sábado, 5 de maio de 2007

Paris

Minha tarefa diária de apontar todos os lápis é das mais importantes. Apesar do moderno apontador, faço questão de mostrar a arte, esculpindo as pontas com meu canivete vermelho. Estes lápis têm a majestosa função de escrever petições, redigir ofícios, anotar depoimentos, limpar orelhas e rascunhar despachos.
Minha segunda tarefa é a distribuição do jornal sobre a escrivaninha do meu chefe.
Os jornais devem chegar donzelos. Intactos. Responsável que sou, sempre chego antes do chefe pelo menos umas duas ou três horas para dar conta dos meus árduos deveres. Nesta quarta-feira, pelo menos a manchete do jornal li. E mais um pouquinho. Lá no caderno de turismo anunciavam passagens para Paris. Mon Diê. Doze vezes, e ainda assim tá caro!
Paris é como uma virgem na flor da idade. Sonho passear por todos seus cantos. Cheirar suas flores, atravessar suas pontes, caminhar nos seus jardins, sentir as bolhas do champanhe no céu da boca.
Se existe algum lugar com classe, esse lugar tem nome: Paris. Não é necessário subir na torre Eiffel para ficar junto das nuvens e sonhar.
Mona Lisa? Tenho hora marcada com você, seu sorriso é minha alegria. Saímos juntos para um café na calçada coberta com as folhas douradas. Crepe Suzete, baguete, La Fayette, cotonete. O som, ah, o som magnífico: camembér, trotoá, voalá, peti puá. Croassã, chantili, rende vu. Mais um pouco de açúcar, Mona? Na mesa vizinha Voltaire, Sartre, um cavalo branco e Napoleão, na outra o baixinho Lautrec, La Deneuve, Manet e Robespierre. Bonsuá! Saio de braços dados. Todos me cumprimentam. Não é por mim, é por minha encantadora companhia que seduz através do seu olhar emblemático e sorriso enigmático. Ela ajeita o véu, empunha a sombrinha e entramos na charrete. Sem nenhuma palavra margeamos o Sena. O chofer muda a estação do rádio: La vie en rose. Piaf. Ne me quitte pas. Os sinos da catedral de Notre Dame badalam dez vezes.
– Bom jur!
– Que droga, von Silva! Quantas vezes preciso te dizer que odeio quando mexem ou dormem no meu jornal?!
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Imagem da capa do livro, ainda não publicado, que contêm crônicas do von Silva.

11 comentários:

Paulão Fardadão disse...

É verdade que na frança todo mundo é viado?

Deveras disse...

Amusant, mon ami! Muito divertido e enxuto, este texto teu... Cara, esse Von Silva sabe das coisas, hehehe... Aê, maneira a capa, com essas gravatas se atirando no vazio.

ficanapaz, nobre Von.

[barba] Uonderias disse...

comentário do Paulo foi ridículo...


olha só Klotz, temos uma coisa em comum
um livro de crônicas sobre um personagem
mas o seu está pronto
já o meu, um dia fica!

Lameque Hyde disse...

Paris sempre será uma festa, ainda que somente através de um anúncio de jornal.

Roberto, tu és muito chique quando escreve. Congratulações Lamequianas!

Fernando disse...

E ele não me deixou ler este livro!... ¬¬

Agora que eu tô aqui no Rio, como faremos?! ¬¬

Lembro ainda hoje, no Brasília Shopping, reunião pro BIP, o Odalis levou o livro - vi ali e depois não mais; mas se voltar a vê-lo na prateleira da Leonardo da Vinci aqui no Rio ou na Cultura (de Sampa ou Brasília, tanto faz), nussa, vou ficar contente! :-D (E comprar na hora!)

Herr Klotz, de quem são as idéias das capas dos livros? Suas? São muito boas! Seu fiote é que tá fazendo?! (É que lembro que ele fez uma coisa legal pro BIP!)

Sobre o texto, muito bom, né? O que devo falar é simples, uma palavra: seu.

emanuel disse...

paulo,
nem todos são viados na frança.
esqueceu das putas?

Klotz disse...

Obrigado aos meus 6 leitores.
Que atire a primeira pedra quem nunca dormiu sobre um jornal (ou livro ou caderno).
As capas do von Silva e de Aventuras Culinárias são produção de um fera Alan Alvetti - Web deigner profissional.
Obrigado pelo legante elogio, Lameque.
Infelizmente, Fernando, ambos livros ainda não foram para editora (quanto mais para alguma livraria). Quando você vier a Brasília, por favor me ligue.

Larissa Marques disse...

Não, não, sete. Não li por estar viajando e lotada de trabalho, mas hoje, compromissos cumpridos, depois que toda a casa dorme, cá estou a me deliciar com meu querido. Aliás Roberto, não sei onde estão as boas editoras desse país, que não te vêem. Mas logo logo a gente resolve isso.
Lindo, lindo e Paris está em meus sonhos, distantes, mas ainda sonhos! Senti um pouquinho dela te lendo!
Beijos, meu caro, desculpe a demora em ler-te.

Klotz disse...

Fogos de artifício pipocam sobre minha cabeça. Sete leitores.
Obrigado Larissa, o meu problema é que eu me recuso a bancar e ainda ter que distibuir os livros. Não sinto a vaidade e urgência em ter meu livro publicado. Quero alguma coisa profissional. Obrigado pelo incentivo.
Beijo, menina.

Marco Martire disse...

Legal o texto! Deve ser bom o livro.
Um abraço.

Eduardo Perrone disse...

Roberto e Von Silva ... Quem é um , e quem é o outro...?
Pouco importa. Ambos arrasam...