sábado, 19 de julho de 2014

Sinceridade Total


Marcel estava com 23 anos e vinha pulando de emprego em emprego. Esta situação preocupava seus pais, que no fundo sabiam o porquê de Marcel não perdurar em emprego algum: a sua demasiada sinceridade. Esta característica advinha deles mesmos, dos próprios pais de Marcel, que haviam o ensinado a ser assim. Mas, no atual panorama, as coisas pareciam um pouco fora de controle. Como na última entrevista de emprego de Marcel. O RH de uma grande empresa de gêneros alimentícios havia o chamado para a entrevista, que assim transcorreu:
RH: Olá Marcel, bom dia. Sou o responsável pelo RH aqui e estamos pensando em contratá-lo para o cargo de auxiliar em vendas. O que acha?
Marcel: Bem interessante. É uma empresa muito grande, tenho vontade de trabalhar aqui!
RH: Bem, muito bem... Estou vendo que você está no oitavo período de Marketing... quase se formando?
Marcel: Se tudo der certo, em um ano tenho o canudo na mão. Estou ansioso!
RH: Isso é bom, qualificação profissional é importantíssima para você crescer aqui dentro. Já pensou no que fazer depois?
Marcel: Depois da entrevista? Vou ao caixa rápido sacar um dinheiro para o fim-de-semana.
RH: (risos) Não, Marcel, digo depois de se formar, pensa em fazer pós?
Marcel: Ah... (Marcel, quando ficava um pouco nervoso, tinha a tendência de perder um pouco sua linha de raciocínio nas conversas. Para tentar contornar esse pequeno problema, ele tinha uma solução própria: falar a verdade com mais fervor do que o habitual) Bem... acho que terminando a faculdade vou descansar um pouco. Venho estudando desde criança, acho que há uns dezoito anos já.
RH: Compreendo seu ponto, mas, em se tratando de uma carreira, uma pós-graduação não soa nada mal, hein?
Marcel: É. (Marcel não conseguiu seguir adiante nessa)
RH: Bem, vejamos aqui... dessas três experiências de trabalho que você traz aqui em seu currículo, em nenhuma delas você permaneceu por mais de seis meses... o que me preocupa um pouco na hora de contratá-lo...
Marcel: Mas é tudo verdade o que está aí. Não menti nem um segundo.
RH: OK. Mas queria saber, por exemplo, o que o ocasionou a sua saída da loja de informática, por exemplo.
Marcel: (Marcel respirou profundamente e pensou “sinceridade, sinceridade”) Bem, eu atendia no balcão da loja. Quando fui contratado, me ensinaram como atender o público e tal, mas não me falaram nada sobre a hora.
RH: A hora? Como assim?
Marcel: Cada cartucho de impressora que fazíamos a recarga, o dono prometia para o cliente para uma hora e meia o serviço, porque havia um volume muito grande de recargas. Aí, no canhotinho que ficava com o cliente tínhamos que colocar a hora certa da retirada. Quando o pessoal da loja descobriu que eu não sabia olhar as horas no relógio de ponteiro da parede, eles escureciam a tela do único computador que tinha no balcão só para não me dizer a hora certa. Também não podíamos trabalhar com o celular ligado, o que me dificultou mais ainda a vida...
RH: E aí...? (a cara do entrevistador era de perplexidade)
Marcel: Aí meu ex-chefe me demitiu por isso. E porque alguns clientes foram retirar seus cartuchos no horário errado e tiveram que esperar...
RH: Entendo... mas agora, você aprendeu a ver as horas no ponteiro?
Marcel: Sim. Tirei esta lição para minha vida. Agora que estou desempregado, faço questão de ver as horas no relógio-cuco da sala de casa. Só para treinar.
RH: Bem, eu ia te perguntar sobre as outras duas experiências que aparecem no seu currículo, mas acho que não será mais importante. (O entrevistador já pensava nos demais currículos disponíveis para agendar futuras entrevistas). Mas, me diga Marcel, você é fumante?
Marcel: Não, não tenho o hábito de fumar (sincero, seja sincero! A voz interior parecia castigar Marcel). Quer dizer, só quando bebo.
RH: Ah, você bebe então... socialmente?
Marcel: Sim, quando estou empregado, só bebo nos finais de semana. Assim, tipo num sábado, para sair para a balada.
RH: Bem, e agora que está desempregado Marcel, você bebe mais frequentemente?
Marcel: É... (Marcel não queria chegar nesse assunto, mas preferia ser sincero a perder sua linha de pensamento)... bem, atualmente, tenho tomado sempre uma cervejinha bem gelada no almoço, mas junto com meu pai. Este sim bebe todo dia, sempre.
RH: Eu estou vendo...
Marcel: E à noite também bebo umas e outras na frente de casa, quando meus amigos me visitam.
RH: Hum... e esses seus amigos, te visitam muito Marcel?
Marcel: (mais uma suspirada forte) É, na verdade, como eles são bem amigos meus, eles tem passado toda noite lá em casa...
RH: Bem, para encerrarmos Marcel, qual seria um defeito que você apontaria como “o seu maior defeito”.
Marcel: Um defeito... Deixa-me ver...
RH: O que te deixa desconfortável, que você vê como um problema para você que poderia ser melhorado.
Marcel: OK. Meu maior problema é quando vejo uma mulher muito bonita, seja na rua, no trabalho, onde eu estiver – mas veja bem, esta garota tem que ser muito bonita mesmo, um avião...
RH: Sim, sim (o entrevistador já estava se segurando para não rir, e tentava já não olhar mais nos olhos de Marcel)
Marcel: ...Quando este tipo de mulher vem falar comigo, eu não aguento e sinto muita vontade de ir ao banheiro...
RH: (apenas faz uma cara de: “não entendi”)
Marcel: ... E eu tenho diarreia. Tenho que correr num banheiro mais próximo e soltar tudo pra fora. É horrível na hora, mas depois que defeco, me sinto zerado de novo. Estou querendo voltar ao trabalho para ter dinheiro e ir a um psicólogo me abrir sobre esse probleminha...
RH: OK Marcel, acho que nossa entrevista se encerra por aqui. Vou lhe acompanhar até a porta.
Na hora de dar o tchau para Marcel, o gerente de RH não consegui dar sequer a mão ao entrevistado e só acenou de longe um ‘tchauzinho’, deixando Marcel no vácuo. Já do lado de fora da porta, Marcel ainda perguntou, com a porta praticamente se fechando à sua cara:
- E aí, quais são as minhas chances?



6 comentários:

Felipe Bortolon disse...

André, o negócio mesmo é não ser sincero... dar continuidade a nossa sociedade hipócrita, escondendo tudo debaixo dos panos... mas este caro foi sincero demais hein... abraço...

André Bortolon disse...

Verdade mesmo Feupa! Obrigado, meu brother!!!

Cleide disse...

André, estamos vivendo numa sociedade em que muitas vezes é mais fácil omitir do que ser sincero.
Portanto faça sempre o que você achar melhor para você, e não para os outros ! Cuidado para não perder o emprego ! rsssssssssssssss!

ADALGISA disse...

É...ANDRÉ, DEU PARA PERCEBER QUE DIZER A VERDADE É, EM PARTE POSITIVO, MAS VAI DEPENDER MUITO DO PONTO DE VISTA E DA FORMA COMO O ENTREVISTADOR ANALISARÁ NOSSA CONDUTA, NOSSO TRABALHO, NOSSA ROTINA DIÁRIA... ENTÃO PARA NÃO PERDERMOS A OPORTUNIDADE HÁ QUE SE OMITIR ALGUMAS COISINHAS RSSSS

Edgard Sosa disse...

kkkk! Boa historia Hermano!

Edgard Sosa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.