sábado, 26 de maio de 2007

Imagine um dia de sol

Segunda-feira, vinte de maio. Recebo um e-mail da editora Andross recusando meus textos. O editor alegou que meus textos eram, por falta de palavra melhor, infantis demais para tal concurso. Manifestei minha insatisfação com outro e-mail. A resposta dada foi praticamente igual à outra. Em um primeiro momento eu não havia concordado com a opinião do editor, porém passei toda a noite pensando no que ele dissera. Acordei cedo na terça-feira. Já estava aceitando o veredicto do editor. E aceitei.

Escrevo de forma infantil? Talvez, mas qual o problema nisso? Que eu seja lido por velhos, jovens e principalmente crianças. O importante hoje para mim é ser lido. Que culpa tenho eu de escrever sobre a mente de uma criança, sobre o universo desconhecido que cada garotinho tem pela frente após se dar conta do mundo ao seu redor. Acompanhe comigo:

Imagine um dia de sol, um agradável dia de sol. Crianças vigiadas pelos pais brincam nos balanços e escorregadores do parque. Sentadas no banco de areia, duas outras crianças tentam fazer um castelo. Dois meninos. Há cavalinhos e soldados. Há também um pequeno balde servindo de molde para as torres. Conforme eu disse, é realmente um dia agradável. Poucas árvores. As mais altas têm um balanço maior; as mais baixas foram usadas para pendurar pneus.

Folhas secas, grama e crianças. Os dois meninos no banco de areia não se conhecem. Apenas os pais se falam vez ou outra no elevador do condomínio onde moram. O primeiro tem cabelos pretos e olhos castanhos, o segundo também tem cabelos pretos e olhos castanhos. Têm a mesma idade e fazem a mesma coisa: constroem um castelo de areia. As outras crianças do parque são mais agitadas. Pulam, correm; a maioria joga futebol.

Os nossos pequenos construtores ainda estão com a mão na areia. Levantando torre por torre, muro por muro. Eles são tranqüilos, talvez os mais calmos de todo aquele parque. Terminaram cada qual seu castelo. Olharam-se por alguns instantes, mas logo procuraram desviar o olhar, coincidentemente para o mesmo local: a única árvore que mostrava indícios de um outono próximo. Uma folha se desprende e cai lentamente. Os meninos acompanham o movimento suave que aquela folha faz. A mãe do primeiro menino aparece para levá-lo embora. O segundo menino continua lá, observando a folha que agora toca o chão exatamente em cima de um pequena poça d’água, formando uma ponte para algumas formigas que passavam por ali seguirem caminho. O menino sorri. Percebe que aquilo não é comum.

Com o tempo esse menino aprende a observar. Procurar a mesma sensação que teve ao ver aquela folha cair interagindo com o trajeto das formigas. Quando aprendeu a ler e escrever, começou a anotar os pequenos detalhes dos seus dias. Não só as árvores e os bichos ele observava, mas também as pessoas. Os hábitos de cada um, as manias. Ainda há muito que se falar desse menino. Mas eu adianto a você, caro leitor, que o futuro desse menino (mais que um desejo meu) é se tornar escritor.

Há um abismo entre a coincidência e o destino.

13 comentários:

Thin White Duke disse...

barba, esse texto é daqueles que a gente tem gosto de ler! mto bem escrito, bem condizudo e com final emocionante...
parabpens!

Deveras disse...

Cara, esta passagem do menino e a folha me remeteu a um caso da infância do filósofo Wittgenstein, cuja biografia estava lendo ontem. Talvez este garoto parta para o mundo das idéias, ao invés do das letras, mas isto é só uma suposição.

Bela crônica.

ficanapaz!

Me Morte disse...

Todos temos muito desse menino, não o do texto, o do autor, que se ressentiu de um descaso por seu sonho. Ainda virão muitos nãos, muitos descasos, mas não mude jamais a tua essência, pois, não foi ela o objeto da recusa, essa nem foi percebida pela editôra.
Tu escreve muito bem, sou sua fã. Beijão

Fernando disse...

Ótimo texto, meu caro. Técnica e conteúdo. Nota 10!

É muito bom ler coisas boas e coisas bem escritas.

Não sei que concurso foi esse da Andross. Se mal me lembro, a Andross é aquela editora em que os escritores pagam por tudo e que assola todas as comunas do Orkut? (Não há crítica nesse trecho, todos são livres para fazerem o que quiserem - dentro de certos limites; pergunto só pra confirmar se é a mesma editora.)

De qualquer forma, talvez o editor não seja um cara ruim, só sem polidez ao dizer que seu texto era infantil; e note-se, sem polidez porque pode n ter sido uma crítica, apenas uma forma de colocar o que ele achava. Talvez ele quisesse dizer apenas que seu texto não se enquadrava no concurso.

Porque uma coisa é fato: estilo a parte (e eu gostei mt da leveza desta crônica; seu estilo é bom e é coerente), sua técnica, sua maneira de escrever, de conduzir os parágrafos e sua ortografia, tudo está perfeito - o que já é um grandessíssimo passo para tornar o menino um escritor.

[barba] Uonderias disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lameque Hyde disse...

É um texto profundo. Penso que com uma releitura ele deixará de ser tão obscuro para mim.

Quanto a Andross, uma vez o editor enviou um e-mail ao Dr. Jekyll, parabelizando-o pelo qualidade de um texto dele e convidando-o a participar de uma das suas aontologias. Acontece que o mesmo texto sequer foi classificado em um concurso promovido pela mesma Andross. Esquisito não?

Anaconda de Deus disse...

texto massa gostei,

Conde MOAI disse...

Não dê bola pra torcida. Editores sabem escrever? Se soubessem, não seriam editores.

Mão Branca disse...

não há infantilidade em falar coisas para crianças.

Klotz disse...

Amigão, o problema não é a forma de escrever. O problema é da sociedade que exige rótulos para tudo. Solteiro ou casado. Bassê ou perdigueiro. Panela ou frigideira.
Recentemente perguntei a um professor se meu texto era crônica ou conto. Ele responedeu-me que era anedota. Dei uma sonora gargalhada.

lenacasasnovas disse...

Aplausos!!
A crônica É a minha paixão.Amei.A evolução, o desfecho, não para medir eleogios. Ficaria horas te babando... mas num dá.Até mais ver.Eu vou aparecer, eu prometo.Deixa eu sair deste mar turbulento.

Eduardo Perrone disse...

O destino é imaterial. Teu texto não... Ao contrário... Traz a força narrativa de uma coisa esquecida por muitos. OPINIÂO.

Anônimo disse...

Olá, Barba, tudo bem? Sou Edson Rossatto, o editor da Andross. Amigo, não sabia que a palavra "infantil' iria repercutir dessa forma, caso contrário, teria usado uma outra. Veja, minha crítica se referia à forma de contar uma história. Existem várias. Se dissessem que o personagem do Bruce Willis no filme O SEXTO SENTIDO estava morto desde o início, acha que o filme teria feito todo esse sucesso? Achei que a forma que usou para contar suas histórias era simplória e não cativava. Desculpe, mas é minha opinião. Barba, este cargo, editor, não caiu no meu colo da noite para o dia. É resultado de um trabalho iniciado há muito. Se quiser, posso te indicar livros que me ajudaram na forma de contar histórias. Vou postá-los no fim do recado. Espero que não tenha ficado ressentimentos. A propósito, essa sua crônica está muito melhor do que os textos que me enviou...
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