sábado, 19 de maio de 2007

Até que ponto, excluindo, não somos nós os excluídos?

Eram caninos, podia-se observar por suas longas presas cintilando na noite deserta. O pêlo sem algum cuidado ainda brilhava a luz fraca de um poste, talvez o único com uma lâmpada naquele beco.
Natália não pensava em nada quando cruzou o caminho de ambos, compenetrados em restos na lata de lixo. O que a perturbou foi o forte cheiro de carniça e a sujeira a qual acabou por tropeçar. Ajeitou-se após a quase queda e percebeu que as coisas não estavam boas e alguns nomes de santos não a livrariam do que estava por acontecer.
Deu dois passos para trás e sem compreender a linguagem dos animais fez sinal com as mãos a demonstrar que não queria encrenca.
Os olhos vermelhos, aguçaram. Havia um brilho, misto de fome e desejo a exaltar as penumbras de uma madrugada antes comum aos nossos monstros.
Atacada pensou o fim sua primeira companhia. Deveria ser breve, ela não lutaria. O destino quando bate a porta não espera que o atendam.
A língua quente de um dos animais percorria suas pernas enquanto as patas de outro roçavam suas nádegas. Dentes rasgavam suas vestes e farejavam-na em sua intimidade.
Personagem de ódio e prazer, o corpo, lentamente cedeu a um canto da calçada fria e suja, quando Natália compreendeu qual dimensão a morte pode atingir entre o espaço chamado vida e aquilo que deixamos escapulir. Ela era a caça no covil dos ardilosos lupinos.
De olhos fechados sentia a feracidade com que a lambiam dando atenção ao seu sexo como se ali estivesse o alimento que buscavam. Salivavam, urravam, penetravam-na como se ela fosse a fêmea pela qual aguardavam para aquela noite de lua cheia.
Ela esperava ser devorada, não literalmente saboreada.
Luzes e sirenes ao longe, despertaram a atenção dos animais que a soltaram com um semblante de gozo e susto. De pé, urinaram sobre seu corpo estendido na rua e sumiram na escuridão.
__ Moça, o que faz aqui assim? – perguntou um dos policiais.
Tudo estava muito confuso, Natália, debaixo de seus quarenta e sete anos não tinha pudor ou demonstrava a menor evidência de quem havia sido violentada pelos supostos lobisomens.
Um sorriso cobriu sua face escondida pelos longos cabelos loiros e uma voz fraca sussurrou:
__ Para quem a vida toda acreditou em contos de fadas, ser personagem de uma lenda é melhor do que pizza sob encomenda.
Levaram-na para o hospício local. Apresentação?
__ Mais uma vítima da nova geração a qual contribuímos para que prolifere.
O homem é aquilo que plantamos para que ele colha.
Ao praticarmos nossos hediondos atos em surdina, lobisomens são possíveis à medida que esquecemos que outros da mesma raça lutam pela simples sobrevivência.
E a fome, seja essa de comida, cultura ou sexo será saciada de uma forma ou de outra pela prole que insistimos em alimentar com a nossa ignorância ao fecharmos os olhos à exclusão do homem de seu próprio meio.


Eliane Alcântara.

6 comentários:

Francisco Dantas disse...

Metendo o bedelho, Eliane, quero dizer que você é ótima, tanto em versos como em prosa. Muito bem. Um beijo.

Wilson R. disse...

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Concordo, você escreve muito bem.
Gostei.

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Lameque Hyde disse...

Profundo e alegórico.

Deveras disse...

Bota fundo nisso... Lenda, mistério,sexo e ainda uma pitada de reflexão. Maneiro.

ficanapaz

lena casas novas disse...

ô, um texto que desperta um quero mais.Ainda não tinha lido sua prosas.Parabéns!

Anônimo disse...

parabéns! ficou ótimo!