segunda-feira, 25 de junho de 2007

O Diabo em terra de de São José

O Diabo em terra de São José


No pequeno sítio situado no interior de Deus-me-livre, a paz reinava absoluta entre os viventes; o gado pastava tranqüilo entre a branquiária, as aves cuidavam para que os peçonhentos não se aproximassem, as criadas revezavam-se nos afazeres domésticos, enquanto Alice ganhava uma bela forma de mulher.

A pequena família habitante do lugar era temente ao Deus, Todo Poderoso, com uma fé fervorosa jamais vista. Deus era misericordioso para perdoar os pecados e ao mesmo tempo vingativo para consumi-los com sua devastadora ira.

Nos fundos da cercania, situava-se a pequena Capela de São José, erguida pelos braços do patriarca. Rezava a lenda que a Capela fora construída em agradecimento à cura de Alice; a menina nascera com uma doença incurável, capaz de atrofiar os órgãos e ossos da doente e só um milagre poderia libertá-la de tamanho jugo.

Diziam os mais faladores da região, que tal fato se dera em virtude de uma praga daquela que seria a madrinha da menina. Escolheram D. Florinda para amadrinhar a criança, mas depois optaram por um casal rico recém-chegado ao lugarejo. Duplo azar: essa história de desdenhar madrinha e praga pega. “Só muita reza forte pra combater o mal” - Diziam os vizinhos.

Assim, José resolveu negociar com o Santo de mesmo nome: “Ó Santo xará, conceda-me a graça de ter minha filha crescendo livre e dar-te-ei uma Capela e uma imagem do tamanho de minha filinha. E ainda, hei de substituí-la de acordo com o crescimento de Alice. Aceite este trato deste humilde servo e livre o Diabo de nossas vidas”.

Não tardou para que o milagre ocorresse. Afinal, qual santo não gostaria de uma permuta? Vaidosos, esses seres além-mundo! O homem de palavra também não deixou por menos; era só a menina crescer algumas polegadas e lá estava outra imagem no lugar.

Os que passavam próximo à casa de José às 18h, ouviam o entoar do cântico da ladainha em homenagem ao santo milagreiro.

A fé em Deus e no Santo crescia na mesma proporção que o temor ao Capeta. Era só ouvir o nome do Dito cujo que a família gritava: “Te esconjuro, credo, não digam esse nome em casa que atraí o Coisa ruim”.

Aos dezoito anos, curada de todos os males físicos, a menina desabrochou em formosura. Os rapazes suspiravam por seus longos fios dourados e suas curvas exemplares. Mas nada despertava o amor da jovem.

Até que em uma noite de lua cheia, um tropeiro pediu pouso ao dono da casa. Hospitaleiro que só, este concedeu de bom grado.

Ao descer para o jantar, a moça deparou-se com o belo homem sentado à mesa; dono de longos cabelos castanhos, barba fechada, olhos misteriosos e lábios mentirosos.

Pela primeira vez, um calafrio percorreu-lhe a espinha e desejou-o com voracidade. O homem parecia ler seus pensamentos, enquanto repousava, tranqüilo, a caneca de vinho sobre a perna.

O jovem viajante adiou sua partida e pediu a mão da moça em casamento. Seu José estranhou a atitude precipitada, mas aceitou. Afinal, a pior coisa nas redondezas era a fama de solteirona. Na roça, dezoito anos já era idade avançada para o casamento.

A moça não cabia em si de contentamento, mas D. Maria, sua mãe desaprovava com afinco a relação e repetia para a menina. “Minha filha, cuidado. O Diabo é o pai da mentira, ele veio para matar, roubar e destruir. Muitas vezes traz uma bandeja de ouro repleta de fezes. Não gosto desse sujeito. Vejo enganação nos lábios dele”. Mas a menina dava de ombros.

Só uma coisa assustava Alice: os sonhos recorrentes que teimavam em assolar suas noites. Sonhava que seu amado metamorfoseava-se em um estranho ser com chifres e garras e a deflorava com força. Acordava molhada de gozo.

O casamento no sítio movimentou a cidade; os noivos faziam um belo contraste; o bem e o mal, o puro e o profano.

Todos estranharam quando o padre pediu para que o casal repetisse as palavras do sacramento, pois o jovem tropeiro o fez em uma língua para lá de esquisita. Interpelado disse que recitou em hebraico. Contudo, a bruxa da vizinhança insistia que o sujeito falava a língua do Capelão da Macega, alcunha do Capeta na região.

A primeira noite, foi uma exigência do rapaz que se consumasse na Capela do sítio. Adentraram o recinto à zero hora em ponto. Com placidez e calmaria, ele a tomou em seus braços, beijou-a com sofreguidão e amou-a em frente à imagem do Santo; a cada estocada com seu membro viril na franzina vagina da moça, o homem urrava feito um lobo e regozijava-se, rindo zombeteiramente do santo. Conseguira seu intuito: roubá-la de São José.

Amaram-se repetidamente na pequena sacristia; Ela, filha do Santo e ele, filho do Demônio.

O homem deveria partir antes que o galo cantasse três vezes, pois rezava a lenda que depois do tal canto que afugentava os espíritos do mal, o mundo voltava para as mãos de Deus e caso o capeta não partisse, ficaria preso para sempre na terra.

Entretanto, cansado da peleja, o sujeito adormeceu pesado nos braços da amada. Acordou com formato de Cão: olhos protuberantes, pêlos no corpo, rabo e chifres brotando da testa.

A moça assustou-se com tamanha mutação; dormira com o belo e acordara com um monstro. Lembrou-se dos sonhos e implorou:
- Sei quem és, e que veio desfazer a promessa de meu pai. És enviado de minha pretensa madrinha, mas por favor, fique. Apaixonei-me por ti, agora não tem mais jeito.

Ele não queria confessar, mas a verdade era que o Senhor das Trevas havia se apaixonado perdidamente por aquela criatura angelical.

Assim, ele implorou às profundezas que retirassem seus poderes e o mantivessem aqui na terra junto a sua amada. Concedido. A besta transmutou-se em figura humana.

Os dois seguiram vida afora, junto ao fruto do ventre dela que nascera nove meses depois, um menino filho da protegida de São José com o Demônio.

Contudo, temiam a triste permuta realizada entre o Demônio e o Supremo Conselho das Trevas: Concedo-te a humanidade, mas um dia teu filho tornará para nós!

Não teve outro jeito, convencido por José, o Capeta ofereceu a mesma promessa a São José de substituir a imagem do Santo de acordo com o crescimento da criança. Assim as duas imagens idênticas, que só alteram em tamanho, continuam crescendo lado a lado- oferta do Sete Peles e do homem santo, ambas bem aceitas!








14 comentários:

Véïö Chïñä‡ disse...

Surpresa! mesmo sendo esse tema {envolvendo religiosidades)tão comum e batido,tem gente que consegue estórias interessantóssimas sobre eles. Gostei muito.

Deveras disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Deveras disse...

Mandou muito bem mesmo. Nos rincões do Brasil se ouve várias lendas sobre oferenda e maldições, senti que estava em alguma praça interiorana, ouvindo uma delas...

ficanapaz

o sacerdote disse...

Cris
foi apenas uma pequena correção, meu nobre
Obrigada pelos nobres comentarios!

Lameque Hyde disse...

O demonios urbanos também se travestem e na maioria das vezes, são até mais sutis e sedutores.

Paira em todo o conto uma atmosfera interioriana muito bem administrada pelo autor.

Sacerdote, sou seu fã numero 1.

Lena Casas Novas disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lena Casas Novas disse...

"temiam a triste permuta realizada entre o Demônio e o Supremo Conselho das Trevas: Concedo-te a humanidade, mas um dia teu filho tornará para nós"

Puts! Que inspiraçao!Bem desenvolvido e com um desfecho excelente.Parabéns!

25/06/07 13:26
Excluir

Marco Ermida Martire disse...

Sacerdote,

o clima do conto é envolvente e a história está caprichada. Acrescento que no final cabia algum tipo de altercação entre São José e o Demônio. Parabéns.

Klotz disse...

Valeu. Final surpreendentemente bom.

Carlos Cruz disse...

É o Canho-do-pé-roxo. Adoro estórias diabólicas, especialmente nesse clima bucólico. Parece um causo. Só que narrado com a maestria de um escritor refinado e com o conhecimento de um citadino.

Bom conto, Sumo.

nostalgia-perdida disse...

Singelo. m lembrou a França

o sacerdote disse...

Queridos e nobres amigos
Estou avexada com os comentarios bunitos q vosmicês enviaram....
Acolho todos em meu coração e fico feliz!
Esclareço que as lendas são contados nos arredores de um lugar na região serrana do Rio de Janeiro....
Abraços a todos e cuidado com o Capeta-ele anda em derredor, rs

Ruy Villani disse...

Uma beleza de coisa bem brasileira. Se fosse música, seria Vila Lobos.

Paulão Fardadão disse...

Interessante, empolgante em algumas passagens, mas eivado de incongruências.

Primeiro essa coisa de uma hora dizer que o cara é filho do demônio, depois de dizer q ele É o "senhor das trevas". O demônio é o senhor das trevas, até onde se sabe. E o tropeiro? É o próprio ou um seu enviado?

Se é o próprio, pq tem q implorar a seus domínios q lhe retirem os poderes? Se não é, pq consegue tão facilmente uma boa paga - transmutar-se em humano e viver feliz ao lado de uma mulher pela qual está apaixonado - em troca de um ato de fraqueza e traição contra os seus?

Mais ainda: fazer promessa de esculpir estátua para São José em troca da alma do filho? Pq? Não foi são José quem tratou de levá-la... pela lógica da troca de saúde por estátua, deveria haver uma estátua do demônio e outra de São José lado a lado.

Fora que é dito que as estátuas continuam a crescer lado a lado. Ô guria enorme essa, que com mais de dezoito anos continua pro alto e avante...