sexta-feira, 20 de abril de 2007

Convidado: Helder Bentes

A CRÍTICA LITERÀRIA NA CULTURA (PÓS?) COLONIAL.

A expressão "crítica literária" parece demasiadamente pretensiosa, quando se pensa na liberdade da criação literária trazida à voga pelo Modernismo nas letras européias. Com efeito, o Modernismo foi um estilo de época que se definiu por oposição a todos os precedentes e, como estes eram todos pautados, em maior ou menor grau, no princípio da mimesis clássica, é lógico que o estilo, que se pretendesse oponente a tudo isso, deveria primar pela liberdade criadora, castrada pelo hábito já cristalizado da imitação, como recurso mantenedor de uma tradição.

Vem daí o fim do lirismo comedido de que Manuel Bandeira proclamou-se farto e a genialidade poética de muitos escritores, tanto os canonizados pela crítica, quanto os ainda anônimos, mas não menos interessantes. Vem daí também a infinidade de porcarias e de textos pretensamente poéticos alardeados, sobretudo, pelo mercado editorial e agora também pelas facilidades dos meios digitais.

Mas quais os critérios que determinam um bom ou um mau texto do ponto de vista literário? O que vem a ser Literatura nesta cultura pós-colonial, pós-modernista e subdesenvolvida digitalizada? É (ou pelo menos deveria ser) para responder a questões como essas que a crítica literária existe.

Não é novidade para ninguém que aqui no Brasil nós não podemos falar de Literatura como os europeus, embora haja um conceito – não uma definição fechada – do literário em termos universais. Pois fomos (ou ainda somos) colonizados. E os rumos que a história deste país tomou não nos dão perspectivas de uma identidade genuinamente nacional. Além disso, é fato que não dispomos de uma política educacional verdadeira e séria, que possa erradicar o analfabetismo, a miséria e a cosmovisão limitada e fútil das massas do 3º mundo. Em suma, estamos fadados à hegemonia da dependência cultural eterna e, ao que tudo indica, no máximo, iremos nos debater entre ensaios – de originalidade e genialidade criadora – limitados pela famigerada busca do nacional, tomando sempre alguém ou algo como referencial.

Eu particularmente acho que, depois de Machado de Assis, os brasileiros tiveram tudo para libertar-se da supremacia literária européia. Mas hoje a Academia Brasileira de Letras admite paulos coelhos da vida como "imortais". Um amigo meu, que faz Mestrado em Évora, me disse que por lá, quando se fala em Literatura Brasileira, o nome do dito cujo é o mais recorrente entre os portugueses... Pode? Depois disso, não se pode esperar muito (ou nada) da literatura publicada e comercializada neste país. Já pensaram se resolvem seguir o exemplo de livros como "O Alquimista" para desenvolver literatura no Brasil?

Mas, voltando à questão inicial, para que diabos serve a crítica? A resposta a essa pergunta passa pelo conceito de Literatura e tal conceito, por sua vez, depende do contexto situacional e histórico em que o literário é produzido. Por exemplo, aqui na Amazônia (moro em Belém do Pará), o literário é admitido nas formas narrativas orais populares que imperam entre populações ribeirinhas, como mitos e lendas que são a única concepção narrativa e explicativa possível para quem não tem acesso às descobertas da ciência no mundo moderno ou prefere acreditar na dimensão simbólica dessas narrativas.

A literatura, porém, tem natureza ficcional por excelência, é predominantemente figurada, simbólica, e seu valor não está no aspecto verossímil de seu conteúdo, mas nos signos que ela encerra ao servir-se de um tipo de linguagem que desafia as estruturas cristalizadas pelo uso comum da Língua e gera tensão entre o texto e o leitor. Há quem diga (e eu sou um destes) que é nesta tensão que reside o literário.

Neste sentido, chama-se crítico o indivíduo que se serve não apenas de sua cultura literária (sempre aberta) para julgar uma obra, mas aquele que tem o dom de medir o grau desta tensão. Falei em "dom" e quero explorar todas as acepções possíveis desta palavra em Português, para aproximar o leitor do que vem a ser um crítico literário.

Dom vem do latim "donu" e significa "donativo, dádiva ou presente". Em "Estrela da vida inteira" Manuel Bandeira diz que "cada sentido é um dom divino". O dom do crítico literário é uma espécie de sexto sentido, uma lógica supra-racional capaz de mensurar os efeitos de uma obra sobre o público, valendo-se de uma conjuntura de fatores que vão desde sua cultura histórico-literária, passando por questões teóricas e empíricas, mas sempre regidas pelo bom senso e por sua capacidade de recepcionar a obra, separando-a de seu autor e buscando nela própria as tensões que se travam entre o eu da obra e seu leitor. Neste sentido, eu diria que um bom crítico é aquele que se reconhece parte de um todo, de cujo centro emana o leitor.

Um dom é um dote ou qualidade natural e inata. Portanto, ninguém adquire o dom da crítica numa escola ou faculdade, tampouco pelo acúmulo de experiências vividas. A consciência, científica ou empírica, pode ajudar, mas se o pretenso crítico não for um privilegiado entre iniciantes e iniciados na arte, nada feito!

Um crítico de verdade tem mérito próprio tanto quanto um escritor de verdade, leva vantagem sobre os leitores comuns e seu "poder" ou virtude vem de um grau de sensibilidade ímpar que não lhe permite vender-se ao mercado editorial, à crista da onda, ou a fazer pactos políticos, econômicos, culturais, sexuais, etc.

Depois de todas essas considerações, cabe uma afirmação e uma pergunta. A afirmação é: "Temos bons autores e boas obras sendo produzidas no Brasil, apesar dos pesares". A pergunta é:""Mas será que temos bons críticos?".

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Helder Bentes - Professor, Crítico de Arte e Produtor Cultural. Tem formação acadêmica na área de Letras e Artes, estudou Jornalismo e faz Mestrado em Literatura. É Pesquisador nas áreas de Educação e de Ciências da Linguagem e suas Tecnologias. Blog, Coluna Helder Bentes, Coluna Dialentrando e Email.

8 comentários:

Mão Branca disse...

"sim, eu sei que é grande." - vivo explicando para as meninas (hehehe). Mas basta morder a frona que cabe numa boa!

O texto é tão esclarecedor que é importante para o futuro da crítica no nosso bar. entender como a crítica é útil e serve para melhorar a qualidade da literatura é o mesmo que aprender a dirigir veleiros: provavelmente vc nunca vai precisar, mas agradecerá aos céus se um dia isso acontecer.

Thin White Duke disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Thin White Duke disse...

bem, gostei do texto e ele é bastante didádico e agrega muito valor, com certeza... mas minha opinião é a mesma...

Segundo o autor, o crítico literário é aquele que tenta captar a tensão entre a obra e o público... mas ele só pode medir essa tensão por ele mesmo, de acordo com suas experiências e sentimentos... Uma outra pessoa pode se sentir completamente diferente ao lê-la.

Enfim, considero um bom texto, mas ainda acredito na subjetividade da crítica literária.

flew!

Me Morte disse...

Muito providencial teu texto. Quando se faz literatura se precisa de críticas como um bebum exagerado precisa de glicose. Se não fossem os críticos não aprenderíamos. Todo escritor do Bar vai se identificar com a mensagem que deixou aqui. Parabéns pela participação.Beijos

Me Morte disse...

Ah...Gigio, não precisa morder a fronha, basta relaxar.

Fernando disse...

Muito bem escrito o texto e muito bacanas muitas das passagens dele.

Há momentos que me senti contente ao ver que há brasileiros que sabem colocar suas palavras de forma equilibrada, emocionadas na dose certa e que sabem inciar uma boa discussão (pois este texto pouco conclui), preocupando-se também com a realidade nossa (brasileira ou européia?).

Muita acertadas as colocações sobre isso: Europa x Brasil. Mas também pouco concluem e só dão espaço a mais uma boa discussão sobre o que somos como país e por que somos assim e por que chegamos assim até aqui. Já pensei muito sobre isso - gostaria muito de poder conversar numa mesa de bar com este nosso professor. (Só pra não deixar solto: somos Novo Mundo, é difícil ter muita coisa própria, mas tb não somos só Europa; somos tb África e América. Só que mt vezes criticamos nossa face européia - não sei por quê, tvz porque sempre criticamos os que aparecem muito. :-P)

Bem, não gostei da crítica a Paulo Coelho. Ela em si desvia demais do ponto do texto e acaba enfraquecendo-o, contradiz, pois não é uma crítica embasada em qualquer coisa, o texto apenas permite ver que o autor não gosta de outro e pronto. Poderia ter evitado essa dispersão.

No mais, há muito coisa subjetiva no texto. Falar de "dom" e negar a experiência pode ser algo inflamável... Acho que essa afirmação da subjetividade prejudica um pouco a boa conversa, porque não se pode negar a experiência - tão importante quanto o dom, supondo que ele realmente exista.

De qualquer forma, foi um prazer ler este professor. Uma bebida que caiu bem, nessa hora pós almoço. :-)

Klotz disse...

Mas será que temos bons críticos?

Maravilha termos um crítico literário de verdade freqüentando e se comunicando em nosso Bar.
Todos nós, da comunidade orkutiana Bar do Escritor, temos exercido este terrível papel de comentaristas metidos a críticos de forma empírica e intuitiva. Há alguns poucos com formação literária que externam suas opiniões de forma embasada e fundamentada. Eu estou no primeiro grupo, o dos palpiteiros.
Aqui no ezine todos os críticos mudaram o tom quando comparados à comunidade. Por que? Porque o público é outro. Porque os autores de alguma forma foram selecionados como também seus textos passaram por alguma escolha.
Desta forma, imagino que para o patamar dos bons e profissionais escritores deve haver bons e profissionais críticos.
A grande maioria dos autores trabalha de forma autônoma, o que confere liberdade total no seu trabalho. Infelizmente os críticos não são autônomos, trabalham e dependem de alguma mídia formadora de opinião.
Outra questão está ligada ao prazer. Quem escreve, tem prazer naquilo quem faz. Tenho dúvidas que haja prazer em criticar. Criticar quando há elogios é fácil. Difícil é externar os defeitos alheios.
Acho os críticos uns corajosos.

Lameque Hyde disse...

Sera que, a exemplo da literatura brasileira, nossos críticos também não estariam embriagados da cultura européia.

Legal ter um cara dese quilate escrevendo no bar