terça-feira, 19 de abril de 2016

O Trabalho

Almir é aquele tipo de cara que sempre prezou pelo seu trabalho. Dedicado na função, nunca deixou que outro compromisso, fosse este por lazer ou pura diversão, o atrapalhasse na execução de seu trabalho. Como Almir dedicava sua atenção máxima ao que fazia, seu foco raramente permitia que ele fizesse algo diferente quando em serviço. Normalmente mantinha o celular desligado - não naquela quarta-feira.

Almir vinha saindo com uma daquelas garotas difíceis de encontrar por aí; daquelas, como se diz, “para casar”. E foi dela a ligação que Almir recebeu, fato este que o fez no mesmo instante contrariar todos os seus princípios, mesmo que ele estivesse prestes a executar uma função importantíssima de seu trabalho.

- Alô? Oi Ritinha, tudo bem, e você? ... Sim e não. Tô a trabalho e não tem problema não, pode falar comigo sim... Não, só achei que seria importante te atender, afinal de contas, a gente tá se vendo bastante ultimamente né? ... Hum? Ah, eu gostei do suflê de batatas que você fez... Por que eu não comi muito? Ah, eu tinha comido um doce que não me caiu bem naquela tarde.... Sim, é claro que gosto de você também, você sabe que nunca ligo o celular em meu trabalho, só o deixei ligado por sua causa, Ritinha... É, prestação de serviços, entende? Ah... não, claro que posso te falar Ritinha... Sim, eu sei, eu sei que você me conta tudo. Puxa, te admiro mais ainda por isso! ... Não, nunca! Nunca casei, nem sequer namorei por muito tempo seguido, imagina que ia estar te escondendo uma relação... Não, esse não é meu perfil... E por que eu escondo o trabalho? Não, espera, eu vou te dizer quando chegar a hora certa, meu amor... Hã? ...Você gostou que te chamei assim, de “meu amor”? Ah, imagina. O quê? ... Ator pornô? De onde você tirou essa ideia maluca, Ritinha?? ...Ah, faça-me o favor... Eu tenho vergonha de pôr sunga quando vou à praia, imagina ficar pelado em frente às câmeras... não, eu prometo que vou te dar mais detalhes, não tem nada de mais mesmo... Vergonha? Não, nenhuma. É algo particular apenas, sei lá. Olha, posso te dizer isto de certeza: esse dinheiro que vou ganhar por esse trabalho vai me deixar tranquilo por, digamos, uns dois meses... Podemos sair jantar juntos, ir até Campos do Jordão pegar um fim-de-semana na serra... Ah você prefere Búzios? Ótimo, Búzios será... também gosto de praia Ritinha, adoro o mar. Já falamos sobre isso na noite do estrogonofe de frango que você preparou... Ah, era de carne, claro! O quê... Ritinha, não vamos começar uma discussão sobre isso. É claro que gosto da sua comida, eu não limpei o prato aquela noite? ... Sim, tá vendo? Ops, Ritinha, agora tenho que desligar que o batente me chama... eu também... um beijo bem gostoso para você, preciso desligar mesmo. Nos falamos à noite!

Almir desligou o telefone e deu uma última olhada na foto que seu cliente havia ele enviado pelo celular. Sim, os dados batiam. Almir discretamente saiu de seu carro, usando o seu tradicional uniforme – terno de tom escuro, gravata de cor única, e seus óculos Ray-Ban que sempre lhe davam sorte no cumprimento de suas metas. Atravessou a rua, aproximando-se do cidadão da foto:

- Com licença, o senhor é Aldo Viriato, certo?
- Sim. Quem gostaria? – respondeu o senhor de meia-idade num tom de voz um tanto autoritário, e o olhar desconfiado.
- Eu tenho uma encomenda enviada pelo Tarcísio, da factoring que o senhor tomou dinheiro emprestado alguns anos atrás, lembra?

O homem de meia-idade engoliu a seco a informação. Mudando o olhar de inquisitivo para surpreso numa fração de segundos, ainda tentou dizer:

- Eu ia mesmo ligar para ele hoje, agora na verdade eu estava prestes a fazer isso...
- Tarde demais, seu Aldo.

Com uma habilidade de quem conhece o que faz, Almir sacou a pequena pistola Beretta de dentro do seu paletó e disparou um, dois, três tiros na barriga de Aldo; que, impotente, caiu de joelhos na calçada. A passos rápidos, Almir atravessou a rua e voltou para o seu carro, antes olhando para os dois lados a certificar-se de que não havia ninguém na rua. Deu partida no motor, e foi para casa pensando que não deveria ter mentido para Ritinha.

Realmente, o suflê de batatas não estava bom. Um tanto quanto abatumado.



4 comentários:

Cleide disse...

Muito bom, gostei do seu comentário faz refletir nosso dia a dia ! Bj querido !

Felipe Bortolon disse...

Bem bolado gostei!!!!

Adalgisa disse...

Intrigante... me lembra Rubem Alves!!! Ótimo, André.

Bortolon disse...

Bom este Almir, não?!?! Bom mesmo!