domingo, 4 de março de 2007

Dia de Festa

O garoto traquina acordou espevitado. Menino problema, meio flagelo mirim, aprontava todos os dias, mas desde semana passada era a própria imagem de anjinho- pintado-na-capela-sistina: bonitinho e estático. Esperava esse dia como quem espera um grande amor, uma promoção ou o resultado de um concurso. Era o dia em que ganhava, ao contrário dos costumeiros cascudos e chineladas (merecidos; frutos diretos das suas traquinagens), vários parabéns e de quebra alguns presentes. Não conseguira dormir direito, mas isso nem de longe poderia chamar de novidade. Era hiperativo, daí que adormecer sempre fora difícil. Era o que dizia sua mãe. (Que religiosamente, toda a santa vez que encontrava as amigas ou parentes contava e recontava as “danuíras” do prodígio-problema: vidros quebrados, brinquedos desmontados, o dia em que colocou fogo no vestido de casamento de uma prima do interior, quase destruindo a casa junto; que toda vez que o punha para dormir, era ela que ferrava no sono; que já fugiu até no caminhão de entrega da loja Carlos Saraiva, entre outras).
Mas nesse dia ele nada fizera de usual. Não havia tido nenhum vidro quebrado, nem colocado fogo em nada. Ainda. Com a expectativa aumentando que viu chegando um a um os parentes. Era dia de parabéns. Era dia de presente. Ficou parado no alpendre, cara mais lerda do planeta. Os tios apertavam a mão, as tias davam beijinhos, os primos vinham fazendo festa e trazendo os embrulhos: era a senha para correr para o quarto e rasgar finos papéis de presente, ora desenhados com motivos infantis (e meio idiotas, diga-se de passagem), outras com cores berrantes. Tudo no durex. Nenhum lacinho, pois lacinho era coisa de menininha.
Foi abrindo pressente por presente. Carrinho de bombeiro, avião, um falcon já fora de moda, algumas camisetas (Tia Tereza me paga!), um pião que nunca conseguiria usar (e que desapareceria em um bueiro dentro de exatos cinco dias), além de um pega varetas dado pelo namorado-universitário-quebrado de uma prima... Estava lá no meio de seus recém descobertos tesouros, quando o pai veio e lhe deu a jóia de maior valor e que ele esperava desde o meio do ano: um carrinho de controle remoto. Bom, remoto, remoto, ele não era. Tinha um cordãozinho que ligava o brinquedo a um pequeno controle que só possuía dois comandos, o que ia para frente e claro, o que dava ré. Mas era um carro de polícia, uma Mercedes, como ficaria sabendo alguns anos depois. Abraçou o pai agradecido e convidou os primos e amigos para estrearem a viatura na área do fundo, espaçosa e perfeita para um “test-drive”.
No meio do círculo formado pela garotada, lá estava ele na sua tentativa de “dia de rei”. Todo aniversariante é rei neste dia, como já tinha dito a avó. Mas a avó havia se enganado no caso dele em particular. Os primos podiam ser reis, como também os amigos, mas ele nunca era rei, nem em seu próprio aniversário (tá, no máximo um príncipe, mas logo virava sapo). Ele sabia disso. Sua magia não duraria muito tempo.
Um recém chegado primo rico, vindo da capital, foi quem pôs fim ao encantamento. Após cinco minutos observando a gurizada enfeitiçada com o minúsculo veículo, foi ao carro do pai. Veio de lá com uma caixa enorme. De dentro dela sacou um enorme Pegasus, o lançamento do ano, no mundo dos brinquedos; o Oscar dos carrinhos de controle, pois tinha um controle de verdade, que além de ser totalmente independente do brinquedo; por si só já era maior que o seu concorrente. Deu uma volta completa na turba de crianças que saíram correndo atrás daquela beleza dourada (haviam duas versões; a outra era prateada). O aniversariante pegou timidamente seu carrinho no chão e foi depositá-lo junto aos outros brinquedos. Os primos e amigos pegaram então cada um, seus respectivos presentes para tentar fazer frente à oitava maravilha da Estrela.
Pronto. Era sapo novamente. Pensou em colocar fogo em algo, ou quebrar algum vidro, mas as pernas franzinas ainda estavam marcadas da sova que havia levado não faziam dois dias. Apanhar no aniversário definitivamente não ajudaria em nada. Olhou para os tios que estavam junto com o pai, agora entregues ao jogo de truco e tomando cerveja; as tias reunidas na cozinha, a mãe contando novamente as diabruras dele.
Foi para a sala e sentou-se no canto, observando a avó tocar Sonata ao Luar no Piano (naquele momento pareceu a música mais triste e bonita da sua vida). Guardou aquele momento por anos, até uma psicóloga dizer que era bobagem e convidá-lo para o motel; mas isso seria anos depois. Ao final da música, sentou-se ao lado dela cabisbaixo:
- Vó, aniversário é um dia especial, não é?
- Claro, meu querido. É o dia em que celebramos mais um ano que nos foi concedido nesta terra. A comemoração da nossa chegada, que é celebrada por todos os que gostam de nós.
- A senhora fez muitos aniversários?
- Muito mais do que imaginava que faria um dia.
- E ganhou muitos presentes?
- Sim. Ganhei presentes maravilhosos, coisas que me são queridas até hoje.
- Vó, por que no aniversário dos meus primos e amigos, só eles ganham presentes e no meu aniversário todo mundo ganha?
- Por que você nasceu no Natal, idiota...

CAMINHOS

Um sorriso perdido no tempo
É tudo o que me resta
Daquele contentamento
Um dia vivido...
Agora vivo outra vida;
O passado perdido
E meu futuro incerto
Tramam juntos
Teimando em controlar
Um destino que não me pertence.

Sou outro
Que não torce mais por coisa alguma
Sou neutro
E as decisões não são mais minhas

Sigo esse descaminho
Como outros tantos;
Em desatino me pergunto Até quando?

Cristiano Neto
"Deveras"

16 comentários:

Lena Casas Novas disse...

Crônica magnifica! Um pouco longa para Blog.Embora não tenha identificado a musicalidade na poesia, ela fechou com chave de ouro esta postagem!

Me Morte disse...

Conto bem feito, a gente lê e se transporta ao cenário onde acontece a história, um final digno do talento desse moço, Cris.Muito surpreendente o final, embora, para mim, tenha tido uma conotação de confissão.Só aí percebi a grande possibilidade de ser uma auto biografia.Acertei?
Explico, o Cris faz aniversário no Natal,rsss
De qualquer forma, parabéns.Adorei.O poema perfeito, talvez tenha sido pouco aproveitado por conta do estrondo que o conto causou, ofuscado por ele.Mas mesmo assim, fica a mensagem dele,ofuscado pelo conto, tanto quanto a festa do menino foi ofuscada pelo Natal.Beijão Cris.

Mão Branca disse...

O "idiota" que a avó fala ao moleque ao final me surpreendeu. Ou melhor, o final me surpreendeu e a palavra ainda mais. Coitado do "Crisinho". Hehehe.
Tb achei um tanto longa para a interNerd, mas tá bem fechada e com muitas imagens, o que dão sustança ao conto.

O poema tá apagado. A Me acertou. Colocar dois textos no mesmo post nunca dá muito certo. Mesmo lá no bar no iorgut fica meio estranho. São assuntos diferentes, não entram na mesma conversa.

Bem, tá tudo funcionando certinho.
[]s

Thin White Duke disse...

você deu show Cris!
adorei os dois, tanto o conto como o poema, embora o conto seja realmente melhor. Clima nostálgicoo. Mesmo sendo um pouco autobiográfico (não sei se é de fato), vc conseguiu transportar o leitor ao seu próprio mundo, suas lembranças nos aniversários quando era pequeno. pelo menos pareceu para mim. E o final é digno de mestre, mto foda
aeiuhaeiheaueaae

flew!
André Espínola

Lameque Hyde disse...

Caro Lobo em pele de cordeiro.

Mesmo sendo um tanto longo para um blog, a narrativa é excelente e tem um final supreendente como eu julgo que um conto deva ter. Dr. Jekyl aqui do meu lado disse estar emocionado, pois ele já ganhou de natal um carrinho igual ao da história. Como ele era um pobre no meio de um bando de pobretões, seu carrinho não fez vergonha.

Quanto ao poema, confesso não haver lido mas, cá entre nós, foi um ardil postar dois textos ao mesmo tempo? Malandro hem?

Um Bom Natal e um Feliz Aniversário!

Klotz disse...

He,he,he é diferente do ho, ho, ho natalino. Sempre soube que debaixo daquela pele de ovelha havia um lobo esperto.

thiaho disse...

Muitos disseram que seu continho foi longo, (eu li as opinioes para nao me sentir sozinho em postar a minha) brincadeira Cris, vamos falar serio, to chateado ate agora por voce ganhar somente um presente no natal , ou....e de aniversario?ahahah, muito bom cara, teu talento ja havia tido o prazer de ler no bar do orkut, mas sempre tem coisa nova na manga, ou melhor nas maos...ou e na cabeca?rs, nao importa te admiro pelo belo talento que tem. O poema e tao sensivel que fiquei na paranoia pensando, Ate quando(respondendo a ultima estrofe) vamos ignorar seu aniversario por causa do natal???rs.

Muito bom mesmo!.

Jimenna Rocha disse...

Cristiano, tu es foda meu garoto! Esse conto eh coisa pra profissional, realmente a poesia ficou meio descolocada, mas tem nada nao!

Com o nivel do negocio aqui tah dando ateh medo de postar.

Eliane Alcântara. disse...

Hoje tento colocar em dia as leituras e encontro o seu conto ao qual li em um fôlego só. Excelente.

Eduardo Perrone disse...

Cris... Acabo de chegar de viagem, e , nem bem desfiz as malas... Ligo a mkn para ler o BLOG...! Após alguns esporros (... "Não vai ajudar com as mals???"...rs)de praxe, minha gargalhada ecoou pelos cantos do cafofo. A sapiência irônica não nasce ao acaso. Mesmo que este nascimento ocorra em pleno Natal... Das coisas imutáveis restam-nos , apenas, a "leitura" subliminar de cada fato. Resta-nos , apenas, a capacidade de driblar os fatos, como ocorre nos campos de terra batida , desse "Mundão Véio". E drible distingue craques e pernas-de-pau. Diante disso... Continue driblando letras, trazendo-as para sí. Chame-as de João, como um certo Mané ( o maior d todos...) fazia com seus marcadores atônitos. E reserve-nos essa imagem . A do menino. D frente à baliza. FAZENDO UM GOLAÇO!

Beijo Grande!


EDU

PS1: Que "mala sem-alça" esse primo, não é mesmo????

Larissa Marques disse...

Cris, me surpreende sua força, muito bom o texto!
Postei o meu e agora estou fazendo uma viagem nos textos alheios. Grata descoberta! Beijo grande!

rebellis disse...

Muito legal a história e a poesia também! Os goianos são muito bons mesmo hehehehe =)

Eduardo "Adote um gatinho"

Anônimo disse...

Hahahahaha... muito bom e nada extenso, eu diria na medida!

Talles Machado Horta/verdejar/Roderick Usher/Noir No AR

Anônimo disse...

Hahahahaha... muito bom e nada extenso, eu diria na medida!

Talles Machado Horta/Verdejar/Noir No Ar/Roderick Usher

Véïö Chïñä‡ disse...

Mas Q. merda!
Que estória é essa de um "tanto longo" pra internet? Essas coisas desanimam. Quando você lê e gosta do que lê, fica aborrecido por ter chegado ao fim. Parece qus vocês não entendem.
Muito bom Cristiano.

cássio amaral disse...

Bacana a entrevista com o Affonso. Parabéns Eliane.
Cara, tem as duas entrevistas que nós fizemos no Rio, com o Rodrigo de Souza Leão e com o Tavinho Paes no: http://cassioamaral.blogspot.com

Muito boa sua entrevista, seu poema no fim é do caralho, digno de uma poeta de primeira grandeza.
Beijabraço e eflúvios positivos.