sábado, 19 de setembro de 2015

Fuga de Los Angeles


Phil às vezes ficava cansado da vida em Los Angeles. E sua vida não era ruim por lá. O que não tinha cabimento para Phil eram aquelas festas nas mansões de Beverly Hills, ou à beira do Pacífico em Malibu, que davam uma falsa impressão de que todos ali estavam vivendo no seu auge. Mentira. A grande maioria ali já estava podre. A heroína havia acabado com os sonhos mais belos de uma vida perfeita e estável. Dali para frente, só uma boa clínica poderia salvar aquelas pobres almas. Phil sabia disto. Já havia caído nesse buraco antes; não cairia de novo.

O sexo. Ah sim, Phil já nem lembrava mais quando nem onde havia feito sexo sentindo amor, sentindo algo a mais que não fosse só entra, sai, entra, sai e aquele prazer momentâneo, de segundos, com uma aspirante qualquer à estrela – quase sempre uma figurante novinha, com um rosto bonito e um corpinho sarado, querendo ser alguém no meio do cinema. Phil sabia que, salvo alguma exceção à regra, toda menina nova faria uma ou as duas coisas: transar com algum figurão do show business e injetar heroína na veia. Na melhor das hipóteses, uma nova alcoólatra. Afinal, Phil entendia do assunto, uma que ainda lutava contra a bebida todos os dias. Sem sucesso.

Pois naquele fim-de-semana, Phil deixou em seu aparelho celular apenas o chip dedicado a uma seleta lista de pessoas: seus familiares, seu empresário e amigo Rick Andrews, sua ex-esposa e seus filhos. Que, por sinal, não moravam com o pai em LA. Nenhum havia pego o atalho do cinema como Phil; o que ele considerava bom. Certamente seus filhos estariam em um meio mais responsável, menos nocivo à própria saúde deles. Já Phil queria mesmo distância dos holofotes naquele fim-de-semana. Saiu em seu Corvette de West Hollywood ainda escuro, com direção ao deserto. Só com a roupa do corpo, a carteira de motorista que estava para vencer, seus cartões e algumas centenas de dólares. Mas Phil conhecia aquele caminho. Phil não queria Las Vegas desta vez. Não. Vegas seria um atalho fácil, com jogos, prostitutas, champanhe, uísque, vodca, festas na piscina. Mulheres nuas usando droga.

Mudou sua rota para o sul, em direção à Phoenix. O calor começou a bater, Phil percebia na paisagem árida, nas montanhas secas que pareciam fazer fila em torno da estrada, que o calor e a secura se multiplicavam. Quando percebeu, passava das 120 milhas em seu Corvette. Decidiu tirar o pé. Phil não apostava corridas com ninguém. Queria apenas sair do seu dia-a-dia, pensar mais claramente em sua vida. E principalmente, não ter nenhuma festinha de cinema para ir. Não naquele fim-de-semana.

Quando a madrugada chegou, Phil, que estava em um motel simples nos arredores de Phoenix, decidiu dirigir novamente pelo deserto. Notou que não havia bebido nada ainda, e se motivou com a ideia de ir ao deserto à noite, e são. E foi. Phil encontrou uma brecha por entre os arbustos, e viu um flanco onde seu Corvette cabia bem certinho. Entrou ali e ficou. Sentindo o frio da noite. Ouvindo o barulho dos coiotes, ao longe. Ouviu o vento cantar. Viu, de tempos em tempos, veículos variados passando pela estrada. Não sentiu medo. Phil estava ali buscando consolo na solidão. E estava bem, tanto que dormiu ali mesmo em plena luz do luar, para acordar só ao amanhecer.

E no domingo, Phil seguiu rodando. Andou por outros caminhos no deserto, qualquer um que não o levasse à Vegas. Reparou nos detalhes que o cercavam. Como naquela paisagem, que abrigava apenas alguns tipos de vida, tão forte e intenso era o seu clima, os seus extremos – calor de matar de dia, frio de gelar cara e mãos à noite. Phil sentia-se um pouco assim também. Forte e intenso, ÚNICO, assim como um deserto – Phil era “aquilo” e nada mais.

Já à noitinha, Phil regressou à LA. Sentiu o corpo um pouco cansado, mas a mente renovada, como que nova em folha. Chegando em casa abriu a porta de sua geladeira enquanto ouvia uma entre dezenas de mensagens em sua secretária eletrônica. Reparou que fora bebidas de álcool, havia apenas água com gás na geladeira. E foi o que Phil bebeu, na sala de sua casa, enquanto ouvia Miles Davis e fazia uma reflexão a respeito daquele inédito fim-de-semana. Até pegar no sono ali mesmo.

Na manhã seguinte, Phil saiu cedo em direção à Burbank. Tinha um filme para acabar, e iria dar conta do recado, isso ele tinha certeza. Dirigir uma superprodução hollywoodiana não era fácil, mas era o que ele gostava de fazer. Tanto ou mais, do que do próprio deserto americano. Assim era Phil.

3 comentários:

Cleide Martins Machado disse...

Adorei sua crônica, muito bem escrita!

mbnylon disse...

Ótimo conto, meu caro!!! Uma noite no deserto às vezes cai bem... Grande abraço!!!

André Bortolon disse...

Sem dúvida que faz! Muito obrigado!!!