quinta-feira, 17 de maio de 2007

Eu, o Amor e a Solidão (Parte II)

Parte I em: http://bardoescritor.blogspot.com/2007/03/eu-o-amor-e-solido.html


Passaram-se vários meses desde aquela visita inusitada. Toda noite, na minha cama, antes de fechar os olhos, eu pensava no Amor, na sua feição benévola e seu sorriso pacífico. Essas idéias eram-me estranhas, pois eu convivia nada menos do que com a Solidão.


Ela era bonita, tinha uma bela face, um corpo bem contornado, mas era mesquinha, egoísta e vulgar. Na verdade, não gostava dela, mas o engraçado é que eu não me imaginava na sua ausência. O que eu poderia fazer sem a Solidão? Provavelmente enlouquecer-me-ia, na convivência eterna com o vazio.


Mas os dias foram passando e minhas ilusões de um novo encontro com o Amor diminuindo progressivamente. De quando em quando acontecia de não pensar nele. Já me parecia uma realidade distante, inalcançável. Mas eu ainda escutava sua própria voz falando que iria voltar, que não desistiria de mim e, por alguma esperança irracional, eu acreditava.


Era início de noite, a Lua ainda estava no começo do seu caminho na estrada fixa do céu. Poucas nuvens e várias estrelas emitiam uma luz necessária para que os seres não vivessem na mais completa escuridão externa, pois já bastava escuridão em si mesmos.


Novamente eu estava com a Solidão, que se encontrava somente com as roupas íntimas sentada no sofá. A luz na sala era mínima, dando um tom sombrio ao aposento. Fui à cozinha pegar um vinho na geladeira, servi-me numa taça. Quando cheguei à sala, ela olhou-me em tom de censura e falou:


- Cadê meu copo, meu amor? – e sorriu.


- Não fale esse nome assim, pois ele não se encontra aqui. – respondi secamente e fui servir o vinho para minha eterna conviva.


“Nem nunca se encontrará”, pensei comigo mesmo enquanto via aquele líquido rubro sair da boca da garrafa e encontrar refúgio no fundo da taça.


Quando a entreguei e ela tomou seu primeiro gole, eu sentei-me no sofá ao lado e fiquei mudo, olhando-a, sentindo o ódio ferver pelas minhas entranhas misturado com um agradecimento estranho.


Mas a porta abriu-se. Meus olhos arderam ao entrar em contato com tanta luz que emitia aquele ser que entrava sem ser convidado em minha casa. Vi que a Solidão havia se assustado, provavelmente reconhecia o convidado.


Uma idéia improvável passou pela minha cabeça, a que seria o Amor. Mas era impossível. Na última visita, o Amor apresentava-se de uma forma bastante simples, com roupas normais e até mesmo velhas.


- Sim, sou o Amor. – respondeu como se tivesse adivinhado meus pensamentos.


Ergui-me imediatamente. Não conseguia distinguir formas nele, apenas era um corpo que emanava muita luz. Na sala, parecia que era meio-dia.


- Que vieste fazer aqui? – perguntou ofensivamente a Solidão, lutando pelo que julgava ser dela.


- Já sabes. Vim pegar o que é meu. – respondeu.


- Não podes. – ela falou.


Senti um desespero no tom de sua voz, como se não acreditasse nas próprias palavras que falava, como se fosse apenas um artifício vulgar para tentar manter-se na sua posição.


- Tu bem o sabes que posso. – o Amor falou, confirmando minhas previsões.


- E então? – perguntei receoso.


- Então que outrora eu te prometi que viria buscar-te. Aqui estou. Está na hora de uma nova vida, uma vida que ainda não tiveste, que ainda não viveste. As aspirações divinas se completaram, tua convivência com a Solidão está encerrada.


- O que?! Então esse sofrimento era proposital?


- Claro, meu jovem. Todos têm de viver por algum tempo com a Solidão para darem valor ao Amor. O que seria o Amor sem a Solidão? Nós somos inimigos, mas fazemos parte da mesma essência.


- E vice-versa! - a Solidão interrompeu, como se quisesse tomar a parte do seu quinhão.


Bendisse e maldisse os deuses, igualmente.


- Vem agora, jovem.


Dei meus primeiros passos em direção ao Amor. Estava de pé, esperando-me, e ergueu-me as mãos. Segurei-as. Pareciam desprovidas de matéria. Eram só feitas de luz, sem nenhuma matéria. No entanto, por alguma energia, eu sentia-me preso a ele, muito mais do que outrora me sentia à Solidão.


Já na porta, tornei-me e olhei para ela. Vi um pouco de desespero nos seus olhos.


- Adeus e obrigado pela companhia. – falei.


Saí e deixei a Solidão sozinha.


Mas não por muito tempo, logo ela seguiria a ordem natural do mundo e serviria de companhia para mais um solitário infeliz.


E não seria eu.



André Espínola

3 comentários:

Anderson Henrique disse...

Você chuta com os dois pés. Isso é muito bom. Estou gostando desse teu namoro com a prosa.

Deveras disse...

Além disso também cabeceia... É o André e mais 10, time formado.


ficanapaz!

Lameque Hyde disse...

Nota-se a clara evolução do André na arte de escrever contos.

Congratulações lamequianas