sábado, 7 de abril de 2007

Cerimônia de casamento



Ao longe, o sol já se punha. O horizonte parecia “fritar”, quando ele , calmamente, deitou seu corpo sobre o dela. Calma! Antes que vocês imaginem uma cena erótica, falo, na verdade, do pôr-do-sol, em relação à linha-do-horizonte. Um fenômeno natural, que ocorre quase sempre. Como, aliás, aconteceu naquela tarde...
Como eu ia dizendo, o sol já se punha. E eles resolveram casar ali mesmo. A enseada, alguns mexilhões, um bêbado dormindo; foram estes os convidados, para o casamento que se seguiria. Na ausência de um padre, o pipoqueiro serviu. Um casal de vira-latas trazia tanto as alianças, quanto os óleos sagrados daquele enlace de corpos, almas e, principalmente mentes. Parecia-nos que o cenário, embora casual, fora meticulosamente estudado, para dar um “ar” especialmente telúrico àquilo tudo. Olhos-nos-olhos. Juras de amor eterno. Algum nervosismo. E a “Marcha Nupcial”, tocada por alguns batuqueiros, dando fecho à cerimônia.
Enfim casados! Mas , não podiam dizer o já manjado “Enfim sós...!”. Na vida real eles já haviam contraído núpcias, há tempos. Cada um seguiria, dalí, para a sua casa. Suas vidas pouco tinham da magia do pensamento liberto, esvoaçante e poético. Como os de cada um de nós, os passos de Jéssica e Arlindo eram previsíveis. O mundo todo já sabia da estória,e por isso já imaginava o desfecho... Ruptura. Antagonismo, entre a Cerimônia de Casamento, e os papéis indulgentes da separação. Coisa simples. E corriqueira.
Mas... Ainda falávamos de casamento, não é ? Até eu “viajar” por essas porções personalíssimas, e confundir tudo...! Tenho essa mania. Atropelo-me em definições -exatas e perfeitas- acabo me enrolando, e não atinjo o objetivo. Afinal, me desejam como contador de estórias. Será que hoje consigo? Vamos lá...
Vamos? Não. Não vou.
Bem. Para falar a verdade, não estou com o mínimo tesão de continuar nisso. Afinal, que graça há em relatar a epopéia de dois bobos, que se julgavam amantes amantíssimos? Claro que não eram! Erraram. Enganaram-se isto sim...! Começando pelo cenário. Afinal, existe coisa mais “gudí-gudí” que um casamento - irreal - às margens de uma enseada, sob o Pôr-do-sol?... Poupem-me! Esse cenário de novelinha-das-seis.com.br (Plim Plim) está batido. E o pipoqueiro? Hahahahaha... Tinha o bêbado! Não é que me esqueci disto? Os cachorrinhos, os mexilhões... Esqueci de alguém? Acho que sim. Sempre há “alguém” obscuro nessas estorinhas.
Droga... A Editora acabou de telefonar. Essa estória tem que sair até semana que vem. Sabe o título? Esse título daqui de cima? Eles escolheram. Disseram que o Mkt da Editora pesquisou e tal. E que esse título vai bombar, agora que já vem chegando o mês de maio. Mas, isso acabou me gerando uma dúvida: Por que as relações humanas “vendem” tanto? Casamento? União de escovas-de-dentes? E, ainda mais, um assim, meio sem eira e nem beira? Sei lá... Isso me cheira a fracasso de vendas... Mas tudo bem. Sou só um contador de estórias. Adestrado, para contar o que o povo quer e deseja. Pelo menos não assino o meu nome, não é mesmo? É maravilhoso ter um pseudônimo! Anonimo! Sem lenço ou documento , sem Cpf . Melhor ainda ser um mero contador de estórias. Apenas um contador de estórias .Dessa estória toda.


11 comentários:

Me Morte disse...

Não precisaria ler teu nome para saber que o texto é seu. Se não fosse seria uma enorme coincidência. Edu, tu mostrou com clareza e sutileza tua alma. O homem mágico, sedutor e livre, como os pássaros são. Teu vôo foi longe e ainda tem um longo caminho. Lindo texto, ao contrário do que vc achou (me disse ontém), hoje reelendo vejo muita beleza. Parabéns e não muda nunca tua forma de ver o mundo, nem de pensar. Beijos

Deveras disse...

Grande Perrone,

Olha só, Garincha volta a driblar por pés tricolores, hehehe

Cara, que corta-luz foi esse ? Você remete ao amor de folhetim (o mais apreciado, diga-se de passagem... o pipoqueiro e o cachorro eram bônus) e depois brota a realidade, o teor do mundo caindo sobre todo o romantismo que ainda teima em enganar que existe... Bom, pelo menos para os clientes dos romances.

A realidade tá mais para isso aí. Mesmo que a gente não queira ver. tudo bem, quem assistiu a "Romeu e Julieta" também queria se enganar com um final feliz.

Pena que a realidade não deixe.

ficanapaz

Deveras disse...

Grande Perrone,

Olha só, Garincha volta a driblar por pés tricolores, hehehe

Cara, que corta-luz foi esse ? Você remete ao amor de folhetim (o mais apreciado, diga-se de passagem... o pipoqueiro e o cachorro eram bônus) e depois brota a realidade, o teor do mundo caindo sobre todo o romantismo que ainda teima em enganar que existe... Bom, pelo menos para os clientes dos romances.

A realidade tá mais para isso aí. Mesmo que a gente não queira ver. tudo bem, quem assistiu a "Romeu e Julieta" também queria se enganar com um final feliz.

Pena que a realidade não deixe.

ficanapaz

Lameque Hyde disse...

Muito divertidas estas divagações do autor.

Dizer que o conto está ótimo é lugar comum mas fazer o quê? Está ótimo mesmo.

Thin White Duke disse...

gostei mto dessa relação narrador-leitor que você deu ao texto e o desfecho ser a falta de desfecho... ficou bem legal...

flew!

Klotz disse...

O Perrone, sempre que possível insere um perro (cão) em seus textos. Assim como Hitchcock se auto inseria nos filmes que produzia.
O texto é fiel ao seu dono.

beth disse...

Texto de um geminiano das letras. Dúbio como o que ele sente.Uma jessica e um arlindo recorrentes. "o texto é fiel ao seu dono" disse um. Eu afirmo que alem disso o texto é uma declaracao linda. E eu invejo isso. Invejo (de boa kkkkk) um texto magnifico.

medusa que costura insanidades disse...

Puxa Edu,sua escrita é tão boa,tão natural,concisa e clara que parece que vc está falando aqui comigo,me contando "essa história toda"
o poder de interação com o leitor é grande´, de forma que me impressiona........até com o "calma " do inicio minha mente pulou e parou para criar outras imagens.
Você fornece de forma bem dosada e gostosa de ler estas imagens e rupturas,este diálogo que tem com o leitor.GOsto deste tipo de escrita
Não é toda (furiosamente)rabiscada,cheia de borrões como a minha, é transparente...como um lindo véu de noiva
te admiro,parabéns

Muryel De Zoppa disse...

grande narrativa! à altura do que sempre espero de ti.

Larissa Marques disse...

Deleite, leitura intimista, bem à la "Perrone". Muito bom... Beijos,meu caro!

Véïö Chïñä‡ disse...

Gostei, Perrone!
Tu leva jeito com as letras. Interessante e divertido.
Sei lá. né? Poderíamos aderir aos novos ares de modernidade e substituie essa coisa antiquada do escrever sob o pseudônimo de....
Que tal Perrone>
Escrever sob o "fake" de.....

Cara, acho que andi fissurado nessa coisa "fake" hehehe