domingo, 8 de abril de 2007

As Aventuras Do Pequeno Douglas (completo)

As aventuras do pequeno Douglas I


Douglas era um ex-viado. Converteu-se. Aceitou Jesus e tudo. Ponto.
Um dia, passarinho cantou na sua janela.
- Ai, ai. Sangue de Jesus tem poder...
Outro dia, a casa do vizinho pegou fogo. Apareceu bombeiro com mangueira na mão...
- Ai, ai. Sangue de Jesus tem poder...
Seguiu firme na graça de deus.
Até que sua mãe o chamou pra ir pra feira.
- Douglas, escolhe umas cenouras bonitas pra mim
- Tá bom, mamãe.
Naquele dia ele teve uma recaída.

As aventuras do pequeno Douglas parte II

Arrependido, Douglinhas resolveu escrever um poeminha pra Jesus.
Como manda o figurino, decidiu que aqueles versos seriam em redondilhas, pra ficar bem bonitinho. O problema, contudo, era que Douglas nunca havia se aventurado por aquelas bandas ainda.
As redondilhas, arquipélago de ilhas redondas próximas à puta que pariu, era um ambiente muito selvagem. Logo nas primeiras letras, nosso herói começou a dar sinais de confusão. Douglas acabou se perdendo nos próprios versos. Nos próprios sentimentos reprimidos.
- Ai ai... Nunca vou sair dessa redondilha. Jesus não vai me perdoar.
Douglas, seguindo pelo mar, começou a andar em círculos (óbvia, a ilha era redonda).
Após horas de caminhada, sentiu fome e resolveu procurar comida.
Procurou, procurou, e achou um pé de carne seca. Feliz, começou a orar em agradecimento.
- Oh, senhor. Muito obrigado pela comida. Que teu nome seja glorificado, e que minha mania de enfiar coisas no cu caia por terra, em nome de Jesus.
Com o fim da oração, quase que instantaneamente, Douglas começa a sentir a terra tremer. Parecia um estouro de manada.
- Ai, Jesus! O que será isso?! Um terremoto? Afros descendentes ?
Não.
Era uma manada de abóboras gigantes e ferozes destruindo tudo. Não ia sobrar nada. Douglinhas, entretanto, esperto baitola que era, conseguiu rapidamente puxar uma abóbora jovem para dentro de um buraco em que havia se escondido.
Com o final da confusão, Douglas acendeu uma fogueira, estabeleceu acampamento e descansou. Naquela noite teve carne seca com abóbora.
Antes de adormecer, Douglas pensou: “as coisas de deus são perfeitas...Só faltou uma lingüiça”.


No outro dia, acordou com sede e com vontade de dar. Orou para que deus apagasse seu fogo, e começou a procurar água doce. Logo, seu pedido foi atendido.
- Um coqueiro! Oba!
Ele, com muita dificuldade, subiu no coqueiro, e tentou pegar o máximo de coca cola possível. Bebeu, se lambuzou, e agradeceu:
- Deus, a coca desse coqueiro é a melhor coisa que o senhor inventou...
Um coco, entretanto, tinha coca de cocaína. É. Aquela coisa branca sem vergonha.
- Credo... Mamãe não quer, papai não deixa...
- Mas se você experimentar um pouco, ninguém vai saber – disse uma voz misteriosa.
- Hã, o quê?!?! Quem está aí?
E de trás de uma moita surgiu uma cobra muito bem vestida, e bem apessoada.
- Viestes me tentar, como fizestes com Adão?
- Não... Na verdade, deus me mandou aqui. Eu tenho a missão de te ajudar.
- Ajudar? Como? Me fazendo ingerir essa coca branca malvada sem vergonha?
- Não... Isso foi apenas uma sugestão... Só pra gente se divertir e conversar. Deus me mandou aqui pra te salvar. Você quer fugir dessa redondilha, não quer?
- Quero sim. Eu tentei me aventurar nas redondilhas, mas acho que deveria ter ficado mesmo era com os alexandrinos.
- Então. Apenas meu bote pode tirar você daqui. Você deverá navegar pra oeste, direção do pôr do sol.
-Mas seu bote não é venenoso?
-Você nunca saberá se não aceitar. Além do mais, é sua única chance de fugir daqui.
- Você tem certeza, dona cobra?
- Não. Eu nunca dei um bote em/pra mim mesmo.
Douglas começou a refletir... A cobra era um bicho traiçoeiro, todo mundo sabe, até a bíblia. Mas aquele bote seria sua única chance de fuga. Não havia escapatória. Além disso, o formato cilíndrico da cobra inspirava confiança.
- Oquêi. Eu aceito. Vamos. Me dê seu bote.
Os dois se dirigiram pra praia, e a cobra se enrolou pra preparar o bote.
- Ai!
Bote entregue, Douglinhas sobe e segue viagem.
Após um tempo viajando, nosso herói lilás começou a sentir tonturas... Sua mão direita, a que recebeu o bote, começou a inchar. Era o veneno.
- Meu deus... Diga-me, senhor! Por que fizestes isso? Para me provar?
As nuvens se abriram, e Deus falou:
- Sim, minha pequena gazela. Se você realmente for puro, seu Butantã irá fornecer-lhe o soro de que tanto precisa.
- Ai, senhor! É por isso que você é deus!
Douglinhas, empolgado, tentou extrair o soro antiofídico do próprio Butantã, mas este estava parcialmente danificado pelas cenouras da feira. Ele até conseguiu um pouco, mas aquilo era, literalmente, uma merda.
E assim, sozinho, num bote, perto da puta que pariu e com o dedo enfiado no cu, nosso herói, o pequeno Douglas, morre sem terminar o poema.

As aventuras do pequeno Douglas III

No meio da tortura, Douglas, o ex-viado, pergunta ao seu carrasco:
- Ai, ai, ai... Seu brutamontes! Você é sádico?
- Não. Só quero ser promovido.
- Hummmm... Então bate mais pra cá.

FIM

moral 1: não existe ex-viado
moral 2: métrica é coisa de baitola
moral 3: as drogas podem te deixar retardado

19 comentários:

Me Morte disse...

Cara, que loucura! Eu já era tua fã Emanuel, agora então! Tu é um cara muito doido e criativo. Conseguiu passar uma doidera tão grande, e mesmo sem parecer no desenrolar, tudo fez sentido, cada denaneio. Tu é desse planeta? Emanuel, amei. Eu já gostava desse texto em gotas lá no Bar, agora então, exelente. Parabéns lindo. Não é rasgação de seda pelo blog e tal, é pura verdade. ADOREI! Super beijo da tu miguxa Me.

Deveras disse...

Caraleo...

Pelo Arquipélago das Redondilhas próximo à puta que pariu !

Você construiu todo um mundo de imagens para repassar sua moral no final, curti isso. J.R.R.Tolkien também criou seu mundo à parte, mas ninguém viajou num bote venenoso, hehehe.

ficanapaz!

Jimenna Rocha disse...

kkkkkkkkkkkkk.... esse realmente está bom! Esse Emanuel só quer fazer pose confundindo a cabeça da gente na comuna. Fiunalmente nos resta o blog p que as coisas faãm sentido.

Metáforas e sacadas muito boas e divertidas. Parabéns Manu.

Thin White Duke disse...

porra
mto surreal e mto foda
eauiheieauhaiehea
realmente, td faz sentido agora
eahaeaeiueahieahe

flew!

Lameque Hyde disse...

Nunca pensei que diria isto mas, vamos lá...

Manu, seu puto, porque vc esconde o seu talendo no Bar?

Esta fabula amoral está genial tanto em forma como em conteúdo. Cheguei a ver traços de Macunaíma na personagem Douglas.

Mais uma vez eu te rogo: largue aquele concretismo de buffet e invista nesta prosa surreal que vc nos brindou hoje.

Me Morte disse...

Emanuel, não me canso de ler. Virei tua fã. Tu é o CARA!

Mgylin disse...

Sem contar que tá incentivando a leitura do blog: não postou no orkut.
Muito legal mesmo, engraçado, interessante, polêmico, atual. (mas surreal) =)

emanuel disse...

obrigado pela confiança que vocês depositaram em mim.

obrigado pela boa vontade de ler esse txt grande.

ultimamente, o descrédito vem acabando com minhas oportunidades...

pelo menos aqui, alguém ainda "confia" no que eu faço.

Paulão Fardadão disse...

Eu achava que você era um cara muito chato e meio bobo, que criava dezenas de enquetes e ficava falando em cocaína só pra aparecer, além de postar umas concretices manjadas pra disfarçar.

Mas como era um dos que sempre mantinha uma boa média de acertos sobre minhas intenções por post, eu tentava me focar mais nos méritos alugativos de suas idéias que em sua condição aporrinhante.

Como você mostrou que consegue ser mais inventivo que letrinhas caindo num poema, e letrinhas subindo no próximo, o tio lhe concederá, de público, uma estrelinha no caderno de escrevinhagens e um MUITO BOM! de próprio punho.

Agora cabe aos coleguinhas, na saída, premiá-lo com o devido chá de cueca.

emanuel disse...

paulo, não preciso do seu elogio.

desce da cadeira, bixo.

vai ver se eu tô na esquina.

medusa que costura insanidades disse...

Excelente Emanuel..........taí o tipo de aventura perfeita para dar boas risadas num domingo (de páscoa ainda)monótono
Uma idéia ótima,bem desenvolvida,com uma escrita centrada..........adorei,se tiver aventuras desse personagem tão peculiar com certeza vou querer ler
da tua inteligência e talento eu nunca duvidei,pessoas tão bem humoradas como vc costumam ser muito talentosas.......e ca pra nós não é qualquer idiota que me faz rir.......tem que ter classe,estilo...
parabéns!

Paulão Fardadão disse...

Hahahaha! Nervooooosa!!! Acertei algum nervo exposto sem querer?

Muryel De Zoppa disse...

Não é à toa que para Osvaldo o Manu é um dos mais talentosos; pelo estilo, pela ironia que lhe é peculiar. parabéns duplo, cara. tu é inventivo e talentoso.

Filipe disse...

Porra, bicho, muito bom! Muito bom mesmo! Não acho que esteja tão superior às coisas que vc costuma postar lá no Bar, principalmente em relação aos seus contos. Para mim, são igualmente bons.
Acho que das três partes, a primeira foi a melhor (e tb a mais cômica), por passar muitas idéias num espaço bem reduzido.
O surrealismo, só ocorre mesmo na segunda parte.
Gostei do uso de elementos simbólicos.
Bom texto, ema.

P.S. Agora que eu li este texto gigante (e muito bom, como já disse), será que tu podia deixar de graça e ler um dos textos grandes que eu posto por lá?

Anderson disse...

Muito bom Emanuel. Um texto coerente, lógico e que mostra o mundo como ele realmente não é.

Flávia Valente disse...

Lucy in the sky fica no chinelo. Vou tomar umas e ler de novo, mas já deixo registrado que gostei disso aí...

Matheus Costa disse...

trocadilhos de qualidade, hein?

Parabéns.

Véïö Chïñä‡ disse...

hehehe! Quando eu falo que esse cabeça de filtro Mellita é um gênio sem genialidade, ele me questiona.

Esquece aquelas porras sem graça e infantis do tal de "concretismo"
Olha o teu caminho aí!!!
Bóptimo!!!
hehehehe

Bronson disse...

Emanuel, muito bom seu texto, na verdade, excelente, amei o final, uma estrutura muito bacana e divertida, coitadinho do Douglas!!! hauhuhauahua
Parabéns!!! E viva a arte de escrever!!! Amém!