segunda-feira, 5 de março de 2007

Estréia

Chegou o dia 5.
É minha vez. O dia cinco de março é dia da minha estréia no Bar do Escritor.
Três dias antes disseram que eu ficaria nervoso.
Eu me lembro de ter dito que eu tiraria de letra. O alfabeto inteiro. Estava tranqüilo. Tranqüilíssimo.
Isso foi três dias antes. Era começo de noite do dia dois.
Passei a noite em claro. Contei carneirinhos. Pensei no meu texto. Contei mais carneirinhos. Tomei água com açúcar. Contei carneirinhos. Bobagem, água com açúcar. Aguinha com açúcar e carneirinhos. Daqui a pouco aparece o lobo mau e bota um fim essa história infantil. Pensei num texto e virei um vidro de maracujina. Apaguei rapidinho.
Texto que é bom, nada.
Graças à maracujina, meu dia 3 começou lá pela uma da tarde. Aí tive que recuperar o tempo perdido fazer aquilo que deixei de fazer pela manhã.
Por que diabos fui escolher o dia cinco? O mês tem trinta dias e fui escolher logo um dia lá do comecinho. O calendário estava todo aberto e escolhi aquele número. Sou burro mesmo. Poderia, por exemplo, ter escolhido uma das dezenas do burro: nove a doze. Teria ganho uma semana.
Rogaram praga.
Já chegou outra noite, não preparei meu escrito e os lençóis já começaram a pesar. Apesar de você, amanhã há de ser outro dia... A cabeça gira, gira e gira e gira e nada de fixar um conto ou uma crônica. Levanto da cama, pego um copo com água e digo com voz firme e alta:
– Não vou fazer a besteira de tomar outro vidro de maracujina. Eu sou um escritor responsável. Olhei para o copo de novo e de acordo com minha palavra, rapidamente engoli uma bolinha vermelha de Lexotan.
O dia 4 começou sonolento às três da tarde.
Meu tempo está acabando. Tenho de ter a idéia, escrever, revisar e postar. A contagem regressiva está próxima do dois , um fogo!
Ai! Deu dor de barriga.
Por que as estréias são assim?
Eu poderia ter ganho dois dias e escolhido o dia sete. Sete são as notas musicais. Sete são as cores do arco-íris. Sete são os motivos pelos quais não consigo escrever.
Meu tempo está se esgotando rapidamente e ainda tenho que organizar tudo para uma festa aqui em casa amanhã.
Tudo o que eu sempre quis na vida era escrever e ser lido. Minha grande oportunidade chegou. Dia cinco, por quê?
No fundo eu sei. Dia cinco de março completo 55 anos. É meu aniversário.
Este é meu melhor presente para quem escreve: escrever e ter alguém que leia até aqui.
Obrigado.

17 comentários:

Deveras disse...

Klotz, nessa você não me pega. Um texto tão bem construído como este brotou daquela mesma imaginação criativa e talentosa do último cigarro. É profissional.

E como bom profissional, faz do trabalhoso, algo simples. Simples como acompanhar um texto assim.

Parabéns (não esqueci do aniversário descrito) e ficanapaz!

Cristiano Neto
"Deveras"

Me Morte disse...

Roberto!Ah, Roberto!Pensa que me enganas?Tu escreveu muito bem esse texto, interessantíssimo, por sinal.Tu escolheu o dia do aniversário para colher os presentes aqui,rsss.Muito bom, ninguém teve essa ousadia.Descrever a ansiedade que foi essa estréia.A minha foi testemunhada pelo Gigio, Cris e Alessandra.Eu quase pirei.Foram tres textos jogados fora.
Mas o teu está ótimo.
Só uma coisinha: Se me convidasse para transar depois desses tres dias eu não iria, com certeza você iria brochar depois de tanta maracujina,hehehehehe
Parabéns amigo!

rebellis disse...

Ele me enrolou! (risos) Muito bom, Roberto. Eis aí um metatexto, um texto sobre textos, um textos sobre estréias de textos e um pedido velado por presentes de aniversário heheheheh (pensa que me engana? ^^). Seu estilo é super legal de ler. Parabéns. Rogo aos deuses que minha estréia no dia 27 não seja regada a nervosismo e maracujina =)

Abraços,

Eduardo "Black Cat"

thiaho disse...

Gostaria de poder ver todos os meus 5 dias antes de cada mes da forma entusiasmada que voce descreveu. Claro, textinho profissional ta na cara! mas, melhor que isso e a vontade de ler novamente.

Muito bom, parabens pelo aniversario.

Mão Branca disse...

A ansiedade aliada às fraquezas do escritor (maracujina e carneirinhos) formaram sem falsidade a angústia do estreante que, racionalmente, escolheu tal dia pois havia um significado justo. E o conto transcorreu em direção a um final revelador e agradável.
Sem medo de errar, caro mestre Klotz, teu texto tá digno de qualquer beat norte-americano da década de 70, a única diferença é a válvula de escape. Para eles a esbórnia, pra vc a maracujina. hehehe.

Eliane Alcântara. disse...

Roberto, o dia acordou sorridente depois do seu texto, por sinal delicioso.
Confesso que eu estou faz tempo com a barriga dolorida e quando li tal parte ela pensou em uma cólica.
Provavelmente esses pensamentos tem feito parte da cabeça de muitos de nós, mas prefiro falar só por mim.
Espero conseguir estar 'acordada' no meu dia. rs*
Feliz aniversário e obrigada pela crônica de presente ao Bar do Escritor. Felicidades.

Muryel De Zoppa disse...

Parabéns Roberto. Pelo 'niversário, pela leveza do texto, genuínamente Klotz...

Anônimo disse...

Olá, pessoal!
Achei bem interessante o blog e vou virar frequentadora assídua assim como sou de outros blogs.
Acompanho o blog de um escritor aqui de Curitiba chamado:
www.polacodabarreirinha.blogspot.com e acho ele muito bom, é apenas uma dica para quem gosta de poesias e de bons textos.

Magnólia.

Lameque Hyde disse...

Caro Roberto.

A quem você pensar que vai enganar? Um crônica brilhante como esta que você nos brindou não pode ter sido feita nas coxas.

Como o dia 9 está se aproximando, poderia me enviar alguns frascos de Maracujina que por ventura tenham sobrado?

Feliz aniversário!

Lameque

Eduardo Perrone disse...

Gurí... Parte da vida da gente passa , sem que alguns gostos, refinadíssímos, sejam provados. Uns me falam do Beluga... Outros de um tal Schoth 200... Alguns , de certos vinhos... Mas , apesar da curiosidade, dou de ombros... Afinal, gosto bom mesmo é esse... Precioso e acessível à todos. O gosto da boa leitura , como essa , que , hoje, vc nos brinda, e que na verdade nos é presente. Obrigado. Por tudo!

EDU

Lena Casas Novas disse...

Deixa eu te dá um conselho.Qdo precisar dormir, não tome maracujá, pois deixa a pressão baixa, tome chá de camomila, assim não terá dro de barriga(risos).Sei que isso aqui parece um reality Show literário, tem sempre alguém espiando nossos textos.A sua naturalidade superou minha expectativa, fiquei feliz por este texto, pois sei que não é só eu que tá com esse friozinho na barriga.

solfirmino disse...

Recadinho para "Mão". A Simone Salles teve uns probleminhas pessoais e se retirou, inclusive está em outra cidade. Mas está bem. Abraço.

Klotz disse...

Amigos, fiquei muito contente, contente mesmo, com a acolhida da minha crônica. De lambuja(yes! deu certo) agradeço o monte de parabéns pelo aniversário (e presentes) que recebi.
E, para aqueles que se preocuparam com a minha saúde, prometo que hoje não tomo maracujina nem lexotan. Vou de gardenal na veia.
Boa noite.

Thin White Duke disse...

Klotz, não deu para comentar ontem, mas comento hoje, pois esse texto merece ser lido e relido, independente de aniversário ou não!
muit bom, digno de mestre mesmo... é como se você estivesse conversando com o leitor...

parabens!
André Espínola

Larissa Marques disse...

Não comentei o texto ontem, pois não passei por aqui... Mas é sempre um prazer único ler-te. Ler-te no simio da palavra, descobrir Roberto é algo interessante, como ele o é.
Abraço, Roberto!

Jeandro Cabral disse...

Muito bom Roberto fiquei preso ao texto até o final, querendo saber como vc iria escrever algo.
O texto ficou surpreendente pelo fato de que no final você mostrou sua verdadeira intenção.
Que todos vissem seu aniversario.
Então meus parabéns atrasado,
Mas que vc continue com muita paz, saúde e com esses maravilhosos escritos.
Meus parabéns.

Véïö Chïñä‡ disse...

Hum, como seria então uma tarde de autógrafos de um livro de sucesso?
Va se preparando Roberto, e já imagine a Mega Livraria Saraiva, abarrotada, pessoas te puxando por todos os lados - Roberto o meu! assine o meu, Roberto!!