sábado, 9 de junho de 2007

Concerto Para Merda e Vermes em Três Movimentos


Abertura

Chegou em casa cabisbaixo pela notícia.
— Vou ter que fazer exame de fezes. Ordens da empresa.
— Mas por quê? – perguntou a mulher.
— Disseram que a partir de agora é assim. Exames periódicos para todo mundo – sarcasmo na voz – estão zelando pela saúde dos funcionários.
E sacou de dentro da pasta um frasco descartável para o exame. A esposa acariciou-lhe a face esquerda demonstrando apoio.
— Ligue não querido, amanhã você tira de letra.
Mal o dia clareou, o homem sentiu o alerta dos intestinos e cambaleante foi ao banheiro, mas esqueceu-se que deveria coletar uma amostra de suas fezes. Já ia acionar a descarga pondo tudo a perder quando lembrou-se a tempo e, vendo sua merda boiando dentro do vaso sanitário, achou conveniente aproveitá-la para o exame. Munido de um garfo que fora procurar na cozinha, pescou o seu cocô de dentro da privada, depositando-o carinhosamente no jornal de véspera que ficara largado no banheiro e o inspirara na defecação matinal. A imagem do cilindro de excremento misturando-se as manchetes onde se dizia que o País estava indo para frente e retrato do Presidente que ele ainda confiava borrado por sua bosta causaram-lhe incomensurável náusea e ele acabou por vomitar em cima do jornal. Merda, vômito e seu amado Chefe de Estado mesclaram-se diante de seus olhos provocando-lhe enorme mal-estar.
A mulher, ao deparar com a escatologia ensaiada em seu banheiro, deu um grito de horror. Assustado, o homem deixou a mistura cair no chão, causando um fétido acidente doméstico. Expressão de desespero moldou seu olhar. Refeita, a mulher aproximou-se, acariciou-lhe a face direita procurando tranqüilizá-lo.
— Calma meu amor, para tudo há uma solução. Vamos limpar esta bagunça e depois eu coleto uma amostra das minhas fezes para você levar como se fosse a sua e tudo se resolve.
Lágrimas brotaram-lhe dos olhos ao perceber a grande companheira que possuía.


Adágio

No interior do vagão do metrô a atmosfera era respirável, a despeito do ambiente recluso a alguns metros sob a terra. Nada se comparava a sala fechada do laboratório de análises clínicas onde o homem trabalhava. Oito horas por dia em contato com merda desconhecida, analisando, analisando... O cheiro era insuportável, nem mesmo a máscara continha o fétido exalar daquela merda acumulada. De segunda a sexta, merda, merda e mais merda. Naquele dia inclusive, diagnosticara algo em uma amostra, a de número 57981-8, que lhe embrulhara de vez o estômago. Tinha que largar aquele emprego. Ia falar com um amigo para lhe arranjar uma vaga no IML, ao menos lá, os defuntos cheiravam ao formol.
Estava de pé dentro de um vagão lotado. Hora do Rush. Alguém peidou. Narinas apuradas, o técnico em análises identificou a origem: um velhinho, sentado à sua frente, rosto duende, ares amigáveis. “Puta que Pariu”, pensou o homem. Um segundo peido. Na certa, o velhinho sofria de flatulência. Aquilo foi irritando o homem. “Se ao menos ele se prendesse”, resmungava intimamente. “O dia inteiro respirando bosta e dou de cara com um peidão”. Uma terceira bufa, esta acompanhada por trilha sonora. Algumas pessoas riram, ainda que timidamente. Só o homem não tinha motivos para achar graça. Só ele ali naquele vagão mexia com merda cinco dias por semana, quatro semanas por mês, 52 semanas por ano, férias excluídas. Se aquele velho peidasse mais uma vez, ele seria capaz de cometer um desatino.


Andante

Chegou em casa cabisbaixo pela notícia. Em mãos, um envelope aberto com o número do exame. 57981-8.
— Querido! Graças a Deus você chegou. Eu vi na televisão. Aonde vamos parar?
— Eu estava no vagão...
— Meu Deus!
— O velho nem teve como reagir. O louco o espancou até a morte, só porque ele peidava.
— È a barbárie...
— Mas tem algo pior...
— O que pode ser pior que um idoso espancado até a morte querido?
— O seu exame. Ou melhor, o meu, feito na sua amostra de fezes. Como estava em meu nome, tomei a liberdade de abrir. Leia você mesma.
— Teníase?
— Hum... Hum... Também conhecida como Solitária. Você é a hospedeira de um verme que pode atingir até 10 metros de comprimento.
— Meu Deus!
— Deixe Deus fora disso. Já marquei consulta com uma médica, Doutora Livingstone, eu presumo. Ela tem um método pouco ortodoxo, porém eficiente para expelir esta bicha. Iremos lá amanhã...
— Meu Deus!
— Meu amor?
— O que foi?
— Desculpe a franqueza, mas estou sentindo um tremendo nojo de você.

12 comentários:

Deveras disse...

Putaquepariu!

Essa é a verdade estória da vida privada, meu caro. Cara, nauseamente criativo. O lance da foto presidencial untada de bosta e refluxo, foi hilário, morri de rir.

Agora sobre a famosa citação ao explorador, não precisa de ser subliminada, tira a graça da coisa...

No mais, tá show. Nogento algumas vezes, mas mesmo assim criativíssimo. O final é impagável.

ficanapaz, meu caro...

Mão Branca disse...

hahaha, ri e gostei muito. no estilo que adoro ler. pura realidade ágil num texto muito bem feito.
bem que vc disse que se parecia com meu conto Felácio. tem flashs do cotidiano se misturando.

e vc usou genialmente o recurso dos links da interNerd para incrementar a literatura. achei jóia.

(mas o conto da dra livingstone é uma merda maior que a do troféu que ilusta este ótimo texto)

Fera.

(vou selecionar para o ezine)

o sacerdote disse...

maravilhoso como sempre, adorei e fico feliz com minha singela participação em sua criação. é sinal de que nossas mesas de café são produtivas. este conto tem um significado diferente p mim...
parabéns, p vc eu tiro minha cartola!
qto ao comentario do sr. mão branca sobre o texto da drª., a reciproca e verdadeirissima, afinal tudo e todos são merdas (algumas bem cagadas, outras não), mas nem todos entendem isso!
adoro-te, meu nobre!
saudaçoes

Carlos Cruz disse...

Grande Lama! Excelente tríade. Três episódios contendo as três razões que tornaram-me seu fã e o tornaram uma referência para mim: criatividade, imprevisibilidade e apuro insano-lingüístico. És o cara!

Klotz disse...

Escatológico! Mas hilariante. Mas escatológico! Mas hilariante.

Me Morte disse...

Caralho! Que coisa! Tu deixou até o cheiro. Garfo da cozinha, nessa parte eu senti náuseas. Muito bom cara. Muito bom.

Wilson R. disse...

.

Ótimo.
A cena com o presidente foi antológica. rs.

Abraços.

.

Lameque Hyde disse...

Gente. Muito obrigado pelos comentários tão gentis acerca da merda que escrevi.

A título de escrarecimento, informo que a imagem que encabeça o texto é de uma escultura confeccionada com base em amostras do primeiro cocô sólido da filha de Tom Cruise e Kate Holmes. O que eu tentei passar com a história foi a idéia de que estamos cerca do merda por todos os lados, inclusive literárias, levadas a categoria de arte, como o cocô de Suri Cruise.

Agradecimentos ao Sacerdote, cuja história, primeiro contada a mim em uma cafeteria (somos chiques) e depois escrita com fino bom humor, que serviu de base para o terceiro conto. Sem ele a história não existiria.

Lameque Hyde disse...

"escrarecer" foi foda...

Thin White Duke disse...

iaeuhauehaeiuhiaeuhaeiuhea
só o lama mesmo, mto foda!
os três interligados perfeitamente e uma história sensacional

parabéns!
flew!

Anderson H. disse...

Lameque, esse foi de gênio.

Muryel De Zoppa disse...

excelentemente bom.