quinta-feira, 3 de maio de 2007

Zé colméia

Quando o destino é servir, pouco importa a quem. Talvez seja algum tipo de sabedoria da natureza, algum know-how ou filosofia disfarçada em atavismo, que faça com que abelhas criadas em diferentes colméias não se insurjam quando postas a servir nova rainha.

Operárias, rainha. Classificações ou analogias que, embora talvez fora de contexto quanto ao que procuram qualificar, são ainda assim reveladoras da mentalidade do ente classificador. Pois sabendo-se que no mundo humano pouquíssimas pessoas reconheceriam majestade em uma criatura que vivesse enclausurada nas profundezas de uma inexpugnável fortaleza, fabricando “produtos” para usufruto alheio – antes enxergando-o como um escravo ou prisioneiro – também o alegre flaneur que pousa de flor em flor a comer e divertir-se, dificilmente combinaria com a imagem que usualmente se faz de um operário.

Ocorre que, para cada “rainha” de colméia, existem milhões de operárias, e isto, por si só, é – no entender de grande parcela do operariado e realeza humanos – distinção suficiente para torná-las em seres “especiais” e “únicos”, ainda que tais termos sejam, a rigor, aplicáveis a tudo que exista no universo da forma como tradicionalmente tem sido concebido em laboratórios, escolas, salas de edição e repartições públicas ao redor do globo.

Em outras palavras, pouco importa se é mérito, sorte, favorecimento social ou herança genética o que alça um indivíduo à sua posição exclusiva dentro do sistema, ou quanta infelicidade o exercício desta lhe cause. O único fator a ser considerado é a quantidade bruta e palpável daqueles aos quais se distingue.

Talvez por instintos ancestrais irreprimíveis, talvez por complexas associações subconscientes ou subliminares com as representações que temos sobre as substâncias minerais às quais atribuímos valor de troca e “brilho próprio”, o fato é que nossa época é pródiga na mimese e síntese de tudo o que aparente possuir um mínimo de real magnificência.

E assim se escolhem e nomeiam os ídolos, sejam eles do futebol, rock, baixinhos, iêiêiê, brega, da cocada preta, branca ou boa...


Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

6 comentários:

Duda Furio disse...

unico comentário que eu poderia fazer, nao é util, mas aí vai (é importante que se perceba a sonoridade): EU VOLTEEEEEIII PARA FICAARRRRR....

A Voz Silente disse...

Belo escrito, Zangão!

"Existe uma maneira de fazer as coisas, de enfrentar touros na arena, fazer amor, fritar ovos, tomar água, beber vinho, que quando a gente não faz direito, se engasga ou então acaba morrendo."

Charles Bukowski no conto Vulva, Kant, e uma casa feliz

Lameque Hyde disse...

Prefiro a "realeza" das rainhas a passividade das operárias, mesmo reconhecendo a mútua dependência.
Este cara á bom!

lucelia disse...

profundo na pesquisa e na mensagem

Barbara disse...

Que coisa amigo. Bom texto.

AnaCrônica disse...

Então, Paulão...

O mundo capitalista é assim...um manda, e muitos obedecem para que milhões consumam o que aquele mandou produzir...eis-nos como insetos, mas com menos nobreza, digamos assim...