quinta-feira, 20 de março de 2014

Convidado Ivo Costa

Alicerces do Tempo

Capítulo 1 - Ventos de Agosto

          Era início de setembro de 1959, o céu estava num tom azul clarinho e intenso. Os ventos de agosto ainda sopravam como se não quisessem dar vez à primavera que se aproximava. A família Santos vivia mais um dia de sua rotina humilde e feliz. O pai, seu Geraldo, sertanejo de Arcoverde, homem de bem e pedreiro de mão cheia, nunca deixava faltar nada em casa e cuidava bem da esposa, dona Marlene, grávida e de seus três filhos, Vicente de 14 anos, Vilma de 12 e Valter de apenas cinco. “O que vem se for menino vai ser Valdir e se for menina, Marlene quer o nome de Valéria. Com saúde é que importa”, dizia ele radiante aos conhecidos, ao imaginar como seria a criança que sua senhora trazia no ventre.
         A propriedade era modesta, mas caprichada. Tratava-se de um terreno de bom tamanho, cerca de 20x20, fruto de uma invasão mesmo, que findou formando uma rua. Afinal, na época muita gente fez isso e com eles não foi diferente. Tinha bom solo, quase às margens do rio Morno, braço do Beberibe, onde vez por outra os moleques da região pescavam piabas para assar na lenha e catavam betas para servirem de gladiadores em garrafas com água.
         A casa, seu Geraldo tinha construído com as próprias mãos, sem dispensar é claro, a mão de obra de seu fiel ajudante Lourival, um rapaz meio leso que viera de Gravatá sem eira nem beira, procurar trabalho em Recife. Seu Geraldo o acolheu em casa por um tempo até ensinár-lhe o suficiente para que participasse de suas empreitadas, além de fazer vez por outra, alguns bicos por conta própria em troca de uns cruzeiros.
         A construção tinha apenas dois quartos, mas a sala espaçosa compensava. Tinha também um banheiro largo e cozinha caprichosa, que aproveitava toda a luz do Sol que pudesse passar pelos combogós. Atrás da casa, seu Geraldo ainda plantou uma muda de aroeira. “é pra fechar talho”, dizia ele destacando a propriedade cicatrizante da planta. Já no terreno restante da frente, permaneceu a sombra presenteada pela velha mangueira que já existia no local.
         
        Numa manhã rotineira, quando os primeiros raios de sol se espremiam pelas brechas da janela do quarto, o cheiro do café quentinho já tomava conta de toda a casa. Na verdade à mesa já estava posto um belo cuscuz feito no bafo ao fogo de lenha e banana cozida, comprada na banca do verdureiro que negociava na Praça da Convenção e pão comprado na barraca de seu Martiniano. O leite era fresquinho e trazido na porta de casa, oriundo de uma criação em Linha do Tiro.
        Enquanto seu Geraldo se preparava para o trabalho, Vicentinho dava um pulo da cama acordando os outros, pois dormiam todos juntos. O caçula, Valtinho ainda resistia catando sono, mas a fome fazia a vez.
Então dona Marlene tomava uma boa fatia do cuscuz macio, ainda fumaçando e despejava no prato de cada um, decorando com uma boa colherada de manteiga, que derretia lentamente ensopando a massa. Vicentinho ficava olhando o pai comer. Tamanha era a admiração daquele menino, que se esquecia de olhar para o próprio prato como se esperasse autorização. Quando seu Geraldo percebia e o encarava, Vicentinho sorria e seu Geraldo franzia a testa dizendo: “coma que vai esfriar”. Só assim o menino dava as primeiras garfadas, enquanto seus irmãos já se esbaldavam. Ele sabia o quanto era trabalhador, honesto e dedicado aquele pai e quanto era amado por ele, ainda que o mesmo não demonstrasse a todo o momento. Ele sabia, sentia. 


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Ivo Costa
icostalivro@gmail.com

Um comentário:

Paulinho Dhi Andrade disse...

Adorei a narrativa. Lembrou-me muito meu pai Ruy e meu tio Rajo, irmão de meu pai. A forma que você utiliza para narrar não deixa escapar os detalhes. Muito bom. Adorei ler.
Parabéns.