sexta-feira, 18 de maio de 2007

O ESPÍRITO DO JAGUAR

A estalagem “Porco do mato” tem esse nome por dois motivos: primeiro, é suja e fica no meio da floresta amazônica, em algum ponto entre o Brasil e a Bolívia; segundo, seu proprietário é grande, sujo e violento – exatamente como um porco-do-mato. Aliás, ele responde orgulhosamente pela alcunha de “Grande Porco”.
A chuva torrencial vence parcialmente sua batalha secular contra o calor dos trópicos e o véu da noite envolve a selva. Algumas dezenas de homens – garimpeiros, seringueiros e pequenos traficantes – entretêm-se com bebidas, cigarros e conversa fiada.
O ruído da chuva aumenta quando a porta da estalagem é vagarosamente aberta e um homem de pequena estatura entra, trajando peles e ostentando uma espessa barba grisalha. Apesar da aparente idade avançada, o visitante caminha com a leveza e a elegância de um garoto. Senta-se lentamente a uma mesa e acena para o estalajadeiro. Este se aproxima, com seus costumeiros maus modos, e pergunta:
– Tem dinheiro, forasteiro?
– Não! – responde o homem – Mas estou disposto a pagar com trabalho.
– Não preciso de ajuda.
– Então, posso contar uma história.
– E o que garante que é uma boa história?
– Se não gostar, poderá me espancar.
O dono da estalagem sorri, perverso. As dúzias de homens presentes fazem chacota.
– Pois bem. Então conte a história.
– Primeiro, traga-me uma garrafa.
Ao sinal do “Grande Porco”, uma jovem negra traz uma garrafa de aguardente e um copo. O velho observa a bela garota e seus olhos ficam marejados de lágrimas. Enche o copo, bebe um grande gole e começa:

“Há incontáveis gerações, quando as ilhas flutuantes finalmente se uniram formando a América Central, homens, animais e deuses caminhavam lado a lado. A nova ponte entre as Américas gerou mudanças de toda sorte, mas o maior impacto foi o encontro de espécies, até então desconhecidas entre si.
Nessa época viveu Wan’sel, um grande leão-da-montanha, poderoso líder de seu bando – sim, porque naqueles dias os grandes felinos andavam em bandos. Wan’sel tinha um grande harém com as mais belas e saudáveis felinas do norte. Seus descendentes chegavam às centenas e ele era muito feliz.
Porém, havia coisas que o intrigavam. Ele notava que os homens adoravam os deuses, apesar de serem idênticos entre si. Se havia alguma diferença entre as divindades e os humanos, o grande puma não a notava.
Certo dia, ele percebeu que havia todo um novo mundo para ser explorado, e seus olhos verdes brilharam com a expectativa de aventura.
Enfim, Wan’sel resolveu explorar a nova terra criada pelas ilhas errantes e enveredou-se em uma longa jornada pela América Central. Caminhou meses a fio vendo seres que nunca havia visto. Caçou animais estranhos – e saborosos – e bebeu de rios maiores que as estepes do norte.
Assim foi, até que uma noite ele a viu. Uma felina, sem dúvida, mas sua beleza era indescritível. O luar refletia em sua pelagem negra, enquanto ela lambia suas patas, com uma sensualidade profana.
Sorrateiro, Wan’sel aproximou-se da bela pantera negra e perguntou:
– Quem é você?
– Juna’ili – ela respondeu.
– Por que você tem sobre si o véu da noite?
– Por que você porta o brilho do sol?
E se aproximaram e se amaram. Pela manhã, Wan’sel despertou e não encontrou Juna’ili. Frustrado, ele continuou sua jornada.
Certo dia, encontrou uma grande aldeia de homens e ficou ao longe, observando horrorizado como aqueles macacos pelados sacrificavam barbaramente animais aos seus deuses. Ele não conseguia entender como a morte de uma criatura poderia servir para alguma coisa, além de aplacar a fome do matador. Em meio à fumaça e aos toques frenéticos do tambor, Wan’sel viu sua doce Juna’ili sendo carregada, amarrada pelas patas a um pau. Era óbvio que estava sendo preparada para o sacrifício em favor dos deuses dos homens, que observavam satisfeitos os atos de covardia de seus seguidores.
Num ímpeto que supera o instinto e a razão – chamado amor – Wan’sel invadiu a aldeia e avançou sobre os algozes de sua amada. No primeiro instante, tomados de surpresa, humanos e deuses caíram por terra, vitimados pelas furiosas presas e garras do leão-da-montanha. Wan’sel conseguiu, com seus dentes, libertar Juna’ili e ambos travaram uma feroz batalha contra os humanos e seus deuses.
Porém, a superioridade numérica e o uso de armas logo mudaram o rumo dos acontecimentos e tanto Wan’sel como Juna’ili foram dominados. Em meio a seus mortos, os homens gritavam para seus deuses mesquinhos como iriam vingar os seus, imolando os felinos.
– Sabia que não era possível vencer – disse Juna’ili – Por que deu sua vida para me salvar?
– Não lhe dei nada que já não fosse seu – respondeu Wan’sel.
– Eu também tenho algo seu – a pantera olhou para o abdome, já proeminente.
Numa explosão de fúria, Wan’sel libertou-se e atacou seus captores. Mas foi em vão. Inúmeras lanças e flechas o atingiram e ele caiu, moribundo.
Juna’ili rosnou enlouquecida, enquanto era levada até o lado de Wan’sel, já quase sem vida. Num gesto que pretendia ser cruel, ela seria sacrificada ao lado dele. Os homens levantaram suas lanças e os deuses abriram um largo sorriso perverso.
De súbito, os céus gritaram na língua primal do trovão e a figura gigantesca de Tupã se fez presente. Abraçada a ele, a linda Jaci trazia lagos de lágrimas nos olhos.
– Malditos! – vociferou Tupã.
A um gesto seu, homens e deuses foram incinerados instantaneamente. Jaci tomou Wan’sel nas mãos e o acariciou.
– Por quê? – perguntou o puma.
– Não sabemos – respondeu Jaci.
– Mas vocês são deuses...
– Somos bem mais que isso. Mas as ações dos homens são um mistério para nós.
– Onde está Juna’ili?
A negra pantera aproximou-se, lambendo carinhosamente os olhos de Wan’sel. Suplicou:
– Não parta. Quero que você viva.
– Sabe que não é possível.
– Quero ir com você.
– Sabe que não é possível.
– Mas eu preciso estar eternamente com você.
Tupã interompeu:
– Isso é possível. Se tu quiseres e tiveres coragem.
Juna’ili acenou com a cabeça, concordando.
Tupã levantou o braço e pegou uma estrela do céu. Retirou do útero de Juna’ili um felino pelado. Do puma, ele extraiu o pêlo dourado e cobriu o pequeno rebento. Os buracos das flechas ele preencheu com pedaços retirados da pantera. Como não poderiam suportar as agruras, Wan’sel e Juna’ili morreram. Suas almas foram unidas à estrela e devolvidas ao céu, onde brilham eternamente.
Tendo nas mãos o pequeno filhote pintado, Tupã sentenciou:
– Tu, criatura, és o primeiro de tua espécie. Serás belo, forte e feroz como teus pais e tua semente predominará sobre tuas fêmeas. Porém, a cada dez anos, caminharás entre os homens como um deles, na tentativa de entender a razão de sua loucura. Um dia haverá muitos de tua espécie, mas teu espírito será apenas um”.
O profundo silêncio da estalagem “Porco do Mato” sobressai-se à própria tempestade. O velho continua:
– Então, até os dias de hoje, o espírito do jaguar caminha entre nós, a cada dez anos, tentando entender como pode haver criaturas tão estúpidas como os humanos.
O dono da estalagem grita, pegando forte o forasteiro pelo braço:
– Chama-me de estúpido?
A resposta do velho tem a forma de longos dentes pontiagudos, e um rosnado ameaçador parte de sua garganta. Imediatamente ele o larga, como quem larga um ferro em brasa.
O homem velho se levanta e caminha até a porta. Antes de sair, volta-se para a platéia silenciosa e diz:
– Hoje, tanto os pumas quanto as panteras não andam mais em bandos. Todos os leões-da-montanha procuram, solitários, por sua Juna’ili e todas as panteras negras aguardam, ansiosas, por seu Wan’sel.
A porta é fechada quando o velho ganha a escuridão úmida da noite.
Vencendo o torpor que os dominava, um pequeno grupo de homens corre para fora. Tudo o que podem ver são as marcas de patas felinas banhadas pela chuva.

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10 comentários:

Me Morte disse...

Wilson meu lindo, perfeito. Eu sempre fui fã desse teu conto, acho ele super bem feito, com tdo que um conto precisa, digno do talento de quem fez. Não podia ter escolhido melhor. Beijão

Deveras disse...

Outro que já possui elevada estima pelo texto em questão. MIsto de lendas e fantasia, bem trabalhado, me agradou desde a primeira lida. Reencontrá-lo aqui me traz muita satisfação.

ficanapaz

Fernando disse...

Vim resgatar minha dívida. Li.

Emocionante a cena em que Jaci aparece; sou apaixonado por esta figura. Muito fiel às nossas tradições o texto, especialmente a parte de Tupã. Mas o conto vai além desta fidelidade, além da tradição - encarna também toda a parte evoluída dos nossos pensamentos modernos, tanto a moral quanto a científica.

Como geólogo, adorei a "metáfrase" da formação da América Central; e com certeza os biólogos poderão falar mais das relações genéticas e ecológicas dos pumas e das panteras.

Mas, como pessoa, gostei mais ainda da posição dos protagonistas quanto à relação homens e animais - como se os primeiros tb não fossem os segundos. E tb notei no autor esta sensibilidade - e isto é uma das coisas mais importantes do texto.

Parabéns, Wilson! Bom conto - acho que o li na hora certa. :-)

PS: apesar de tudo, algumas partes precisam de leve lapidação, em relação a vírgulas, seqüência de frases, essas frescurinhas - tudo para tornar o texto perfeito. Se quiser, depois conversamos sobre isso.

Mão Branca disse...

eu já conhecia do fórum do bar. é perfeito. uma história forte e emocionante.
vc nos prestigia, aqui, mestre.
[]s

Lameque Hyde disse...

Uma fábula interessante muito bem contada.

Klotz disse...

Existem contos que, embora longos, merecem ser mostrados tantas vezes quantas oportunidades houver. Este é um deles.
Sou um priveligiado por tê-lo por escrito no S.O.S. Redação e Expressão.

lena cass novas disse...

Viva o Wilson! Mais um bom contista.Eu vou ter ralar muito...
Que bom que tenho muitas referências neste boteco de escrevinhador.
AVIVA!

Muryel De Zoppa disse...

puta que pariu!!! baixei o nível...
bom pacas. parabéns, mestre.

Deveras disse...

Continua muito bom... ficanapaz

Celia R. Domingos disse...

Adorei, emociona, muito bom!