE, não pare, e que venham mais antologias envolvendo mais autores dispersos. Convido os amigos que conheçam também meu blog: "Revolução Literária: ossuka.blogspot.com"

6 comentários:

MPadilha disse...

Que bom ver bebuns de outras paisagens com a gente nesse projeto. Gostei muito da sua entrevista Mahiri Ossuka e com certeza vou tentar ouvir teu programa, quem sabe não arrisco e escrevo pedindo uma mensagem de amor, hehehe. Seja bem vindo!

Unknown disse...

Adorei. Bebuns internacionais sejam todos muito bem vindo. Grande abraço Mahiriri Ossuka.

DBS disse...

Eu nao conto como internacional? Ahaha!

Unknown disse...

Proudly, the one and only, Mahiriri Ossuka!! Congrats!

Giovani Iemini disse...

que bacana.
muito interessante a entrevista e o autor.

Unknown disse...

★★★★